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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Zika e pesquisa em animais

Como no encontro das águas dos rios Negro e Solimões, no caso do vírus da zika estamos no encontro do medo e da ignorância. Sobre o medo há pouco a dizer. Com a difusão explosiva de toda a informação (boa e ruim) propiciada hoje em dia pelos meios de comunicação e redes sociais, a correlação ente o vírus da zika e situações graves como microcefalia (associada ou não com distúrbios neurológicos) em recém-nascidos já é de conhecimento de todos, no Brasil e fora. O medo entre as mulheres que planejam ter um filho agora ou num futuro próximo -que chega ao pânico nas já grávidas- ante essa avalanche de notícias ruins, teorias da conspiração, e fotos impactantes é completamente justificado. A recomendação de algumas autoridades sanitárias mundo afora no sentido de as mulheres não engravidarem por enquanto ou não visitarem o Brasil, aumenta a sensação de insegurança.

Boa parte deste medo nasce do outro rio, o da ignorância. O fato é que sabemos muito pouco sobre este vírus e das reais consequências do contágio. Entre as poucas certezas está que ele chegou para valer no Brasil e nas Américas. Que como falhamos como nação na tarefa de diminuir o principal vetor, o mosquito Aedes, ele, o vírus, teve e terá terreno fértil para se espalhar pelo país todo. Sabemos também que existe uma correlação geográfica e temporal entre a epidemia de zika e o aumento de casos de microcefalia. Que material genético do vírus foi encontrado no sangue de (algumas) mães e (alguns) bebês microcéfalos. Mas de fato, não há certeza que além dessa correlação exista um fator causal, ou seja, que o vírus seja a causa dessas alterações. Pessoalmente, por tudo o que li e conversei com gente especializada nessa área, acredito que essa relação exista. A comunidade científica está apostando muito nessa possibilidade. Mas em ciência, a única crença que serve se origina de evidências testáveis e reproduzíveis daquilo que dizemos.

Sem termos certeza da relação causal entre zika e microcefalia continuaremos meio que à deriva. Parte dessa certeza poderia ser dada pelas estatísticas, a evidência numérica que claramente relacione os dois fenômenos. Mas os números no Brasil são estranhos, como bem colocou recentemente o biólogo Fernando Reinach em sua coluna no Estadão. Para quem não leu, ele faz um relato no mínimo curioso. Nos Estados Unidos, em média, nascem 6 crianças com microcefalia para cada 1000 nascimentos, ou seja, uma taxa de 0,6%. Se uma taxa semelhante ocorresse no Brasil, em 2014 teríamos que ter 19.250 casos de microcefalia, mas tivemos 147. Como a notificação ao SUS não era obrigatória, é bem provável que muitos casos não tenham sido notificados. Como agora a notificação passou a ser obrigatória, a dúvida de saber se o atual aumento de casos está relacionado com o vírus (o palpite de boa parte da comunidade científica) ou com a notificação obrigatória, é uma dúvida pertinente que só o tempo poderá responder.

Fora os números, todo o trabalho recai no laboratório. O próprio vírus já está se encarregando de fazer um experimento natural com seres humanos. Somos suas cobaias. Cada grávida com zika, cada criança que nasce com microcefalia é um infeliz experimento que permite ir colhendo informações valiosas. Mas usando apenas cobaias humanas muitas informações não poderão ser colhidas por motivos óbvios, e demorará muito tempo para termos certeza das coisas. Há uma urgência que é de tirar o sono e um caminho longo a percorrer. Inicialmente para definir com segurança uma relação causal entre o vírus e a microcefalia e outras alterações que possam ir aparecendo com o aumento da epidemia. Depois sobre os mecanismos que o vírus utiliza para neutralizar as defesas imunológicas naturais. Como ocorre a passagem do vírus via placenta, como invade os neurônios e outra células? Ele sofre mutações? Quais as possíveis consequências no sentido de obter uma vacina eficaz?

Não deixa de ser paradoxal que a maior parte destas respostas que a população com razão cobra da ciência para enfrentar este problema tão dramático só poderá ser conseguida mediante um processo que tem despertado a desaprovação de uma parcela muito importante dessa mesma população: a utilização de animais para experimentação. No final, se tudo der certo, suspeito que vai acontecer a hipocrisia de sempre, usufruir da solução do problema, mas continuar a demonizar os cientistas pela sua insensibilidade por utilizar animais. Vemos esse filme todo dia.

domingo, 29 de novembro de 2015

O mosquito da microcefalia

No momento que escrevo esta coluna, o Ministério da Saúde acaba de divulgar os alarmantes números de casos de microcefalia. Foram notificados 739 casos suspeitos em 169 municípios do Norte e Nordeste. Nas palavras do virologista e professor da USP Paolo Zanotto, “um pesadelo”.

Microcefalia é um distúrbio no desenvolvimento do feto ou da criança que faz com que o tamanho da cabeça fique abaixo do normal. Com isto o encéfalo tampouco se desenvolve normalmente (microencefalia) o que leva a problemas sérios podendo incluir, dependendo da gravidade do quadro, deficiências motoras e cognitivas, hiperatividade, convulsões, dificuldades com a coordenação e equilíbrio entre outras alterações neurológicas. É uma síndrome que não tem cura.

A microcefalia já é bem conhecida, tendo uma incidência (internacional) aproximada de um caso para cada 10.000 nascimentos. Suas causas podem ser genéticas (algum erro no DNA da criança) ou adquiridas congenitamente. Entre estas podem ser incluídas as causadas por agentes contaminantes aos quais a mãe pode estar exposta, assim como alcoolismo e outras drogas. Infecções maternas por toxoplasmose, rubéola, HIV, herpes e citomegalovírus também podem causar a má formação.

Quando os pesquisadores observaram o aumento assustador de casos no N e NE, assim como a forma em que esses casos estavam se espalhando, começaram a suspeitar que algo “muito novo e muito sério” estava acontecendo. Um novo agente poderia estar causando a síndrome. Quando cruzaram todas as informações disponíveis um suspeito apareceu: o vírus zika (ZIKV).

O ZIKV foi isolado inicialmente na década de 1940 em macacos na floresta Zika, na Uganda (daí o nome) e em humanos em 1968 na Nigéria. A partir da África o vírus se espalhou por países da Oceania, Ásia e chegou no Brasil aparentemente em 2014 causando epidemias de febre zika no N e NE em 2015. Foi justamente a coincidência temporal e geográfica que levou inicialmente a suspeitar que o ZIKV poderia estar provocando surpreendentemente, além das febres e erupções cutâneas já conhecidas, o surto de microcefalia. O fato de ter sido encontrado material genético do vírus no líquido amniótico de grávidas de fetos com microcefalia reforçou as suspeitas, embora levaremos uns meses para poder confirmar se isto é apenas uma correlação acidental ou se de fato o ZIKV é o agente causal.

Mais a coisa ainda, infelizmente, complica. O ZIKV é transmitido pelo Aedes aegypti. Como temos levado uma surra deste mosquito nas últimas décadas e eles só tem aumentado sua presença entre nós, no momento as autoridades sanitárias não têm ideia de quantas pessoas já estão contaminadas também com o ZIKV, mesmo por que como não se conhecia que o vírus representava um perigo tão grande (não tinha sido registrada até agora uma associação do ZIKV com a microcefalia), não existia necessidade de comunicar todos os casos.

Daí o medo das autoridades sanitárias. Daí também a recomendação –não oficial- para as mulheres evitarem ficar grávidas até não termos uma noção mais clara sobre o que está de fato acontecendo. A recomendação para não engravidar vem de cientistas como o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, e também de médicos ginecologistas como Thomas Gollop, especialista em medicina fetal. A recomendação é para que a mulher que mesmo assim decida assumir o risco o faça após uma consulta com seu obstetra de forma a obter todas as informações disponíveis. Embora exista uma preocupação em não criar pânico, como afirma Cesar Fernandes, presidente federação dos ginecologistas e obstetras "Temos que ser transparentes e reconhecer nosso despreparo em lidar com algo muito novo e muito sério."

Por enquanto, é o que sabemos. Se de fato for confirmado que o ZIKV é agente causal da microcefalia, como comenta o infectologista e professar da UNESP Alexandre Naime Barbosa teremos feito uma desagradável e inconveniente descoberta científica. Ao mesmo tempo teremos que rever nossas ações no que diz respeito ao combate ao mosquito Aedes aegypti. Se conviver com a dengue já é muito ruim, fazê-lo também com um vírus como o ZIKV com potencial de causar problemas tão devastadores como a microcefalia (e quem sabe outros que ainda não conhecemos), seria desastroso. Todas as tentativas convencionais de diminuir a quantidade de mosquitos têm fracassado. Quem sabe seja a hora de pensar em outras abordagens. A de Piracicaba e o mosquito transgênico quem sabe esteja entre elas.













sábado, 25 de abril de 2015

Nosso medo de transgênicos.

Um ano atrás nesta coluna comentávamos a liberação por parte da Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio) do mosquito Aedes aegypti transgênico. Resumidamente, a ideia era liberar uma grande quantidade de mosquitos machos geneticamente modificados (GM). Esta modificação no DNA do Aedes faz com que ele morra em poucos dias assim como todos seus descendentes, que sequer conseguem chegar à fase adulta. Como a quantidade de mosquitos GM liberada acaba sendo bem maior que a quantidade de mosquitos machos selvagens, eles, os GM, copulam com a maioria das fêmeas. Estas então geram larvas que morrem antes de virarem mosquitos adultos, diminuindo assim o vetor responsável pela dengue. E lembrando, claro, que podem liberar machos à vontade porque estes não picam.

De lá para cá, fora um aumento assustador do número de vítimas -inclusive fatais- desta doença, pouco ouvimos falar deste Aedes GM. Mas isso mudou em março deste ano. Considerando que nenhuma medida conseguia deter esta epidemia, a prefeitura de Piracicaba decidiu comprar a ideia da liberação de Aedes GM. Isto, como já era de se esperar, gerou uma enorme resistência por parte de grupos que costumeiramente se opõem à utilização de soluções transgênicas (aparentemente em qualquer área). Mas estes, desta vez, seguiram o caminho correto. Em março entraram com uma ação no Ministério Público de Piracicaba (caminho correto porque pelo menos não partiram para a destruição de instalações científicas, como já tinha ocorrido em outros casos). De acordo com os demandantes (que incluía o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente), seriam necessárias garantias que os "Aedes transgênicos" não representariam riscos à saúde pública e à natureza. Acatando a solicitação, o MP suspendeu provisoriamente a liberação dos Aedes GM enquanto analisava toda documentação, incluindo os dados científicos disponíveis, opinião de especialistas, etc. 


Finalmente, no dia 15 de abril o MP autorizou a liberação do mosquito GM. Assim, não é só a CTNBio quem opina favoravelmente em relação ao Aedes GM (batizado Aedes “do bem”, para desespero de alguns ambientalistas), mas agora também o MP (espero que não seja alegado que também o MP está a servir os interesses das “grandes corporações internacionais”).

Temos um medo pouco justificado de organismos geneticamente modificados, mesmo quando em nossa história tenhamos intencionalmente modificado o genoma de bichos e plantas mediante técnicas bem menos precisas, como cruzamentos entre espécies e indivíduos artificialmente selecionados, e em alguns casos tendo utilizado indivíduos mutantes após serem submetidos a radiação, etc. Estas técnicas “naturais” geravam eventualmente organismos com algumas das caraterísticas que nos interessavam mas, como ainda não entendíamos direito como funcionava o DNA, com outras –escondidas no genoma modificado- que poderiam ser prejudiciais. Já a engenharia genética permite fazer isso com precisão, reconhecendo e isolando o fragmento de DNA responsável pela caraterística que desejamos e tendo a capacidade de analisar exaustivamente o organismo resultante.

Um exemplo bastante conhecido é o da insulina produzida por organismos geneticamente modificados. Até algumas décadas atrás a insulina “natural” disponível para os diabéticos era extraída de porcos ou bois. Só que esta insulina, além de cara e escassa, não era idêntica à humana. A de boi diferia em três aminoácidos (os tijolinhos com os quais as proteínas são construídas) e a do porco em um. Por causa disto, com o uso constante os pacientes desenvolviam anticorpos e acabavam rejeitando a insulina de origem animal. 

Felizmente na década de 1970 pesquisadores nos Estados Unidos e Reino Unido tiveram a ideia de remover a sequência de genes que nas células do pâncreas humano tinham a “receita” para produzir insulina, e “colaram” essa sequência de genes no DNA de bactérias da espécie Escherichia coli. Em pouco tempo, os pesquisadores tiveram milhões de bactérias que, além de viverem suas pacatas vidas bacterianas, passaram a produzir insulina idêntica à humana, e é ela hoje a que abastece quase todos os diabéticos do planeta. 

Na área de saúde o uso de produtos transgênicos não se restringe à insulina. Drogas transgênicas como a Bevacizumab representam uma das últimas esperanças de vida em alguns tipos de câncer mais agressivos. Outras drogas transgênicas como a Pegfilgrastim e Epoetin alfa são utilizadas para combater os efeitos colaterais da quimioterapia. A Infliximabe, também originada de engenharia genética, é utilizada para combater doenças autoimunes. Como se isso fosse pouco, é bom saber que todas as brasileirinhas e brasileirinhos nascidos nos últimos tempos recebem uma vacina transgênica contra a hepatite B (produzida no Instituto Butantã). É isso, a criançada já sai da maternidade com transgênicos circulando pelo corpo.

Parte do medo, claro, vem da desinformação. Nesse sentido, termino com uma história exemplar. Em 1977 o prefeito da cidade norte-americana de Cambridge enviou esta carta ao presidente da Academia de Ciências daquele país:


"Na edição de hoje do Boston Herald American (...) há duas reportagens que muito me preocuparam. Em Dover, Massachusetts, 'uma estranha criatura de olhos alaranjados' foi avistada. Em Hollis, New Hampshire, um homem e seus dois filhos se depararam com 'uma criatura peluda de 2,75 m de altura'. Peço respeitosamente que sua prestigiosa instituição investigue esses relatos. Espero ainda que possam averiguar se essas 'criaturas estranhas' (caso realmente existam) estão de algum modo ligadas aos experimentos com DNA recombinante em andamento na região da Nova Inglaterra".




Passaram-se algumas décadas, produtos transgênicos são utilizados por milhões sem nenhuma morte registrada, mas no imaginário popular as “criaturas estranhas” ainda podem aparecer a qualquer momento para aterrorizar nossa vida.

Fonte:
Organismos transgênicos no Brasil: regular ou desregular? Colli, W. Rev. USP no.89 São Paulo marzo./mayo 2011

terça-feira, 15 de abril de 2014

Mosquito transgênico contra a dengue está pronto


Em tempos de epidemia de dengue, declarada ou não, vem aí uma notícia que deve chamar a atenção de todos, fundamentalmente das nossas autoridades sanitárias. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação aprovou no dia 10 de abril, por 16 votos a 1, a liberação comercial da linhagem OX513A do Aedes aegypti, um mosquito geneticamente modificado (GM), para controlar a população do vetor do vírus da dengue e, assim, combater a doença.

O início desta pesquisa tem mais de uma década, e já foi comentada por esta coluna. Resumidamente a ideia é introduzir mediante técnicas de engenharia genética um gene letal em mosquitos Aedes aegypti machos. Estes mosquitos (lembrar que os mosquitos machos não nos picam, e sim as fêmeas) são liberados nas áreas urbanas em grande quantidade de forma a ter um número bem maior de mosquitos GM que mosquitos selvagens, numa proporção próxima de 10:1. Ao copular com machos GM as fêmeas selvagens geram larvas que, devido à mudança genética do pai, morrem prematuramente. Como o número de mosquitos machos GM é bem maior que o de mosquitos selvagens, as cópulas ocorrem majoritariamente entre fêmeas selvagens e machos GM e com isso a população de larvas com o gene letal vai ficando progressivamente maior que a população de larvas sadias, levando assim a uma redução na população de mosquitos.


Para permitir que sejam os pesquisadores (e não a natureza) os “gerentes” na reprodução das larvas, o gene letal é inibido quando estas crescem na presença de tetraciclina. Isto permite que as larvas GM atinjam a fase de mosquitos adultos apenas nos laboratórios das biofábricas já instaladas na Bahia. 

De acordo com alguns críticos do projeto, este pode ser um ponto negativo. Tetraciclina é um antibiótico comumente empregado nas indústrias da pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades dessa substância. Obviamente, se larvas descendentes de machos GM se reproduzissem no ambiente natural em águas contaminadas com tetraciclina, o gene letal seria inativado e elas chegariam à fase adulta.

O projeto vem sendo desenvolvido pela empresa Oxitec, surgida nos laboratórios da Universidade de Oxford no Reino Unido, uma das mais prestigiosas universidades do mundo, e trabalha no Brasil em parceria com a USP e a Moscamed Brasil, uma Organização Social sem fins lucrativos (OS) reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e pelo Governo da Bahia.

A técnica está sendo testada desde 2011 em alguns municípios da Bahia, como Juazeiro, onde a Moscamed já possui uma biofábrica que produz aproximadamente 4 milhões de mosquitos por semana. As larvas são modificadas geneticamente no Reino Unido pela Oxitec e importadas pela Moscamed, que se encarrega do resto da cadeia produtiva. Dados fornecidos pela própria Oxitec, aos quais não tivemos acesso, apontariam uma redução de 96% na quantidade de mosquitos selvagens nos municípios testados. 


Com a liberação da CTNBio, a Oxitec já está em plena expansão no Brasil para o início do projeto comercial. O valor que os municípios terão que pagar pelo programa oferecido pela empresa ainda não foi divulgado, mas dependerá do número de habitantes de cada cidade.

O que se espera é que o mais breve possível tenhamos dados relativos à diminuição ou não da incidência da doença nos municípios onde o projeto vem sendo desenvolvido. Se estes números forem tão animadores quanto o pessoal da Oxitec e a Moscamed comenta, teremos pela primeira vez uma solução real e efetiva para diminuir a incidência da dengue em nossos municípios.

Cabe assim às nossas secretarias de saúde estarem completamente informadas de todos os aspectos relacionados com o projeto, mesmo porque a ideia já saiu do papel e em breve estará à disposição dos interessados.

sábado, 15 de março de 2014

A onda antivacina

Adivinhe qual destas duas crianças não foi vacinada? 
Imagem extraída do vídeo do Prof. 
Gareth Williamssobre a (longa) história do
 movimento antivacina (ver aqui).
Em 1998, a revista científica The Lancet publicou um artigo (fraudulento) onde o autor principal, o médico e pesquisador Andrew Wakefield afirmava que a vacina tríplice (contra os vírus do sarampo, rubéola e caxumba) estava associada ao aparecimento de doenças intestinais (enterocolite) e, ainda mais grave, autismo. Entrevistas dadas pelo pesquisador posteriormente reforçaram os dados do artigo, afirmando que os pais estariam expondo seus filhos a sérios riscos caso administrassem essa vacina obrigatória. As repercussões foram obviamente enormes.

Com a polêmica e o pânico se espalhando, pais deixaram de vacinar seus filhos tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos e outros países, incentivados também por personalidades da mídia que embarcaram na história mentirosa de Wakefield. Como resultado, o número de casos de sarampo na Inglaterra pulou de 56 em 1998 para 1.400 em 2008.

Nos dez anos que se seguiram à publicação do artigo de Wakefield, diversos estudos falharam em encontrar qualquer relação entre a vacina tríplice e o autismo. Investigações independentes realizadas por jornais como Sunday Times revelaram que Wakefield tinha diversos conflitos de interesse não declarados (tinha até patenteado uma vacina alternativa antes de publicar seu artigo), manipulado os resultados do seu estudo e quebrado diversos códigos de ética médica. The Lancet publicou um artigo se retratando em 2004 e outro em 2010, reconhecendo que a publicação de Wakefield tinha sido fraudulenta e retirando-a definitivamente da sua base de dados. Após uma investigação paralela, o Conselho de Medicina do Reino Unido declarou Wakefield culpado por má conduta e em 2010 cancelou seu registro impedindo-o de exercer a medicina.



Surtos de sarampo (roxo), coqueluxe (verde) e rubéola (azul) nos últimos cinco anos.
Nos países em desenvolvimento, a alta incidência está relacionada com a falta de campanhas

 adequadas de vacinação. Já na Europa e nos EUA, o aumento nos casos é recente e em parte
 devido ao movimento antivacinação (ver o mapa interativo aqui).

Vacinas têm alguns aspectos negativos. Elas não conferem 100% de imunidade, ficando, dependendo da vacina, em torno de 80 a 90%, o que significa que mesmo vacinadas algumas pessoas podem desenvolver a doença. Também em alguns casos vacinas podem provocar danos colaterais que geralmente são leves, mas em alguns casos podem ser graves. Tudo isto já é sabido e não representa nenhuma novidade. Mas o realmente importante é analisar o custo benefício da vacinação. Mesmo com os dados contrários citados acima, a opção de não vacinar é absurdamente pior que vacinar.

Não tenho dados exatos do Brasil, mas os seguintes podem nos dar uma ideia. Em 1958, antes da introdução da vacinação obrigatória, os Estados Unidos registraram 763.094 casos de sarampo (população total aproximada 179 milhões), com 552 mortes. Com a introdução da vacina, o número caiu para menos de 150 casos registrados por ano desde 1997 (população total aproximada 280 milhões). Isso, 763.094 contra menos de 150.

Desconfiar não deixa de ser uma atitude salutar, mas o curioso neste caso é que pessoas que desconfiam dos “reais interesses por trás das campanhas de vacinação”, como muitas das que apoiam as campanhas antivacina, não demostram nenhum ceticismo ao adotar terapias alternativas que, estas sim, possuem pouquíssima ou nenhuma validação científica, como a homeopatia e outras tantas curas “naturais”, energéticas, ou coisas parecidas.

Quem não vacina seu filho deve saber também que, além do dano potencial que provocará nele, será responsável pela maior circulação do vírus nas escolas, nos ônibus, nas ruas. Assim crianças não vacinadas ou com uma imunidade deficiente por causa de doença ou problemas nutricionais poderão sofrer as consequências. Como li por aí, o filho da madame quem sabe tenha uma maior resistência para enfrentar os vírus. O filho da sua empregada possivelmente não.

Aproveito para dar minha opinião na “polêmica” sobra a vacina quadrivalente contra o vírus HPV, que previne o surgimento de câncer de colo de útero. Considerando tudo o que foi dito acima em relação aos prós e contras das vacinas, minha opinião é a mesma que a do infectologista da Unesp de Botucatu Alexandre Naime Barbosa, trata-se de “uma das mais importantes medidas de saúde pública deste início de milênio”.