Mostrando postagens com marcador empatia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador empatia. Mostrar todas as postagens
sábado, 5 de novembro de 2016
Vaquejada
Dias atrás num colóquio sobre neurociência, na UNESP, conversávamos sobre os bons e os maus motivos para acreditar nas coisas. Na lista de motivos, a tradição (acreditar ou fazer algo porque já vem sendo feito por nossos antepassados por gerações) ocupava um lugar importante. Quando acreditamos em algo apenas porque é uma tradição, temos sempre que lembrar que o tempo não torna verdade o que não é. Se a tradição nasce de um erro, de uma mentira ou uma injustiça cometida séculos atrás, o erro, a mentira e a injustiça serão os mesmos hoje. Não tenho dúvidas que existam boas tradições a serem preservadas. Tradições que nos aproximam dos nossos semelhantes (e dos nossos “diferentes”), que criam um clima de tolerância, de fraternidade, de respeito. Tradições culturais que a ninguém ferem. Mas infelizmente nem sempre é este o caso.
A escravidão, por exemplo, perdurou tudo o que perdurou em parte porque era uma tradição. Como li um dia “Tenho escravos porque meu pai tinha escravos, porque meu avô tinha escravos...”. Também tinha o argumento econômico, conjunto de motivos que nos Estados Unidos levou à guerra civil no século 19.
Curiosamente, a tradição (e a importância econômica) está sendo utilizada para justificar eventos que, como no caso da vaquejada e tantos outros, causam sofrimento em animais indefesos, neste caso para nossa diversão. Alega-se, entretanto, que na forma que se pretende regulamentar a vaquejada não representaria “maus-tratos” aos animais.
Provavelmente aqui a ciência pode contribuir na percepção pública do que significa “maus-tratos”. Resumidamente, maus-tratos em animais são aqueles que causam sofrimento, o que não necessariamente está relacionado à dor física (nocicepção). O sofrimento é desencadeado pela percepção que há uma clara ameaça à vida ou à integridade física do organismo. O animal, por não poder falar, expressa esse sofrimento na forma de alterações comportamentais que podem ser analisadas objetivamente. Em pesquisa científica sabemos muito bem isso. Toda a experimentação animal deve seguir rigorosos protocolos que diminuam ao máximo o sofrimento. Isto não é apenas importante pelos aspectos éticos envolvidos, mas também porque o estresse nos animais pode alterar os resultados inviabilizando os experimentos que estamos realizando. Não consigo imaginar uma forma “moderna” de vaquejada em que o animal não esteja em sofrimento.
Dito isto, não podemos esquecer que o sofrimento pode ser mais ou menos intenso (com as correspondentes respostas fisiológicas). O sofrimento ao qual um animal é exposto na hora do abate, por exemplo, é provavelmente superior ao qual está exposto numa atividade como a vaquejada. Aqui entram, é claro, nossas justificativas. Alguns condenam atividades como esta última porque servem apenas para nossa diversão. Já o animal abatido nos alimenta. Entretanto, a justificativa é bastante fraca e parece servir apenas para aliviar nossas consciências. A criação e o abate dos animais que nos alimentam são de forma geral vergonhosamente cruéis. Não precisaria ser assim, não mesmo, mas preferimos não pensar nisso cada vez que saboreamos um bom filé. E há ainda um agravante. Existe um número crescente de evidências científicas que indica que o consumo de alguns desses alimentos de origem animal poderia ser substituído, com benefício para nosso corpo e para o meio ambiente.
É isso. Na certeza que desagradei a quase todos, termino com uma lembrança ao pai da Teoria da Evolução: "A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana." Salve Darwin! Mais uma vez.
sábado, 14 de novembro de 2015
Crianças não religiosas são mais generosas
Dia 03/11, a notícia:
Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:
“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.”
“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”
“Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"
“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.”
“que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude”
“acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!”
“Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.”
“a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar”
“A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...”
“Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .”
“Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”
Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.
Fontes:
-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015
-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010
Pai se mata após filho de 4 anos morrer picado por escorpião
Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:
“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.”
“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”
“Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"
“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.”
“que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude”
“acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!”
“Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.”
“a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar”
“A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...”
“Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .”
“Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”
Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.
Mas como essa capacidade pode ser perdida? A partir de que momento da nossa vida? Comentários tão pouco empáticos como os colocados acima podem nos dar algumas pistas. É possível observar, por exemplo, que quase todos têm algo em comum. Deuses e religiões são a toda hora invocados. Pesquisadores que analisam o efeito do pensamento religioso sobre o comportamento de indivíduos e sociedades já tinham percebido que alguns indivíduos religiosos acreditam ter algo assim como uma “licença moral”. Nesta situação comportamentos egoístas que levam a atitudes intolerantes são liberados, algo do tipo, posso ser insensível já que estou falando em nome de Deus, e Deus deixou bem claro o que pode ou o que não pode. Matar em nome de deuses pode ser o exemplo extremo dessa licença, mas podemos encontrá-la em outras atitudes.
Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.
Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.
Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava.
Segundo os autores...
Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."
Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".
Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.
Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.
Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.
Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava.
Segundo os autores...
“Nossos resultados demonstram de forma robusta que as crianças de famílias que se identificam com uma das duas principais religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo) são menos altruístas do que as crianças de famílias não religiosas. Além disso, a relação negativa entre religiosidade, espiritualidade e altruísmo muda com a idade, com aquelas crianças com maior convívio religioso em seus lares apresentando as maiores correlações negativas.”.
Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."
Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".
Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.
-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015
-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010
sábado, 21 de junho de 2014
O dilema do homem gordo

(Por favor, leia tudo e vote ao final)
As redes sociais têm nos permitido confirmar algo que sempre soubemos: quanto os outros são imorais e como somos bons. Nesse pano de fundo de falta generalizada de ética, que tal uma pílula da moralidade? Algo que torne as pessoas assim, boas como nós. Será que algum dia a ciência inventará algo parecido? Isso é possível? Sim e não. Por quê? Bom, em parte porque a resposta para dilemas morais pode ser também sim e não.
As redes sociais têm nos permitido confirmar algo que sempre soubemos: quanto os outros são imorais e como somos bons. Nesse pano de fundo de falta generalizada de ética, que tal uma pílula da moralidade? Algo que torne as pessoas assim, boas como nós. Será que algum dia a ciência inventará algo parecido? Isso é possível? Sim e não. Por quê? Bom, em parte porque a resposta para dilemas morais pode ser também sim e não.
Decisões de conteúdo moral são complexas. Filósofos têm estudado esse tema por séculos e agora os neurocientistas começaram a mexer nesse vespeiro.
Mas vamos a um exemplo filosófico clássico (este é do tipo moral-pessoal e, como verão, anterior à existência do “Politicamente Correto”).
Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores (li no Facebook que foram amarrados aos trilhos por militantes do PT; se deu no FB deve ser verdade). Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?
Existem algumas variantes desse dilema e escolas filosóficas têm se dividido quanto à decisão final, influenciando inclusive os sistemas jurídicos. Os utilitaristas (ver Jeremy Bentham, 1748-1832) são favoráveis a decisões que produzam o melhor resultado final. Neste caso seriam favoráveis a empurrar o homem gordo já que isso salvaria cinco pessoas. Outros como Immanuel Kant (1724-1804) argumentam que algumas ações, como matar uma pessoa inocente, são absolutamente proibidas, assim, não aceitariam sacrificar a vida de um para salvar cinco.
Quando colocados ante esses dilemas indivíduos mentalmente saudáveis têm se dividido para um ou outro lado. Podemos assim quantificar aqueles que decidem uma coisa ou outra e correlacionar essa decisão com caraterísticas como idade, sexo, escolaridade, religião, nacionalidade, etc. Isto nos fornece parâmetros que podem ser analisados cientificamente. Mas pode a ciência palpitar sobre decisões que envolvem aspectos morais?
De novo, sim e não. De fato, não há nada na metodologia científica que nos permita saber se algo é ético ou não. Aspectos éticos são decididos por indivíduos e sociedades.
Por outro lado, decisões morais são decisões, e estas são produto –até que outras evidências surjam- da atividade do cérebro. Assim a decisão moral é produto da circuitaria cerebral, moldada pela genética, a evolução e a cultura.
Seriam então os conceitos éticos passíveis de manipulação mediante intervenção farmacológica? Uma droga poderia afetar sutilmente nossas decisões morais?
Agora a resposta é sim.
Em um estudo de 2010, pesquisadores analisaram a resposta de voluntários sadios ante dilemas morais como o descrito acima sob efeitos de citalopram, uma droga que aumenta a quantidade de serotonina no cérebro, e compararam os resultados com indivíduos que ingeriam placebo. Com mais serotonina, a decisão de empurrar o homem tornava-se mais condenável moralmente. Em outro estudo semelhante os pesquisadores testaram agora a droga lorazepam, um ansiolítico. Desta vez, a opção de empurrar tornava-se moralmente mais palatável.
Assim, como afirma a autora de um dos estudos, a pesquisadora Molly Crockett, algo parecido com a droga da moralidade pode já existir, mas o que não existe é uma unanimidade sobre o que é moralmente correto, pelo menos em determinadas circunstâncias. Pelos resultados destes experimentos, utilitaristas recomendariam o uso de lorazepam, mas os partidários de Kant o de citalopram. Claro, como as coisas não são nada claras a opção da droga da moralidade deve ficar, pelo menos por enquanto, no campo da ficção científica.
Cérebros criam cultura e culturas criam normativas éticas que, em teoria, estão aí para assegurar o convívio harmonioso dos grupos, permitindo por sua vez a sobrevivência dos indivíduos (ou dos cérebros?). Parece ser uma boa ideia, por enquanto, deixar para lá as informações que nos vem da neurociência, dados perturbadores que apontam que o livre-arbítrio pode não passar de um mito e nosso conceito de moralidade o resultado de um equilíbrio instável de neurotransmissores.
Parafraseando John Lennon, conhecimento pode ser uma arma quente, quente, quente.
Mas, qual a sua opinião sobre o dilema acima?
Caso tenha esquecido, aqui vai de novo.
Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores. Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?
Mas, qual a sua opinião sobre o dilema acima?
Caso tenha esquecido, aqui vai de novo.
Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores. Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?
Vote de 1 a 5, sendo que 1 significa "completamente inaceitável", e 5 "absolutamente justificável"
sexta-feira, 15 de março de 2013
Religiosidade, espiritualidade e ciência
Para aqueles que se preocupam com a laicidade do Estado, estes
dias têm sido perturbadores. Apesar da separação constitucional, grupos
religiosos avançam aceleradamente sobre a coisa pública não poupando nenhum dos
três poderes. Desta vez chegamos ao paradoxo de um deputado/pastor, mediante as
costumeiras armações político partidárias, ter sido eleito presidente da
Comissão de Direitos Humanos da Câmara. O fato não é absurdo por se tratar de
um pastor, é absurdo porque como cidadão expressou reiteradamente opiniões de
cunho homofóbico e racista, amparado numa visão literal da bíblia. Sua eleição
para presidir uma comissão como essa, que entre outras coisas deveria zelar
pelo respeito constitucional justamente aos grupos que ele ostensivamente
desmerece, me fez lembrar a imagem da raposa tomando conta do galinheiro.
O avanço religioso na esfera política não é, entretanto, um
problema apenas observado no Brasil. Se bem no Japão e Europa a influência religiosa
é cada vez menor na medida em que se caminha em direção à secularização do
estado, nos Estados Unidos grupos religiosos se organizam para impor a toda a
população uma agenda anticientífica e conservadora - algo muito semelhante ao
que ocorre no Brasil- que deveria ser optativa apenas para os fieis seguidores
desta ou aquela denominação religiosa.
Interessados em entender esse fenômeno, pesquisadores da
Universidade de Toronto (Canadá) realizaram um estudo tentando correlacionar os
conceitos de religiosidade (entendida aqui como a prática religiosa associada a
instituições bem estabelecidas e sustentada em rígidos sistemas de crenças, com
um incondicional respeito à tradição e à autoridade) e espiritualidade (prática
associada com uma experiência individual subjetiva do sagrado e com limites
entre o indivíduo e o mundo menos rigidamente definidos), com comportamentos considerados
de direita (conservadores) ou de esquerda (liberais).
O estudo foi realizado numa amostra de mais de 1200
indivíduos, canadenses e estadunidenses, onde mediante questionários
padronizados foi possível identificar sua posição religiosa, perfil psicológico
e opção política.
Os autores observaram que quanto mais forte o nível de
religiosidade, maior o conservadorismo e apoio a ideologias do tipo “nós contra
eles”. Já aqueles com um perfil “espiritualizado” demonstraram tendências liberalizantes, provavelmente devido a uma visão mais abrangente da sua posição no
mundo e sua conexão com ele.
A segunda parte do experimento tentou verificar se
experiências espirituais poderiam de alguma forma reverter posturas mais
conservadoras e menos igualitárias. Para isto, os participantes realizaram um
exercício guiado de meditação, mediante a visualização de um vídeo de quatro
minutos onde foi solicitado que fechassem os olhos, respirassem profundamente e
se imaginassem conectados a um ambiente natural. Posteriormente responderam um
questionário que avaliou suas atitudes políticas. O grupo controle respondeu
o mesmo questionário sem o exercício meditativo.
Os resultados mostraram que os participantes da meditação apresentaram
uma postura bem mais liberal e solidária que os participantes do grupo
controle, mesmo aqueles que inicialmente tinham mostrado um perfil
religioso/conservador.
O estudo dá alguns indícios importantes sobre como a
incorporação pouco crítica de conceitos religiosos, fenômeno que se observa
naqueles que possuem uma visão literal dos livros sagrados e que parece ser o caso do
pastor/deputado- leva a posturas políticas conservadoras e intolerantes. Estudos anteriores já tinham evidenciado que a consolidação (priming) de conceitos
religiosos poderia aumentar prejuízos raciais, o que está também associado com
o conservadorismo político.
Ao mesmo tempo, o estudo oferece indícios sobre como
experiências cognitivas específicas, como a meditação, podem ser capazes de
alterar padrões comportamentais já bastante arraigados. De fato, a mudança para
uma postura mais liberal apresentada pelos voluntários religiosos/conservadores
após a realização da prática meditativa indica que, quem sabe, possa existir
uma luz no fim do túnel da intolerância religiosa.
Resta saber se os intolerantes estão dispostos a seguir esse
caminho.
Fonte:
Spiritual Liberals and Religious Conservatives. Hirsh, JB e cols; Social
Psychological and Personality Science; 4: 14, 2013
Apenas uma observação que não coube na versão impressa. No texto original do artigo citado nesta postagem, os autores mencionam esta definição de “espiritualidade”...
Assim, de acordo com os autores citados, o conceito de espiritualidade está atrelado a uma visão mística da realidade. Discordo, e o faço colocando aqui um trecho do grande Carl:
Apenas uma observação que não coube na versão impressa. No texto original do artigo citado nesta postagem, os autores mencionam esta definição de “espiritualidade”...
“... Conversely, spirituality is associated with the experience of self-transcendence described in mystical traditions, where the boundaries between the self and the world become less rigidly defined (Hood, 1975; Spilka, Hood, Hunsberger, & Gorsuch, 2003).”
Assim, de acordo com os autores citados, o conceito de espiritualidade está atrelado a uma visão mística da realidade. Discordo, e o faço colocando aqui um trecho do grande Carl:
" “Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra.
A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King.
A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas."
Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios.
(Se precisar, ative a legenda. Vale a pena.)
"We Are All Connected" was made from sampling Carl Sagan's Cosmos, The History Channel's Universe series, Richard Feynman's 1983 interviews, Neil deGrasse Tyson's cosmic sermon, and Bill Nye's Eyes of Nye Series, plus added visuals from The Elegant Universe (NOVA), Stephen Hawking's Universe, Cosmos, the Powers of 10, and more. It is a tribute to great minds of science, intended to spread scientific knowledge and philosophy through the medium of music.
sábado, 18 de agosto de 2012
A boa vida dos bonobos (e o que eles podem nos ensinar)
![]() |
| Sexo bonobo. Fotografia extraída do site da pesquisadora Vanessa Woods. |
Como muitos já leram por aí, é enorme a semelhança genética que mantemos com esses primos. Compartilhamos com alguns deles 98,7% do nosso DNA.
Para mim sempre foi fascinante a história que esses dados genéticos e os associados ao estudo do seu comportamento nos contam sobre o que somos, sobre a forma como agimos e pensamos. E analisando tudo isso alguns pesquisadores chegaram a questionar, provocativamente, se nós humanos não tomamos o caminho errado em nossa caminhada evolutiva.
Essa constatação surge quando analisamos a forma como os grandes primatas nos relacionamos, como lidamos com nossos conflitos, como tratamos aquilo que nos dá prazer. Em todos esses quesitos, os bonobos dão um banho de sabedoria e bom viver no restante da família símia. Já escrevemos sobre o assunto nesta coluna quando tratamos da história evolutiva do pênis.
Mas qual a grande diferença entre animais tão semelhantes? Bom, evidentemente nosso cérebro, graças provavelmente a algumas mutações em genes responsáveis pela organização neural, deu o pulo cognitivo que podemos hoje testemunhar e estudar. Mas em termos de relacionamento, não diferimos muito dos gorilas e dos agressivos chimpanzés. Somos proclives à violência, à territorialidade, ao rapto, ao estupro, à guerra, à submissão pela força, mesmo compartilhando estruturas cerebrais que nos permitem ter empatia. Criamos uma sociedade competitiva, estressante e machista, que costuma associar prazer com algo ruim e pecaminoso. Tudo o contrário da forma “bonoba” de viver a vida.
Um dos maiores estudiosos do comportamento desses primatas, o holandês Frans de Waal, associou definitivamente os bonobos com a expressão “faça amor, não faça a guerra”. Ao comparar os bonobos com seus quase irmãos chimpanzés (os bonobos são também conhecidos como chimpanzés-anões) observou que “enquanto chimpanzés usam violência para obter sexo, bonobos usam o sexo para evitar a violência”.
Mas o que diferencia realmente os bonobos do resto dos grandes macacos? A principal diferença parece estar em que entre eles, e só entre eles, as fêmeas assumiram o comando, e criaram uma sociedade pacífica onde a guerra não existe e o sexo é tão comum quanto um amistoso aperto de mãos. Promíscuo? Sim, talvez, mas pelas evidências que temos todos os primatas somos. E os bonobos parecem ter descoberto que entre a promiscuidade e a violência a primeira é infinitamente melhor.
Tudo o que diz respeito à forma como os bonobos se organizam em sociedade é digno de ser estudado. Eles levaram o sexo a um patamar superior aos dos outros mamíferos. Na quase totalidade do reino animal, o objetivo do sexo é a procriação, e o prazer que ele proporciona apenas uma recompensa química para que os animais procriem e perpetuem a espécie. Já os humanos modernos utilizamos o sexo de forma fundamentalmente recreativa, para obter um prazer individual ou a dois. Ao que parece, os bonobos transcendem esse limite e utilizam o sexo para criar laços sociais baseados no companheirismo, na camaradagem e na colaboração, conforme pode ser observado nos textos de Frans de Waal e nos vídeos indicados ao final deste post.
Infelizmente, seus primos humanos estão conseguindo a proeza de eliminar essa espécie, hoje resumida a uns 10.000 indivíduos sobrevivendo em um único país: a República Democrática do Congo, na África. Caso consigamos a humana façanha de acabar com eles, não teremos mais condições de estudar animais que aprenderam a resolver seus problemas com níveis mínimos de violência, animais que parecem possuir o que há de melhor em nós mesmos.
O que os bonobos podem nos ensinar sobre amor e sexo?
Os estudos de Frans de Waal e de outros que se debruçaram para entender a organização social destes primos tão particulares, alimentaram uma série de artigos e livros sobre a vida dos bonobos e sua relação com nossa própria organização social e sexualidade. Um dos mais lidos atualmente é “Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality”, de Christopher Ryan e Cacilda Jethá (sem tradução ao português, mas sim em espanhol: “En el principio era el sexo”).
Recentemente, a neurocientista e editora do Huffington Post, Cara Santa Maria, solicitou a Christopher Ryan, em ocasião do dia dos namorados, que este citasse sete dicas que os bonobos poderiam nos dar sobre amor e sexo. Quem quiser ler o original em inglês pode clicar no link acima.
Aqui vai uma tradução aproximada:
1. Mais sexo = menos conflito. Como o grande primatologista Frans de Waal comenta "chimpanzés usam violência para conseguir sexo, enquanto os bonobos usam o sexo para evitar a violência." Enquanto os chimpanzés se maltratam de várias formas (guerras, estupro, homicídio, infanticídio, etc.) nunca houve um único caso observado de qualquer uma dessas formas de agressão entre os bonobos, que são muito mais sexy que os chimpanzés. Como James Prescott demonstra em uma meta-análise com todos os dados antropológicos disponíveis, a conexão entre sexualidade menos restritiva e menos conflitos geralmente vale também para as sociedades humanas.
2. O feminismo pode ser muito sexy. Quando as fêmeas estão no comando, todo mundo vive melhor (incluindo os machos). Ao contrário dos chimpanzés, onde os machos dão as cartas, entre os bonobos são elas que mandam, com muito melhor qualidade de vida para todos os envolvidos (ver item 1).
3. Irmandade feminina é poderosa. Embora bonobos fêmeas sejam cerca de 20% menores que os machos – relação semelhante à observada entre chimpanzés e seres humanos- elas dominam os machos mediante sua união. Se um macho sair da linha e perturbar uma fêmea, TODAS as outras se unirão contra ele. Esta solidariedade fraternal, combinada com muito sexo, tende a manter os machos se comportando educadamente.
4. Ciúme não é romântico. Embora bonobos sejam capazes de sentir sentimentos direcionados especificamente a um indivíduo, eles não se preocupam muito em controlar a vida sexual do seu parceiro. Nem parece gostarem de fofocas...
5. Ha promessa de promiscuidade. Todo o sexo casual entre bonobos é sem dúvida uma grande parte do que os colocou entre os mais inteligentes de todos os primatas. Até os humanos chegarem para estragar festa, bonobos desfrutavam muito com sua qualidade de vida, baixos níveis de estresse, e grande interação social. Na verdade, das muitas espécies de primatas sociais que vivem em grupos compostos de muitos machos, não existe uma única espécie sexualmente monógama. Os mamíferos mais inteligentes - humanos, chimpanzés, bonobos e golfinhos- são promíscuos.
6. O bom sexo não precisa incluir sempre um orgasmo, e sexo "casual" não significa necessariamente "vazio" ou "barato". A maioria das interações sexuais entre bonobos não são nada mais do que uma sensação rápida, uma bolinação, uma penetração, um “aperto de mãos bonobo”, conforme narra Vanessa Woods em seu ótimo livro. Mas os bonobos são muito românticos: como os seres humanos, eles se beijam, seguram as mãos (e os pés!), e olham nos olhos um do outro enquanto fazem sexo.
7. Pelo menos para os bonobos, sexo e comida combinam melhor que sexo e casamento. Nada incentiva mais o início de uma orgia bonoba do que um banquete. Dê a um grupo de bonobos uma boa refeição e eles partirão para um sexo rápido antes de compartilhar educadamente a comida. Não há necessidade de partir para a briga sobre os restos como um grosseiro bando de chimpanzés!
Quem quiser assistir vídeos sobre a vida dos bonobos, recomendamos o site da pesquisadora Vanessa Woods: http://www.bonobohandshake.com/
Sobre a organização social dos primatas (incluindo os humanos) recomendo o ótimo "Eu, primata. - Por que somos como somos" de Frans de Waal.
O que os bonobos podem nos ensinar sobre amor e sexo?
Os estudos de Frans de Waal e de outros que se debruçaram para entender a organização social destes primos tão particulares, alimentaram uma série de artigos e livros sobre a vida dos bonobos e sua relação com nossa própria organização social e sexualidade. Um dos mais lidos atualmente é “Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality”, de Christopher Ryan e Cacilda Jethá (sem tradução ao português, mas sim em espanhol: “En el principio era el sexo”).
Recentemente, a neurocientista e editora do Huffington Post, Cara Santa Maria, solicitou a Christopher Ryan, em ocasião do dia dos namorados, que este citasse sete dicas que os bonobos poderiam nos dar sobre amor e sexo. Quem quiser ler o original em inglês pode clicar no link acima.
Aqui vai uma tradução aproximada:
1. Mais sexo = menos conflito. Como o grande primatologista Frans de Waal comenta "chimpanzés usam violência para conseguir sexo, enquanto os bonobos usam o sexo para evitar a violência." Enquanto os chimpanzés se maltratam de várias formas (guerras, estupro, homicídio, infanticídio, etc.) nunca houve um único caso observado de qualquer uma dessas formas de agressão entre os bonobos, que são muito mais sexy que os chimpanzés. Como James Prescott demonstra em uma meta-análise com todos os dados antropológicos disponíveis, a conexão entre sexualidade menos restritiva e menos conflitos geralmente vale também para as sociedades humanas.
2. O feminismo pode ser muito sexy. Quando as fêmeas estão no comando, todo mundo vive melhor (incluindo os machos). Ao contrário dos chimpanzés, onde os machos dão as cartas, entre os bonobos são elas que mandam, com muito melhor qualidade de vida para todos os envolvidos (ver item 1).
3. Irmandade feminina é poderosa. Embora bonobos fêmeas sejam cerca de 20% menores que os machos – relação semelhante à observada entre chimpanzés e seres humanos- elas dominam os machos mediante sua união. Se um macho sair da linha e perturbar uma fêmea, TODAS as outras se unirão contra ele. Esta solidariedade fraternal, combinada com muito sexo, tende a manter os machos se comportando educadamente.
4. Ciúme não é romântico. Embora bonobos sejam capazes de sentir sentimentos direcionados especificamente a um indivíduo, eles não se preocupam muito em controlar a vida sexual do seu parceiro. Nem parece gostarem de fofocas...
5. Ha promessa de promiscuidade. Todo o sexo casual entre bonobos é sem dúvida uma grande parte do que os colocou entre os mais inteligentes de todos os primatas. Até os humanos chegarem para estragar festa, bonobos desfrutavam muito com sua qualidade de vida, baixos níveis de estresse, e grande interação social. Na verdade, das muitas espécies de primatas sociais que vivem em grupos compostos de muitos machos, não existe uma única espécie sexualmente monógama. Os mamíferos mais inteligentes - humanos, chimpanzés, bonobos e golfinhos- são promíscuos.
6. O bom sexo não precisa incluir sempre um orgasmo, e sexo "casual" não significa necessariamente "vazio" ou "barato". A maioria das interações sexuais entre bonobos não são nada mais do que uma sensação rápida, uma bolinação, uma penetração, um “aperto de mãos bonobo”, conforme narra Vanessa Woods em seu ótimo livro. Mas os bonobos são muito românticos: como os seres humanos, eles se beijam, seguram as mãos (e os pés!), e olham nos olhos um do outro enquanto fazem sexo.
7. Pelo menos para os bonobos, sexo e comida combinam melhor que sexo e casamento. Nada incentiva mais o início de uma orgia bonoba do que um banquete. Dê a um grupo de bonobos uma boa refeição e eles partirão para um sexo rápido antes de compartilhar educadamente a comida. Não há necessidade de partir para a briga sobre os restos como um grosseiro bando de chimpanzés!
Quem quiser assistir vídeos sobre a vida dos bonobos, recomendamos o site da pesquisadora Vanessa Woods: http://www.bonobohandshake.com/
Sobre a organização social dos primatas (incluindo os humanos) recomendo o ótimo "Eu, primata. - Por que somos como somos" de Frans de Waal.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
VS Ramachandran: Os neurônios que moldaram a civilização
Aos visitantes do blog da Coluna Ciência: começamos a disponibilizar aqui todos os vídeos da TED sobre cérebro (por enquanto), com legendas em português.
Desfrutem!!!!
Neste vídeo "O neurocientista Vilayanur Ramachandran delineia as fascinantes funções dos neurônios-espelho. Descobertos recentemente, esses neurônios nos permitem aprender comportamentos sociais complexos, alguns dos quais constituíram os fundamentos da civilização humana como nós a conhecemos."
Desfrutem!!!!
Neste vídeo "O neurocientista Vilayanur Ramachandran delineia as fascinantes funções dos neurônios-espelho. Descobertos recentemente, esses neurônios nos permitem aprender comportamentos sociais complexos, alguns dos quais constituíram os fundamentos da civilização humana como nós a conhecemos."
Assinar:
Postagens (Atom)




