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sábado, 5 de novembro de 2016

Vaquejada


Dias atrás num colóquio sobre neurociência, na UNESP, conversávamos sobre os bons e os maus motivos para acreditar nas coisas. Na lista de motivos, a tradição (acreditar ou fazer algo porque já vem sendo feito por nossos antepassados por gerações) ocupava um lugar importante. Quando acreditamos em algo apenas porque é uma tradição, temos sempre que lembrar que o tempo não torna verdade o que não é. Se a tradição nasce de um erro, de uma mentira ou uma injustiça cometida séculos atrás, o erro, a mentira e a injustiça serão os mesmos hoje. Não tenho dúvidas que existam boas tradições a serem preservadas. Tradições que nos aproximam dos nossos semelhantes (e dos nossos “diferentes”), que criam um clima de tolerância, de fraternidade, de respeito. Tradições culturais que a ninguém ferem. Mas infelizmente nem sempre é este o caso.

A escravidão, por exemplo, perdurou tudo o que perdurou em parte porque era uma tradição. Como li um dia “Tenho escravos porque meu pai tinha escravos, porque meu avô tinha escravos...”. Também tinha o argumento econômico, conjunto de motivos que nos Estados Unidos levou à guerra civil no século 19.

Curiosamente, a tradição (e a importância econômica) está sendo utilizada para justificar eventos que, como no caso da vaquejada e tantos outros, causam sofrimento em animais indefesos, neste caso para nossa diversão. Alega-se, entretanto, que na forma que se pretende regulamentar a vaquejada não representaria “maus-tratos” aos animais.

Provavelmente aqui a ciência pode contribuir na percepção pública do que significa “maus-tratos”. Resumidamente, maus-tratos em animais são aqueles que causam sofrimento, o que não necessariamente está relacionado à dor física (nocicepção). O sofrimento é desencadeado pela percepção que há uma clara ameaça à vida ou à integridade física do organismo. O animal, por não poder falar, expressa esse sofrimento na forma de alterações comportamentais que podem ser analisadas objetivamente. Em pesquisa científica sabemos muito bem isso. Toda a experimentação animal deve seguir rigorosos protocolos que diminuam ao máximo o sofrimento. Isto não é apenas importante pelos aspectos éticos envolvidos, mas também porque o estresse nos animais pode alterar os resultados inviabilizando os experimentos que estamos realizando. Não consigo imaginar uma forma “moderna” de vaquejada em que o animal não esteja em sofrimento.

Dito isto, não podemos esquecer que o sofrimento pode ser mais ou menos intenso (com as correspondentes respostas fisiológicas). O sofrimento ao qual um animal é exposto na hora do abate, por exemplo, é provavelmente superior ao qual está exposto numa atividade como a vaquejada. Aqui entram, é claro, nossas justificativas. Alguns condenam atividades como esta última porque servem apenas para nossa diversão. Já o animal abatido nos alimenta. Entretanto, a justificativa é bastante fraca e parece servir apenas para aliviar nossas consciências. A criação e o abate dos animais que nos alimentam são de forma geral vergonhosamente cruéis. Não precisaria ser assim, não mesmo, mas preferimos não pensar nisso cada vez que saboreamos um bom filé. E há ainda um agravante. Existe um número crescente de evidências científicas que indica que o consumo de alguns desses alimentos de origem animal poderia ser substituído, com benefício para nosso corpo e para o meio ambiente.

É isso. Na certeza que desagradei a quase todos, termino com uma lembrança ao pai da Teoria da Evolução: "A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana." Salve Darwin! Mais uma vez.

domingo, 19 de junho de 2016

Celulares e câncer


O uso de telefone celular causa câncer? Esta é uma pergunta recorrente que sempre volta a agitar os meios de comunicação quando um estudo traz nova informação.

Até agora o que tínhamos era que não existiam evidências convincentes que mostrassem uma relação entre o uso de celulares e qualquer aumento na incidência de câncer. Essas informações surgiram de estudos importantes como o Million Women Study realizado no Reino Unido em 2013 e outro com mais de 350 mil usuários de telefone celular na Dinamarca, publicado em 2011. O primeiro concluiu que 


“... o uso do telefone celular não foi associado a um aumento da incidência de glioma, meningeoma ou câncer fora do sistema nervoso central”. 

Já o estudo dinamarquês...


“... não houve aumento do risco de tumores do sistema nervoso central, oferecendo pouca evidência para uma associação causal.”. 

Ainda, para corroborar a ideia de falta de associação entre telefone celular e câncer, dados nos Estados Unidos indicam que a incidência dessa doença no cérebro se mantêm inalterada desde 1992 pese ao uso intenso da telefonia móvel nos últimos anos.

Todos sabemos que alguns tipos de radiação causam câncer. Raios X, luz ultravioleta, a radiação das armas nucleares -entre outras-, têm a capacidade de ionizar átomos ao remover seus elétrons e isso está associado a dano no DNA, o que pode levar ao surgimento de câncer. Mas a radiação produzida por celulares (radiação de radiofrequência, RRF) não é ionizante, o que a diferencia das outras citadas acima, e não existem evidências consistentes que indiquem danos associados a este tipo de radiação.

Por isso a comunidade científica recebeu com bastante ceticismo os resultados de um estudo recém-publicado que mostram que a RRF provocou tumores em animais. O estudo foi realizado pela National Toxicology Program, uma agência oficial norte-americana que analisa riscos toxicológicos. Ratos foram expostos desde antes do nascimento até a idade de dois anos (nove horas por dia, todo dia) a diferentes níveis de radiação do tipo da emitida por telefones celulares. Finalizado esse período os animais foram analisados em relação ao aparecimento de algum tipo de dano. Os pesquisadores observaram que entre dois a três por cento dos animais expostos (três em 90 analisados) desenvolveram glioma maligno, um tipo de câncer cerebral, contra zero casos (0/90) em animais do grupo controle. Além do mais, entre cinco a sete por cento dos animais expostos às radiações mais intensas desenvolveram tumores no coração, especificamente nas células que envolvem as fibras nervosas cardíacas (schwannomas). 

O estudo causou muita dúvida entre cientistas por vários motivos. Chamou a atenção que essas alterações quase não foram detectadas em fêmeas. Por outro lado, o fato de zero animais controle apresentarem gliomas é bem estranho. Estudos anteriores mostraram que o aparecimento desse tipo de câncer em animais controle é ao redor de 2%. Se isto tivesse acontecido com o estudo atual não haveria diferenças em relação ao grupo exposto à radiação. Schwannomas podem ocorrer em vários órgãos, mas neste estudo ocorreram só no coração, por quê? Finalmente, os animais submetidos à radiação embora tivessem um índice maior de tumores viviam mais que os animais controle. Nenhuma dessas questões apresentaram respostas, o que leva a questionar a metodologia utilizada no estudo.

E agora? Bom, o estudo está aí e as críticas científicas também. Se bem os pesquisadores encontraram essas diferenças, elas não foram significantes desde o ponto de vista estatístico. Ainda, os estudos anteriores feitos em humanos não revelaram um aumento de câncer no cérebro ou tumores no coração. E ainda, não temos uma explicação para uma eventual interferência da RRF em sistemas biológicos que possam levar a esses resultados. Mesmo assim, como vivemos num ambiente onde somos constantemente bombardeados pela RRF, estudos como estes são necessários. Que ainda não saibamos como essa radiação possa nos afetar não significa que ela eventualmente não nos afete. 

 E lembrar, claro, que se celular não mata via câncer, sim o faz pelos mais de 1,3 milhão de acidentes de trânsito (só no Brasil) causados pelo seu uso enquanto estamos dirigindo. Esse, por enquanto é o real problema, e bem fácil de solucionar.

domingo, 29 de novembro de 2015

O mosquito da microcefalia

No momento que escrevo esta coluna, o Ministério da Saúde acaba de divulgar os alarmantes números de casos de microcefalia. Foram notificados 739 casos suspeitos em 169 municípios do Norte e Nordeste. Nas palavras do virologista e professor da USP Paolo Zanotto, “um pesadelo”.

Microcefalia é um distúrbio no desenvolvimento do feto ou da criança que faz com que o tamanho da cabeça fique abaixo do normal. Com isto o encéfalo tampouco se desenvolve normalmente (microencefalia) o que leva a problemas sérios podendo incluir, dependendo da gravidade do quadro, deficiências motoras e cognitivas, hiperatividade, convulsões, dificuldades com a coordenação e equilíbrio entre outras alterações neurológicas. É uma síndrome que não tem cura.

A microcefalia já é bem conhecida, tendo uma incidência (internacional) aproximada de um caso para cada 10.000 nascimentos. Suas causas podem ser genéticas (algum erro no DNA da criança) ou adquiridas congenitamente. Entre estas podem ser incluídas as causadas por agentes contaminantes aos quais a mãe pode estar exposta, assim como alcoolismo e outras drogas. Infecções maternas por toxoplasmose, rubéola, HIV, herpes e citomegalovírus também podem causar a má formação.

Quando os pesquisadores observaram o aumento assustador de casos no N e NE, assim como a forma em que esses casos estavam se espalhando, começaram a suspeitar que algo “muito novo e muito sério” estava acontecendo. Um novo agente poderia estar causando a síndrome. Quando cruzaram todas as informações disponíveis um suspeito apareceu: o vírus zika (ZIKV).

O ZIKV foi isolado inicialmente na década de 1940 em macacos na floresta Zika, na Uganda (daí o nome) e em humanos em 1968 na Nigéria. A partir da África o vírus se espalhou por países da Oceania, Ásia e chegou no Brasil aparentemente em 2014 causando epidemias de febre zika no N e NE em 2015. Foi justamente a coincidência temporal e geográfica que levou inicialmente a suspeitar que o ZIKV poderia estar provocando surpreendentemente, além das febres e erupções cutâneas já conhecidas, o surto de microcefalia. O fato de ter sido encontrado material genético do vírus no líquido amniótico de grávidas de fetos com microcefalia reforçou as suspeitas, embora levaremos uns meses para poder confirmar se isto é apenas uma correlação acidental ou se de fato o ZIKV é o agente causal.

Mais a coisa ainda, infelizmente, complica. O ZIKV é transmitido pelo Aedes aegypti. Como temos levado uma surra deste mosquito nas últimas décadas e eles só tem aumentado sua presença entre nós, no momento as autoridades sanitárias não têm ideia de quantas pessoas já estão contaminadas também com o ZIKV, mesmo por que como não se conhecia que o vírus representava um perigo tão grande (não tinha sido registrada até agora uma associação do ZIKV com a microcefalia), não existia necessidade de comunicar todos os casos.

Daí o medo das autoridades sanitárias. Daí também a recomendação –não oficial- para as mulheres evitarem ficar grávidas até não termos uma noção mais clara sobre o que está de fato acontecendo. A recomendação para não engravidar vem de cientistas como o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, e também de médicos ginecologistas como Thomas Gollop, especialista em medicina fetal. A recomendação é para que a mulher que mesmo assim decida assumir o risco o faça após uma consulta com seu obstetra de forma a obter todas as informações disponíveis. Embora exista uma preocupação em não criar pânico, como afirma Cesar Fernandes, presidente federação dos ginecologistas e obstetras "Temos que ser transparentes e reconhecer nosso despreparo em lidar com algo muito novo e muito sério."

Por enquanto, é o que sabemos. Se de fato for confirmado que o ZIKV é agente causal da microcefalia, como comenta o infectologista e professar da UNESP Alexandre Naime Barbosa teremos feito uma desagradável e inconveniente descoberta científica. Ao mesmo tempo teremos que rever nossas ações no que diz respeito ao combate ao mosquito Aedes aegypti. Se conviver com a dengue já é muito ruim, fazê-lo também com um vírus como o ZIKV com potencial de causar problemas tão devastadores como a microcefalia (e quem sabe outros que ainda não conhecemos), seria desastroso. Todas as tentativas convencionais de diminuir a quantidade de mosquitos têm fracassado. Quem sabe seja a hora de pensar em outras abordagens. A de Piracicaba e o mosquito transgênico quem sabe esteja entre elas.













sábado, 25 de abril de 2015

Nosso medo de transgênicos.

Um ano atrás nesta coluna comentávamos a liberação por parte da Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio) do mosquito Aedes aegypti transgênico. Resumidamente, a ideia era liberar uma grande quantidade de mosquitos machos geneticamente modificados (GM). Esta modificação no DNA do Aedes faz com que ele morra em poucos dias assim como todos seus descendentes, que sequer conseguem chegar à fase adulta. Como a quantidade de mosquitos GM liberada acaba sendo bem maior que a quantidade de mosquitos machos selvagens, eles, os GM, copulam com a maioria das fêmeas. Estas então geram larvas que morrem antes de virarem mosquitos adultos, diminuindo assim o vetor responsável pela dengue. E lembrando, claro, que podem liberar machos à vontade porque estes não picam.

De lá para cá, fora um aumento assustador do número de vítimas -inclusive fatais- desta doença, pouco ouvimos falar deste Aedes GM. Mas isso mudou em março deste ano. Considerando que nenhuma medida conseguia deter esta epidemia, a prefeitura de Piracicaba decidiu comprar a ideia da liberação de Aedes GM. Isto, como já era de se esperar, gerou uma enorme resistência por parte de grupos que costumeiramente se opõem à utilização de soluções transgênicas (aparentemente em qualquer área). Mas estes, desta vez, seguiram o caminho correto. Em março entraram com uma ação no Ministério Público de Piracicaba (caminho correto porque pelo menos não partiram para a destruição de instalações científicas, como já tinha ocorrido em outros casos). De acordo com os demandantes (que incluía o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente), seriam necessárias garantias que os "Aedes transgênicos" não representariam riscos à saúde pública e à natureza. Acatando a solicitação, o MP suspendeu provisoriamente a liberação dos Aedes GM enquanto analisava toda documentação, incluindo os dados científicos disponíveis, opinião de especialistas, etc. 


Finalmente, no dia 15 de abril o MP autorizou a liberação do mosquito GM. Assim, não é só a CTNBio quem opina favoravelmente em relação ao Aedes GM (batizado Aedes “do bem”, para desespero de alguns ambientalistas), mas agora também o MP (espero que não seja alegado que também o MP está a servir os interesses das “grandes corporações internacionais”).

Temos um medo pouco justificado de organismos geneticamente modificados, mesmo quando em nossa história tenhamos intencionalmente modificado o genoma de bichos e plantas mediante técnicas bem menos precisas, como cruzamentos entre espécies e indivíduos artificialmente selecionados, e em alguns casos tendo utilizado indivíduos mutantes após serem submetidos a radiação, etc. Estas técnicas “naturais” geravam eventualmente organismos com algumas das caraterísticas que nos interessavam mas, como ainda não entendíamos direito como funcionava o DNA, com outras –escondidas no genoma modificado- que poderiam ser prejudiciais. Já a engenharia genética permite fazer isso com precisão, reconhecendo e isolando o fragmento de DNA responsável pela caraterística que desejamos e tendo a capacidade de analisar exaustivamente o organismo resultante.

Um exemplo bastante conhecido é o da insulina produzida por organismos geneticamente modificados. Até algumas décadas atrás a insulina “natural” disponível para os diabéticos era extraída de porcos ou bois. Só que esta insulina, além de cara e escassa, não era idêntica à humana. A de boi diferia em três aminoácidos (os tijolinhos com os quais as proteínas são construídas) e a do porco em um. Por causa disto, com o uso constante os pacientes desenvolviam anticorpos e acabavam rejeitando a insulina de origem animal. 

Felizmente na década de 1970 pesquisadores nos Estados Unidos e Reino Unido tiveram a ideia de remover a sequência de genes que nas células do pâncreas humano tinham a “receita” para produzir insulina, e “colaram” essa sequência de genes no DNA de bactérias da espécie Escherichia coli. Em pouco tempo, os pesquisadores tiveram milhões de bactérias que, além de viverem suas pacatas vidas bacterianas, passaram a produzir insulina idêntica à humana, e é ela hoje a que abastece quase todos os diabéticos do planeta. 

Na área de saúde o uso de produtos transgênicos não se restringe à insulina. Drogas transgênicas como a Bevacizumab representam uma das últimas esperanças de vida em alguns tipos de câncer mais agressivos. Outras drogas transgênicas como a Pegfilgrastim e Epoetin alfa são utilizadas para combater os efeitos colaterais da quimioterapia. A Infliximabe, também originada de engenharia genética, é utilizada para combater doenças autoimunes. Como se isso fosse pouco, é bom saber que todas as brasileirinhas e brasileirinhos nascidos nos últimos tempos recebem uma vacina transgênica contra a hepatite B (produzida no Instituto Butantã). É isso, a criançada já sai da maternidade com transgênicos circulando pelo corpo.

Parte do medo, claro, vem da desinformação. Nesse sentido, termino com uma história exemplar. Em 1977 o prefeito da cidade norte-americana de Cambridge enviou esta carta ao presidente da Academia de Ciências daquele país:


"Na edição de hoje do Boston Herald American (...) há duas reportagens que muito me preocuparam. Em Dover, Massachusetts, 'uma estranha criatura de olhos alaranjados' foi avistada. Em Hollis, New Hampshire, um homem e seus dois filhos se depararam com 'uma criatura peluda de 2,75 m de altura'. Peço respeitosamente que sua prestigiosa instituição investigue esses relatos. Espero ainda que possam averiguar se essas 'criaturas estranhas' (caso realmente existam) estão de algum modo ligadas aos experimentos com DNA recombinante em andamento na região da Nova Inglaterra".




Passaram-se algumas décadas, produtos transgênicos são utilizados por milhões sem nenhuma morte registrada, mas no imaginário popular as “criaturas estranhas” ainda podem aparecer a qualquer momento para aterrorizar nossa vida.

Fonte:
Organismos transgênicos no Brasil: regular ou desregular? Colli, W. Rev. USP no.89 São Paulo marzo./mayo 2011