Páginas

Mostrando postagens com marcador bioética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bioética. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de abril de 2017

Imortais

Ao longo da história, a ideia da imortalidade tem sido a grande moeda de troca oferecida por quase todas as religiões. Além do amparo emocional para os problemas mundanos, a promessa que através delas conseguiremos escapar do fim inexorável -pelo menos no que diz respeito à sobrevivência da nossa alma ou espírito- tem sido o combustível mediante o qual diversas denominações religiosas sobrevivem e constroem sólidos impérios de dinheiro e poder.

Termos como alma ou espírito não são usados em ciência. O equivalente é a consciência autobiográfica, nosso eu ou self, essa parte do nosso ser que pensa, lembra, ama e odeia.

Pelo que sabemos (e estamos longe de saber tudo nessa área), essa é uma propriedade que emerge do funcionamento coordenado dos quase noventa bilhões de neurônios e as trilhões de sinapses que os conectam, formando redes neurais extremamente complexas. Se bem ainda não sabemos o que de fato a consciência é, sabemos que precisa desse substrato neural para existir, pelo menos da forma como a conhecemos. Se o modificamos, o que pode ser conseguido com o uso de drogas entre outras formas, a consciência se modifica. Se “desligamos” o cérebro a consciência desliga junto e esse desligar é proporcional ao que acontece no cérebro. Se o cérebro adoece a consciência deteriora. Desde a perspectiva científica nada indica que ao morrer o cérebro, ela sobreviva.

Isto não quer dizer que cientistas também não investiguem algo parecido com a imortalidade. Mas como nosso corpo um dia morrerá -destino natural que compartilhamos com todas as criaturas do planeta- como fazer para que o self sobreviva à morte do substrato biológico que o cria e mantém?

Aqui entram estudos de uma área da ciência denominada neurociência computacional. Entre seus objetivos -para lá de ambiciosos-, está tentar escanear e digitalizar todas as informações do cérebro de um indivíduo, toda a informação gerada pelos bilhões de neurônios junto com suas sinapses. Isto seria feito mediante tecnologias já existentes -como nano-robôs- e outras ainda em desenvolvimento. Com essa varredura seria construído um modelo computacional das redes neurais originais. Finalmente, este modelo rodaria em um substrato que não é mais orgânico, não é mais cérebro, é hardware. Um computador que emularia nossa consciência (para detalhes, ver aqui).

Caso consigam (e eles estimam que algo parecido com isto poderia já estar acontecendo na década de 2030) , será o evento mais notável na história da nossa espécie. Todo nosso conceito de individualidade teria que ser revisto. Versões do nosso eu poderiam estar rodando simultaneamente em diversas interfaces, criando situações impensáveis. Nossa noção de mente atrelada a um corpo deveria ser substituída pelo conceito de liberdade morfológica, já que poderíamos ter qualquer forma.

E claro, muito mais. Quem está familiarizado com a obra do escritor britânico Arthur C. Clarke e seus sucessores notará que qualquer semelhança não é mera coincidência.

(Para uma ótima reportagem publicada no The Guardian sobre este assunto, clique aqui)


sábado, 10 de dezembro de 2016

Aborto

Quando sociedades começam a discutir assuntos polêmicos como legalização do uso de drogas, aborto, pena de morte, etc., a análise objetiva das experiências que outros países tiveram sobre esses assuntos é sempre relevante.

Nesse sentido o Uruguai, um dos 68 países no mundo que permitem o aborto legal sem restrições, tem uma experiência rica que merece ser conhecida. 




O Uruguai no mapa do aborto no mundo. Um isolado ponto verde ( Vermelho: proibido ou autorizado apenas para salvar a vida da mãe. Laranja: autorizado por motivos de saúde. Rosa: autorizado por motivos econômicos. Verde: sem restrições. Cinza: sem dados.
Fonte:Center for Reproductive Rights http://worldabortionlaws.com/map/

 Curiosamente, o aborto no Uruguai não constituiu crime entre 1934 a 1938, sendo o segundo país do mundo depois da União Soviética a legalizar a prática. Em 1938 é proibido e a discussão oficial sobre o tema volta apenas em 2007. Em 2008 o Congresso aprova a legalização, mas a decisão é vetada pelo então presidente Tabaré Vasquez. Em 2011 volta a discussão no Congresso e este aprova em 2012 a atual Ley de Interrupción Voluntaria del Embarazo (IVE), que é a que vigora atualmente. Em 2013 os opositores à lei conseguem a autorização da Justiça para recolher assinaturas e assim solicitar a realização de um plebiscito derrogatório. Entretanto só conseguem reunir menos de 9% das assinaturas dos votantes registrados, bem abaixo do mínimo de 25% exigido em lei para a realização do plebiscito.

A lei permite a interrupção voluntária da gravidez até a 12ª semana (em caso de estupro vai até a 14ª semana e se há risco para a saúde da mãe ou anomalias fetais, sem limite). Tomada a decisão, a mulher deve comparecer a um centro de saúde. Nessa primeira consulta são realizados os exames para confirmar a gestação. Uma vez confirmada é marcada uma segunda consulta, desta vez com uma equipe formada por um(a) obstetra, um(a) psicólogo(a) e um(a) assistente social. Estes informam e assessoram entre outras coisas sobre os aspectos clínicos e sobre a assistência que o Estado pode oferecer, algo importante no caso de mães solteiras, mas sem interferir na decisão. 






 

Após esta consulta a mulher deve aguardar cinco dias (período de reflexão) para confirmar ou não sua decisão. Caso confirme assina um consentimento médico e é realizado o procedimento, que poderá ser farmacológico ou cirúrgico. Seja qual for o procedimento utilizado, a mulher deve voltar para uma última consulta para a realização de uma outra ultrassonografia e assim confirmar se o aborto de fato ocorreu. Nesta última consulta é orientada sobre todos os métodos anticonceptivos que pode utilizar, que são oferecidos de forma gratuita, para evitar uma nova gravidez indesejada.

Ainda é cedo para avaliar os resultados da nova legislação uruguaia, mas alguns dados já chamam a atenção. O número de abortos legais obviamente cresceu, mas a mortalidade materna caiu praticamente a zero (em 2014 nenhuma mulher morreu por causa de aborto no país). Entre 2013 e 2014 o número de mulheres que mudaram de opinião e decidiram levar em frente sua gestação depois do período de reflexão aumentou 30% quando comparado com o ano anterior, chegando agora aos 9%.

Considerando que em nosso país a cada 2 dias uma brasileira morre por aborto inseguro, as notícias que vêm “del paisito” lá no Sul deveriam ser levadas em conta.

sábado, 26 de novembro de 2016

Homeopatia e propaganda enganosa

Em nossa Coluna Ciência já escrevemos bastante sobre homeopatia (ver aqui e aqui). Basicamente, temos reiterado o consenso da comunidade científica e esta é clara ao apontar que esta, a homeopatia, é uma pseudociência. Mas por que tanta implicância com as gotinhas de Hahnemann? Por quase tudo. Apenas para citar alguns motivos: os princípios nos quais se baseia como a lei dos semelhantes, doses infinitesimais, etc., se faziam algum sentido no século 18 ficaram completamente obsoletos quando começamos a estudar farmacologia moderna e a relação dose/efeito. Na forma como o medicamento homeopático é preparado não ficam praticamente traços do princípio ativo no produto final, ou seja, o paciente acabará ingerindo gotinhas de água puríssima. Os estudos que atestariam os bons resultados da homeopatia são geralmente malconduzidos (poucas pessoas tratadas, controles mal feitos, análise estatística deficiente, etc.) e quase sempre publicados em revistas “científicas” destinadas a homeopatas. Quando estudos independentes são realizados, incluindo as meta-análises (estudos sobre estudos científicos), os resultados mostram claramente que a homeopatia não funciona fora o efeito placebo. Para se ter uma ideia, uma recente revisão científica independente mostrou que de 68 doenças analisadas a homeopatia não se mostrou superior ao placebo em nenhuma delas (um retumbante 68 a 0!!!)

Dito isto, o leitor poderá muito bem pensar, e daí? Se alguém quer se tratar com gotinhas de água é problema dele. Por outra parte, o efeito placebo também é um efeito e pessoas podem encontrar alívio aos sintomas de algumas doenças. Nada a objetar quanto a isto. Mas seria correto tratar com uma terapia pseudocientífica crianças inocentes pelas quais somos responsáveis? É correto gastar dinheiro público em pesquisas e tratamentos que a ciência reprova há décadas?

Para se ter uma ideia, nosso CNPq junto com a ANVISA, acaba de abrir um edital para subsidiar pesquisas sobre homeopatia. Numa crise de verbas tão aguda como a que vivemos, que ameaça de morte pesquisas realmente relevantes sobre zika, dengue e tantas outras, faz algum sentido esse gasto numa terapia que já foi profundamente pesquisada e rejeitada? Que estudo resta fazer?

Neste sentido, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) acaba de dar um passo importante para impedir que o consumidor seja ludibriado pela propaganda dos produtos homeopáticos. Vendidos livremente nos balcões das farmácias, estes produtos não serão acusados de propaganda enganosa se ficar claramente registrado que: 

1) não há nenhuma evidência científica de que o produto funciona; e 
2) as alegações sobre a validade do produto são baseadas apenas em teorias homeopáticas do século 18, que não são aceitas pela maioria dos especialistas médicos modernos.

Assim, a decisão da FTC não proíbe a venda, mas exige que os consumidores sejam alertados sobre aquilo que estão consumindo.

Seria salutar se nossas autoridades tomassem uma atitude semelhante.

sábado, 5 de novembro de 2016

Vaquejada


Dias atrás num colóquio sobre neurociência, na UNESP, conversávamos sobre os bons e os maus motivos para acreditar nas coisas. Na lista de motivos, a tradição (acreditar ou fazer algo porque já vem sendo feito por nossos antepassados por gerações) ocupava um lugar importante. Quando acreditamos em algo apenas porque é uma tradição, temos sempre que lembrar que o tempo não torna verdade o que não é. Se a tradição nasce de um erro, de uma mentira ou uma injustiça cometida séculos atrás, o erro, a mentira e a injustiça serão os mesmos hoje. Não tenho dúvidas que existam boas tradições a serem preservadas. Tradições que nos aproximam dos nossos semelhantes (e dos nossos “diferentes”), que criam um clima de tolerância, de fraternidade, de respeito. Tradições culturais que a ninguém ferem. Mas infelizmente nem sempre é este o caso.

A escravidão, por exemplo, perdurou tudo o que perdurou em parte porque era uma tradição. Como li um dia “Tenho escravos porque meu pai tinha escravos, porque meu avô tinha escravos...”. Também tinha o argumento econômico, conjunto de motivos que nos Estados Unidos levou à guerra civil no século 19.

Curiosamente, a tradição (e a importância econômica) está sendo utilizada para justificar eventos que, como no caso da vaquejada e tantos outros, causam sofrimento em animais indefesos, neste caso para nossa diversão. Alega-se, entretanto, que na forma que se pretende regulamentar a vaquejada não representaria “maus-tratos” aos animais.

Provavelmente aqui a ciência pode contribuir na percepção pública do que significa “maus-tratos”. Resumidamente, maus-tratos em animais são aqueles que causam sofrimento, o que não necessariamente está relacionado à dor física (nocicepção). O sofrimento é desencadeado pela percepção que há uma clara ameaça à vida ou à integridade física do organismo. O animal, por não poder falar, expressa esse sofrimento na forma de alterações comportamentais que podem ser analisadas objetivamente. Em pesquisa científica sabemos muito bem isso. Toda a experimentação animal deve seguir rigorosos protocolos que diminuam ao máximo o sofrimento. Isto não é apenas importante pelos aspectos éticos envolvidos, mas também porque o estresse nos animais pode alterar os resultados inviabilizando os experimentos que estamos realizando. Não consigo imaginar uma forma “moderna” de vaquejada em que o animal não esteja em sofrimento.

Dito isto, não podemos esquecer que o sofrimento pode ser mais ou menos intenso (com as correspondentes respostas fisiológicas). O sofrimento ao qual um animal é exposto na hora do abate, por exemplo, é provavelmente superior ao qual está exposto numa atividade como a vaquejada. Aqui entram, é claro, nossas justificativas. Alguns condenam atividades como esta última porque servem apenas para nossa diversão. Já o animal abatido nos alimenta. Entretanto, a justificativa é bastante fraca e parece servir apenas para aliviar nossas consciências. A criação e o abate dos animais que nos alimentam são de forma geral vergonhosamente cruéis. Não precisaria ser assim, não mesmo, mas preferimos não pensar nisso cada vez que saboreamos um bom filé. E há ainda um agravante. Existe um número crescente de evidências científicas que indica que o consumo de alguns desses alimentos de origem animal poderia ser substituído, com benefício para nosso corpo e para o meio ambiente.

É isso. Na certeza que desagradei a quase todos, termino com uma lembrança ao pai da Teoria da Evolução: "A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana." Salve Darwin! Mais uma vez.

sábado, 15 de outubro de 2016

Manipulados

Estou cada vez mais convencido que alguns conceitos que vêm da neurociência, incluindo claro os da moderna psicologia, devem ser transmitidos ao público. Estamos constantemente fazendo escolhas e existem interesses para que escolhamos desta ou outra forma, desde o sabonete no supermercado ao político nas urnas. Agências de publicidade usam as ferramentas que vêm da psicologia social e cognitiva para fazer nossa cabeça, e o fazem de uma forma que não somos capazes sequer de imaginar.

Uma dessas ferramentas de manipulação é o efeito de enquadramento interpretativo (framing). Tendemos a escolher entre uma ou outra possibilidade não pelo conhecimento de cada uma delas e sim pela forma como essa possibilidade é apresentada. O exemplo mais conhecido é o Problema da Doença Asiática, proposto por Tversky e Kahneman em 1981.

No experimento (social) os participantes foram convidados a imaginar que os EUA estão se preparando para o surto de uma doença asiática rara, que matará 600 pessoas. Dois programas alternativos para combater a doença são propostos. Para um grupo de participantes foi solicitado que escolhesse entre os programas A ou B. Das 600 pessoas que iriam morrer, o programa A salvaria 200. Já com o programa B haveria 1/3 de probabilidade de que as 600 pessoas fossem salvas, e 2/3 de probabilidade de que nenhuma fosse salva. 72% dos participantes optaram pelo Programa A e 28% pelo programa B.
Para um segundo grupo de participantes foram apresentados os programas C e D. Adotando o programa C, das 600 pessoas 400 iriam morrer, já com o programa D haveria 1/3 de probabilidade de ninguém morrer e 2/3 de probabilidade de que as 600 pessoas morressem. Neste caso, 78% dos participantes preferiram o programa D e 22% o programa C.

O leitor atento terá percebido que os programas A e C são iguais (e envolvem certezas), e o mesmo acontece com B e D (envolvendo risco), mesmo assim houve uma clara inversão de preferências por parte dos participantes. Por quê? De acordo com os autores, o cérebro fixa sua atenção em palavras com impacto emocional como “salvar” ou “morrer”. Se a palavra “salvar” aparece, os participantes optam rapidamente pela ação que tem menos risco (associado à palavra “probabilidade”). Se a palavra “morrer” aparece, os participantes preferem arriscar. Poucos pararam para analisar o conteúdo dos programas. Esta constatação tem uma enorme importância no mundo dos negócios e investimentos. Não à toa Kahneman foi laureado com o Nobel de Economia por seus estudos.

Mas o que tem a ver com política e eleições? Tudo. Os mesmos mecanismos de framing são utilizados pelos meios de comunicação para favorecer este ou aquele candidato. Jornalões, jornais televisivos de horário nobre, etc., não apenas estabelecem a agenda de temas de debate público, mas também são capazes, utilizando mecanismos como os demonstrados no problema da doença asiática, de favorecer uma determina interpretação dos fatos.

Temos que ficar atentos. Somos bombardeados por esse e outros mecanismos de manipulação todo dia. Vi assalariado comemorando a “PEC do teto”. Vejam como o framing é poderoso!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Zika e pesquisa em animais

Como no encontro das águas dos rios Negro e Solimões, no caso do vírus da zika estamos no encontro do medo e da ignorância. Sobre o medo há pouco a dizer. Com a difusão explosiva de toda a informação (boa e ruim) propiciada hoje em dia pelos meios de comunicação e redes sociais, a correlação ente o vírus da zika e situações graves como microcefalia (associada ou não com distúrbios neurológicos) em recém-nascidos já é de conhecimento de todos, no Brasil e fora. O medo entre as mulheres que planejam ter um filho agora ou num futuro próximo -que chega ao pânico nas já grávidas- ante essa avalanche de notícias ruins, teorias da conspiração, e fotos impactantes é completamente justificado. A recomendação de algumas autoridades sanitárias mundo afora no sentido de as mulheres não engravidarem por enquanto ou não visitarem o Brasil, aumenta a sensação de insegurança.

Boa parte deste medo nasce do outro rio, o da ignorância. O fato é que sabemos muito pouco sobre este vírus e das reais consequências do contágio. Entre as poucas certezas está que ele chegou para valer no Brasil e nas Américas. Que como falhamos como nação na tarefa de diminuir o principal vetor, o mosquito Aedes, ele, o vírus, teve e terá terreno fértil para se espalhar pelo país todo. Sabemos também que existe uma correlação geográfica e temporal entre a epidemia de zika e o aumento de casos de microcefalia. Que material genético do vírus foi encontrado no sangue de (algumas) mães e (alguns) bebês microcéfalos. Mas de fato, não há certeza que além dessa correlação exista um fator causal, ou seja, que o vírus seja a causa dessas alterações. Pessoalmente, por tudo o que li e conversei com gente especializada nessa área, acredito que essa relação exista. A comunidade científica está apostando muito nessa possibilidade. Mas em ciência, a única crença que serve se origina de evidências testáveis e reproduzíveis daquilo que dizemos.

Sem termos certeza da relação causal entre zika e microcefalia continuaremos meio que à deriva. Parte dessa certeza poderia ser dada pelas estatísticas, a evidência numérica que claramente relacione os dois fenômenos. Mas os números no Brasil são estranhos, como bem colocou recentemente o biólogo Fernando Reinach em sua coluna no Estadão. Para quem não leu, ele faz um relato no mínimo curioso. Nos Estados Unidos, em média, nascem 6 crianças com microcefalia para cada 1000 nascimentos, ou seja, uma taxa de 0,6%. Se uma taxa semelhante ocorresse no Brasil, em 2014 teríamos que ter 19.250 casos de microcefalia, mas tivemos 147. Como a notificação ao SUS não era obrigatória, é bem provável que muitos casos não tenham sido notificados. Como agora a notificação passou a ser obrigatória, a dúvida de saber se o atual aumento de casos está relacionado com o vírus (o palpite de boa parte da comunidade científica) ou com a notificação obrigatória, é uma dúvida pertinente que só o tempo poderá responder.

Fora os números, todo o trabalho recai no laboratório. O próprio vírus já está se encarregando de fazer um experimento natural com seres humanos. Somos suas cobaias. Cada grávida com zika, cada criança que nasce com microcefalia é um infeliz experimento que permite ir colhendo informações valiosas. Mas usando apenas cobaias humanas muitas informações não poderão ser colhidas por motivos óbvios, e demorará muito tempo para termos certeza das coisas. Há uma urgência que é de tirar o sono e um caminho longo a percorrer. Inicialmente para definir com segurança uma relação causal entre o vírus e a microcefalia e outras alterações que possam ir aparecendo com o aumento da epidemia. Depois sobre os mecanismos que o vírus utiliza para neutralizar as defesas imunológicas naturais. Como ocorre a passagem do vírus via placenta, como invade os neurônios e outra células? Ele sofre mutações? Quais as possíveis consequências no sentido de obter uma vacina eficaz?

Não deixa de ser paradoxal que a maior parte destas respostas que a população com razão cobra da ciência para enfrentar este problema tão dramático só poderá ser conseguida mediante um processo que tem despertado a desaprovação de uma parcela muito importante dessa mesma população: a utilização de animais para experimentação. No final, se tudo der certo, suspeito que vai acontecer a hipocrisia de sempre, usufruir da solução do problema, mas continuar a demonizar os cientistas pela sua insensibilidade por utilizar animais. Vemos esse filme todo dia.

sábado, 14 de novembro de 2015

Crianças não religiosas são mais generosas

Dia 03/11, a notícia:


Pai se mata após filho de 4 anos morrer picado por escorpião

Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:

“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.” 

“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”


 “Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"


“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.” 


 “que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude” 


 “acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!” 


 “Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.” 


 “a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar” 


 “A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...” 


 “Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .” 


 “Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”



Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.

Mas como essa capacidade pode ser perdida? A partir de que momento da nossa vida? Comentários tão pouco empáticos como os colocados acima podem nos dar algumas pistas. É possível observar, por exemplo, que quase todos têm algo em comum. Deuses e religiões são a toda hora invocados. Pesquisadores que analisam o efeito do pensamento religioso sobre o comportamento de indivíduos e sociedades já tinham percebido que alguns indivíduos religiosos acreditam ter algo assim como uma “licença moral”. Nesta situação comportamentos egoístas que levam a atitudes intolerantes são liberados, algo do tipo, posso ser insensível já que estou falando em nome de Deus, e Deus deixou bem claro o que pode ou o que não pode. Matar em nome de deuses pode ser o exemplo extremo dessa licença, mas podemos encontrá-la em outras atitudes.

Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.

Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.

Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava. 


Segundo os autores...


“Nossos resultados demonstram de forma robusta que as crianças de famílias que se identificam com uma das duas principais religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo) são menos altruístas do que as crianças de famílias não religiosas. Além disso, a relação negativa entre religiosidade, espiritualidade e altruísmo muda com a idade, com aquelas crianças com maior convívio religioso em seus lares apresentando as maiores correlações negativas.”.

Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."

Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".

Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.

Fontes:

-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015


-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010