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sábado, 22 de abril de 2017

Imortais

Ao longo da história, a ideia da imortalidade tem sido a grande moeda de troca oferecida por quase todas as religiões. Além do amparo emocional para os problemas mundanos, a promessa que através delas conseguiremos escapar do fim inexorável -pelo menos no que diz respeito à sobrevivência da nossa alma ou espírito- tem sido o combustível mediante o qual diversas denominações religiosas sobrevivem e constroem sólidos impérios de dinheiro e poder.

Termos como alma ou espírito não são usados em ciência. O equivalente é a consciência autobiográfica, nosso eu ou self, essa parte do nosso ser que pensa, lembra, ama e odeia.

Pelo que sabemos (e estamos longe de saber tudo nessa área), essa é uma propriedade que emerge do funcionamento coordenado dos quase noventa bilhões de neurônios e as trilhões de sinapses que os conectam, formando redes neurais extremamente complexas. Se bem ainda não sabemos o que de fato a consciência é, sabemos que precisa desse substrato neural para existir, pelo menos da forma como a conhecemos. Se o modificamos, o que pode ser conseguido com o uso de drogas entre outras formas, a consciência se modifica. Se “desligamos” o cérebro a consciência desliga junto e esse desligar é proporcional ao que acontece no cérebro. Se o cérebro adoece a consciência deteriora. Desde a perspectiva científica nada indica que ao morrer o cérebro, ela sobreviva.

Isto não quer dizer que cientistas também não investiguem algo parecido com a imortalidade. Mas como nosso corpo um dia morrerá -destino natural que compartilhamos com todas as criaturas do planeta- como fazer para que o self sobreviva à morte do substrato biológico que o cria e mantém?

Aqui entram estudos de uma área da ciência denominada neurociência computacional. Entre seus objetivos -para lá de ambiciosos-, está tentar escanear e digitalizar todas as informações do cérebro de um indivíduo, toda a informação gerada pelos bilhões de neurônios junto com suas sinapses. Isto seria feito mediante tecnologias já existentes -como nano-robôs- e outras ainda em desenvolvimento. Com essa varredura seria construído um modelo computacional das redes neurais originais. Finalmente, este modelo rodaria em um substrato que não é mais orgânico, não é mais cérebro, é hardware. Um computador que emularia nossa consciência (para detalhes, ver aqui).

Caso consigam (e eles estimam que algo parecido com isto poderia já estar acontecendo na década de 2030) , será o evento mais notável na história da nossa espécie. Todo nosso conceito de individualidade teria que ser revisto. Versões do nosso eu poderiam estar rodando simultaneamente em diversas interfaces, criando situações impensáveis. Nossa noção de mente atrelada a um corpo deveria ser substituída pelo conceito de liberdade morfológica, já que poderíamos ter qualquer forma.

E claro, muito mais. Quem está familiarizado com a obra do escritor britânico Arthur C. Clarke e seus sucessores notará que qualquer semelhança não é mera coincidência.

(Para uma ótima reportagem publicada no The Guardian sobre este assunto, clique aqui)


sábado, 8 de abril de 2017

O neuronegócio

Recentemente duas das principais empresas norte-americanas do ramo da autodenominada “ginástica cerebral” (donas dos programas Lumosity e LearningRx) foram processadas pela Comissão de Comércio dos Estados Unidos (FTC). A acusação, basicamente prometer o que de fato não poderiam cumprir. De acordo com a FTC as empresas "aproveitavam o medo dos consumidores sobre o declínio cognitivo relacionado à idade, sugerindo que seus produtos poderiam evitar a perda de memória, demência e até mesmo o mal de Alzheimer ", sem oferecer base científica conclusiva para respaldar suas afirmações.

O termo “ginástica cognitiva” -ou treinamento cerebral- baseia-se na hipótese de que as habilidades cognitivas podem ser melhoradas mediante exercícios específicos para o cérebro, de uma forma semelhante ao que ocorre com a capacidade física quando praticamos esportes regularmente.

Entretanto, em uma recente revisão sobre o assunto que analisou mais de 130 trabalhos científicos, os autores concluíram que “Ainda não parece existirem provas suficientes para justificar a afirmação de que o treinamento cerebral é uma ferramenta efetiva para melhorar a cognição no mundo real. ” Ainda, “Encontramos evidências sólidas de que o treinamento cerebral melhora o desempenho das tarefas treinadas, menos evidências de que tais intervenções melhoram o desempenho em tarefas estreitamente relacionadas, e pouca evidência de que o treinamento melhora o desempenho em tarefas pouco relacionadas ou o desempenho cognitivo cotidiano”.

Isto significa -de acordo com os resultados desse estudo- que os jogos e treinos cerebrais nos deixam cada vez melhores na execução desses jogos ou treinos, mas a capacidade de transferência dessa melhora cognitiva específica para nosso dia a dia é muito limitada.

Já promessas como “evitar o mal de Alzheimer” são ainda mais temerárias. Até agora não é conhecida nenhuma forma eficaz de deter a destruição que essa doença provoca no cérebro. Alguns doentes, dependendo das suas reservas cognitivas, são capazes de mascarar o aparecimento dos sinais e sintomas por um tempo maior que outros. Não sabemos ainda muito bem qual o real motivo disso, se caraterísticas específicas do cérebro, estilo de vida, educação prévia ou algum outro fator. Não existe truque fácil para conseguir isto e a variabilidade individual de resposta parece ser bastante grande.

Embora não ofereçam risco, se envolver nesses programas demanda gasto de tempo e bastante dinheiro, tempo e dinheiro que poderiam estar sendo utilizados em atividades cognitivas e físicas diversificadas e ao mesmo tempo desafiadoras e agradáveis, que, pelo que sabemos até agora, são de fato capazes de melhorar nossas reservas cognitivas de uma forma bem mais prazerosa.

É possível que num futuro próximo tenhamos respostas mais conclusivas sobre este tipo de treinamento cerebral. Por enquanto -e como sempre- a dica é analisar qualquer promessa mirabolante sobre ganhos cognitivos, na saúde e na doença, de uma forma mais cética. O prefixo “neuro” é uma moda que pode nos custar caro.

domingo, 2 de outubro de 2016

Adultos, um caso perdido?



Umberto Eco
Pouco tempo antes de morrer, o escritor italiano Umberto Eco teria afirmado que redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”, aos “idiotas da aldeia”. Antes estes tinham direito à palavra “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Ainda, “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

Este desabafo de Eco me lembrou algo que li num livro do biólogo inglês Richard Dawkins. Comentando sobre a possibilidade de termos uma sociedade letrada cientificamente, ele achava que deveríamos dedicar todos nossos esforços para educar as crianças. Para Dawkins, os adultos são um caso pedido. Ele se referia especificamente à dificuldade da maioria dos adultos de organizar seu pensamento de uma forma crítica, incapazes de analisar criteriosamente todos os argumentos incluindo aqueles que não nos são imediatamente simpáticos, sendo também incapazes de mudar de opinião quando os argumentos dos outros são melhores que os nossos.

Infelizmente, as observações de Dawkins parecem estar corretas. Esta percepção ficou de fato mais evidente com o surgimento das redes sociais, quando quase todos estão tendo a oportunidade de externar seu pensamento. Para nossa consternação, ideias como a Terra plana, o Sol orbitando ao redor de nosso planeta, campanhas antivacina e outros absurdos parecem ter o mesmo valor que as respostas geradas pelo processo científico.

Boa parte dessa dificuldade vem de nossa tendência de acreditar em respostas reconfortantes, mesmo em detrimento da realidade. Porque claro, a realidade pode ser muito dura. Doenças, sofrimento e finalmente a morte nos atingindo indiscriminada e inexoravelmente. Como aparentemente somos os únicos bichos a perceber isso, o peso desse conhecimento pode ser demais para muitos. A solução, apelar para (e o que é pior, defender irracionalmente) terapias que nos curam sem sofrimento, um Universo que conspira a nosso favor quando assim o desejamos, essa miríade de seres sobrenaturais que desde o além ou outras dimensões estão aí sempre para nos ajudar e guiar, etc.
 

Ainda, nosso cérebro usa mecanismos automáticos e inconscientes no sentido de sempre reforçar nosso sistema de crenças. De um grande leque de informações disponíveis nossa tendência automática é selecionar e aceitar aquelas que vão ao encontro daquilo em que já acreditamos. O cérebro nos faz praticamente cegos para as evidências que indicam que nossas convicções estão equivocadas. Superar este processo de pensamento automático e tendencioso, como bem descreve o psicólogo israelense Daniel Kahneman, exige um esforço consciente que nem todos querem ou estão educacionalmente preparados para fazer..

Caso não criemos um sistema educacional que incentive o pensamento crítico desde a infância, caso não ensinemos nossas crianças, nas escolas e nos lares, nesse longo processo de amadurecimento a diferenciar esperanças de fatos, continuaremos a ser quando adultos presa fácil de manipuladores de todos os tipos, pseudocientistas, religiosos, políticos, imprensa e dos donos do poder. Estes descobriram como nos enganar e o fazem profissionalmente. Tão bem que não apenas acreditamos nas mentiras que contam, ajudamos a divulgá-las.

Voltando a Eco, ou mudamos ou nossa aldeia continuará a ser majoritariamente de idiotas.

sábado, 11 de julho de 2015

Cérebro e maioridade penal


Na figura, imagens de ressonância magnética de um mesmo
 indivíduo realizadas aos 5, 8, 12, 16 e 20 anos. O nível de maturidade 
do córtex cerebral é expresso na escala de cores, do amarelo 
(menos maduro), ao violeta (mais maduro). Observar que o córtex pré-frontal 
(à esquerda no cérebro) é o último a madurecer. 
(Extraído de CRIME, CULPABILITY,  AND THE ADOLESCENT 
BRAIN, Beckman, M. Science 30 July 2004: Vol. 305)
Em meio a esse tiroteio todo sobre a maioridade penal, vez ou outra surge o argumento neurológico. Jovens não poderiam ser penalizados da mesma forma que adultos porque seus cérebros não estariam prontos para tomar as decisões corretas e suprimir os impulsos agressivos. Se a justiça já trata indivíduos com deficiências cognitivas de forma diferente (utilizando argumentos neurocientíficos) deveria fazer a mesma coisa com jovens. Quanto de verdade há nisso e quanto de mito?

A discussão não é nova, mesmo na neurociência, mas existem algumas evidências importantes que nos dão boas pistas. 

Hoje sabemos que algumas regiões do cérebro são parcialmente responsáveis por algo que os neurocientistas denominam “processo de tomada de decisão”, processo este que envolve a análise de risco e dano potencial. É essa capacidade cognitiva que nos permite avaliar antecipadamente as consequências das nossas eventuais ações. Algo assim como “se faço isto vai acontecer aquilo, e se acontecer aquilo então pode acontecer isso ou isto; agora, se faço isto outro pode acontecer isto ou isto...” e por aí vai. Como um bom jogador de xadrez o cérebro maduro permite antecipar alguns lances, o que depende muito da nossa inteligência e das nossas experiências de vida, das quais -muitas vezes de forma inconsciente- o cérebro lança mão para que sintamos antecipadamente o que sentiríamos se o pior acontecesse em virtude de uma decisão errada ou precipitada. Ou seja, antes de fazer sentimos como se tivéssemos já feito.

Cientistas já descobriram que a área cerebral mais diretamente envolvida em tudo isso é o córtex pré-frontal (CPf), uma região muito desenvolvida nos humanos localizada na parte mais anterior do cérebro. Esse conhecimento surge tanto de experimentos em animais como no estudo clínico e comportamental de humanos com lesões no CPf. Alguns pacientes com lesão nessa área têm poucas alterações comportamentais evidentes fora a incapacidade de processar normalmente informação com fundo emocional. Ao que parece se as emoções que uma situação provoca não são bem avaliadas pelo cérebro, a capacidade de tomar a melhor decisão diminui drasticamente. Resumindo, a decisão racional é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato (ver aqui e aqui casos clínicos de pacientes com lesão no CPf).

Paralelamente vários estudos confirmam que essa região, o CPf, é uma das últimas do cérebro a ficar pronta. Os processos de ajuste no número de neurônios, na forma como os neurônios estabelecem suas conexões para formar redes neurais (o que depende e muito do ambiente onde o jovem está inserido), e até o importante processo de mielinização (a formação de uma camada lipídica que envolve os prolongamentos neuronais e que aumenta a velocidade de comunicação entre essas células), terminam em idades que, dependendo do estudo, variam entre os 18 a 25 anos.

Mas na prática, isso resultaria no quê? Em que aos 16 anos pular de cabeça nas águas desconhecidas de um rio, experimentar cocaína ou pegar uma carona com um amigo bêbado podem ser decisões aceitáveis. O benefício imediato não seria suficientemente avaliado em relação ao dano potencial. Da mesma forma, ante uma ofensa a agressão física poderia ser a resposta imediata. E claro, se o jovem com esse cérebro em plena remodelação convive num ambiente onde o crime e a violência fazem parte do seu dia a dia, o cérebro resultante será condicionado por esse ambiente.

Mas de certa forma todos suspeitamos que isso é assim mesmo. Se aceitamos que um jovem não tem maturidade para participar de um júri, comprar ou consumir bebidas alcoólicas, casar sem autorização dos pais, assinar contratos ou até entrar no cinema, é porque aceitamos que sua capacidade de discernimento não é a mesma que a de um adulto.

Tudo isto, claro, não justifica de forma alguma que jovens delinquentes sejam “perdoados” porque não sabem o que fazem ou algo do gênero. Isso seria absurdo. Sociedades têm o direito e o dever de defender os indivíduos daqueles que apresentam comportamentos que ameaçam a vida e a segurança dos outros. A discussão é o que fazer com o jovem infrator. A experiência internacional mostra que uma parcela desses jovens –não todos- pode ser recuperada para o convívio social se utilizados os mecanismos educacionais adequados.

A solução que estamos adotando aqui no Brasil parece ser a menos inteligente. O menor infrator será colocado num dos piores sistemas prisionais, em companhia de adultos delinquentes, com garantia mínima de recuperação. Caso não morra em prisão, será provavelmente posto em liberdade no máximo em dez a quinze anos. Em outras palavras, prendemos um menor como se adulto fosse pela ameaça que ele representa, e o soltamos dez anos depois representando uma ameaça bem mais grave, já que praticamente eliminamos a chance de reabilitação social.

Às vezes temos que ter cuidado para que o natural e primário desejo de vingança e punição não nos impeça de tomar a medida mais racional. A evolução nos deu o mais desenvolvido CPf do reino animal, talvez o que nos torna humanos.


Façamos então bom uso dele.

domingo, 7 de setembro de 2014

Usamos apenas 10% do cérebro?

Em Lucy, o último filme de Luc Besson, a bela Scarlett Johansson “ingere” uma dose enorme de uma droga que supostamente teria a capacidade de potencializar suas capacidades cerebrais. O filme todo gira ao redor dessa ideia: usamos apenas 10% do nosso cérebro. Imagina se usássemos 50 ou 100%!!!!

Ideia errada claro, como cientistas têm reiteradamente demostrado. Pessoas normais utilizam os 100%. Mas vamos entender por que esse mito dos 10% não faz sentido.

Neste momento estou sentado na frente do meu computador. Minhas pernas estão em repouso, com isso as áreas encefálicas responsáveis por seus movimentos estão com um baixo nível de atividade. Minha sala está em silêncio, assim, as áreas cerebrais responsáveis pelo processamento da informação auditiva também estão com pouca atividade. O mesmo se aplica às áreas responsáveis pelo olfato e gosto (nada muito especial para cheirar ou saborear) e tantas outras. 

Se fizesse agora um exame de imagem como a ressonância magnética funcional (fMRI) essas áreas do meu cérebro apareceriam de uma cor próxima do azul (ou dependendo da calibração do aparelho, sem cor nenhuma). Já as áreas cerebrais que controlam os dedos (com os quais estou digitando), as que processam a informação visual (estou lendo na tela do computador) e as responsáveis pelo raciocínio necessário para produzir este texto estariam com elevado nível de atividade (o que produziria na fMRI uma cor amarela ou vermelha). Caso agora me levante e vá preparar uma comida o padrão de atividade cerebral mudaria e as áreas relacionadas com a complexa tarefa de cozinhar iriam passando do azul para o vermelho.


Análise de imagem de fMRI. À direita, cores de azul a vermelho indicam
 os diferentes níveis de atividade cerebral decorrentes de tarefas ou situações específicas.


Que fique claro, usamos 100% do cérebro, só que não utilizamos todas as áreas cerebrais ao mesmo tempo. Seria um desperdiço de energia. Não há área do cérebro que não seja necessária ou que nunca funcione. Apenas são ativadas de forma seletiva. Embora nosso encéfalo represente apenas 2% do peso corporal, ele consome 20% do oxigênio que respiramos e 25% da glucose que ingerimos. Um órgão tão gastador e usar apenas 10%? Não faria sentido, claro.

Mas e aí, haveria alguma capacidade especial escondida em nosso cérebro que poderia ser potencializada ou exteriorizada de alguma forma? Aparentemente a resposta é sim, mas o bizarro é que, ao que parece, isso poderia ser obtido não aumentando a capacidade de funcionamento cerebral, e sim diminuindo-a.

O fenômeno é conhecido como savantismo, uma síndrome onde o indivíduo demostra habilidades fora do comum para algumas atividades matemáticas ou artísticas aliadas a deficiências mentais geralmente associadas ao espectro autista. Exemplos dessa síndrome são bastante conhecidos. 
O savantismo pode ser congênito e as habilidades aparecem durante a infância de forma bastante repentina, associadas com déficits cognitivos importantes. Mas em anos recentes foram descritos casos de adultos normais que após lesão cerebral, seja devido a alguns tipos de demência, acidentes vasculares ou traumas, desenvolveram a partir do evento espetaculares dotes artísticos (pintura, escultura, música) ou matemáticos, áreas nas quais nunca tinham demonstrado interesse ou qualquer capacidade especial. Este tipo de savantismo pós-lesão foi denominado pelos especialistas como “adquirido” (para diferenciá-lo do congênito) e as vítimas desta síndrome “gênios acidentais”.

O curioso é que o aparecimento destas habilidades se dá geralmente após lesão no hemisfério cerebral esquerdo, em áreas que trabalham inibindo estímulos e respostas inadequadas. A lesão removeria esta inibição modificando e ampliando a percepção sensorial e levando a um maior interesse e habilidades artísticas. Assim, a perda de uma habilidade (inibitória neste caso) levaria ao surgimento de outras.

Os casos e teorias sobre o savantismo são tão interessantes que merecem que voltemos ao assunto noutra oportunidade. Por enquanto que fique a dica, se alguém vier lhe oferecer alguma medicação, exercício, software, livro, terapia holística, etc., que prometa tirar você desses míseros 10% de capacidade mental, fuja, é picaretagem.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Google nos fará mais burros?

Vinte anos atrás li o livro “A montanha mágica”. Como tantos outros, o livro de Thomas Mann não é de leitura fácil, mas lembro ser capaz, naquele tempo, de ler durante 50 a 60 páginas sem distrair minha atenção. Nada muito notável, com certeza. Mas não sei se hoje consigo fazer isso. Minha atenção rapidamente quer escapar e levar meu pensamento para um monte de coisas após as primeiras páginas de leitura. Meu cérebro envelhecendo? Sim, mas não. Por incrível que pareça, acredito que meu cérebro esteja funcionando hoje como o dos meus alunos. Como? Por quê?

Lembro também que vinte anos atrás, quando tinha que consultar alguma coisa para uma pesquisa científica, não havia muita escapatória. A fonte de toda a informação estava localizada na velha biblioteca da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde fazia minha pós-graduação. “Onde” localizar a informação não era problema. O relevante era a informação em si.

Mas agora as coisas não são mais assim.

Atravessamos uma mudança tecnológica que está afetando nossas habilidades cognitivas de uma forma que ainda não conseguimos avaliar. A internet está mudando nosso cérebro. Provavelmente a partir de uma região bastante específica.

Ao longo de milhões de anos de evolução os vertebrados desenvolvemos uma estrutura cerebral importantíssima: o hipocampo. O nome vem do fato dos antigos anatomistas acharem que nos humanos essa estrutura lembra a forma de um cavalo marinho (hippocampus, lembra mesmo). 





À esquerda um hipocampo humano dissecado; à direita um cavalo marinho
(hippocampus, um peixe pertencente à família Syngnathidae)



Há livros e livros (melhor, bites e bites) dedicados a essa estrutura. Não vou me estender muito aqui. O importante é que uma das suas funções básicas está relacionada com a consolidação de memória. Resumindo, o hipocampo ajuda a consolidar informações fazendo com que estas passem a fazer parte da nossa memória de longa duração. Ele é uma das primeiras estruturas a ser atingida no mal de Alzheimer (daí os primeiros déficits cognitivos dessa doença estarem relacionados com a memória). Quando danificado (por causa de cirurgias, AVEs, etc.), o paciente perde a capacidade de estabelecer novas memórias (amnésia anterógrada). 


Durante milhões de anos nossa única fonte de informação era aquilo que estava armazenado em nossos cérebros -graças à ação do hipocampo- e que era transmitido de geração em geração e de boca em boca. Tempos da tradição oral. A quantidade de informação passível de ser transmitida era limitada mas dava conta de nos salvar do ambiente hostil em que vivíamos. Sobreviver já estava bom demais.

Com o surgimento da escrita (provavelmente uns 4.000 anos AEC), boa parte da informação passou a ser registrada materialmente, o que ampliou enormemente a capacidade de transmitir informação. A popularização da leitura graças à invenção da imprensa no século 15 fez com certeza os humanos mais inteligentes. Hoje sabemos que a leitura tem um efeito de enriquecimento cognitivo real, o que significa que, bem provavelmente, nos últimos séculos a leitura modificou nossa arquitetura cerebral.

Hoje também sabemos que, em termos cognitivos, se o que lemos é muito importante, como lemos parecer ser tão importante quanto. E aí as coisas mudaram. Um estudo recente mostra que em virtude da enorme quantidade de informação disponível na internet, os leitores ficam pulando entre uma informação e outra, via hiperlinks, sem se aprofundar muito em nenhuma delas. Os pesquisadores definem esse tipo de leitura como horizontal (pouco reflexiva), que estaria substituindo a leitura profunda e detalhada (vertical).

Mas a maior mudança atinge diretamente o hipocampo. Hoje, toda a informação relevante não precisa ser armazenada no cérebro. Ela está disponível em um simples clique, e de uma forma mais rápida, completa e eficiente que o estaria se dependêssemos de nosso cérebro para acessá-la. Aí surge a grande interrogante. Se substituímos parcialmente o hipocampo pelo Google, que acontecerá com nosso cérebro? Ante a falta de dados conclusivos, os pesquisadores se dividem. Os pessimistas simplesmente acham que ficaremos cada vez menos inteligentes. Para eles, o funcionamento do hipocampo, do jeito que ele foi programado por milhões de anos de evolução, não apenas é importante para fazer a memória funcionar, mas também para outros processos cognitivos associados.

Mas têm também os otimistas (ou pelo menos, menos pessimistas; ver aqui). Estes acham que as redes hipocampais que não forem usadas em processos mnemônicos poderão ser utilizadas para outras funções cognitivas, graças à plasticidade cerebral. Quem sabe seremos menos hábeis para memorizar (como já ficamos menos hábeis para outras funções, como o olfato), mas podemos desenvolver nossa capacidade de fazer associações, aumentar a velocidade de cálculo...

Fora as especulações um fato parece evidente, embora seja extremamente positivo que tenhamos toda essa informação em nossas mãos, sem um cérebro treinado para o pensamento crítico não seremos capazes de transformar essa informação em conhecimento. E é justamente isso o que diferencia a "Era da Informação" com as ainda longínquas (principalmente por estas terras, o PISA que o diga) Sociedades do Conhecimento.


sábado, 8 de outubro de 2011

Ateus são mais inteligentes?

Ao longo dos seus mais de 50 anos de atividade científica, o pesquisador britânico Richard Lynn se transformou em um dos maiores especialistas no estudo da inteligência humana. Ao mesmo tempo, sua obra, estampada em pelo menos quatro best sellers e centenas de trabalhos científicos, o converteu provavelmente num dos cientistas mais detestados.

Quando um dos seus estudos sugeriu que homens são mais inteligentes que mulheres foi recepcionado em sua casa com o que ele chamou “uma salva de ovos”. Algo parecido ocorreu quando estabeleceu uma lista com as raças mais inteligentes, com os orientais no topo e os pigmeus do Congo na última posição. Para ele a polêmica é normal. Como costuma dizer, “Faz parte do ofício de um cientista revelar o que as pessoas não estão prontas para receber”.

Boa parte dos trabalhos de Lynn está baseada em estudos que, por um lado, medem a inteligência de grupos populacionais mediante testes de QI. Depois correlaciona esses dados com características como sexo ou raça.

Em seu mais recente –e não menos polêmico- trabalho, Lynn correlacionou níveis de QI e religiosidade em 137 países. A tabela completa pode ser lida aqui. Resumindo, em média, as populações com maiores índices de QI (próximos a 100) correspondem a países com maior porcentagem de ateus (República Checa com 61% de ateus, Dinamarca com 48%; França, 44%; Bélgica, 43%; Holanda 42%; Reino Unido, 41.5%) e vice-versa, em países onde os índices médios de QI são mais baixos (entre 60 e 80), a população de ateus é muito pequena ou praticamente inexistente. Para Lynn, isso acontece porque a inteligência aprimorada leva ao questionamento da religião. Mas cuidado, como o próprio Lynn enfatiza, não é porque se é religioso que se é menos inteligente. O que se observa apenas é uma tendência de encontrar QI mais alto em pessoas não-religiosas.

Para aqueles que estudam essas questões a partir do que conhecemos sobre o funcionamento cerebral, a pergunta que fica é: circuitos cerebrais que nos transformam em pessoas religiosas de alguma forma são responsáveis também por um QI menor? Só temos uma resposta: não existem evidências conclusivas que nos permitam apoiar essa hipótese. Assim, quando aceitamos esse argumento temos que verificar se nossos preconceitos não estão se sobrepondo à nossa análise crítica.

Mas o que justifica então que países com populações com QI maior sejam os que congregam o maior número de ateus?

De acordo com alguns pesquisadores, o que parece acontecer é que “países ateus” são em média mais inteligentes que “países religiosos” não por causa dos circuitos cerebrais dos seus cidadãos, e sim porque estes se beneficiam de outros aspectos que os países ricos oferecem.

Fica evidente ao analisar a tabela de Lynn que, salvo exceções, os países com populações com menor QI são também países pobres. Assim, um QI mais baixo pode estar relacionado com outros fatores que são característicos de países subdesenvolvidos: populações menos urbanizadas, um sistema educacional de baixa qualidade, pouco acesso à informação através da mídia eletrônica, maior exposição a doenças nutricionais e infecciosas que afetam o desenvolvimento cerebral, ambientes contaminados pela falta de controle sobre emissão de poluentes, o que acaba também afetando o cérebro, etc.

Por outro lado, países ricos geralmente disponibilizam um sistema de bem-estar social que deixa suas populações mais seguras quanto ao futuro. Historicamente, as religiões sempre ofereceram uma proteção divina para enfrentar uma natureza incompreensível e muitas vezes hostil. Com o maior conhecimento e domínio sobre os agentes naturais que a ciência e a educação moderna disponibilizam, aliados a uma maior segurança material, a necessidade de se aferrar a explicações fantasiosas baseadas mais em dogmas que em raciocínio lógico acaba perdendo espaço, e com ela, as próprias religiões.

Quanto aos estudos de Lynn, o maior problema é que boa parte de suas conclusões nos leva a becos sem saída. Concluir que determinado sexo ou raça tem QI menor pode ter um grande potencial para gerar polêmica, mas um potencial praticamente nulo para encontrar soluções que venham a aliviar o sofrimento humano, uma das razões de utilizar a ciência para gerar conhecimento. Por outra parte, não podemos esquecer que a medida do QI é capaz de analisar apenas uma fração daquilo que denominamos inteligência.

Se há algo que fica claro a partir desses estudos é que a religião tende a declinar quando a prosperidade aumenta. Se isto é por causa dos circuitos cerebrais ou porque não temos mais medo de trovão, é algo que neurociência cognitiva ainda está longe de responder.



Fontes: Average intelligence predicts atheism rates across 137 nations. Richard Lynn e cols., Intelligence 37:11–15 (2009).
Barber, N. (2005). Educational and ecological correlates of IQ: A cross-national investigation. Intelligence, 33, 273-284.



sábado, 10 de setembro de 2011

A esperança no sangue dos jovens

Novos neurônios no hipocampo de 

camundongos. Imagem: Chunmei Zhao,
Gage Lab, Salk Institute
Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro

Jorge Mautner



Quem diria que mais de 30 anos depois, a belíssima música de Jorge Mautner adquiriria também um viés científico. Não, não..., nenhum vampiro foi identificado pela ciência –fora os morcegos hematófagos- mas a utilidade do sangue dos meninos e meninas está na ordem do dia.

O experimento ao qual me refiro é tão interessante que vale a pena retroceder um pouco para compreender seus antecedentes.

Desde os tempos do grande neuroanatomista espanhol Ramón y Cajal - primeira década do século 20- tínhamos a convicção que os neurônios, as células do cérebro, não se reproduziam. Nascíamos com um número determinado e daí para frente nenhum outro nasceria.

Essa teoria começou ruir nos anos sessenta quando a equipe do neurocientista Joseph Altman comprovou a proliferação de novos neurônios no cérebro de ratos, processo denominado neurogênese adulta. Esses resultados, porém, ficaram algo esquecidos até a década de oitenta, quando a neurogênese foi confirmada no hipocampo, uma região do cérebro responsável pelo aprendizado e a memória.

A partir desse momento as pesquisas na área se intensificaram. Hoje sabemos que a neurogênese adulta não apenas existe como pode ser estimulada mediante exercício físico voluntário e convívio em ambientes intelectualmente estimulantes. Infelizmente, descobrimos também que ela diminui com a idade, e essa redução parece estar associada aos déficits de memória e raciocínio observados durante o envelhecimento e mais fortemente nas doenças neurodegenerativas como o mal de Alzheimer.

Assim, um dos objetivos dos cientistas tem sido não apenas investigar formas de estimular a neurogênese hipocampal, mas também entender quais os fatores que a reduzem na velhice.

Alguns pesquisadores suspeitaram que os fatores associados com a diminuição da neurogênese poderiam estar não nos próprios neurônios, mas seriam trazidos ao cérebro pelo sangue circulante. Para testar essa possibilidade, o pesquisador Saul Villeda e seus colaboradores da Universidade de Stanford criaram inicialmente ratos “siameses” mediante um processo cirúrgico denominado parabiose (resumidamente, dois animais cirurgicamente conectados de forma a compartilhar o sistema circulatório, assim, o mesmo sangue circula pelos dois organismos). Neste caso, os pesquisadores criaram grupos experimentais unindo dois ratos jovens (J+J), dois velhos (V+V) ou um jovem com um velho (J+V).

Depois de cinco semanas de união artificial os animais foram sacrificados e mediante técnicas especiais foi contado o número de novos neurônios em cada um dos grupos. Os cientistas observaram que esse número não se modificou nos grupos J+J e V+V, mas nos animais do grupo J+V, o rato idoso teve um número maior de novos neurônios quando comparado com um rato da sua mesma idade “não siamês” (grupo controle). Possivelmente, alguma proteína circulante no sangue do rato jovem com o qual estava artificialmente conectado tinha alcançado seu cérebro e por mecanismos ainda desconhecidos, aumentado a neurogênese.

O inverso também foi observado. No cérebro do “siamês” jovem do grupo J+V, o número de novos neurônios foi bem menor que o contabilizado em ratos controle da mesma idade. Como no caso anterior, os pesquisadores suspeitaram que alguma substância produzida pelo rato idoso tinha alcançado o cérebro do jovem e induzido uma diminuição na neurogênese.

Os cientistas partiram então para descobrir quais poderiam ser essas substâncias. O que haveria no sangue do animal jovem que estimularia a produção de novos neurônios? E o que acontece quando o rato envelhece?

Mediante uma técnica denominada análise proteômica, compararam as proteínas dos ratos antes e depois do experimento, e identificaram seis que estavam em nível elevado tanto nos animais jovens do grupo J+V (aqueles que tiveram a neurogênese diminuída) como em animais idosos controles. Uma delas foi a CCL11, proteína pertencente a uma família conhecida como eotaxinas, com grande participação em nosso sistema imunológico.

Para confirmar as suspeitas sobre o papel da CCL11, os pesquisadores a injetaram em ratos jovens normais e observaram que, de fato, a neurogênese diminuía. E não apenas isso. A capacidade de aprender ou mesmo lembrar tarefas que tinham sido previamente aprendidas foi drasticamente comprometida.

A ideia agora é estudar detalhadamente essas proteínas e como elas funcionam no homem. Há um bom caminho antes de transformar esse conhecimento em um medicamento que alivie alguns dos males do envelhecimento e das doenças cerebrais, mas a CCL11 pode representar um grande atalho.


Fonte: Villeda, S et al (2011). The ageing systemic milieu negatively regulates neurogenesis and cognitive function. Nature, DOI: 10.1038/nature10357.