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sábado, 11 de março de 2017

Fé e falácias

Adão e Eva no Éden (Lucas Cranach de Oude) 
Conhecer nossas origens, as do universo, da vida, tem sido um dos grandes desejos e desafios da humanidade. Ao longo da história diferentes culturas criaram seus mitos cosmogônicos, tanto em Oriente como Ocidente. O judaico-cristão com seus seis dias de criação, Adão e sua costela, cobras falantes, etc., é mais um entre eles e merece o mesmo respeito que as centenas de lendas cosmogônicas que existem ou já existiram. Todas têm sua importância histórica, social e antropológica. Mas elas são apenas lendas sem validade factual.

Com o advento da ciência, umas das mais notáveis conquistas da humanidade, finalmente conseguimos em vez de inventar respostas fabulosas, fazer as perguntas corretas. No caso das nossas origens, o assunto é bem complexo. Não à toa os cientistas o chamam de “hard problem”. Sobre a origem do homem a resposta encontrada por Darwin e Wallace e corroborada em mais de 150 anos de investigação parece ser uma ótima resposta. Somos o produto de um processo evolutivo que se inicia a partir de seres muito simples bilhões de anos atrás. Não encontramos evidência científica de nenhuma inteligência superior guiando a evolução, e sim mecanismos naturais. Sobre a origem da vida e do universo, temos avançado bastante, mas devido à complexidade intrínseca desses assuntos ainda não temos respostas conclusivas.

Para natural desencanto de alguns a ciência não encontrou nada até agora que indique que uma causa primeira, algum tipo de divindade ou coisa parecida tenha dado o pontapé inicial (e proposital) no processo. Mais, boa parte dos mais importantes físicos acreditam, à luz das evidências disponíveis, que o próprio universo pode ter se originado do nada (cuidado! este nada, quântico, não é o nada no qual estamos acostumados a pensar).

Acompanhar e aceitar criticamente as evidências (e as dúvidas) que a ciência nos revela, abandonando crenças primitivas (o que não é sinônimo de abandonar a crença religiosa) não tem relação alguma com ficar -como li dias atrás nesta Folha- “Sem rumo, sem destino. Sem passado sem futuro” (Padre Charles Borg, 26/02/2017). Ao contrário, o conhecimento científico é base do pensamento crítico e pilar do desenvolvimento humano nas almejadas e ainda utópicas sociedades do conhecimento.

Afirmar que “Ao negar a existência de transcendentes propósitos” passaremos a usufruir do que está ao alcance da mão sem nos importar com os limites éticos ou regras civilizatórias, como também li, parece-me um evidente non sequitur. Se precisamos acreditar em fábulas da idade do bronze ou na recompensa ou castigo dos deuses para fazer o que é certo ou deixar de fazer o que é errado, há evidentemente algo de intrinsecamente equivocado em nossa formação moral, e quem sabe a religião tenha muito a ver com essa falha.

Em tempos de triste intolerância, nunca é demais lembrar as palavras do Dalai Lama: “Os códigos morais se dão à margem das religiões. Baseiam-se no senso comum e também na ciência. ”

sábado, 17 de dezembro de 2016

Cesáreas em alta

Uns cinco milhões de anos atrás, alguns dos nossos ancestrais primatas desceram das árvores e se aventuraram em terra firme. A partir daí um evento dramático na evolução humana começa a ocorrer: substituímos o andar quadrúpede num lento processo que nos levaria ao bipedalismo total que nos caracteriza. Liberar as mãos abriu caminho para outra transformação que culminaria uns milhões de anos depois, o gradual aumento do cérebro (encefalização) e com ele, claro, do nosso crânio.

Os dois eventos, bipedalismo e encefalização, se por um lado foram ótimos para aumentar nossas capacidades cognitivas foram péssimos para nossos pés (ver aqui) e para nossa coluna vertebral (ver aqui) . Pagamos as consequências disso até hoje na forma de entorses de tornozelo, fascite plantar, tendinite de Aquiles, dores nas pernas e tornozelos quebrados por causa de um pé que a evolução adaptou inicialmente para viver nas árvores e que agora tem que suportar nosso peso na caminhada. Ainda, escolioses, hérnias de disco e espondilólise entre outros problemas nos atormentam por causa de uma coluna vertebral que em um tempo relativamente curto em termos evolutivos teve que assumir uma posição vertical por causa do nosso bipedalismo tão particular.

Todas essas alterações posturais levaram também a um estreitamento no canal do parto, provocado pela adaptação dos ossos da bacia à nova postura. Isto acarretou um problema obstétrico sério: como nascer com uma cabeça tão grande (produto do processo de encefalização) e um canal do parto tão estreito devido à adaptação da bacia para o andar ereto? Nada fácil. Esta desarmonia entre o tamanho da cabeça do feto e a bacia da mãe (desproporção cefalopélvica) é em parte responsável por sermos os vertebrados com a maior incidência de problemas graves na hora do nascimento. Sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho.


Uma das formas que encontramos para solucionar este dilema obstétrico foi o parto assistido e fundamentalmente a cesárea, curiosamente eventos que foram possíveis pelo nosso cérebro tão desenvolvido, o mesmo que ajudou a criar o problema todo. Agora, um estudo recém-publicado na prestigiosa revista científica PNAS aponta que o uso frequente de cesáreas nas últimas décadas pode ter favorecido o nascimento de crianças maiores (e com isso com cabeças maiores). Isto é bom porque, até certos limites, crianças maiores têm maior chance de sobrevivência, mas como não se observa um aumento evolutivo no tamanho do canal do parto, a desproporção cefalopélvica parece ter aumentado entre 10 a 20% desde o uso regular de cesáreas. Se isto se confirmar e essa tendência continuar, cesáreas serão cada vez mais necessárias e nossas ideias sobre a conveniência do parto vaginal terão que ser revistas.

Fontes adicionais:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homossexualidade é “não natural”?

Mesmo depois de dezenas e dezenas de artigos escritos no jornal e no blog sobre diversos assuntos, “Homossexualidade sob a lupa da ciência”, de 2012, continua a ser o mais lido e acessado. Pelos motivos certos ou errados o tema da homossexualidade não sai da pauta. Entre os motivos errados, a constante tentativa de negar direitos civis entre outras formas de discriminação.

Um dos argumentos mais utilizados para esta atitude seria que esta, a homossexualidade, é “não natural”. Deuses (ou a natureza) teriam criado macho e fêmea e baseado nisso os comportamentos “naturais” de corte, acasalamento e reprodução, que seriam a base do que li por aí como “valores irrefutáveis da família”. Se considerarmos que “natural” significa “que pertence ou se refere à natureza” ou “regido pelas leis da natureza; provocado pela natureza” (Dicionário Houaiss), o argumento é um completo equívoco.

Já foram identificadas mais de 1300 espécies animais com comportamentos homossexuais, e é certo que esse número é subestimado. Cientistas denominam comportamentos homossexuais em animais não humanos com a sigla SSB, do inglês “same-sex sexual behavior”, definido como “interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo que também ocorrem com indivíduos do sexo oposto com a finalidade de reprodução”. O termo SSB substitui nesses estudos denominações como “preferência” ou “orientação” sexual, que implica um desejo consciente que, por motivos óbvios, não pode ser comprovado em animais (não podemos saber o que um animal deseja, podemos apenas observar o que ele faz e a partir de aí fazer inferências).

SSB foi descrito cientificamente em animais de todos os níveis de complexidade e tamanho, incluindo vermes (nemátodos), moluscos, insetos, anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos, entre os quais nossos primos mais próximos, os bonobos, mas também golfinhos, felinos, morcegos e muitos outros. A duração do SSB na natureza é extremamente variável, podendo ser identificados casais homossexuais relativamente estáveis a comportamentos homossexuais esporádicos.

Pelas evidências disponíveis cientistas especulam que interações homossexuais poderiam permitir alianças estratégicas como ocorre entre algumas espécies de golfinhos, ou para facilitar a reconciliação após conflitos, como foi observado entre alguns primatas (Macaca fuscata). Também foram observadas em situações onde é necessário confirmar hierarquias (bisão-americano) ou diminuir o sucesso reprodutivo de competidores (moscas Hydromyza livens). A lista de utilidades ainda inclui o simples “treino” entre machos jovens para depois ter mais sucesso numa situação real ante uma fêmea (descrito em Drosophila) e, ainda, como forma de inseminação indireta, depositando o esperma em outros machos para que estes o depositem nas fêmeas posteriormente, comportamento descrito entre alguns tipos de besouros.

Biólogos ainda discutem o aparente paradoxo evolutivo da preferência homossexual em humanos ou do SSB nos outros animais. Por que os genes que levam ao SSB, mesmo diminuindo o potencial reprodutivo, permanecem na população? Apesar de paradoxal, não seria a primeira vez que nos resulta difícil conciliar certas características e comportamentos observados na natureza com o que sabemos sobre evolução darwiniana, fundamentalmente quando não conseguimos descobrir de forma imediata os benefícios de características que à primeira vista parecem muito pouco adaptativas. Este já foi o caso de comportamentos como a agressão, o altruísmo e mesmo a complexa e custosa ornamentação exibida por alguns animais.

Nos últimos anos, dezenas de estudos vêm abordando esta questão. Em relação aos animais não humanos, não há dúvida que a resposta está nos genes. Duas teorias, não necessariamente excludentes, tentam explicar a sobrevivência evolutiva de genes ligados ao SSB: a sobredominância e o antagonismo sexual.

Resumindo – e muito- na sobredominância o par de genes que seriam responsáveis pelo SSB (que denominaremos aqui genes H-H) confeririam esse comportamento apenas na condição homozigótica (quando os dois genes são idênticos). Mas se um dos genes for diferente (H-h, condição heterozigótica) não apenas o comportamento SSB poderia não se manifestar como outras caraterísticas com valor adaptativo poderiam surgir. Uma situação semelhante se observa na anemia falciforme, uma doença hereditária. Quando o indivíduo é homozigótico para os genes que provocam a doença esta se manifesta, mas na condição heterozigótica a doença pode não se manifestar e ainda a combinação genética oferecer resistência para outra doença, a malária, o que em regiões onde é endêmica representou uma vantagem adaptativa que permitiu assim a sobrevivência dos genes da anemia.

Já no antagonismo sexual, o par de genes que em um sexo pode gerar uma situação pouco adaptativa, pode apresentar uma situação adaptativa no outro. Isto foi observado num recente estudo utilizando a mosca da fruta (Drosophila melanogaster). Pesquisadores observaram que machos com uma carga genética relacionada com o SSB, que os colocaria em desvantagem na hora de reproduzir, quando o fazem geram fêmeas com maior capacidade reprodutiva, equilibrando assim a deficiência reprodutiva dos pais machos. 


Algo semelhante foi observado em humanos. Em um estudo com mais de 4900 gêmeos foi observado que indivíduos heterossexuais, quando eram irmãos gêmeos de indivíduos não heterossexuais (de acordo com os resultados de questionários psicológicos específicos) apresentavam um número maior de relacionamentos (heterossexuais) que no caso de gêmeos heterossexuais, o que parece indicar que carregar fatores genéticos que predisponham para a homossexualidade pode oferecer alguma vantagem reprodutiva nos heterossexuais, o que, finalmente, poderia explicar a sobrevivência evolutiva destes genes "H-H".

É isso, de “antinatural” a homossexualidade parece não ter nada. Seria legal se a informação científica conseguisse desarmar essa intolerância toda que permeia a discussão sobre os direitos civis, mas claro, não será o caso. Fundamentalismos não são permeáveis a este tipo de esclarecimento.

E para finalizar, é bom lembrar que se uma delicada propaganda de perfume tem o potencial de destruir os “valores irrefutáveis da família”, com certeza o problema não está na propaganda, não é mesmo?


Fontes:

-Hoskins JL, Ritchie MG, Bailey NW. 2015 A test of genetic models for the evolutionary maintenance of same-sex sexual behaviour. Proc. R. Soc. B 282: 20150429.
-Bailey, Nathan W. et al. Same-sex sexual behavior and evolution Trends in Ecology & Evolution , Volume 24 , Issue 8 , 439 - 446
-Brendan P. Zietsch et al. Genetic factors predisposing to homosexuality may increase mating success in heterosexuals. Evolution and Human Behavior 29 (2008) 424 – 433






sábado, 21 de março de 2015

Com dor darás à luz.

De acordo com o mito cosmogônico judaico-cristão, Deus, irritado por Eva ter ouvido os conselhos de uma cobra falante e ter comido os frutos “da árvore que está no meio do jardim” –coisa que ele terminantemente proibira-, num ataque de ira a teria condenado nos seguintes termos: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; (...).” (Gênesis 3:16).

Lendas à parte, há algo de errado no parto das fêmeas humanas. Quem como eu foi criado no campo vendo ovelhas parirem sem grande esforço aparente (mal paravam de pastar), não deixa de ficar impressionado com o esforço e sofrimento que geralmente acompanha o parto vaginal humano. 


A resposta para esse tormento todo está nas alterações anatômicas decorrentes dos processos evolutivos, fundamentalmente por sermos a única espécie entre os mamíferos que adotou o bipedalismo completo.


Sem sinais comportamentais de dor, nos mamíferos, de forma geral, o parto é um processo simples
 que praticamente não altera a rotina dos animais.


Já descrevemos nesta coluna as consequências desse processo sobre estruturas como nossos pés e coluna vertebral, consequências que os especialistas denominam “cicatrizes da evolução”. Fora pés e coluna, os ossos da bacia tiveram também que modificar sua anatomia para tornar o bipedalismo eficiente. 

Em relação aos nossos primos mais próximos, os chimpanzés, nossa bacia encurtou longitudinalmente e se estendeu lateralmente. Para estabilizar o torso na posição ereta os músculos glúteos se tornaram bem mais desenvolvidos e exigiram uma maior área de inserção no quadril (nenhum outro mamífero tem nádegas tão avantajadas quanto as nossas), o que levou a uma lateralização da região ilíaca. O sacro, que forma junto com o cóccix a parte inferior da coluna vertebral, se afastou em direção posterior e as espinhas isquiáticas, localizadas na porção inferior da pelve se deslocaram em direção ao centro do corpo para permitir a inserção dos ligamentos que formam o soalho da cavidade pélvica, mas estreitando ainda mais o “canal do parto”.



À esquerda, pelve óssea do chimpanzé e à direita a pelve humana (Wittman e cols., 2007).  


O resultado de tudo isso foi uma bacia relativamente bem adaptada para caminhar sobre duas pernas mas muito estreita para dar passagem ao feto humano. Este também sofreu as consequências do outro processo evolutivo bem posterior ao bipedalismo, a encefalização. O cérebro do feto humano foi aumentando de tamanho em relação ao dos outros primatas. 

Com o estreitamento do canal do parto provocado pelo bipedalismo e o aumento do tamanho do crânio devido ao processo de encefalização, temos – e apenas nos humanos- a denominada desproporção cefalopélvica, uma cabeça grande e uma pelve estreita, que em muitos casos leva à obstrução na hora do nascimento (distócia) e complicações obstétricas catastróficas -se não houver meios para um tratamento adequado-, tanto para a mãe como para o feto, incluindo ruptura uterina, fístula vesicovaginal entre outras graves complicações.


A origem do problema. Em cinza o crânio do feto dentro do anel pélvico. Observar que em Pongo (orangotango), Pan (chimpanzé) e nos gorilas, o tamanho do crânio fetal é bem menor que o anel pélvico materno. Já nos humanos a situação é crítica (Weiner e cols., 2008).


Para contornar estas dificuldades o mecanismo do parto humano tornou-se um processo demorado, exigindo do feto um verdadeiro contorcionismo. Ao longo do nascimento o bebê tem que ir girando para que o longo eixo da sua cabeça fique sempre alinhado com o longo eixo do canal, que vai mudando conforme o feto vai descendo. Se tudo der certo ele nasce “olhando para as nádegas” da mãe, numa postura que impossibilita que esta o segure e desobstrua as vias respiratórias do recém-nascido, como outros primatas fazem. Depois que a cabeça emerge, são os ombros que devem se alinhar ao longo eixo da pelve materna, uma manobra também bastante complicada. Nenhum outro bebê primata tem esse trabalho.

Outro recurso para fugir do problema causado pela desproporção cefalopélvica é nascer antes da hora. Isso mesmo; para que nossos filhotes nascessem com uma maturidade encefálico-cognitiva comparável aos outros macacos a duração da nossa gravidez deveria ser bem superior que os atuais nove meses. Claro que se isto acontecesse a cabeça cresceria muito e o parto vaginal seria inviável. O nascimento de nossos filhotes nesse estado de fragilidade, dependência total e imaturidade cerebral acaba exigindo um cuidado e dedicação intensa das mães por um período bem mais prolongado que o observado em outros mamíferos.

Em virtude destas dificuldades, sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho. Ainda no século 20 o índice de morte materna por causa do parto chega a 30% entre algumas populações sem acesso a recursos médicos. Sim, esses números são desastrosos e, claro, colocam em péssimos lençóis os que ainda defendem a existência de um “Designer” minimamente inteligente.

Por outra parte, as dificuldades obstétricas causadas pela desproporção cefalopélvica levaram alguns pesquisadores a sugerir que, quem sabe, a cesariana –com todos seus inconvenientes- seria a solução ao dilema, uma solução saída do grande cérebro que tanto contribuiu para criar o problema.




Fontes:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Dor nas costas? Culpe a evolução.

Desde minha janela consigo ver a Nica. Várias vezes mãe e avô, mantém a agilidade e esperteza de sempre. Seus filhos e netos orbitam ao seu redor nesse espaço bem cuidado de grama onde todos se dedicam a brincar e procurar comida. Nem sempre é assim, claro. O corpo de Nica e sua prole evoluiu para viver fundamentalmente em árvores. Suas mãos e pés são bem adaptados para segurar em galhos, e ainda uma cauda preênsil com a qual pode ficar pendurada liberando os membros restantes para recolher frutas (ah! Nica é um macaco-prego, ou Sapajus apella para ser mais preciso)

Mas agora quase toda a comida que ela precisa está no chão, regularmente fornecida por seus cuidadores. Nica então vira um quadrúpede. Sem a elegância ao andar e correr de um felino, por exemplo, cuja linhagem já é especialista nesse lance de ser 100% quadrúpede desde bem antes que os primatas como Nica.

Mas há um detalhe curioso que também observo desde aqui. Quando a comida é depositada na grama pelos cuidadores o grupo inteiro de macacos se junta e alguns tentam recolher a maior quantidade possível de fruta para ir a algum lugar mais calmo e comer sem ameaças ou disputas. Como carregar duas ou três frutas ao mesmo tempo ocupa completamente suas mãos e braços não resta outra alternativa a Nica a não ser apelar ao bipedalismo. Seu andar agora é ainda mais desengonçado. Mesmo assim ela e outros conseguem seu objetivo e se afastam uns dez a vinte metros nesse seu andar tão peculiar.

Cientistas utilizam este tipo de observação comportamental de campo (não amadora como a minha, claro) associada ao estudo dos fósseis, da embriologia, de geologia, da genética, etc., para obter pistas sobre nós mesmos, sobre nossa história evolutiva, causas e consequências.

Hoje sabemos que bem provavelmente o primata ancestral que nos deu origem -assim como a nossos primos atuais mais próximos como chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos- há uns seis milhões de anos, vivia em árvores e raramente se aventurava a passear pelo solo, até que mudanças climáticas foram transformando florestas em savanas o que incentivou que alguns grupos desses primatas se arriscassem em terra firme.

A coluna vertebral destes primos distantes no tempo não era muito diferente da que observamos em Nica. A que mudou enormemente foi a nossa. De todos os primatas nós e nossos ancestrais diretos (Homos e Australopitecíneos) fomos os únicos que adotamos uma postura completamente ereta. Nosso andar bípede se fez bem mais eficiente que o pouco frequente e desajeitado bipedalismo que nossos primos atuais mais próximos, os chimpanzés, exibem. Nosso centro de gravidade se deslocou e nossa coluna vertebral adotou uma posição vertical. Com isto nossas mãos ficaram completamente liberadas da função de locomoção e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens



Macaco-prego (Sapajus apella). Observar a curvatura da coluna vertebral, formando um arco de convexidade superior, típica dos quadrúpedes. Devido à sua disposição horizontal da coluna, o impacto vertical entre as vértebras é mínimo.


Mas isso teve um preço. A coluna vertebral dos nossos ancestrais quadrúpedes tinha uma forma ligeiramente arqueada, com convexidade superior e posicionada horizontalmente. Vísceras e membros se fixavam a ela –como ainda o fazem nos quadrúpedes modernos- exercendo um jogo de forças perpendicular ao longo eixo. O impacto de uma vértebra sobre sua vizinha neste formato é mínimo. Mas ao adotar o bipedalismo cada vértebra foi se apoiando na imediata inferior. Com isto, nossas cinco vértebras lombares têm que absorver um impacto vertical intenso. 


Para compensar, nossa coluna vertebral apresenta curvaturas que lhe dão um aspecto de “S” quando vista de lado, e entre cada corpo vertebral cartilagens ou discos articulares amortecem em parte o impacto, mas considerando a quantidade de consultas médicas por causa de problemas associados à coluna, vemos que isto não é suficiente. 


Uma vértebra vista desde cima. À esquerda o aspecto normal, com o disco intervertebral intacto. À direita, o disco degenera devido ao impacto e seu interior (núcleo pulposo) extravasa comprimindo a raiz nervosa que sai da medula espinhal.


As curvaturas naturais se acentuam com o tempo. Uma nova e problemática curvatura lateral pode surgir (escoliose). Os discos intervertebrais não resistem ao impacto constante, degeneram e deformam, invadindo o forame intervertebral comprimindo as raízes nervosas (hérnia de disco) provocando dor, formigamento e limitação de movimento. Com o constante atrito gerado pela nova postura, algumas articulações entre as vértebras podem fraturar (espondilólise) provocando dores crônicas que chegam a ser incapacitantes. 



Imagem de ressonância magnética da região lombar da coluna vertebral humana com hérnia de disco. Observar entre as vértebras os discos intervertebrais. O círculo amarelo mostra uma protrusão do disco (núcleo polposo) em direção ao espaço medular, causando compressão dos nervos espinais (cauda equina). Ver também a diferença desse disco (degenerado) com os outros com aspecto normal.


É isso. A evolução não “criou” uma coluna vertebral nova para nós humanos, perfeita e completamente adaptada ao bipedalismo. Utilizou o que já existia e fez uma adaptação, meio que às presas em termos evolutivos, já que o bipedalismo oferecia vantagens adicionais importantes e sobre ele a seleção natural atuou. É assim que funciona. Se a cuidamos bem e temos sorte nossa coluna funciona bem umas cinco décadas. Depois disso...


E agora estou aqui, de novo, com meu velho problema entre L5-S1, olhando para Nica que nem sabe o que é ter dor nas costas.




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AS CICATRIZES DA EVOLUÇÃO. GRAVIDEZ E DOR NAS COSTAS.



Se você esteve ou está grávida ou conviveu com alguém que esteve, já deve ter sentido ou visto: a postura muda e as dores lombares são frequentes. Por quê? Se achou que é por causa do peso do bebê, acertou pela metade. É bem provável que nossos primos mais próximos, os chimpanzés, não sintam dor nenhuma. Sim, ao que parece os problemas não vêm pelo peso do feto e sim por uma “conquista” evolutiva relativamente recente: o bipedalismo.

Veja a figura. Na parte superior uma fêmea de chimpanzé, a, não grávida; b, grávida. Diferente de nós, chimpanzés são fundamentalmente quadrúpedes (e arborícolas). Sua coluna vertebral tem forma de arco com convexidade superior. O centro de massa do seu corpo (CDM, círculo preto e branco) não altera sua posição em relação à articulação do quadril (coxofemoral).

Agora veja o que acontece com nossas mulheres: c, situação normal (sem gravidez); diferente dos outros primatas nossa coluna vertebral não tem mais forma de arco, mas curvas bem características. Repare na curvatura da região lombar (azul). O CDM está bem próximo à articulação coxofemoral, o que proporciona maior equilíbrio e menor gasto energético para manter a postura ereta.
Agora veja em d, com a gravidez o CDM se desloca anteriormente afastando-se da articulação coxofemoral. Mas quanto mais afastado o CDM da articulação maior o esforço para manter a postura. Para compensar (aproximar novamente o CDM da articulação), a mulher aumenta a curvatura lombar (lordose, imagem e). A postura se equilibra, mas o aumento da curvatura lombar pressiona os discos intervertebrais e eventualmente as raízes nervosas. Como esta região lombar já é uma região crítica nos humanos, a gravidez acaba aumentando os fatores que levam à alteração de discos e articulações com o passar do tempo.


Fontes:

-The Scars of Human Evolution. AAAS, 2013 Annual Meeting, https://aaas.confex.com/aaas/2013/webprogram/Session5714.html
-Whitcome KK, Shapiro LJ, Lieberman DE (2007) Fetal load and the evolution of lumbar lordosis in bipedal hominins. Nature 450(7172):1075-8

sábado, 24 de janeiro de 2015

Darwin, Deus e as baratas.

Vespa-esmeralda ferroando  (através do pescoço)
o cérebro de uma barata.
Quando em 1831 Charles Darwin embarcou no HMS Beagle iniciando a viagem que iria mudar a história da ciência, ainda acreditava na existência de um Benevolente Criador. Mas voltou da viagem cinco anos depois duvidando da existência de deuses. Que aconteceu nessa viagem que produziu tamanha mudança? O que abalou sua fé? Ele mesmo escreveria:

"Durante estes dois anos fui levado a pensar muito sobre religião. Enquanto a bordo do Beagle eu era (religiosamente) bastante ortodoxo [...], gradualmente comecei a perceber que as histórias do Velho Testamento com sua visão manifestamente errada do mundo, com sua Torre de Babel, do arco íris e o dilúvio, etc., etc., e o fato de se atribuir a Deus os sentimentos de um tirano vingativo, eram tão confiáveis quanto os livros sagrados dos hindus ou as crenças de qualquer bárbaro.”

Fora isso, Darwin ficara bastante perplexo pelos requintes de crueldade nas estratégias utilizadas por alguns animais para sobreviver e reproduzir. Em particular ele descrevera a ação de um tipo de vespa da família das Ichneumonoidea, que parasitam lagartas depositando sobre elas larvas que as devoram lentamente. Que benevolente criador poderia pensar em algo tão malévolo? Posteriormente a ideia dos processos de seleção natural que eliminavam a necessidade de um designer seria a resposta às suas dúvidas.

Mas se Darwin tivesse conhecido o ciclo de reprodução da vespa-esmeralda (Ampulex compressa), seu desencanto com a ideia de um benevolente criador teria sido total e imediato.

A vespa-esmeralda pode ser considerada uma aliada para muita gente. Seu alvo é outro inseto: a Periplaneta americana; sim, o nome científico de nossa popular e não muito bem considerada barata.

Esta história de terror entre vespa e barata é mais ou menos assim. Quando a vespa capta a presença de uma barata parte logo para o ataque. Inicialmente tenta virar a vítima deixando-a com as patas para cima, momento em que acerta a primeira ferroada. O golpe é preciso. O ferrão penetra no tórax. O veneno na quantidade e local exatos não mata mas paralisa as patas dianteiras da barata que com isto não pode fugir. Agora, com mais tempo, a vespa calcula milimetricamente a segunda ferroada. Esta entra lentamente entre a cabeça e o tórax (ver figura acima) e utilizando sensores localizados na extremidade do ferrão alcança com precisão de fazer inveja a qualquer neurocirurgião regiões específicas do cérebro. Graças aos sensores o veneno é injetado nos gânglios encefálicos supra e subesofágico, e só lá. O veneno altera a química cerebral da barata, mas em vez de matá-la modifica seu comportamento tornando-a um verdadeiro zumbi sob controle total da vespa. 


Dominada mentalmente por causa do veneno, a vítima em vez de fugir fica no lugar limpando suas patas e antenas como se nada estivesse acontecendo. Enquanto isso a vespa, sabendo que sua presa não vai fugir, começa a segunda parte deste espetáculo macabro. Procura uma toca segura onde esconder sua vítima. Antes de arrastá-la ao local escolhido, corta suas antenas para beber a hemolinfa (o sangue da barata) repondo assim parte das energias perdidas durante a luta. O veneno agora produz outra alteração comportamental dramática na vítima: suprime o comportamento de fuga e a deixa num estado de aparente torpor que durará por vários dias. 

Vespa-esmeralda cortando as antenas da barata
 e bebendo sua hemolinfa.


Na sequência, a vespa arrasta a barata-zumbi até a toca. Antes de abandoná-la deposita um ovo sobre seu corpo, fecha a toca e vai embora procurando outra barata para parasitar. 

Barata com as antenas amputadas e parcialmente paralisada pelo veneno da vespa-esmeralda.
 Observar próximo à pata anterior direita a larva da vespa.


Mas quem pensou que o suplício acaba aqui se engana. Em poucas horas a larva da vespa começa a devorar o corpo semiparalisado da vítima. Faz um orifício em seu exoesqueleto e penetra em seu abdome. Pouco a pouco vai devorando todas suas vísceras mantendo intactas apenas àquelas que são indispensáveis para manter a vida. Depois de alguns dias, uma nova vespa adulta surge do abdome oco da barata, que agora poderá morrer em paz.

Completado o ciclo, uma vespa madura sai do abdome agora oco da barata.


Embora possa parecer roteiro de algum filme de terror a ação da vespa sobre a barata faz parte dos mecanismos de seleção natural operando e se aperfeiçoando em períodos de milhões de anos. Sem moral, sem deuses. Apesar da aparente crueldade (para nosso padrão humano do século 21) nunca as baratas estiveram sob ameaça de extinção por causa da ação da vespa, e alguns já pensaram até utilizar estas vespas para reduzir a população de baratas, num controle mais ecologicamente correto que os venenos que utilizamos rotineiramente (e bem mais eficiente que a famosa chinelada).

Todo este comportamento da vespa não foi aprendido. Como vimos, ela já sai do corpo da barata pronta para iniciar a caçada. Seu comportamento, com essa “crueldade” toda, está fixado em seus genes e depois em seu cérebro ao nascer. Não à toa Darwin descartou o design de um benevolente criador. 



Vídeo completo da ação da vespa-esmeralda.

Provavelmente pelo mesmo motivo, para fugir da armadilha moral de um deus bondoso criando maldades, somado a mais de 150 anos de evidências, várias autoridades religiosas, incluindo o Papa Francisco, já aceitaram a Evolução como um fato.

Em tempo, dia 12 de fevereiro no mundo todo é comemorado o Dia de Darwin (data do seu nascimento). O slogan comemorativo é “Continue pesquisando, continue aprendendo, continue evoluindo.”.

Que assim seja.


Fonte
Absurd Creature of the Week: The Wasp That Enslaves Cockroaches With a Sting to the Brain. WIRED-SCIENCE, http://www.wired.com/2014/02/absurd-creature-of-the-week-jewel-wasp/



sábado, 6 de dezembro de 2014

Atraso sem fim


No que parece ser um firme e insistente propósito de levar o país aos saudosos tempos da Idade Média, o pastor-deputado Marcos Feliciano acaba de propor um projeto de lei para incluir na grade curricular das Redes Públicas e Privadas de Ensino, de forma obrigatória, conteúdos sobre criacionismo. Conforme consta no projeto “Os conteúdos referidos neste artigo devem incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”.

A esta altura nada mais deveria nos surpreender vindo das hordas do fundamentalismo religioso que povoam o Congresso Nacional e às quais os governos fazem questão de dar tanto espaço e apoio (e que, claro, nosso eleitor democraticamente colocou em Brasília). Mas um disparate dessa magnitude chega a ser assustador.

O projeto (leia aqui) se resume a um amontoado de conceitos que carecem da mínima base educacional ou científica. Utiliza erroneamente o conceito de teoria científica, sem ter ideia da diferença com o conceito coloquial do termo; junta no mesmo saco de gatos evidências testáveis e atos de fé. Iguala sem o menor fundamento a Teoria (científica) da Evolução com dogmas de uma religião específica (a do pastor, baseada no livro do Gênesis, as outras são ignoradas no projeto). Mistura conceitos como origem da vida, Big Bang, evolução, como se tudo fosse fruto de uma mente “cientificista” anti-Deus. E ao tornar obrigatório o ensino do criacionismo cristão bate de frente com vários artigos da Constituição Federal. 

Em vão procurei trechos no texto que servissem de exemplo para ilustrar aqui a confusão à qual me refiro, não porque eles não existam e sim porque constituem a quase totalidade do projeto.

Ante tamanho feito, várias federações e associações científicas e de ensino de ciências já se manifestaram alertando sobre o perigo disto ser levado a sério e aprovado. Mas acho que a carta enviada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência aos deputados (ver aqui) resume de forma clara todo esse temor. Assim, com a licença do leitor, por ser a entidade que representa a ciência do Brasil, prefiro transcrever alguns parágrafos que reputo fundamentais.


Sobre a evolução

“A descoberta e o entendimento do processo da evolução representa uma das maiores conquistas na história da ciência. A evolução explica com sucesso a diversidade de vida na Terra e tem sido confirmada repetidamente por meio de observação e experimentos em uma ampla gama de disciplinas científicas. A ciência evolucionária foi que deu a base para o surgimento da moderna biologia, abrindo caminho para novos tipos de pesquisa médica, agrícola e ambiental, além de ter proporcionado o desenvolvimento de tecnologias que têm ajudado a prevenir e combater doenças que afligem a humanidade.”



Sobre o criacionismo

“Os argumentos criacionistas são baseados em crenças acerca de uma entidade de fora do mundo natural. Não pode ser investigado pela ciência, que somente investiga os fenômenos que ocorrem naturalmente.
O criacionismo não é uma teoria científica, não satisfaz a condição essencial de poder ser testada, refutada, confrontada com a realidade por meio de observações e experiências, de tal modo que se possa verificar se suas afirmações são conformes aos fatos. (...)”.



E finaliza...

“Definitivamente, não há como inserir o criacionismo no conteúdo de disciplinas científicas, para que não prejudique o ensino científico de boa qualidade no Brasil.
Diante do exposto, senhores deputados, a SBPC solicita que o PL 8099/2014, bem como o PL 309/2011, no qual o primeiro está apensado, sejam rejeitados e arquivados, mantendo assim o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela nossa Constituição federal, bem como não comprometa o ensino das Ciências a nossos alunos.".


É isso. Por mais deficiente que esteja nossa educação básica, sempre encontraremos voluntários para torná-la pior.






segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Google nos fará mais burros?

Vinte anos atrás li o livro “A montanha mágica”. Como tantos outros, o livro de Thomas Mann não é de leitura fácil, mas lembro ser capaz, naquele tempo, de ler durante 50 a 60 páginas sem distrair minha atenção. Nada muito notável, com certeza. Mas não sei se hoje consigo fazer isso. Minha atenção rapidamente quer escapar e levar meu pensamento para um monte de coisas após as primeiras páginas de leitura. Meu cérebro envelhecendo? Sim, mas não. Por incrível que pareça, acredito que meu cérebro esteja funcionando hoje como o dos meus alunos. Como? Por quê?

Lembro também que vinte anos atrás, quando tinha que consultar alguma coisa para uma pesquisa científica, não havia muita escapatória. A fonte de toda a informação estava localizada na velha biblioteca da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde fazia minha pós-graduação. “Onde” localizar a informação não era problema. O relevante era a informação em si.

Mas agora as coisas não são mais assim.

Atravessamos uma mudança tecnológica que está afetando nossas habilidades cognitivas de uma forma que ainda não conseguimos avaliar. A internet está mudando nosso cérebro. Provavelmente a partir de uma região bastante específica.

Ao longo de milhões de anos de evolução os vertebrados desenvolvemos uma estrutura cerebral importantíssima: o hipocampo. O nome vem do fato dos antigos anatomistas acharem que nos humanos essa estrutura lembra a forma de um cavalo marinho (hippocampus, lembra mesmo). 





À esquerda um hipocampo humano dissecado; à direita um cavalo marinho
(hippocampus, um peixe pertencente à família Syngnathidae)



Há livros e livros (melhor, bites e bites) dedicados a essa estrutura. Não vou me estender muito aqui. O importante é que uma das suas funções básicas está relacionada com a consolidação de memória. Resumindo, o hipocampo ajuda a consolidar informações fazendo com que estas passem a fazer parte da nossa memória de longa duração. Ele é uma das primeiras estruturas a ser atingida no mal de Alzheimer (daí os primeiros déficits cognitivos dessa doença estarem relacionados com a memória). Quando danificado (por causa de cirurgias, AVEs, etc.), o paciente perde a capacidade de estabelecer novas memórias (amnésia anterógrada). 


Durante milhões de anos nossa única fonte de informação era aquilo que estava armazenado em nossos cérebros -graças à ação do hipocampo- e que era transmitido de geração em geração e de boca em boca. Tempos da tradição oral. A quantidade de informação passível de ser transmitida era limitada mas dava conta de nos salvar do ambiente hostil em que vivíamos. Sobreviver já estava bom demais.

Com o surgimento da escrita (provavelmente uns 4.000 anos AEC), boa parte da informação passou a ser registrada materialmente, o que ampliou enormemente a capacidade de transmitir informação. A popularização da leitura graças à invenção da imprensa no século 15 fez com certeza os humanos mais inteligentes. Hoje sabemos que a leitura tem um efeito de enriquecimento cognitivo real, o que significa que, bem provavelmente, nos últimos séculos a leitura modificou nossa arquitetura cerebral.

Hoje também sabemos que, em termos cognitivos, se o que lemos é muito importante, como lemos parecer ser tão importante quanto. E aí as coisas mudaram. Um estudo recente mostra que em virtude da enorme quantidade de informação disponível na internet, os leitores ficam pulando entre uma informação e outra, via hiperlinks, sem se aprofundar muito em nenhuma delas. Os pesquisadores definem esse tipo de leitura como horizontal (pouco reflexiva), que estaria substituindo a leitura profunda e detalhada (vertical).

Mas a maior mudança atinge diretamente o hipocampo. Hoje, toda a informação relevante não precisa ser armazenada no cérebro. Ela está disponível em um simples clique, e de uma forma mais rápida, completa e eficiente que o estaria se dependêssemos de nosso cérebro para acessá-la. Aí surge a grande interrogante. Se substituímos parcialmente o hipocampo pelo Google, que acontecerá com nosso cérebro? Ante a falta de dados conclusivos, os pesquisadores se dividem. Os pessimistas simplesmente acham que ficaremos cada vez menos inteligentes. Para eles, o funcionamento do hipocampo, do jeito que ele foi programado por milhões de anos de evolução, não apenas é importante para fazer a memória funcionar, mas também para outros processos cognitivos associados.

Mas têm também os otimistas (ou pelo menos, menos pessimistas; ver aqui). Estes acham que as redes hipocampais que não forem usadas em processos mnemônicos poderão ser utilizadas para outras funções cognitivas, graças à plasticidade cerebral. Quem sabe seremos menos hábeis para memorizar (como já ficamos menos hábeis para outras funções, como o olfato), mas podemos desenvolver nossa capacidade de fazer associações, aumentar a velocidade de cálculo...

Fora as especulações um fato parece evidente, embora seja extremamente positivo que tenhamos toda essa informação em nossas mãos, sem um cérebro treinado para o pensamento crítico não seremos capazes de transformar essa informação em conhecimento. E é justamente isso o que diferencia a "Era da Informação" com as ainda longínquas (principalmente por estas terras, o PISA que o diga) Sociedades do Conhecimento.


sábado, 11 de maio de 2013

Africanos amaldiçoados

Durante boa parte da Idade Média, a Igreja Católica proibiu os fieis lerem a Bíblia. Registros dessa proibição podem ser encontrados na obra do Papa Gregório IX (1160 - 1241). De certa forma, a proibição vinha ao encontro da necessidade de manter a população afastada do conhecimento, sempre tão perigoso para os poderosos de plantão, religiosos ou não. Esta ideia central foi magistralmente explorada por Umberto Eco no ótimo livro (e filme) “O Nome da Rosa”. 

Para alguns, e devo concordar, parte do temor eclesiástico ante a leitura da Bíblia estaria no fato de o leitor perceber que o Deus amoroso, justo, e misericordioso que nos é contado em verso e prosa em nada se parece àquele do Velho Testamento. 

A história que dá origem a este artigo é uma dessas passagens que valeria a pena que não existissem, de tanta desgraça que causou.

A ideia que os africanos são amaldiçoados por Deus vem de uma passagem do Gênesis, onde Noé se embebeda e deita nu para dormir. Seu filho menor, Cam, descobre e conta para seus irmãos. Quando Noé acorda fica bravo com a atitude do seu filho e, vá lá saber porquê, lança uma maldição ao filho de Cam, Canaã (“Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos.”).

A história seria mais uma entre tantas lendas bíblicas se não fosse porque essa maldição forneceu a base religiosa para justificar o racismo e a escravidão dos africanos, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, já que de acordo com algumas interpretações os africanos seriam descendentes de Cam. Assim, e com esse precedente histórico, causa espanto que alguém se atreva sequer a mencionar nos dias de hoje tamanho disparate, bíblico ou não.

É claro que os africanos não são descendentes de Cam, nem de Canaã. Caso Noé ou Cam tenham de fato existido, eles seriam descendentes de africanos, como todos nós. Como já se sabe ha muito tempo, África é o berço da humanidade.

Mas conhecimento não parece ser algo que esteja na pauta do Congresso, muito menos entre os membros da bancada evangélica (democraticamente eleita pelo povo).

Em breve todos esquecerão da existência do pastor/deputado (mesmo ele fazendo tanta força para que isso não aconteça). Tem sido assim. Barbaridades se repetem no noticiário, causam um estremecimento inicial e depois caem no esquecimento. Aos poucos vamos nos acostumando e com isso o atraso impulsionado pelo fundamentalismo religioso se consolida, de forma lenta mais segura.

Se existe algum antídoto para este quadro preocupante, quem sabe a tolerância promovida pela cultura da ciência seja um deles. 

Não faço propaganda enganosa ao defender uma visão racional baseada no conhecimento científico para fugir da nossa intolerância atávica, tão impregnada nos textos religiosos. 
O trecho que reproduzo abaixo, extraído de um livro que trata sobre a natureza humana analisada desde um ponto de vista evolutivo, é um exemplo de como o conhecimento que a ciência fornece pode nos tornar indivíduos melhores. 
Compare o leitor este texto científico com a maldição bíblica. Tire suas conclusões.

“[...] toda a evolução significativa em nossa espécie ocorreu em populações de pele escura vivendo na África. No início da evolução dos hominídeos, cinco milhões anos atrás, nossos ancestrais semelhantes a macacos tinham a pele escura como chimpanzés e gorilas. Quando o moderno Homo sapiens evoluiu há cem mil anos, nós ainda tínhamos pele escura. Quando o tamanho do nosso cérebro triplicou, triplicou em africanos.
Quando a seleção baseada na escolha sexual moldou a natureza humana, ela foi moldada em africanos. Quando a linguagem, a música e a arte evoluíram, elas evoluíram em africanos. Peles claras apareceram em algumas populações de países europeus e asiáticos muito tempo depois de a mente humana ter atingido sua presente capacidade.

A cor da pele dos nossos antepassados ​​não tem muita importância científica. Mas tem importância política dada a persistência do racismo antinegros. Eu acho que um poderoso antídoto contra tal racismo é a percepção de que a mente humana é um produto da ação de mulheres negras africanas que favoreceram a inteligência, bondade, criatividade e linguagem articulada em homens negros africanos, e vice-versa.

Afrocentrismo é a atitude apropriada a tomar quando estamos pensando sobre a evolução humana.”


(The Mating Mind; Geoffrey Miller) 

domingo, 31 de março de 2013

A homossexualidade sob a lupa da ciência - II (ou por que Malafaia está errado)


(Credit: iStockphoto/Salon)
Dias atrás acompanhei pelas redes sociais, meio a contragosto, um debate sobre homossexualidade e ciência. De um lado o biólogo Elí Vieira, do outro o pastor Silas Malafaia. Um dos argumentos utilizados por este último é que ao não existir um “gene da homossexualidade” esta seria uma opção individual motivada por traumas na infância, imposição cultural, entre outras possibilidades.

O pastor não está completamente errado. De fato, até agora não foi identificado um gene que esteja diretamente relacionado com a homossexualidade. E mais, esta é difícil de ser explicada desde o ponto de vista evolutivo. Se optarmos por parceiros do mesmo sexo não teremos descendentes e com isso nossos genes não passarão adiante.

Mas o fato é que a homossexualidade existe e sempre existiu na história da humanidade, como explicá-la então? Com explicar biologicamente a preferência por uma pessoa do mesmo sexo na falta desses dois ingredientes básicos?

Aí que está a falha do pastor. A não existência de um gene para a homossexualidade não significa que esta não possa ter um cunho genético. Vejamos por que.

Como sabemos, cada célula de nosso corpo tem uma dupla hélice de DNA e nela estão contidos todos os genes. Cada gene tem a receita para tudo que nosso corpo é ou faz. Isto vai desde a cor da pele, olhos, nossa anatomia, fisiologia, o controle de outros genes e até boa parte do nosso comportamento.

Um exemplo, em nosso DNA existe um gene responsável pela produção de insulina. Assim, células no pâncreas produzem essa proteína que é fundamental para controlar os níveis de açúcar no sangue. Quando essas células falham o nível de insulina cai e surgem doenças metabólicas como a diabetes. Se bem é fundamental que as células do pâncreas produzam insulina, não seria recomendável que células musculares que fazem o coração bater também o fizessem. Mas estas também têm os genes para produzir insulina, por que então as células do pâncreas produzem e as do coração não?

Cientistas descobriram que ao redor da molécula de DNA existe uma “nuvem” de proteínas que tem como função ligar e desligar certos genes. Essas proteínas recebem o nome de marcadores epigenéticos (MEs). São eles que determinam se um gene vai estar ativo ou não. No pâncreas eles ligam o gene para produzir insulina, no coração e outros órgãos eles o desligam. Assim, a ação dos MEs passa a ser quase tão importante quanto os próprios genes.

À diferença dos genes, que passam de pais para filhos, acreditava-se que os MEs eram zerados na hora da formação de um novo ser (no momento da fecundação). Mas nos últimos anos ficou claro que em alguns casos a informação epigenética não é completamente eliminada e algo passa para os descendentes.

Isso tem consequências importantes. MEs podem ser formados em resposta a acontecimentos específicos durante a vida do indivíduo. Em situações de fome intensa, por exemplo, podem ativar genes que potencializem o aproveitamento da pouca comida que é ingerida. Se esses MEs passam para o filho, os genes deste também serão ativados de forma que uma dieta normal poderá gerar um quadro de obesidade (no filho), já que os genes –ativados pelos MEs paternos- continuarão passando a instrução de aproveitar ao máximo cada grama de alimento ingerido.

Em um artigo recente cientistas postularam que este mecanismo poderia também estar implicado com aspectos de preferência sexual. Em situações normais, o embrião em formação cria MEs que o protegem da flutuação dos níveis de testosterona da mãe. Altos níveis de testosterona durante a gravidez podem masculinizar embriões femininos, e da mesma forma baixos níveis de testosterona feminizar embriões masculinos afetando a conformação dos genitais e até a preferência por parceiros sexuais na vida adulta. 
Assim, MEs trabalham ligando e desligando genes para neutralizar os possíveis efeitos nocivos da flutuação de testosterona. 
Mas o que aconteceria se MEs do pai fossem transferidos à filha em gestação, ou os da mãe ao filho?  Neste caso sob a ação dos MEs paternos genes “masculinizantes” seriam ativados na filha, ou no caso oposto, MEs da mãe ativariam no filho genes feminizantes. As consequências seriam óbvias.

É isso aí, mesmo não havendo gene da homossexualidade esta sim poderia ser resultado da ação dos genes em conjunto com MEs. O mecanismo é simples e o insight dos cientistas ao entendê-lo, brilhante.

Claro que isto não vai mudar a opinião de quem está utilizando a ciência apenas para defender suas crenças. E, mais importante, se bem a explicação científica é fascinante, o recado que mais interessa é que, simplesmente, não temos o direito de determinar como os outros devem viver suas vidas. Não podemos de forma alguma negar direitos constitucionais em virtude de etnia, crença, orientação sexual... Não podemos trocar o Estado de Direito previsto na Constituição pelas orientações dos livros religiosos.

Assim de simples.

Fontes:
1 - William R. Rice, Urban Friberg, and Sergey Gavrilets. Homosexuality as a Consequence of Epigenetically Canalized Sexual Development. The Quarterly Review of Biology, 2012; 87 (4)
2 - J. A. Hackett, R. Sengupta, J. J. Zylicz, K. Murakami, C. Lee, T. A. Down, M. A. Surani. Germline DNA Demethylation Dynamics and Imprint Erasure Through 5-Hydroxymethylcytosine. Science, 2012; DOI: 10.1126/science.1229277

quarta-feira, 6 de março de 2013

Deus e a pata do avestruz

Quando criança me ensinaram que nosso corpo era o suprassumo da perfeição. Uma máquina ideal, o que não poderia ser diferente já que éramos criados à imagem e semelhança de Deus.

Os anos passaram, os mitos cosmogônicos deram lugar a uma visão mais real do nosso lugar no mundo - baseada em evidências - mas não por isso menos fascinante que as diversas lendas criacionistas. Claro que Darwin, o aniversariante do último dia 12 de fevereiro, teve muito a ver com isso.

No passado dia 15 de fevereiro no Congresso Anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) um grupo de especialistas se reuniu para tratar das imperfeições da nossa “máquina perfeita”, ou melhor, das cicatrizes deixadas pela nossa história evolutiva, cicatrizes que trazem consequências clínicas importantes nos dias de hoje.
No painel foram apresentados vários exemplos desses problemas evolutivos. Por falta de espaço, focaremos apenas um, o mais básico, o pé.

Antes de entender por que nosso pé não é nada perfeito – para desespero dos criacionistas do Design Inteligente-, temos que conhecer sua história evolutiva. 
Até cinco milhões de anos atrás nossos ancestrais raramente se aventuravam fora das árvores. O pé tinha evoluído para uma função principal: segurar nos galhos. Sua anatomia estava bastante bem adaptada para essa função. Mais de 25 ossos unidos por mais de 30 articulações, hálux (dedão) opositor fazendo pés e mãos bastante semelhantes, e centenas de músculos, tendões e ligamentos, davam ao pé a flexibilidade necessária para pular de galho em galho com destreza e segurança.




O pé do chimpanzé preserva caraterísticas de nossos ancestrais comuns de 5 milhões de anos atrás. 
O hálux é opositor, o que ainda lhe permite subir nas árvores com bastante facilidade  mesmo levando
 uma vida fundamentalmente terrestre. Já nosso pé teve que se adaptar rapidamente para a postura completamente bípede.

Mas há uns cinco milhões de anos alguns desses primatas arborícolas decidiram se aventurar no solo conquistando um riquíssimo e inexplorado nicho ecológico. Nossos ancestrais se adaptaram a essa vida e paulatinamente adotaram uma postura ereta. Relacionado a esse fato ocorreu uma revolução: as mãos foram liberadas e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens.

Estes eventos nos tornaram os primatas mais bem sucedidos do planeta. Rondando a casa dos sete bilhões, com uma enorme capacidade de adaptação, capazes de pensamentos abstratos e, graças ao nosso cérebro tão desenvolvido, possuidores de uma mente única.
Entretanto, essas conquistas que nos ajudaram a tornar-nos o que somos tiveram seu preço. Nosso pé teve que se ajustar à nova função: apoio e propulsão. A evolução teve que trabalhar a partir do material já existente para, em um período relativamente curto, transformar um pé bem adaptado à vida sobre as árvores para caminhar, sustentar e correr. Não foi fácil. O material era o mesmo, ossos demais, articulações demais, enfim, uma estrutura pouco estável.

Nosso hálux foi diminuindo e se reposicionando. Ter um pé parecido com a mão já não servia de nada. Ossos do tarso e metatarso formaram um arco para compensar o impacto. O resultado é esse que já conhecemos. Um pé preparado às presas para a nova função que o deixou propenso a entorses de tornozelo, fascite plantar, tendinite de Aquiles, dores nas pernas e tornozelos quebrados. E estes não são problemas modernos relacionados ao uso do salto alto. Fósseis mostram problemas semelhantes já ha três milhões de anos. Como comentam os especialistas do painel, se tivéssemos que planejar um pé humano ideal, certamente não seria esse.

Mas qual seria? De acordo com os mesmos especialistas, e por incrível que pareça, o pé ideal para um bípede como nós, seria o da avestruz. Os 13 ossos que compõem o tarso e metatarso humano foram simplificados para apenas um único osso, o tarsometatarso. Em vez de cinco dedos com suas respectivas 14 falanges, o avestruz possui apenas dois dedos. Este prodígio de simplicidade lhe permite correr por longas distâncias a quase 70 km/h suportando um corpo de mais de 100 quilos.


À direita, uma pata de avestruz, à esquerda, um pé humano. Destacado em cor laranja nossos ossos do tarso e metatarso (13 ossos) e o correspondente único osso da avestruz (tarsometatarso).  Foram necessários 230 milhões de anos para que a pata do avestruz alcançasse esse solução evolutiva, simples e completamente adaptada à função de apoiar, caminhar e correr.  Como nosso pé evoluiu inicialmente para a função de segurar nos galhos, seu passado evolutivo não o torna tão bem adaptado à posição ereta. Um bom exemplo para mostrar que a evolução não nos torna mais inteligentes, fortes ou bonitos, apenas bem adaptados ao meio em que vivemos.

A pergunta que fica, por que a avestruz tem um pé tão bem adaptado e nós não? Só podemos encontrar uma resposta razoável se olhamos desde uma perspectiva evolutiva. Avestruzes, como todas as aves – representantes atuais dos dinossauros – começaram sua jornada bípede há mais de 230 milhões de anos, enquanto que a nossa começou cinco milhões de anos atrás. A evolução não tornou a pata do avestruz mais complexa e sofisticada, e sim simples e perfeitamente adaptada a sua função. Nós ainda temos um longo caminho. 
Vai lá saber se chegaremos lá.