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sábado, 14 de novembro de 2015

Crianças não religiosas são mais generosas

Dia 03/11, a notícia:


Pai se mata após filho de 4 anos morrer picado por escorpião

Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:

“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.” 

“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”


 “Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"


“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.” 


 “que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude” 


 “acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!” 


 “Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.” 


 “a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar” 


 “A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...” 


 “Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .” 


 “Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”



Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.

Mas como essa capacidade pode ser perdida? A partir de que momento da nossa vida? Comentários tão pouco empáticos como os colocados acima podem nos dar algumas pistas. É possível observar, por exemplo, que quase todos têm algo em comum. Deuses e religiões são a toda hora invocados. Pesquisadores que analisam o efeito do pensamento religioso sobre o comportamento de indivíduos e sociedades já tinham percebido que alguns indivíduos religiosos acreditam ter algo assim como uma “licença moral”. Nesta situação comportamentos egoístas que levam a atitudes intolerantes são liberados, algo do tipo, posso ser insensível já que estou falando em nome de Deus, e Deus deixou bem claro o que pode ou o que não pode. Matar em nome de deuses pode ser o exemplo extremo dessa licença, mas podemos encontrá-la em outras atitudes.

Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.

Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.

Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava. 


Segundo os autores...


“Nossos resultados demonstram de forma robusta que as crianças de famílias que se identificam com uma das duas principais religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo) são menos altruístas do que as crianças de famílias não religiosas. Além disso, a relação negativa entre religiosidade, espiritualidade e altruísmo muda com a idade, com aquelas crianças com maior convívio religioso em seus lares apresentando as maiores correlações negativas.”.

Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."

Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".

Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.

Fontes:

-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015


-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010



sábado, 19 de julho de 2014

Choro e raça. A neurobiologia por trás da derrota.

"Não entendo por que um jogador de futebol chora, brasileiros sempre choram. Toca o hino, choram; eliminam o Chile, choram; perdem para a Alemanha, choram. Eles têm que mostrar que são homens e são fortes. Nunca vi nada tão nefasto como a linguagem corporal dessa equipe.".

Não, o chatíssimo comentário acima não é de um argentino provocador ou de algum uruguaio mordedor. É de um alemão, Lothar Matthäus, um desses alemães que agora reverenciamos num misto de admiração e umas pitadas de síndrome de Copenhague.

Muito do que eu teria que dizer aqui já foi mencionado por outros, fundamentalmente depois das cenas presenciadas após o jogo contra o Chile, imagens de descontrole emocional que se alguém pensou que tinha sido superado no jogo contra Colômbia reapareceu infelizmente no início do jogo contra Alemanha, e que levou –algo “Nunca antes na História deste País” - a que tomássemos sei lá quantos gols em quinze minutos.

O futebol como qualquer esporte de competição objetiva vencer, obedecendo claro regras bem determinadas. E vencer pressupõe também derrotar o adversário. Assim, é necessário potencializar todas as capacidades que levem à superação individual, tanto físicas quanto psicológicas, mas também neutralizar as capacidades do rival (ou como dizem, evitar que o rival “goste do jogo”).

Voltemos então ao choro. Por que ele atrapalha numa competição? Para entender todo este processo precisaríamos detalhar como nosso cérebro processa as emoções, como este processamento interfere na resposta física, como nosso cérebro diferencia desafio de ameaça. É muita coisa para abordar aqui, mas posso afirmar que já avançamos muito na compreensão desses fenômenos e este conhecimento deveria fazer parte da preparação dos atletas.

Sabemos que situações que levam à tristeza, medo, felicidade, etc., são processadas pelo cérebro e este coordena respostas físicas na forma de contração muscular e secreção glandular. A resposta de contração muscular determina nossa postura corporal e nossas expressões faciais. Assim, nosso corpo e nossa face mostram felicidade quando estamos felizes, tristeza quando estamos tristes, medo quando algo nos ameaça, raiva, etc., reações que podem ser “lidas” pelos outros. É uma forma de linguagem não verbal que permite que comuniquemos nossos estados de ânimo, algo que compartilhamos com quase todos os animais.

Ao mesmo tempo, também descobrimos que além desse caminho cérebro-corpo existe o caminho contrário, desde nosso corpo em direção ao cérebro. Este está constantemente recebendo informações somáticas e reagindo de acordo com elas. Em um experimento hoje já clássico, foi solicitado que voluntários avaliassem quão engraçado era um desenho animado. À metade dos voluntários foi solicitado que previamente segurassem um lápis entre os dentes, o que resultava numa expressão facial semelhante à que fazemos quando sorrimos (ver figura abaixo). Como resultado, aqueles que tinham mordido o lápis acabaram encontrando o desenho animado mais engraçado que o grupo controle. Muitos experimentos depois, hoje sabemos que se adotamos uma postura corporal e facial de tristeza, raiva, felicidade, medo, etc., ela acaba influenciando nossas emoções mesmo que não exista nenhum fato real que as cause (os atores que o digam).




De acordo com a hipótese do feedback facial, a contração muscular
 resultante de "forçar" o sorriso como no exemplo acima,
 ativa redes neurais que geram uma melhora no humor e uma percepção
mas positiva do entorno (Strack, F. e cols, 1988).

Voltando ao jogo, como o cérebro dos jogadores estava lendo sua expressão corporal e facial desde o momento do hino? Eles tinham um aspecto de desafio ou ameaça? A diferença é fundamental. A ameaça decorre quando as demandas são percebidas como superando nossas reais capacidades. Já o desafio resulta quando achamos que nossas capacidades são suficientes para superar as demandas.

Acho que aqui não há muita dúvida. Se do lado de fora tínhamos a impressão que nossos jogadores estavam inseguros (reagindo mais a uma ameaça que a um desafio), “pelo lado de dentro” o cérebro de cada um deles estava interpretando da mesma forma. A consequência disto? Entre outras, fisiológica. Alguns estudos indicam que a
 ameaça aumenta os batimentos cardíacos sem diminuir a resistência vascular, o que leva a um aumento da pressão arterial e uma mobilização pouco eficiente de energia para responder às demandas (no desafio também ocorre aumento dos batimentos mas há uma menor resistência vascular, o que leva a uma utilização energética mais eficiente). Como se fosse pouco, o cérebro dos adversários também estava lendo a atitude dos nossos jogadores, o que os tornava assim cada vez menos ameaçadores. Se atravessando esta situação é possível ainda vencer rivais menos capacitados técnica ou taticamente, ao enfrentar rivais tão bons ou melhores estaremos dando um handicap muito importante.

Em tempo, não concordo com a frase lá de cima do Lothar Matthäus. Nem sempre os jogadores brasileiros choram. Em 1994 decidimos uma final nos pênaltis. Não lembro do Dunga, Branco, Romário & cia. chorarem. Se isto está acontecendo com a geração atual, temos que nos perguntar por quê.

-Social "facilitation" as challenge and threat. Blascovich J. e cols., J. Pers. Soc. Psychol. 1999


Inhibiting and facilitating conditions of the human smile: a nonobtrusive test of the facial feedback hypothesis. Strack F e cols., J Pers Soc Psychol. 1988 May;54(5):768-77.

-Self-attribution of emotion: the effects of expressive behavior on the quality of emotional experience. Laird, J. J. Pers. Soc. Psychol. 1974

segunda-feira, 9 de julho de 2012

VS Ramachandran: Os neurônios que moldaram a civilização

Aos visitantes do blog da Coluna Ciência: começamos a disponibilizar aqui todos os vídeos da TED sobre cérebro (por enquanto), com legendas em português.
Desfrutem!!!!


Neste vídeo "O neurocientista Vilayanur Ramachandran delineia as fascinantes funções dos neurônios-espelho. Descobertos recentemente, esses neurônios nos permitem aprender comportamentos sociais complexos, alguns dos quais constituíram os fundamentos da civilização humana como nós a conhecemos."



sábado, 23 de julho de 2011

O que o Botox também esconde

Botox (à direita) altera a capacidade de nos comunicar
através das expressões faciais.
Imagem: http://drtakhar.com/cosmetic/botox-cambridge.php
Provavelmente muitos já sabem que Botox é o nome comercial de um cosmético à base de toxina botulínica (TB). Esta toxina entra na classe das neurotoxinas por agir diretamente no sistema nervoso. É produzida por uma bactéria, a Clostridium botulinum, e considerada a neurotoxina mais letal que se tem notícia. A TB impede que os nervos se comuniquem com os músculos de nosso corpo, de forma que estes ficam paralisados.

A TB pode ser ingerida acidentalmente em alimentos mal conservados, mas pode também entrar em nosso organismo através de feridas acidentais ou propositalmente causadas, como nos tratamentos estéticos. Em casos graves a TB provoca botulismo, que chega a ser fatal quando os músculos responsáveis pela respiração –como o músculo diafragma- são também paralisados.

A utilização da TB com finalidade estética é relativamente recente. Ao final da década de 1960 foi utilizada para tratamento não cirúrgico do estrabismo e outras condições onde era necessário diminuir a atividade de alguns músculos anormalmente contraídos. Só no início da década de 1990 é que começou a ser utilizada com finalidade cosmética.

A lógica da utilização do botox para eliminar rugas e linhas de expressão é bastante simples. Nossas expressões faciais são causadas pela contração de um conjunto de aproximadamente 20 músculos muito finos e superficiais, denominados em conjunto músculos mímicos ou da expressão facial. Cada vez que um deles se contrai movimenta a pele e forma uma ruga que é geralmente perpendicular à direção do músculo. 



A formação de rugas na fronte nesta expressão de surpresa ou espanto
 se deve à contração do músculo occipitofrontal.


Por exemplo, ao fazer cara de espanto e abrir exageradamente os olhos, contraímos o músculo occipitofrontal e com isto formam-se rugas horizontais em nossa fronte. Com o passar do tempo e o envelhecimento da pele, essas linhas de expressão vão se tornando mais pronunciadas até formarem uma marca permanente. Quando aplicamos botox sobre o músculo que provoca a ruga, este fica paralisado e em poucos dias a pele localizada sobre ele, lisa.



Sob a pele, mais de 20 músculos controlam nossa expressão facial


Como consequência colateral e lógica, sob a ação do botox perdemos parte da capacidade de nos expressar através da nossa face. Em poucas agulhadas eliminamos um processo de comunicação não verbal que a evolução levou milhões de anos para aperfeiçoar.

Alguns pesquisadores suspeitaram que esse atentado à nossa capacidade de nos comunicar poderia ter outras consequências. E parece que as suspeitas estão se confirmando.

Nesta coluna já escrevemos sobre a empatia, a habilidade que os primatas possuímos de nos colocar no lugar dos outros para entender e sentir o que os outros estão sentindo. Para isso utilizamos circuitos neuronais capazes de gerar tristeza, alegria ou sofrimento quando percebemos nosso interlocutor nessas condições. Em parte esses circuitos são acionados por um tipo muito particular de neurônio, os neurônios espelho, mas parece existir outros mecanismos.

Quando vemos a expressão de tristeza na face de nosso colega, quase de forma imperceptível reproduzimos inconscientemente essa expressão facial em nosso próprio rosto. Quando o fazemos, nosso cérebro “lê” essa expressão mediante mecanismos proprioceptivos e circuitos relacionados com a tristeza são disparados.

Com esse fato em mente, pesquisadores se perguntaram o que acontece com os circuitos empáticos quando não podemos reproduzir as expressões faciais que observamos nos outros. Para isto compararam dois grupos de pacientes. Um tinha feito tratamento estético com botox e outro apenas preenchimento de rugas (Restylane) sem botox, de forma que seu rosto não ficou paralisado. Foram exibidas então fotografias de pessoas com diferentes expressões. Os pesquisadores observaram que os pacientes tratados com botox tinham diminuído sua capacidade de reconhecer as expressões nas fotografias em relação ao grupo “Restylane”.

Que fica difícil reconhecer sentimentos em um rosto semiparalisado por botox é algo que muitos já tiveram oportunidade de observar. Mas que o usuário de botox não consiga entender a expressão facial dos outros - e é isso que este estudo indica-, é bem menos óbvio.

Agora os autores querem averiguar como essa consequência adicional do botox interfere na vida conjugal. Se quem usa Botox não consegue perceber o que seu parceiro está sentindo, isso poderia gerar algum tipo conflito? Particularmente, acho um certo exagero por parte dos pesquisadores. Como vimos, há mais de um mecanismo para ativar esses circuitos e “sentir na pele” o que o outro está sentindo. Em nosso dia a dia não criamos empatia pela análise de fotografias –como no estudo- e sim por uma quantidade bem maior de elementos de comunicação verbal e não verbal.

Se bem o experimento inicial reforça a importância dos circuitos empáticos, estender o alcance das suas conclusões para o mundo dos relacionamentos reais exige cuidados especiais. Caso contrário o novo estudo poderá ser sério candidato ao prêmio IgNobel


Fonte: Embodied Emotion Perception: Amplifying and Dampening Facial Feedback Modulates Emotion Perception Accuracy. Neal, DT e Chartrand TL. Social Psychological & Personality Science, April 21, 2011, doi: 10.1177/1948550611406138

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O dia em que Elliot deixou de sentir

Uma das mais influentes e provocativas teorias que tenta explicar como nosso cérebro toma decisões – a teoria do marcador somático- foi proposta nos anos 90 pelo neurocientista português Antônio Damásio. Já falamos sobre ela nesta coluna. Dizer que é o cérebro quem tomas as decisões já é em si uma provocação. Se é essa massa gelatinosa quem decide, onde está nosso livre arbítrio? De fato, para a enorme maioria dos neurocientistas que estudam cognição e comportamento, o livre arbítrio é mais uma invenção de nosso cérebro. Mas essa é outra história. 


Damásio ficara fascinado com o caso de Phineas Gage, aquele trabalhador das estradas de ferro dos Estados Unidos que em 1848 teve seu crânio atravessado por uma barra metálica de um metro e meio de comprimento e sobreviveu para contar a história. Os relatos sobre a vida de Phineas posteriores ao acidente mostram que embora ele parecesse uma pessoa normal sua capacidade de tomar a decisão correta em cada situação tinha sido destruída junto com seus lobos frontais
Mas de Phineas só tinha sobrado o crânio e embora fosse possível reconstruir o trajeto da barra, Damásio não poderia ter certeza quanto do cérebro o acidente havia destruído. E aí entra Elliot e sua peculiar história. 


Elliot era um jovem com seus trinta e poucos anos. Bem sucedido profissionalmente, inteligente, e de fácil relacionamento. Já na sua lua de mel começara a sentir fortes dores de cabeça. Como estas aumentaram decidiu consultar o médico e os exames confirmaram a existência de um meningeoma, um tumor benigno que se forma nas membranas que envolvem o cérebro. O tumor crescera já do tamanho de uma pequena laranja e embora benigno comprimia a parte do cérebro que fica sobre as órbitas. Aquela mesma região que tinha sido destruída pela barra de ferro em Phineas Gage. Caso não operasse, a compressão do cérebro acabaria provocando a morte.

A cirurgia para remoção do tumor foi bem sucedida, mas boa parte do córtex cerebral próximo ao tumor foi danificada. Testes realizados após a cirurgia não revelaram nenhum problema com Elliot. Inteligência acima da média, ótima memória, linguagem fluente. Mas a partir da cirurgia sua vida se transformou em um verdadeiro caos. Antes extremamente prático na hora de lidar com seu trabalho, agora ficava horas concentrado em detalhes irrelevantes. Decisões simples como marcar um encontro com um cliente terminavam com a desistência deste último ante tantos prós e contras que Elliot encontrava para cada possibilidade de horário e local. Escolher entre uma caneta azul ou vermelha podia demandar horas nas quais as diversas possibilidades de usar azul ou vermelho eram pormenorizadamente analisadas. Decidir tinha se tornado uma missão quase impossível. 



Em vermelho, córtex pré-frontal ventromedial, região que participa no processo de tomada de decisão, danificada  após a cirurgia em Elliot.


Não é de estranhar que em pouco tempo, apesar da sua inteligência, Elliot perdera o emprego. Contrariando a opinião de todos seus amigos e familiares entrou em negócios de altíssimo risco, com péssimos resultados. Abandonado pela esposa casou e divorciou mais duas vezes. Mas o golpe final veio quando a Previdência Social se negou renovar seu auxílio invalidez. Não parecia haver de fato nada de “inválido” em Elliot, tudo pelo contrário.

Foi nesse momento que Damásio foi chamado. 
Embora os testes realizados até esse momento não tivessem indicado nenhuma anormalidade, Damásio notou ao entrevistar Elliot que este reagia aos seus problemas como se fossem de uma pessoa à qual ele não dava a menor importância. “Eu não enxerguei sequer um toque de emoção em várias horas de conversa com ele: nenhuma tristeza, nenhuma impaciência, nenhuma frustração com minhas perguntas incessantes e repetitivas.” 

Resposta de pacientes com lesão no córtex pré-frontal. O gráfico mostra alterações na condutância elétrica da pele, que se altera quando experimentamos emoções. Observar que em indivíduos normais (linha contínua) há picos cada vez que eles observam imagens fortes como a do indivíduo ferido (E) e a resposta diminui ao ver imagens neutras (N) como a paisagem da figura. Já em pacientes com lesão no córtex pré-frontal (linha tracejada), a resposta não se altera, indicando falta de resposta emocional (Gazzaniga e cols., 2002).
Ao ser confrontado com imagens perturbadoras como corpos mutilados, tabus sexuais, imagens de violência explícita - o que em pessoas normais provoca alterações físicas de origem emocional como mudança da freqüência cardíaca e respiratória e aumento da transpiração- Elliot permanecia sem evidenciar alteração nenhuma. “Elliot não deixava de perceber sua falta de emoção. Ele dizia ter consciência que as fotos eram perturbadoras e que, antes da cirurgia, teria uma resposta emocional, mas agora não tinha nenhuma.” 

Para Damásio ficava claro que a lesão no cérebro tinha danificado o centro que fornece o valor emocional do mundo que nos rodeia. É essa informação emocional que ao longo de nossa vida vai “grudando” às decisões boas e ruins que tomamos. Quando estamos para decidir entre diversas opções e uma dessas decisões já tomadas –e marcadas- reaparece, sua “marca” emocional nos leva a afastá-la ou encorajá-la, muitas vezes de forma não consciente. Assim, a decisão mais “racional” e correta só é possível quando razão e emoção trabalham juntas. A razão é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato. 

Para Damásio, a dualidade cartesiana mente/corpo, razão/emoção desaparece. A mente é o resultado do funcionamento cerebral. É uma adaptação evolutiva que surge para melhorar nossas chances em satisfazer necessidades físicas e psicológicas. 


O “Penso, logo existo” de Descartes parece estar dando lugar ao “Existo, logo penso” da moderna neurociência.


Onde ler mais:
Neurociência Cognitiva, Gazzaniga e cols., 2002, Editora Artmed
O Erro de Descartes, Antônio Damásio, Companhia das Letras, 1996.