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sábado, 22 de abril de 2017

Imortais

Ao longo da história, a ideia da imortalidade tem sido a grande moeda de troca oferecida por quase todas as religiões. Além do amparo emocional para os problemas mundanos, a promessa que através delas conseguiremos escapar do fim inexorável -pelo menos no que diz respeito à sobrevivência da nossa alma ou espírito- tem sido o combustível mediante o qual diversas denominações religiosas sobrevivem e constroem sólidos impérios de dinheiro e poder.

Termos como alma ou espírito não são usados em ciência. O equivalente é a consciência autobiográfica, nosso eu ou self, essa parte do nosso ser que pensa, lembra, ama e odeia.

Pelo que sabemos (e estamos longe de saber tudo nessa área), essa é uma propriedade que emerge do funcionamento coordenado dos quase noventa bilhões de neurônios e as trilhões de sinapses que os conectam, formando redes neurais extremamente complexas. Se bem ainda não sabemos o que de fato a consciência é, sabemos que precisa desse substrato neural para existir, pelo menos da forma como a conhecemos. Se o modificamos, o que pode ser conseguido com o uso de drogas entre outras formas, a consciência se modifica. Se “desligamos” o cérebro a consciência desliga junto e esse desligar é proporcional ao que acontece no cérebro. Se o cérebro adoece a consciência deteriora. Desde a perspectiva científica nada indica que ao morrer o cérebro, ela sobreviva.

Isto não quer dizer que cientistas também não investiguem algo parecido com a imortalidade. Mas como nosso corpo um dia morrerá -destino natural que compartilhamos com todas as criaturas do planeta- como fazer para que o self sobreviva à morte do substrato biológico que o cria e mantém?

Aqui entram estudos de uma área da ciência denominada neurociência computacional. Entre seus objetivos -para lá de ambiciosos-, está tentar escanear e digitalizar todas as informações do cérebro de um indivíduo, toda a informação gerada pelos bilhões de neurônios junto com suas sinapses. Isto seria feito mediante tecnologias já existentes -como nano-robôs- e outras ainda em desenvolvimento. Com essa varredura seria construído um modelo computacional das redes neurais originais. Finalmente, este modelo rodaria em um substrato que não é mais orgânico, não é mais cérebro, é hardware. Um computador que emularia nossa consciência (para detalhes, ver aqui).

Caso consigam (e eles estimam que algo parecido com isto poderia já estar acontecendo na década de 2030) , será o evento mais notável na história da nossa espécie. Todo nosso conceito de individualidade teria que ser revisto. Versões do nosso eu poderiam estar rodando simultaneamente em diversas interfaces, criando situações impensáveis. Nossa noção de mente atrelada a um corpo deveria ser substituída pelo conceito de liberdade morfológica, já que poderíamos ter qualquer forma.

E claro, muito mais. Quem está familiarizado com a obra do escritor britânico Arthur C. Clarke e seus sucessores notará que qualquer semelhança não é mera coincidência.

(Para uma ótima reportagem publicada no The Guardian sobre este assunto, clique aqui)


sábado, 11 de março de 2017

Fé e falácias

Adão e Eva no Éden (Lucas Cranach de Oude) 
Conhecer nossas origens, as do universo, da vida, tem sido um dos grandes desejos e desafios da humanidade. Ao longo da história diferentes culturas criaram seus mitos cosmogônicos, tanto em Oriente como Ocidente. O judaico-cristão com seus seis dias de criação, Adão e sua costela, cobras falantes, etc., é mais um entre eles e merece o mesmo respeito que as centenas de lendas cosmogônicas que existem ou já existiram. Todas têm sua importância histórica, social e antropológica. Mas elas são apenas lendas sem validade factual.

Com o advento da ciência, umas das mais notáveis conquistas da humanidade, finalmente conseguimos em vez de inventar respostas fabulosas, fazer as perguntas corretas. No caso das nossas origens, o assunto é bem complexo. Não à toa os cientistas o chamam de “hard problem”. Sobre a origem do homem a resposta encontrada por Darwin e Wallace e corroborada em mais de 150 anos de investigação parece ser uma ótima resposta. Somos o produto de um processo evolutivo que se inicia a partir de seres muito simples bilhões de anos atrás. Não encontramos evidência científica de nenhuma inteligência superior guiando a evolução, e sim mecanismos naturais. Sobre a origem da vida e do universo, temos avançado bastante, mas devido à complexidade intrínseca desses assuntos ainda não temos respostas conclusivas.

Para natural desencanto de alguns a ciência não encontrou nada até agora que indique que uma causa primeira, algum tipo de divindade ou coisa parecida tenha dado o pontapé inicial (e proposital) no processo. Mais, boa parte dos mais importantes físicos acreditam, à luz das evidências disponíveis, que o próprio universo pode ter se originado do nada (cuidado! este nada, quântico, não é o nada no qual estamos acostumados a pensar).

Acompanhar e aceitar criticamente as evidências (e as dúvidas) que a ciência nos revela, abandonando crenças primitivas (o que não é sinônimo de abandonar a crença religiosa) não tem relação alguma com ficar -como li dias atrás nesta Folha- “Sem rumo, sem destino. Sem passado sem futuro” (Padre Charles Borg, 26/02/2017). Ao contrário, o conhecimento científico é base do pensamento crítico e pilar do desenvolvimento humano nas almejadas e ainda utópicas sociedades do conhecimento.

Afirmar que “Ao negar a existência de transcendentes propósitos” passaremos a usufruir do que está ao alcance da mão sem nos importar com os limites éticos ou regras civilizatórias, como também li, parece-me um evidente non sequitur. Se precisamos acreditar em fábulas da idade do bronze ou na recompensa ou castigo dos deuses para fazer o que é certo ou deixar de fazer o que é errado, há evidentemente algo de intrinsecamente equivocado em nossa formação moral, e quem sabe a religião tenha muito a ver com essa falha.

Em tempos de triste intolerância, nunca é demais lembrar as palavras do Dalai Lama: “Os códigos morais se dão à margem das religiões. Baseiam-se no senso comum e também na ciência. ”

domingo, 2 de outubro de 2016

Adultos, um caso perdido?



Umberto Eco
Pouco tempo antes de morrer, o escritor italiano Umberto Eco teria afirmado que redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”, aos “idiotas da aldeia”. Antes estes tinham direito à palavra “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Ainda, “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

Este desabafo de Eco me lembrou algo que li num livro do biólogo inglês Richard Dawkins. Comentando sobre a possibilidade de termos uma sociedade letrada cientificamente, ele achava que deveríamos dedicar todos nossos esforços para educar as crianças. Para Dawkins, os adultos são um caso pedido. Ele se referia especificamente à dificuldade da maioria dos adultos de organizar seu pensamento de uma forma crítica, incapazes de analisar criteriosamente todos os argumentos incluindo aqueles que não nos são imediatamente simpáticos, sendo também incapazes de mudar de opinião quando os argumentos dos outros são melhores que os nossos.

Infelizmente, as observações de Dawkins parecem estar corretas. Esta percepção ficou de fato mais evidente com o surgimento das redes sociais, quando quase todos estão tendo a oportunidade de externar seu pensamento. Para nossa consternação, ideias como a Terra plana, o Sol orbitando ao redor de nosso planeta, campanhas antivacina e outros absurdos parecem ter o mesmo valor que as respostas geradas pelo processo científico.

Boa parte dessa dificuldade vem de nossa tendência de acreditar em respostas reconfortantes, mesmo em detrimento da realidade. Porque claro, a realidade pode ser muito dura. Doenças, sofrimento e finalmente a morte nos atingindo indiscriminada e inexoravelmente. Como aparentemente somos os únicos bichos a perceber isso, o peso desse conhecimento pode ser demais para muitos. A solução, apelar para (e o que é pior, defender irracionalmente) terapias que nos curam sem sofrimento, um Universo que conspira a nosso favor quando assim o desejamos, essa miríade de seres sobrenaturais que desde o além ou outras dimensões estão aí sempre para nos ajudar e guiar, etc.
 

Ainda, nosso cérebro usa mecanismos automáticos e inconscientes no sentido de sempre reforçar nosso sistema de crenças. De um grande leque de informações disponíveis nossa tendência automática é selecionar e aceitar aquelas que vão ao encontro daquilo em que já acreditamos. O cérebro nos faz praticamente cegos para as evidências que indicam que nossas convicções estão equivocadas. Superar este processo de pensamento automático e tendencioso, como bem descreve o psicólogo israelense Daniel Kahneman, exige um esforço consciente que nem todos querem ou estão educacionalmente preparados para fazer..

Caso não criemos um sistema educacional que incentive o pensamento crítico desde a infância, caso não ensinemos nossas crianças, nas escolas e nos lares, nesse longo processo de amadurecimento a diferenciar esperanças de fatos, continuaremos a ser quando adultos presa fácil de manipuladores de todos os tipos, pseudocientistas, religiosos, políticos, imprensa e dos donos do poder. Estes descobriram como nos enganar e o fazem profissionalmente. Tão bem que não apenas acreditamos nas mentiras que contam, ajudamos a divulgá-las.

Voltando a Eco, ou mudamos ou nossa aldeia continuará a ser majoritariamente de idiotas.

sábado, 14 de novembro de 2015

Crianças não religiosas são mais generosas

Dia 03/11, a notícia:


Pai se mata após filho de 4 anos morrer picado por escorpião

Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:

“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.” 

“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”


 “Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"


“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.” 


 “que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude” 


 “acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!” 


 “Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.” 


 “a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar” 


 “A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...” 


 “Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .” 


 “Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”



Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.

Mas como essa capacidade pode ser perdida? A partir de que momento da nossa vida? Comentários tão pouco empáticos como os colocados acima podem nos dar algumas pistas. É possível observar, por exemplo, que quase todos têm algo em comum. Deuses e religiões são a toda hora invocados. Pesquisadores que analisam o efeito do pensamento religioso sobre o comportamento de indivíduos e sociedades já tinham percebido que alguns indivíduos religiosos acreditam ter algo assim como uma “licença moral”. Nesta situação comportamentos egoístas que levam a atitudes intolerantes são liberados, algo do tipo, posso ser insensível já que estou falando em nome de Deus, e Deus deixou bem claro o que pode ou o que não pode. Matar em nome de deuses pode ser o exemplo extremo dessa licença, mas podemos encontrá-la em outras atitudes.

Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.

Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.

Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava. 


Segundo os autores...


“Nossos resultados demonstram de forma robusta que as crianças de famílias que se identificam com uma das duas principais religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo) são menos altruístas do que as crianças de famílias não religiosas. Além disso, a relação negativa entre religiosidade, espiritualidade e altruísmo muda com a idade, com aquelas crianças com maior convívio religioso em seus lares apresentando as maiores correlações negativas.”.

Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."

Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".

Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.

Fontes:

-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015


-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010



sábado, 12 de setembro de 2015

As experiências de quase (quase!!) morte.

As chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM) sempre despertaram uma curiosidade enorme. Não poderia ser diferente. A morte continua a ser para muitos o grande mistério. Por termos um cérebro que temos, fruto do processo evolutivo que nos tornou humanos, somos conscientes prematuramente da nossa finitude. Um peso enorme que devemos suportar lá desde nossa infância, quando começamos a perceber que a morte existe, que é real e que é para sempre. Existem poucas dúvidas que esse peso todo está na base de quase todas as religiões, que nos prometem a vida eterna em troca da obediência terrena.

Nesta coluna já tínhamos abordado o assunto (ver aqui e aqui). Nas EQM geralmente estamos ante um quadro onde a irrigação sanguínea do cérebro diminui. Isto leva a um lento desconectar de algumas redes neurais e a um lento reconectar quando a irrigação é restabelecida. Quase todos os fenômenos descritos nas EQM como lembranças, luzes, sentimentos de paz e harmonia, encontros com entes sobrenaturais e mesmo a estranha sensação de estar flutuando fora do corpo podem ser hoje explicados por esse rearranjo de redes neurais.

Mas há um detalhe que sempre chama a atenção. Alguns (poucos) que passaram por EQM relatam não apenas estarem flutuando, mas afirmam serem capazes de lembrar tudo o que viram desde essa posição, fato que, obviamente, só poderia ocorrer se a consciência se separasse completamente do cérebro e saísse flutuando até parar no teto, à espera de uma decisão volto/não volto.

Mas existiria forma de verificar isso nas condições objetivas que a ciência exige? Algo que fosse além de relatos subjetivos para os quais uma explicação biológica já resolve muito bem? Para um pesquisador, Sam Parnia, especialista em reanimação e ele mesmo defensor da ideia de uma consciência separada do corpo físico, a resposta foi sim.

Para isto em 2008 iniciou o projeto AWARE (AWAreness during REsuscitation, algo assim como consciência durante a ressuscitação). Basicamente, a ideia foi analisar o que acontece com pacientes com parada cardiorrespiratória (PCR), situação onde a irrigação do cérebro é suspensa por alguns minutos com a consequente perda de consciência. O estudo foi realizado em 15 hospitais do Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Dias (ou meses) depois da reanimação, os pacientes foram entrevistados em relação àquilo que lembravam sobre esses momentos.

Para tornar as coisas algo mais objetivas em cada hospital foram escondidas entre 50 e 100 fotografias com diversas imagens nas salas de reanimação, imagens que só poderiam ser vistas de cima para baixo, ou seja apenas se a consciência se separasse mesmo do paciente desfalecido. Assim, a hipótese dualista (mente e cérebro serem coisas separadas) seria corroborada se algum sobrevivente revelasse a imagem escondida.

Os resultados mostraram que dos 2060 pacientes utilizados neste estudo, apenas 330 sobreviveram à PCR. Destes, 140 tiveram saúde suficiente para passar às seguintes fases do estudo baseadas em entrevistas. Só 55 (39%) afirmaram ter algum tipo de lembrança desse período (61% dos entrevistados não lembravam de nada). Desses 55 a maioria afirma ter tido lembranças da família, animais, plantas e a famosa luz brilhante. 5% lembraram cenas do passado, 22% afirmaram terem sentido paz e plenitude e 9% sentimentos de alegria. 8% alegam ter encontrado um ser místico e 13% a sensação de separação do corpo. Até aqui, nada que não possa ser explicado por um cérebro confuso se reconfigurando após o trauma.

De acordo com o estudo, apenas 1 paciente revelou informações que –segundo o autor- puderam ser verificadas, informações sobre o que estava ocorrendo durante a reanimação. Por causa desse único paciente veio todo um alarde midiático com manchetes do tipo


-"Vida após a morte? Maior estudo realizado fornece evidências de que as experiências "fora do corpo" e "quase-morte" podem ser reais."

-“Descoberta científica sugere que há vida após a morte.

-“Investigação científica conclui que é possível vida após a morte.”

-“Cientistas britânicos confirmam que vida após a morte é real.


Confesso que após ler essas manchetes imaginei que algum dos pacientes tivesse descrito sem erro a imagem escondida, única evidência que justificaria tamanho alvoroço jornalístico. Mas nada, nenhuma informação sobre isso. Quando finalmente consegui ler o artigo original aconteceu o que já suspeitava, esse único paciente que segundo o autor fornecia informações objetivas que corroborariam uma consciência separada do corpo físico simplesmente não identificou nenhuma imagem escondida. No artigo o autor apenas comenta este fato, alegando que o fracasso pode ter ocorrido porque a maioria das reanimações ocorreram em salas que não tinham essas imagens escondidas.

Como foi ele – o autor- quem criou a metodologia, isso não serve de desculpa para mascarar os resultados. Seu estudo simplesmente não corroborou –como ele desejaria- a ideia de uma consciência separada do corpo físico e assim a hipótese alternativa de uma consciência fruto apenas do funcionamento cerebral acaba sendo reforçada. Essa deveria ser a conclusão do seu estudo e das manchetes dos jornais.

Por outra parte tentar provar cientificamente a existência de uma consciência, alma ou espírito separada do corpo físico não é ciência. Por quê? Simples, não há experimento que nos permita negar a hipótese. A consciência desencarnada –caso existisse- poderia não se comunicar por motivos que vão além da experimentação. É como provar a inexistência de deuses, de gnomos ou da fada do dente. Enfim, é apenas uma questão de fé.





Fontes:

-AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Sam Parnia e cols., Resuscitation 85 (2014) 1799–1805

-No, this study is not evidence for "life after death". Sharon Hill, http://web.randi.org/swift/no-this-study-is-not-evidence-for-life-after-death


sábado, 16 de maio de 2015

Fantasmas no cérebro

Imagem tomográfica de hemorragia cerebral (fatal).  (Joshua P. Klein & 
Robin C. Ryther.N Engl J Med 2009; 361:1786 October 29, 2009
DOI: 10.1056/NEJMicm0900232
Fico imaginando um indivíduo na Idade Média sofrendo uma alucinação visuoauditiva complexa. A imagem que lhe surge aí, conversando com ele, seja um deus, santo, demônio ou um familiar morto será tão vívida quanto qualquer outra do mundo real. Se a imagem mental vai ao encontro do seu sistema de crenças, se ele acredita que essas figuras sobrenaturais existem e podem conversar com ele, dificilmente teria motivos, com o nível de conhecimento da época, para duvidar da sua autenticidade.

Tudo indica, entretanto, que toda essa população de criaturas sobrenaturais habita em nosso cérebro. Vozes, imagens, ações, tudo está lá. Durante os sonhos parte dessa fauna vem nos visitar, mas ao acordar sabemos que isso não era real. Mas em algumas circunstâncias o cérebro produz tudo isso quando estamos acordados e aí a confusão começa, como não poderia deixar de ser.

Mas por que isto acontece? Por que o cérebro cria essas histórias sobrenaturais e nos empurra no universo místico?

Hoje conhecemos algumas respostas, mas antes devemos lembrar que, ao que parece, temos uma predisposição cerebral para dar explicações sobrenaturais para eventos naturais. Somos dualistas natos. A ideia que a alma, espírito, self, consciência -ou seja qual for o nome que dermos- é uma entidade separada do corpo físico é algo muito arraigado em nós, algo intuitivo. 

Em parte isso acontece pela dificuldade de associar as atividades mentais com o cérebro, o que não sucede com os outros órgãos e sistemas do nosso corpo. Podemos, por exemplo, fazer uma associação visceral entre os alimentos que ingerimos e os órgãos do sistema digestório. Conseguimos perceber a passagem do bolo alimentar pelo esôfago, estômago, intestinos. Sentimos músculos e ossos ao nos movimentar, ao sentar ou ao cair. Enfim, de certa forma podemos relacionar nossas vísceras com suas respectivas funções, mas com o cérebro isto é impossível. Não temos como criar uma relação perceptiva entre aquilo que o cérebro faz (pensar, sentir, calcular, decidir, planejar, desejar, etc.) com essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça. A impressão que temos é que a produção de ideias e pensamentos é algo que de fato não se relaciona com o corpo. Assim, a ideia dualista está fortemente arraigada e com isso os relatos sobrenaturais são facilmente assimilados.

Voltando aos fantasmas, uma das formas de fazer o cérebro fugir da realidade e nos levar para o além é mediante o uso de drogas psicoativas. Aliás, ao longo da nossa história temos utilizado algumas dessas drogas com essa exata finalidade, nos comunicar com entes sobrenaturais. Plantas como a mandrágora, o ópio, ou a Datura inoxia (a “Erva do Diabo” do Carlos Castaneda) entre outras têm sido utilizadas em rituais por xamãs e outras figuras místicas. 

Hoje temos uma boa ideia sobre como os componentes dessas plantas mexem com o equilíbrio neuroquímico a ponto de nos fazer alucinar. Anestésicos como a quetamina estão associados a “experiências fora do corpo”. Drogas como a tenamfetamina (MDA) podem trazer memórias de eventos há muito experienciados e esquecidos nos dando uma sensação de regressão. A dimetiltriptamina (DMT), princípio ativo da Ayahuasca, provoca uma dissociação entre mente e corpo e essa estranha sensação de falta de limites corporais. O fungo Claviceps (ergot), a partir do qual foi isolado o LSD, tem efeito alucinógeno e alguns historiadores acreditam que ao contaminar grãos como trigo e cevada podem ter contribuído com o clima de histeria religiosa vivido durante a Idade Média.

Outra forma de induzir experiências místicas é mediante a meditação. Estudos realizados em monges budistas e freiras franciscanas durante o processo meditativo (ou prece) mostram alterações em áreas do cérebro responsáveis por estabelecer os limites entre nosso corpo e os objetos vizinhos. Pacientes com lesão nestas áreas cerebrais têm dificuldades em discriminar onde termina o corpo e começa, por exemplo, uma mesa, tropeçando frequentemente. Estudos de imagem mostraram que durante a meditação existe uma redução do fluxo sanguíneo nessas regiões, o que produz uma diminuição da atividade cerebral local. Isso poderia explicar a sensação de perda de limites físicos, o “pertencer a um todo” ou a fusão da “alma” com a mente de Deus. 


Imagens do cérebro "normal" à esquerda e durante a meditação à direita. Observar a diminuição
do fluxo sanguíneo na região parietal direita, uma região relacionada com a orientação no tempo e espaço  

A hipóxia, diminuição da oxigenação no cérebro, também desencadeia experiências místicas. Isto foi constatado com pilotos em treinamento submetidos a forças de aceleração poderosas (ver filme abaixo), o que leva a uma diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro com a consequente falta de oxigenação. Após o treino nos simuladores quase todos os pilotos relatavam ter passado por um estado de confusão consistindo de breves episódios de visão de túnel (por vezes com uma luz brilhante no final), bem como sentimentos de flutuação ou paralisia, e finalmente perda de consciência, e ao se recuperarem uma sensação de euforia ou de paz e serenidade. Esta descrição, claro, lembra os relatos das chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM). Não por coincidência, estas geralmente surgem durante episódios onde a circulação para o cérebro é diminuída. 






Várias outras situações, mesmo em indivíduos sadios, são capazes de distorcer nosso senso de realidade. Quando há uma alteração psiquiátrica ou neurológica, como na esquizofrenia, epilepsia, ou lesões cerebrais decorrentes de doença ou trauma, estas situações de disfunção cerebral são mais comuns, e temos sobre elas uma literatura muito interessante e rica. Autores como Oliver Sacks, Vilayanur Ramachandran (a quem peço emprestado o título desta postagem) entre outros, mestres na descrição desses casos, são uma referência e, fundamentalmente, uma delícia de ler.

Para os interessados, fica então a dica.

Leitura recomendada:
Why people see gosts. Michael Shermer & Pat Linse. www.skeptic.com

sábado, 21 de março de 2015

Com dor darás à luz.

De acordo com o mito cosmogônico judaico-cristão, Deus, irritado por Eva ter ouvido os conselhos de uma cobra falante e ter comido os frutos “da árvore que está no meio do jardim” –coisa que ele terminantemente proibira-, num ataque de ira a teria condenado nos seguintes termos: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; (...).” (Gênesis 3:16).

Lendas à parte, há algo de errado no parto das fêmeas humanas. Quem como eu foi criado no campo vendo ovelhas parirem sem grande esforço aparente (mal paravam de pastar), não deixa de ficar impressionado com o esforço e sofrimento que geralmente acompanha o parto vaginal humano. 


A resposta para esse tormento todo está nas alterações anatômicas decorrentes dos processos evolutivos, fundamentalmente por sermos a única espécie entre os mamíferos que adotou o bipedalismo completo.


Sem sinais comportamentais de dor, nos mamíferos, de forma geral, o parto é um processo simples
 que praticamente não altera a rotina dos animais.


Já descrevemos nesta coluna as consequências desse processo sobre estruturas como nossos pés e coluna vertebral, consequências que os especialistas denominam “cicatrizes da evolução”. Fora pés e coluna, os ossos da bacia tiveram também que modificar sua anatomia para tornar o bipedalismo eficiente. 

Em relação aos nossos primos mais próximos, os chimpanzés, nossa bacia encurtou longitudinalmente e se estendeu lateralmente. Para estabilizar o torso na posição ereta os músculos glúteos se tornaram bem mais desenvolvidos e exigiram uma maior área de inserção no quadril (nenhum outro mamífero tem nádegas tão avantajadas quanto as nossas), o que levou a uma lateralização da região ilíaca. O sacro, que forma junto com o cóccix a parte inferior da coluna vertebral, se afastou em direção posterior e as espinhas isquiáticas, localizadas na porção inferior da pelve se deslocaram em direção ao centro do corpo para permitir a inserção dos ligamentos que formam o soalho da cavidade pélvica, mas estreitando ainda mais o “canal do parto”.



À esquerda, pelve óssea do chimpanzé e à direita a pelve humana (Wittman e cols., 2007).  


O resultado de tudo isso foi uma bacia relativamente bem adaptada para caminhar sobre duas pernas mas muito estreita para dar passagem ao feto humano. Este também sofreu as consequências do outro processo evolutivo bem posterior ao bipedalismo, a encefalização. O cérebro do feto humano foi aumentando de tamanho em relação ao dos outros primatas. 

Com o estreitamento do canal do parto provocado pelo bipedalismo e o aumento do tamanho do crânio devido ao processo de encefalização, temos – e apenas nos humanos- a denominada desproporção cefalopélvica, uma cabeça grande e uma pelve estreita, que em muitos casos leva à obstrução na hora do nascimento (distócia) e complicações obstétricas catastróficas -se não houver meios para um tratamento adequado-, tanto para a mãe como para o feto, incluindo ruptura uterina, fístula vesicovaginal entre outras graves complicações.


A origem do problema. Em cinza o crânio do feto dentro do anel pélvico. Observar que em Pongo (orangotango), Pan (chimpanzé) e nos gorilas, o tamanho do crânio fetal é bem menor que o anel pélvico materno. Já nos humanos a situação é crítica (Weiner e cols., 2008).


Para contornar estas dificuldades o mecanismo do parto humano tornou-se um processo demorado, exigindo do feto um verdadeiro contorcionismo. Ao longo do nascimento o bebê tem que ir girando para que o longo eixo da sua cabeça fique sempre alinhado com o longo eixo do canal, que vai mudando conforme o feto vai descendo. Se tudo der certo ele nasce “olhando para as nádegas” da mãe, numa postura que impossibilita que esta o segure e desobstrua as vias respiratórias do recém-nascido, como outros primatas fazem. Depois que a cabeça emerge, são os ombros que devem se alinhar ao longo eixo da pelve materna, uma manobra também bastante complicada. Nenhum outro bebê primata tem esse trabalho.

Outro recurso para fugir do problema causado pela desproporção cefalopélvica é nascer antes da hora. Isso mesmo; para que nossos filhotes nascessem com uma maturidade encefálico-cognitiva comparável aos outros macacos a duração da nossa gravidez deveria ser bem superior que os atuais nove meses. Claro que se isto acontecesse a cabeça cresceria muito e o parto vaginal seria inviável. O nascimento de nossos filhotes nesse estado de fragilidade, dependência total e imaturidade cerebral acaba exigindo um cuidado e dedicação intensa das mães por um período bem mais prolongado que o observado em outros mamíferos.

Em virtude destas dificuldades, sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho. Ainda no século 20 o índice de morte materna por causa do parto chega a 30% entre algumas populações sem acesso a recursos médicos. Sim, esses números são desastrosos e, claro, colocam em péssimos lençóis os que ainda defendem a existência de um “Designer” minimamente inteligente.

Por outra parte, as dificuldades obstétricas causadas pela desproporção cefalopélvica levaram alguns pesquisadores a sugerir que, quem sabe, a cesariana –com todos seus inconvenientes- seria a solução ao dilema, uma solução saída do grande cérebro que tanto contribuiu para criar o problema.




Fontes:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003

sábado, 24 de janeiro de 2015

Darwin, Deus e as baratas.

Vespa-esmeralda ferroando  (através do pescoço)
o cérebro de uma barata.
Quando em 1831 Charles Darwin embarcou no HMS Beagle iniciando a viagem que iria mudar a história da ciência, ainda acreditava na existência de um Benevolente Criador. Mas voltou da viagem cinco anos depois duvidando da existência de deuses. Que aconteceu nessa viagem que produziu tamanha mudança? O que abalou sua fé? Ele mesmo escreveria:

"Durante estes dois anos fui levado a pensar muito sobre religião. Enquanto a bordo do Beagle eu era (religiosamente) bastante ortodoxo [...], gradualmente comecei a perceber que as histórias do Velho Testamento com sua visão manifestamente errada do mundo, com sua Torre de Babel, do arco íris e o dilúvio, etc., etc., e o fato de se atribuir a Deus os sentimentos de um tirano vingativo, eram tão confiáveis quanto os livros sagrados dos hindus ou as crenças de qualquer bárbaro.”

Fora isso, Darwin ficara bastante perplexo pelos requintes de crueldade nas estratégias utilizadas por alguns animais para sobreviver e reproduzir. Em particular ele descrevera a ação de um tipo de vespa da família das Ichneumonoidea, que parasitam lagartas depositando sobre elas larvas que as devoram lentamente. Que benevolente criador poderia pensar em algo tão malévolo? Posteriormente a ideia dos processos de seleção natural que eliminavam a necessidade de um designer seria a resposta às suas dúvidas.

Mas se Darwin tivesse conhecido o ciclo de reprodução da vespa-esmeralda (Ampulex compressa), seu desencanto com a ideia de um benevolente criador teria sido total e imediato.

A vespa-esmeralda pode ser considerada uma aliada para muita gente. Seu alvo é outro inseto: a Periplaneta americana; sim, o nome científico de nossa popular e não muito bem considerada barata.

Esta história de terror entre vespa e barata é mais ou menos assim. Quando a vespa capta a presença de uma barata parte logo para o ataque. Inicialmente tenta virar a vítima deixando-a com as patas para cima, momento em que acerta a primeira ferroada. O golpe é preciso. O ferrão penetra no tórax. O veneno na quantidade e local exatos não mata mas paralisa as patas dianteiras da barata que com isto não pode fugir. Agora, com mais tempo, a vespa calcula milimetricamente a segunda ferroada. Esta entra lentamente entre a cabeça e o tórax (ver figura acima) e utilizando sensores localizados na extremidade do ferrão alcança com precisão de fazer inveja a qualquer neurocirurgião regiões específicas do cérebro. Graças aos sensores o veneno é injetado nos gânglios encefálicos supra e subesofágico, e só lá. O veneno altera a química cerebral da barata, mas em vez de matá-la modifica seu comportamento tornando-a um verdadeiro zumbi sob controle total da vespa. 


Dominada mentalmente por causa do veneno, a vítima em vez de fugir fica no lugar limpando suas patas e antenas como se nada estivesse acontecendo. Enquanto isso a vespa, sabendo que sua presa não vai fugir, começa a segunda parte deste espetáculo macabro. Procura uma toca segura onde esconder sua vítima. Antes de arrastá-la ao local escolhido, corta suas antenas para beber a hemolinfa (o sangue da barata) repondo assim parte das energias perdidas durante a luta. O veneno agora produz outra alteração comportamental dramática na vítima: suprime o comportamento de fuga e a deixa num estado de aparente torpor que durará por vários dias. 

Vespa-esmeralda cortando as antenas da barata
 e bebendo sua hemolinfa.


Na sequência, a vespa arrasta a barata-zumbi até a toca. Antes de abandoná-la deposita um ovo sobre seu corpo, fecha a toca e vai embora procurando outra barata para parasitar. 

Barata com as antenas amputadas e parcialmente paralisada pelo veneno da vespa-esmeralda.
 Observar próximo à pata anterior direita a larva da vespa.


Mas quem pensou que o suplício acaba aqui se engana. Em poucas horas a larva da vespa começa a devorar o corpo semiparalisado da vítima. Faz um orifício em seu exoesqueleto e penetra em seu abdome. Pouco a pouco vai devorando todas suas vísceras mantendo intactas apenas àquelas que são indispensáveis para manter a vida. Depois de alguns dias, uma nova vespa adulta surge do abdome oco da barata, que agora poderá morrer em paz.

Completado o ciclo, uma vespa madura sai do abdome agora oco da barata.


Embora possa parecer roteiro de algum filme de terror a ação da vespa sobre a barata faz parte dos mecanismos de seleção natural operando e se aperfeiçoando em períodos de milhões de anos. Sem moral, sem deuses. Apesar da aparente crueldade (para nosso padrão humano do século 21) nunca as baratas estiveram sob ameaça de extinção por causa da ação da vespa, e alguns já pensaram até utilizar estas vespas para reduzir a população de baratas, num controle mais ecologicamente correto que os venenos que utilizamos rotineiramente (e bem mais eficiente que a famosa chinelada).

Todo este comportamento da vespa não foi aprendido. Como vimos, ela já sai do corpo da barata pronta para iniciar a caçada. Seu comportamento, com essa “crueldade” toda, está fixado em seus genes e depois em seu cérebro ao nascer. Não à toa Darwin descartou o design de um benevolente criador. 



Vídeo completo da ação da vespa-esmeralda.

Provavelmente pelo mesmo motivo, para fugir da armadilha moral de um deus bondoso criando maldades, somado a mais de 150 anos de evidências, várias autoridades religiosas, incluindo o Papa Francisco, já aceitaram a Evolução como um fato.

Em tempo, dia 12 de fevereiro no mundo todo é comemorado o Dia de Darwin (data do seu nascimento). O slogan comemorativo é “Continue pesquisando, continue aprendendo, continue evoluindo.”.

Que assim seja.


Fonte
Absurd Creature of the Week: The Wasp That Enslaves Cockroaches With a Sting to the Brain. WIRED-SCIENCE, http://www.wired.com/2014/02/absurd-creature-of-the-week-jewel-wasp/