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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homossexualidade é “não natural”?

Mesmo depois de dezenas e dezenas de artigos escritos no jornal e no blog sobre diversos assuntos, “Homossexualidade sob a lupa da ciência”, de 2012, continua a ser o mais lido e acessado. Pelos motivos certos ou errados o tema da homossexualidade não sai da pauta. Entre os motivos errados, a constante tentativa de negar direitos civis entre outras formas de discriminação.

Um dos argumentos mais utilizados para esta atitude seria que esta, a homossexualidade, é “não natural”. Deuses (ou a natureza) teriam criado macho e fêmea e baseado nisso os comportamentos “naturais” de corte, acasalamento e reprodução, que seriam a base do que li por aí como “valores irrefutáveis da família”. Se considerarmos que “natural” significa “que pertence ou se refere à natureza” ou “regido pelas leis da natureza; provocado pela natureza” (Dicionário Houaiss), o argumento é um completo equívoco.

Já foram identificadas mais de 1300 espécies animais com comportamentos homossexuais, e é certo que esse número é subestimado. Cientistas denominam comportamentos homossexuais em animais não humanos com a sigla SSB, do inglês “same-sex sexual behavior”, definido como “interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo que também ocorrem com indivíduos do sexo oposto com a finalidade de reprodução”. O termo SSB substitui nesses estudos denominações como “preferência” ou “orientação” sexual, que implica um desejo consciente que, por motivos óbvios, não pode ser comprovado em animais (não podemos saber o que um animal deseja, podemos apenas observar o que ele faz e a partir de aí fazer inferências).

SSB foi descrito cientificamente em animais de todos os níveis de complexidade e tamanho, incluindo vermes (nemátodos), moluscos, insetos, anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos, entre os quais nossos primos mais próximos, os bonobos, mas também golfinhos, felinos, morcegos e muitos outros. A duração do SSB na natureza é extremamente variável, podendo ser identificados casais homossexuais relativamente estáveis a comportamentos homossexuais esporádicos.

Pelas evidências disponíveis cientistas especulam que interações homossexuais poderiam permitir alianças estratégicas como ocorre entre algumas espécies de golfinhos, ou para facilitar a reconciliação após conflitos, como foi observado entre alguns primatas (Macaca fuscata). Também foram observadas em situações onde é necessário confirmar hierarquias (bisão-americano) ou diminuir o sucesso reprodutivo de competidores (moscas Hydromyza livens). A lista de utilidades ainda inclui o simples “treino” entre machos jovens para depois ter mais sucesso numa situação real ante uma fêmea (descrito em Drosophila) e, ainda, como forma de inseminação indireta, depositando o esperma em outros machos para que estes o depositem nas fêmeas posteriormente, comportamento descrito entre alguns tipos de besouros.

Biólogos ainda discutem o aparente paradoxo evolutivo da preferência homossexual em humanos ou do SSB nos outros animais. Por que os genes que levam ao SSB, mesmo diminuindo o potencial reprodutivo, permanecem na população? Apesar de paradoxal, não seria a primeira vez que nos resulta difícil conciliar certas características e comportamentos observados na natureza com o que sabemos sobre evolução darwiniana, fundamentalmente quando não conseguimos descobrir de forma imediata os benefícios de características que à primeira vista parecem muito pouco adaptativas. Este já foi o caso de comportamentos como a agressão, o altruísmo e mesmo a complexa e custosa ornamentação exibida por alguns animais.

Nos últimos anos, dezenas de estudos vêm abordando esta questão. Em relação aos animais não humanos, não há dúvida que a resposta está nos genes. Duas teorias, não necessariamente excludentes, tentam explicar a sobrevivência evolutiva de genes ligados ao SSB: a sobredominância e o antagonismo sexual.

Resumindo – e muito- na sobredominância o par de genes que seriam responsáveis pelo SSB (que denominaremos aqui genes H-H) confeririam esse comportamento apenas na condição homozigótica (quando os dois genes são idênticos). Mas se um dos genes for diferente (H-h, condição heterozigótica) não apenas o comportamento SSB poderia não se manifestar como outras caraterísticas com valor adaptativo poderiam surgir. Uma situação semelhante se observa na anemia falciforme, uma doença hereditária. Quando o indivíduo é homozigótico para os genes que provocam a doença esta se manifesta, mas na condição heterozigótica a doença pode não se manifestar e ainda a combinação genética oferecer resistência para outra doença, a malária, o que em regiões onde é endêmica representou uma vantagem adaptativa que permitiu assim a sobrevivência dos genes da anemia.

Já no antagonismo sexual, o par de genes que em um sexo pode gerar uma situação pouco adaptativa, pode apresentar uma situação adaptativa no outro. Isto foi observado num recente estudo utilizando a mosca da fruta (Drosophila melanogaster). Pesquisadores observaram que machos com uma carga genética relacionada com o SSB, que os colocaria em desvantagem na hora de reproduzir, quando o fazem geram fêmeas com maior capacidade reprodutiva, equilibrando assim a deficiência reprodutiva dos pais machos. 


Algo semelhante foi observado em humanos. Em um estudo com mais de 4900 gêmeos foi observado que indivíduos heterossexuais, quando eram irmãos gêmeos de indivíduos não heterossexuais (de acordo com os resultados de questionários psicológicos específicos) apresentavam um número maior de relacionamentos (heterossexuais) que no caso de gêmeos heterossexuais, o que parece indicar que carregar fatores genéticos que predisponham para a homossexualidade pode oferecer alguma vantagem reprodutiva nos heterossexuais, o que, finalmente, poderia explicar a sobrevivência evolutiva destes genes "H-H".

É isso, de “antinatural” a homossexualidade parece não ter nada. Seria legal se a informação científica conseguisse desarmar essa intolerância toda que permeia a discussão sobre os direitos civis, mas claro, não será o caso. Fundamentalismos não são permeáveis a este tipo de esclarecimento.

E para finalizar, é bom lembrar que se uma delicada propaganda de perfume tem o potencial de destruir os “valores irrefutáveis da família”, com certeza o problema não está na propaganda, não é mesmo?


Fontes:

-Hoskins JL, Ritchie MG, Bailey NW. 2015 A test of genetic models for the evolutionary maintenance of same-sex sexual behaviour. Proc. R. Soc. B 282: 20150429.
-Bailey, Nathan W. et al. Same-sex sexual behavior and evolution Trends in Ecology & Evolution , Volume 24 , Issue 8 , 439 - 446
-Brendan P. Zietsch et al. Genetic factors predisposing to homosexuality may increase mating success in heterosexuals. Evolution and Human Behavior 29 (2008) 424 – 433






domingo, 31 de março de 2013

A homossexualidade sob a lupa da ciência - II (ou por que Malafaia está errado)


(Credit: iStockphoto/Salon)
Dias atrás acompanhei pelas redes sociais, meio a contragosto, um debate sobre homossexualidade e ciência. De um lado o biólogo Elí Vieira, do outro o pastor Silas Malafaia. Um dos argumentos utilizados por este último é que ao não existir um “gene da homossexualidade” esta seria uma opção individual motivada por traumas na infância, imposição cultural, entre outras possibilidades.

O pastor não está completamente errado. De fato, até agora não foi identificado um gene que esteja diretamente relacionado com a homossexualidade. E mais, esta é difícil de ser explicada desde o ponto de vista evolutivo. Se optarmos por parceiros do mesmo sexo não teremos descendentes e com isso nossos genes não passarão adiante.

Mas o fato é que a homossexualidade existe e sempre existiu na história da humanidade, como explicá-la então? Com explicar biologicamente a preferência por uma pessoa do mesmo sexo na falta desses dois ingredientes básicos?

Aí que está a falha do pastor. A não existência de um gene para a homossexualidade não significa que esta não possa ter um cunho genético. Vejamos por que.

Como sabemos, cada célula de nosso corpo tem uma dupla hélice de DNA e nela estão contidos todos os genes. Cada gene tem a receita para tudo que nosso corpo é ou faz. Isto vai desde a cor da pele, olhos, nossa anatomia, fisiologia, o controle de outros genes e até boa parte do nosso comportamento.

Um exemplo, em nosso DNA existe um gene responsável pela produção de insulina. Assim, células no pâncreas produzem essa proteína que é fundamental para controlar os níveis de açúcar no sangue. Quando essas células falham o nível de insulina cai e surgem doenças metabólicas como a diabetes. Se bem é fundamental que as células do pâncreas produzam insulina, não seria recomendável que células musculares que fazem o coração bater também o fizessem. Mas estas também têm os genes para produzir insulina, por que então as células do pâncreas produzem e as do coração não?

Cientistas descobriram que ao redor da molécula de DNA existe uma “nuvem” de proteínas que tem como função ligar e desligar certos genes. Essas proteínas recebem o nome de marcadores epigenéticos (MEs). São eles que determinam se um gene vai estar ativo ou não. No pâncreas eles ligam o gene para produzir insulina, no coração e outros órgãos eles o desligam. Assim, a ação dos MEs passa a ser quase tão importante quanto os próprios genes.

À diferença dos genes, que passam de pais para filhos, acreditava-se que os MEs eram zerados na hora da formação de um novo ser (no momento da fecundação). Mas nos últimos anos ficou claro que em alguns casos a informação epigenética não é completamente eliminada e algo passa para os descendentes.

Isso tem consequências importantes. MEs podem ser formados em resposta a acontecimentos específicos durante a vida do indivíduo. Em situações de fome intensa, por exemplo, podem ativar genes que potencializem o aproveitamento da pouca comida que é ingerida. Se esses MEs passam para o filho, os genes deste também serão ativados de forma que uma dieta normal poderá gerar um quadro de obesidade (no filho), já que os genes –ativados pelos MEs paternos- continuarão passando a instrução de aproveitar ao máximo cada grama de alimento ingerido.

Em um artigo recente cientistas postularam que este mecanismo poderia também estar implicado com aspectos de preferência sexual. Em situações normais, o embrião em formação cria MEs que o protegem da flutuação dos níveis de testosterona da mãe. Altos níveis de testosterona durante a gravidez podem masculinizar embriões femininos, e da mesma forma baixos níveis de testosterona feminizar embriões masculinos afetando a conformação dos genitais e até a preferência por parceiros sexuais na vida adulta. 
Assim, MEs trabalham ligando e desligando genes para neutralizar os possíveis efeitos nocivos da flutuação de testosterona. 
Mas o que aconteceria se MEs do pai fossem transferidos à filha em gestação, ou os da mãe ao filho?  Neste caso sob a ação dos MEs paternos genes “masculinizantes” seriam ativados na filha, ou no caso oposto, MEs da mãe ativariam no filho genes feminizantes. As consequências seriam óbvias.

É isso aí, mesmo não havendo gene da homossexualidade esta sim poderia ser resultado da ação dos genes em conjunto com MEs. O mecanismo é simples e o insight dos cientistas ao entendê-lo, brilhante.

Claro que isto não vai mudar a opinião de quem está utilizando a ciência apenas para defender suas crenças. E, mais importante, se bem a explicação científica é fascinante, o recado que mais interessa é que, simplesmente, não temos o direito de determinar como os outros devem viver suas vidas. Não podemos de forma alguma negar direitos constitucionais em virtude de etnia, crença, orientação sexual... Não podemos trocar o Estado de Direito previsto na Constituição pelas orientações dos livros religiosos.

Assim de simples.

Fontes:
1 - William R. Rice, Urban Friberg, and Sergey Gavrilets. Homosexuality as a Consequence of Epigenetically Canalized Sexual Development. The Quarterly Review of Biology, 2012; 87 (4)
2 - J. A. Hackett, R. Sengupta, J. J. Zylicz, K. Murakami, C. Lee, T. A. Down, M. A. Surani. Germline DNA Demethylation Dynamics and Imprint Erasure Through 5-Hydroxymethylcytosine. Science, 2012; DOI: 10.1126/science.1229277

sábado, 15 de setembro de 2012

Poligamia no oeste paulista

No belo filme "Eu, tu, eles", um raro caso de poliandria.
A decisão tomada em um cartório da cidade de Tupã (SP) oficializando a união legal (poliafetiva) entre um homem e duas mulheres teria tudo para provocar um intenso debate. A final de contas é o próprio conceito de casamento monogâmico que está em jogo.

Pessoalmente acredito que esse tipo de decisão –que se soma a outras geralmente oriundas do Judiciário- tem a benéfica capacidade de arejar nossa estrutura social e gerar debate sobre assuntos de fato relevantes. Como já comentamos em relação ao casamento gay, trata-se fundamentalmente de uma discussão sobre direitos individuais dentro de um estado laico e democrático. Cada um deveria ser capaz de decidir, sem interferência governamental, com quem ou com quantos queremos dividir nossa vida. Não faz mesmo muito sentido que o Estado decida sobre algo tão íntimo.

Claro que esta visão vai de encontro a tradições muito bem enraizadas, e por isso gera uma forte resistência. Não há novidade nisso. Foi assim em relação ao fim da escravidão, ao direito ao voto feminino, no caso da luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos na década de 1960, do divórcio, dos direitos civis dos gays... 
Sociedades evoluem e leis e normas devem se adaptar aos novos tempos. E claro, se alguém se sentir prejudicado terá sempre o direito de recorrer à Justiça que é nos estados democráticos quem acaba ditando o ritmo dessas mudanças.

Se a discussão dos aspectos sociais e jurídicos do modelo familiar é ao mesmo tempo interessante e polêmica, seu estudo desde a óptica evolutiva chega a ser fascinante. Mas quando fazemos este tipo de abordagem devemos sempre lembrar que nosso cérebro mamífero não quer saber sobre conceitos politicamente corretos. Há uma diferença conflitante entre o que biologicamente desejamos e o que socialmente podemos almejar. Muitas vezes essa diferença nos choca.

Nosso cérebro evoluiu durante milhões de anos se preocupando com nossa sobrevivência e reprodução. Criou mecanismos gratificantes quando fazemos coisas relacionadas com atividades como comer, beber e fundamentalmente procriar. Somos consciente ou inconscientemente obcecados em ter descendentes e cuidar para que eles sobrevivam. Tudo o que permite esse objetivo será recompensado na forma de prazer. Fugir da dor e ir atrás do prazer é o que motiva nosso comportamento, mesmo que não percebamos.

Se analisarmos apenas nossa curta história como Homo sapiens (uma história de uns 200.000 anos), observaremos que em mais de 95% desse período vivemos uma vida de caçadores coletores em meio a um ambiente hostil e parco de recursos. Nosso cérebro evoluiu para sobreviver e procriar nessas condições, onde passamos quase toda nossa história, e por isso tem dificuldade em compreender e lidar com aspectos e normas de relacionamento atuais que não existiam em nosso habitat ancestral. Ser politicamente correto representa muitas vezes não fazer o que no fundo queremos. Obviamente isso gera conflitos.

Com isso em mente, ficamos mais preparados para analisar de forma menos passional o dilema entre poligamia e monogamia que agora se apresenta para tirar nosso sossego.

Pelo que sabemos os humanos somos naturalmente polígamos, predominando notavelmente a poliginia (união entre um homem e várias mulheres) sobre a poliandria (união de uma mulher com vários homens). Os cientistas sabem disso porque o homem é maior que a mulher. O dimorfismo sexual parece ser um indicativo eficaz para analisar se uma espécie é monógama ou polígama. Em primatas estritamente monógamos como o gibão, machos e fêmeas são do mesmo tamanho. Gorilas, que são fortemente polígamos, apresentam grande dimorfismo sexual. Nessa escala, nós humanos apresentamos um dimorfismo sexual médio, o que se correlaciona também com uma disposição média para a poliginia.



À esquerda, o poligâmico gorila e seu harém. À direita, um monogâmico casal de gibões. 
Observar as diferenças no dimorfismo sexual entre as duas espécies de primatas.


Corroborando essa tendência biológica e de acordo com os registros mais atualizados, das 1.231 sociedades humanas encontradas hoje no planeta, apenas 186 são monogâmicas, 453 são ocasionalmente poligínicas, 588 frequentemente poligínicas, e quatro poliândricas. Assim que ninguém se espante se alguém disser que não há nada de novo ou errado na poligamia.

Mas o que é mais socialmente conveniente, a poligamia ou a monogamia? E quem mais se beneficia com uma ou outra, o homem ou a mulher?

Se o leitor apostou que são as mulheres as mais beneficiadas com a monogamia, parece que fez a aposta errada.

Mas é fácil errar. Numa passeada rápida pelas mídias sociais encontramos essas românticas mensagens glorificando o amor eterno, geralmente acompanhadas por casais idosos abraçados, deitados, dormindo de conchinha, tomando banho, correndo pela praia...  Quase que irremediavelmente essas mensagens foram postadas por mulheres. Já as mensagens masculinas se inclinam mais para o lado da promiscuidade. Assim, o sistema monogâmico vigente parece ser um pesadelo para a maioria dos homens. Será?

Os cientistas parecem ter outra opinião. Fêmeas em geral preferem compartilhar um macho alfa a ter exclusividade sobre um macho inferior. Ou como diria o escritor George Bernard ShawO instinto maternal leva a mulher a preferir a décima parte de um homem de primeira categoria do que a posse exclusiva de um de quinta.”.  Essa tendência aumenta em regimes onde a distribuição de bens é muito desigual. Nesses casos, “a décima parte de um homem de primeira categoria” representa mais de 100% dos recursos de um homem de quinta. Já em sociedades com recursos mais igualitariamente distribuídos, onde ricos não são muito mais ricos que os pobres, “um décimo” dos recursos de um homem rico provavelmente representará menos da totalidade dos recursos de um homem pobre.  Aí a exclusividade compensa.

E para os homens, a poliginia é tão boa quanto eles alardeiam? 
Não para a maioria. Numa sociedade onde a poliginia é legal (como a islâmica de hoje), um homem pode ter até quatro esposas. Considerando uma distribuição de 50% entre homens e mulheres entre a população, somente os homens considerados mais “aptos” pelas mulheres (ou suas famílias) terão direito a ter uma esposa. Se metade dos homens decidir casar com duas mulheres, a outra metade não terá esposa nenhuma. Se decidirem fazer jus às suas quatro esposas, um número maior de homens vai ficar solteiro para sempre. Uma receita para o desastre. Mais cedo ou mais tarde a necessidade de procriar dos machos menos atraentes vai gerar uma pressão que só poderá ser reprimida com violência e morte.

Assim, para as mulheres, como tanto em regimes monogâmicos como poligâmicos (excluindo aqui a rara poliandria) terão um único parceiro, a poligamia opcional é conveniente porque permite uma flexibilidade de opção caso exista uma diferença muito grande na distribuição dos bens entre os homens. Já para a maioria dos homens a monogomia compulsória é a única que assegura -mesmo aos homens menos atraentes- a possibilidade de conseguir uma esposa. Se por um lado a poligamia assegura a reprodução dos mais "aptos", ela pode gerar uma tensão social muito grande.

Claro que a complexidade do comportamento humano não se restringe aos apelos hedonistas de nosso cérebro mamífero. A evolução selecionou também comportamentos que privilegiaram nosso convívio em grupo, mesmo por que a sobrevivência individual depende de um grupo coeso, o que por sua vez demanda em alguns casos sacrifícios pessoais. Altruísmo e empatia também fazem parte, felizmente, de nosso repertório cognitivo.  
Finalizando, é sempre importante conhecer todas as forças que nos fazem ser como somos, sem esconder nenhuma embaixo do tapete. 
Ou como diriam os gregos, nosce te ipsum.

Leitura recomendada: Por que os homens jogam e as mulheres compram sapatos. Satoshi Kanazawa e Allan Miller, 2007.



sábado, 18 de agosto de 2012

A boa vida dos bonobos (e o que eles podem nos ensinar)

Sexo bonobo. Fotografia extraída do site da
pesquisadora Vanessa Woods.
Em um período da nossa história geológica conhecida como Mioceno começou a se diferenciar evolutivamente um grupo de primatas que daria origem – em um longo processo de 15 milhões de anos - aos gorilas, chimpanzés, humanos, bonobos e orangotangos.
Como muitos já leram por aí, é enorme a semelhança genética que mantemos com esses primos. Compartilhamos com alguns deles 98,7% do nosso DNA
Para mim sempre foi fascinante a história que esses dados genéticos e os associados ao estudo do seu comportamento nos contam sobre o que somos, sobre a forma como agimos e pensamos. E analisando tudo isso alguns pesquisadores chegaram a questionar, provocativamente, se nós humanos não tomamos o caminho errado em nossa caminhada evolutiva.
Essa constatação surge quando analisamos a forma como os grandes primatas nos relacionamos, como lidamos com nossos conflitos, como tratamos aquilo que nos dá prazer. Em todos esses quesitos, os bonobos dão um banho de sabedoria e bom viver no restante da família símia. Já escrevemos sobre o assunto nesta coluna quando tratamos da história evolutiva do pênis

Mas qual a grande diferença entre animais tão semelhantes? Bom, evidentemente nosso cérebro, graças provavelmente a algumas mutações em genes responsáveis pela organização neural, deu o pulo cognitivo que podemos hoje testemunhar e estudar. Mas em termos de relacionamento, não diferimos muito dos gorilas e dos agressivos chimpanzés. Somos proclives à violência, à territorialidade, ao rapto, ao estupro, à guerra, à submissão pela força, mesmo compartilhando estruturas cerebrais que nos permitem ter empatia. Criamos uma sociedade competitiva, estressante e machista, que costuma associar prazer com algo ruim e pecaminoso. Tudo o contrário da forma “bonoba” de viver a vida. 

Um dos maiores estudiosos do comportamento desses primatas, o holandês Frans de Waal, associou definitivamente os bonobos com a expressão “faça amor, não faça a guerra”. Ao comparar os bonobos com seus quase irmãos chimpanzés (os bonobos são também conhecidos como chimpanzés-anões) observou que “enquanto chimpanzés usam violência para obter sexo, bonobos usam o sexo para evitar a violência”. 

Mas o que diferencia realmente os bonobos do resto dos grandes macacos? A principal diferença parece estar em que entre eles, e só entre eles, as fêmeas assumiram o comando, e criaram uma sociedade pacífica onde a guerra não existe e o sexo é tão comum quanto um amistoso aperto de mãos. Promíscuo? Sim, talvez, mas pelas evidências que temos todos os primatas somos. E os bonobos parecem ter descoberto que entre a promiscuidade e a violência a primeira é infinitamente melhor. 

Tudo o que diz respeito à forma como os bonobos se organizam em sociedade é digno de ser estudado. Eles levaram o sexo a um patamar superior aos dos outros mamíferos. Na quase totalidade do reino animal, o objetivo do sexo é a procriação, e o prazer que ele proporciona apenas uma recompensa química para que os animais procriem e perpetuem a espécie. Já os humanos modernos utilizamos o sexo de forma fundamentalmente recreativa, para obter um prazer individual ou a dois. Ao que parece, os bonobos transcendem esse limite e utilizam o sexo para criar laços sociais baseados no companheirismo, na camaradagem e na colaboração, conforme pode ser observado nos textos de Frans de Waal e nos vídeos indicados ao final deste post. 

Infelizmente, seus primos humanos estão conseguindo a proeza de eliminar essa espécie, hoje resumida a uns 10.000 indivíduos sobrevivendo em um único país: a República Democrática do Congo, na África. Caso consigamos a humana façanha de acabar com eles, não teremos mais condições de estudar animais que aprenderam a resolver seus problemas com níveis mínimos de violência, animais que parecem possuir o que há de melhor em nós mesmos.



O que os bonobos podem nos ensinar sobre amor e sexo?


Os estudos de Frans de Waal e de outros que se debruçaram para entender a organização social destes primos tão particulares, alimentaram uma série de artigos e livros sobre a vida dos bonobos e sua relação com nossa própria organização social e sexualidade. Um dos mais lidos atualmente é “Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality”, de Christopher Ryan e Cacilda Jethá (sem tradução ao português, mas sim em espanhol: “En el principio era el sexo”).
Recentemente, a neurocientista e editora do Huffington Post, Cara Santa Maria, solicitou a Christopher Ryan, em ocasião do dia dos namorados, que este citasse sete dicas que os bonobos poderiam nos dar sobre amor e sexo. Quem quiser ler o original em inglês pode clicar no link acima. 
Aqui vai uma tradução aproximada:

1. Mais sexo = menos conflito. Como o grande primatologista Frans de Waal comenta "chimpanzés usam violência para conseguir sexo, enquanto os bonobos usam o sexo para evitar a violência." Enquanto os chimpanzés se maltratam de várias formas (guerras, estupro, homicídio, infanticídio, etc.) nunca houve um único caso observado de qualquer uma dessas formas de agressão entre os bonobos, que são muito mais sexy que os chimpanzés. Como James Prescott demonstra em uma meta-análise com todos os dados antropológicos disponíveis, a conexão entre sexualidade menos restritiva e menos conflitos geralmente vale também para as sociedades humanas.

2. O feminismo pode ser muito sexy. Quando as fêmeas estão no comando, todo mundo vive melhor (incluindo os machos). Ao contrário dos chimpanzés, onde os machos dão as cartas, entre os bonobos são elas que mandam, com muito melhor qualidade de vida para todos os envolvidos (ver item 1).


3. Irmandade feminina é poderosa. Embora bonobos fêmeas sejam cerca de 20% menores que os machos – relação semelhante à observada entre chimpanzés e seres humanos- elas dominam os machos mediante sua união. Se um macho sair da linha e perturbar uma fêmea, TODAS as outras se unirão contra ele. Esta solidariedade fraternal, combinada com muito sexo, tende a manter os machos se comportando educadamente.


4. Ciúme não é romântico. Embora bonobos sejam capazes de sentir sentimentos direcionados especificamente a um indivíduo, eles não se preocupam muito em controlar a vida sexual do seu parceiro. Nem parece gostarem de fofocas... 


5. Ha promessa de promiscuidade. Todo o sexo casual entre bonobos é sem dúvida uma grande parte do que os colocou entre os mais inteligentes de todos os primatas. Até os humanos chegarem para estragar festa, bonobos desfrutavam muito com sua qualidade de vida, baixos níveis de estresse, e grande interação social. Na verdade, das muitas espécies de primatas sociais que vivem em grupos compostos de muitos machos, não existe uma única espécie sexualmente monógama. Os mamíferos mais inteligentes - humanos, chimpanzés, bonobos e golfinhos- são promíscuos. 


6. O bom sexo não precisa incluir sempre um orgasmo, e sexo "casual" não significa necessariamente "vazio" ou "barato". A maioria das interações sexuais entre bonobos não são nada mais do que uma sensação rápida, uma bolinação, uma penetração, um “aperto de mãos bonobo”, conforme narra Vanessa Woods em seu ótimo livro. Mas os bonobos são muito românticos: como os seres humanos, eles se beijam, seguram as mãos (e os pés!), e olham nos olhos um do outro enquanto fazem sexo.


7. Pelo menos para os bonobos, sexo e comida combinam melhor que sexo e casamento. Nada incentiva mais o início de uma orgia bonoba do que um banquete. Dê a um grupo de bonobos uma boa refeição e eles partirão para um sexo rápido antes de compartilhar educadamente a comida. Não há necessidade de partir para a briga sobre os restos como um grosseiro bando de chimpanzés!

Quem quiser assistir vídeos sobre a vida dos bonobos, recomendamos o site da pesquisadora Vanessa Woods: http://www.bonobohandshake.com/
Sobre a organização social dos primatas (incluindo os humanos) recomendo o ótimo "Eu, primata. - Por que somos como somos" de Frans de Waal.


sábado, 7 de julho de 2012

Casamento gay

Duas fêmeas da espécie Laysan albatross. Cooperativamente
 constroem o ninho e chocam os ovos quando os
machos escasseiam. (Foto: Eric VanderWerf)
Ainda na esteira do primeiro casamento homoafetivo em nossa cidade, volto ao assunto da homossexualidade já abordado nesta coluna tempos atrás. Naquela oportunidade mencionamos os resultados de um estudo que mostrava que a anatomia e circuitaria do cérebro de indivíduos homossexuais tinham semelhanças com a anatomia e circuitaria do cérebro de indivíduos heterossexuais do sexo oposto, o que de alguma forma indicaria uma predisposição biológica para a homossexualidade.

Mas em relação ao casamento homoafetivo a ciência tem pouco a dizer. O assunto geralmente resvala para discutíveis aspectos éticos e a metodologia científica não tem –por enquanto- mecanismos para pesquisar o que é ético ou não. Basicamente a questão se restringe à discussão dos direitos individuais dentro de um estado laico e democrático, e do direito que algumas pessoas e denominações religiosas se autoconcedem para palpitar sobre como os outros devem viver suas vidas. Na melhor das hipóteses, a ciência pode em alguns casos analisar os argumentos utilizados a favor ou contra determinadas práticas, sempre que estes invadam a área onde ela trabalha. 


Por exemplo, um dos argumentos mais ouvidos nesse debate é que “Atos homossexuais são contrários à lei natural (...). (...) não podem em caso algum ser aprovados.”. Esta premissa procede dos documentos da igreja católica – originados do famoso peccatum contra naturam - e deveria servir de orientação aos que espontaneamente optam por pertencer a essa denominação religiosa. Fora do contexto religioso o conceito “natural” é questionável.

A sodomia provocando a ira de Deus.
(François-Rolland Elluin, Gli abitanti di Sodoma provocano l'ira divina.
Incisione per l'opera libertina Le Pot-Pourri de Loth in Cantiques et pots-pourris; 1789).


Práticas homossexuais foram comuns ao longo da história da humanidade, sendo ainda aceitas em várias culturas. Atividades homossexuais foram observadas em aproximadamente 1.500 espécies animais, e bem descritas em umas 500, incluindo aqui golfinhos e primatas bonobos, macacos com os quais compartilhamos mais de 98% da carga genética. Este fato inclusive foi utilizado como argumento para a justiça norte-americana invalidar em 2003 todas as leis que ainda puniam a sodomia. 
Já se a expressão “não natural” se refere ao fato de não ter finalidade reprodutiva, a enorme maioria das práticas heterossexuais, dentro e fora do casamento, também deveria ser incluída nesta classificação.


Por outra parte, mesmo que aceitássemos o argumento da “não naturalidade”, resultaria arbitrário condenar o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo e aceitar o matrimônio monogâmico. A monogamia é reconhecidamente não natural já que reduz o número de descendentes que cada macho pode ter, a seleção dos machos mais aptos (em condições naturais fêmeas preferem compartilhar um macho melhor dotado geneticamente a ter um macho "inferior" só para elas), e assim a diversidade genética, sendo por isso observada em apenas pouquíssimas espécies. Hoje temos evidências bastante sólidas que indicam que o Homo sapiens foi poligâmico por mais de 99% da sua história evolutiva, e ainda o é em várias culturas. Se a monogamia é atualmente o modelo mais comum não é porque seja natural e sim porque é socialmente conveniente. 
Assim a premissa da “não naturalidade” não apenas carece de respaldo nas evidências como soa bastante arbitrária. 


Filhos criados por casais homossexuais sofrem desajustes psicológicos.” Este argumento é um desses que -intuitivamente- parece ter tudo a ver, mas quando analisamos objetivamente, não tem nada a ver. Já existem vários estudos em diversos países e culturas que indicam de forma bastante clara que pais homossexuais são tão aptos para criar seus filhos quanto pais heterossexuais, e que psicologicamente seus filhos são tão sadios e bem ajustados quanto os filhos de casais heterossexuais. A saúde psicológica da criança se relaciona com os exemplos que recebe. Se estes direcionarem sua formação no caminho da tolerância, o respeito, a generosidade e a empatia, a chance de criar adultos saudáveis será maior, sejam os pais homo ou heterossexuais. 


Enfim, provavelmente toda esta análise científica é um blá-blá-blá desnecessário. Quem somos qualquer um de nós para palpitar sobre como outros devem viver suas vidas? Algumas décadas atrás o divórcio era uma verdadeira afronta à sociedade e à moral de nossas famílias. Hoje casais infelizes tem a chance de recomeçar suas vidas em 24 horas. 

O que sim deveria preocupar, principalmente àqueles que de alguma forma participam dessa pregação anti-qualquer-coisa-gay, é que o Brasil é o país onde mais se mata homossexuais no mundo. 
Gostemos ou não, a enorme maioria das pessoas por estas bandas ainda leva muito a sério o que é dito desde os púlpitos, geralmente desde onde partem os ataques mais contundentes ao casamento homoafetivo. Não podemos esquecer que quando se incentiva o discurso homofóbico se alimenta o que há de mais obscuro em nossa intolerância atávica. Até que ponto essa pregação pode induzir às ações violentas que nos colocam nessa vergonhosa posição mundial, é algo sobre o qual muitos deveriam refletir. Fora e dentro dos templos.


Fontes
-Bailey et al. Same-sex sexual behavior and evolution. Trends in Ecology & Evolution, Volume 24, Issue 8, August 2009, Pages 439–446, 2009
-University of California - Riverside (2009, June 16). Same-sex Behavior Seen In Nearly All Animals, Review Finds. ScienceDaily. Retrieved

Você é favorável à liberação do casamento entre pessoas do mesmo sexo?

sábado, 3 de março de 2012

Uma anomalia chamada seios

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Chamar os seios de anomalia pode parecer uma afronta. Seios exercem um enorme fascínio sobre os homens, ao menos sobre os heterossexuais. Mas, por quê? E mais, por que as mulheres têm seios e não apenas mamas?

Para começar a entender o motivo pelo qual muitos cientistas acham que os seios são uma anomalia evolutiva, vale a pena analisar o que acontece com os outros animais.

A existência de mamas é, obviamente, uma caraterística de todos os mamíferos. Em todos, elas têm a função de produzir leite para alimentar a prole. Assim, sua estrutura é basicamente composta de tecido glandular. Esse tecido aumenta de tamanho apenas próximo e durante o período de lactação. Quando a fêmea deixa de amamentar ele regride de forma que suas mamas ficam aproximadamente do mesmo tamanho que as do macho. Isto pode ser visto em praticamente todos os mamíferos, incluindo aqui os grandes primatas não humanos (gorilas, bonobos, chimpanzés e orangotangos). Menos em nossa espécie.





O tórax desta gorila fêmea adulta pouco se diferencia em relação ao macho.


As mamas de nossas fêmeas possuem, além do tecido glandular, quantidades abundantes de tecido adiposo e tecido conjuntivo. Ao contrário dos outros mamíferos, o crescimento dos seios começa na puberdade, sem nenhuma relação com a amamentação. Embora durante a amamentação aumentem de tamanho, finalizado esse período continuam bem maiores que as mamas do macho. Não há nenhuma relação confirmada entre o tamanho das mamas e a quantidade ou qualidade do leite produzido. Seios grandes indicam fundamentalmente seios com um maior conteúdo de gordura. Mulheres anoréxicas ou maratonistas profissionais, onde há uma queda acentuada na quantidade geral de gordura pelo corpo têm uma redução acentuada do tamanho e consistência dos seios. Mulheres que fazem regime severo sabem disso.



O desenho mostra o aspecto interno da mama de uma mulher adulta.
Comparar a quantidade de tecido glandular (produtor de leite) na cor roxa em relação
ao tecido adiposo (amarelo) e conjuntivo (bege).


Tudo indica então que as mamas adquiriram em nossa espécie outra função além daquela básica de amamentar os filhotes. Qual seria? De acordo com estudos evolutivos, mamas sempre volumosas são um ornamento selecionado por processos de seleção sexual, algo análogo à vistosa cauda do pavão. Daí nossa atração atávica.

A evolução desse traço parece ter sido bem recente, originando-se provavelmente depois que alguns hominídeos adquiriram uma postura ereta, o que aconteceu há uns 4,2 milhões de anos AEC. Com o bipedalismo, o pênis, clitóris, mamas, cintura e quadril ficaram expostos e tornaram-se alvos potenciais da seleção sexual. O mesmo aconteceu com a agora volumosa região glútea. Já vimos que este processo afetou também a evolução do pênis, cujo tamanho relativamente avantajado parece ter sido resultado da seleção da fêmea. Da mesma forma, é bem provável que machos tenham determinado mediante processos seletivos a morfologia externa dessas estruturas em suas parceiras.

Mas por que seios sempre volumosos poderiam representar uma vantagem evolutiva? Ao que parece, durante o pleistoceno -período geológico onde os humanos evoluímos- seios volumosos poderiam servir como sinalizadores de juventude, saúde geral e inteligência, características que tornariam a fêmea desejável desde o ponto de vista reprodutivo. De fato, seios grandes dão boas dicas da idade. A ação da gravidade e as repetidas gestações exercem um efeito já bem conhecido por todos: os seios “caem”. Assim, seios empinados seriam um claro sinal de juventude que não passaria inadvertido pelos machos.

Seios volumosos também dariam importantes pistas sobre o estado de saúde da fêmea e sua capacidade de enfrentar as adversidades do ambiente. E isto parece não estar relacionado com o tamanho dos seios, e sim com sua simetria. A bilateralidade das estruturas do nosso corpo, como braços, dedos, seios e estruturas da face está determinada em nossos genes. A ordem genética é criar estruturas bilaterais idênticas. Mas fatores ambientais como nutrição, doença, contaminação do ambiente, estresse, etc., acabam interferindo nesse processo provocando assimetrias (em biologia, isto é denominado assimetria flutuante). Estruturas assimétricas indicam que a ação dos genes não foi suficientemente robusta a ponto de contornar esses fatores. Ao contrário, altos níveis de simetria (simetria absoluta é muito raro) é sinal de uma boa capacidade do indivíduo resistir às ameaças ambientais.

A escolha de indivíduos com elevados níveis de simetria foi comprovada em testes de atração facial. Quando confrontados a fotografias, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes faces simétricas. Por outra parte, mulheres com seios simétricos têm maior índice de fertilidade.

Finalmente, seios volumosos (e quadril largo) também seriam um sinal de acúmulo de gordura. Nas duras condições das savanas africanas do pleistoceno, este acúmulo indicaria, em parte, uma maior possibilidade das fêmeas enfrentarem períodos com pouca oferta alimentar e ao mesmo tempo uma habilidade comparativamente maior para conseguir alimentos, todas características vantajosas desde o ponto de vista da sobrevivência.

O aumento comparativo do tamanho das mamas nas fêmeas humanas veio acompanhado de outras caraterísticas. Houve um deslocamento do tecido adiposo no abdome feminino. Gorilas e chimpanzés fêmeas acumulam gordura na cintura e no quadril, de forma semelhante ao que acontece em machos humanos. Já a silhueta de fêmeas humanas jovens e férteis apresenta forma de ampulheta, com uma cintura fina e medidas maiores na região do quadril e seios. Esta silhueta permitiria mesmo a distância e em condições de pouca luminosidade –o que deveria ser comum nas savanas africanas por onde nossos ancestrais viveram por centenas de milhares de anos- que fêmeas férteis fossem facilmente distinguidas de machos e mesmo de fêmeas idosas, onde a silhueta já não guarda essas proporções.





Ao longo da história, várias culturas em diversas regiões do planeta reverenciaram
 a silhueta feminina em forma de ampulheta. Nesta estátua, a deusa hindu Parvati
 tem essa forma exagerada, provavelmente enfatizando sua fertilidade.


Silhueta apropriada, nádegas arredondadas, seios simétricos e empinados sinalizam fêmeas jovens, férteis e saudáveis, aptas assim para gerar descendentes bem adaptados . Um material em tanto sobre o qual toda a seleção guiada pelo sexo pudesse agir durante centenas de milhares de anos e provocasse ainda nos politicamente corretos dias de hoje algumas situações constrangedoras, como a do filme abaixo.




Fontes:


Moller, AP, Soler, M and Thornhill R (1995) Breast asymmetry, sexual selection, and human reproductive success. Ethology and Sociobiology. 16 (3): 207-219
Zaidel, DW e cols., (2005) Appearance of symmetry, beauty, and health in human faces. Brain and Cognition 57 (2005) 261–263
Jahme C., Breast size: a human anomaly; The Guardian (Science), 14/05/2010.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

O homossexualismo sob a lupa da ciência

O homossexualismo A homossexualidade sob a lupa da ciência


O que faz alguém ser homossexual? É uma simples opção individual nascida do livre-arbítrio? É uma alteração patológica do comportamento? É algo que deve ser tratado, como se fosse uma disfunção hormonal? É o meio? São os genes? Independentemente da enorme dificuldade de encontrar uma resposta para essas perguntas - e da enorme facilidade que têm alguns em dar respostas apressadas -, o fato é que ser homossexual não é nada fácil. A perseguição e a intolerância têm sido o padrão geral de tratamento para essas pessoas. Assumir a homossexualidade ainda é um passaporte para a rejeição social e até familiar. Difícil saber onde ela nasceu. Nossas raízes religiosas não têm ajudado em nada. Frases bíblicas como “Com varão te não deitarás, como se fosse mulher: abominação é” ou “Quando também um homem se deitar com outro homem como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue é sobre eles”, provavelmente não devem contribuir para minorar esse clima de perseguição, mas provavelmente não justifiquem completamente a histórica situação de rejeição social e intolerância (1) . 

Desde o ponto de vista científico, nos últimos anos pesquisadores vêm tentando responder se existem ou não diferenças entre o cérebro de homossexuais e heterossexuais, que possam influenciar na preferência sexual. Esses estudos ganharam na última década ferramentas valiosas como a fMRI (ressonância magnética funcional) e a PET (tomografia de emissão positrônica), que permitem ver com clareza estruturas cerebrais, medir seu volume, e analisar como essas estruturas funcionam “ao vivo e a cores”.

Em um estudo publicado este mês, os cientistas Ivanka Savic e Per Lindström, do Instituto Karolinska, da Suécia, selecionaram 90 indivíduos de idade semelhante, sendo 25 homens heterossexuais, 20 homens homossexuais, 25 mulheres heterossexuais e 20 mulheres homossexuais, e os submeteram a uma série de análises utilizando fMRI e PET.

Os resultados mostraram que homens heterossexuais e mulheres homossexuais têm características cerebrais semelhantes, e a mesma coisa aconteceu entre mulheres heterossexuais e homens gays. Por exemplo, o hemisfério cerebral direito, que controla as capacidades espaciais e senso de orientação, é maior que o esquerdo nos homens heterossexuais e mulheres homossexuais, já entre mulheres heterossexuais e homens homossexuais os hemisférios direito e esquerdo têm o mesmo tamanho. Esse fato poderia explicar dados obtidos anteriormente, que mostravam que homens gays e mulheres heterossexuais apresentam, em média, um senso de direção inferior que o apresentado por homens heterossexuais.

Além do volume cerebral, os pesquisadores observaram que o funcionamento do corpo amigdalóide, uma estrutura cerebral que joga um papel fundamental nas respostas emocionais, é semelhante entre mulheres heterossexuais e homens homossexuais.


Imagens de ressonância magnética funcional do cérebro de homens heterossexuais (HeM), mulheres heterossexuais (HeW), homens homossexuais (HoM) e mulheres homossexuais (HoW). Observar as semelhanças do padrão de ativação do corpo amigdalóide, fundamentalmente entre HeM e HoW.


Esses resultados são importantes porque foram avaliados sistemas cerebrais não relacionados com o comportamento sexual. Em estudos anteriores, ao mostrar rostos atraentes os pesquisadores tinham observado que estruturas cerebrais relacionadas com o comportamento sexual reagiam de forma semelhante entre mulheres heterossexuais e homens homossexuais (respondiam a fotos de homens bonitos) e entre mulheres homossexuais e homens heterossexuais (respondiam a fotos de mulheres bonitas). Mas semelhanças entre estruturas cerebrais relacionadas com o comportamento sexual podem ser resultado da opção sexual e não causa dela. Assim, quando comparamos características neutras desde o ponto de vista sexual (tamanho do cérebro, funcionamento emocional ante estímulos não sexuais), fica difícil acreditar que essas diferenças sejam a consequência de ter assumido determinada preferência sexual. Mas para ter mais certeza sobre isso, o grupo da pesquisadora Savic está estudando agora assimetrias cerebrais em recém nascidos, na tentativa de ver se essas diferenças podem ser utilizadas para prever a orientação sexual futura.

De concreto, o que temos é que há sim diferenças entre o cérebro de homossexuais e heterossexuais do mesmo sexo. Essas diferenças podem ser tanto o fruto de alterações genéticas, como de fatores que agem em nossa vida intra-uterina. Nessa fase, alguns estudos mostram que uma maior ou menor exposição do feto aos hormônios sexuais circulantes no sangue pode ser responsável por essas mudanças. Essa característica biológica, associada ao meio, pode participar de forma importante na opção sexual, mas até que ponto é determinante, ainda é uma incógnita.

O mais intrigante é que quanto mais nos aprofundamos em entender o cérebro, cada vez mais a noção do livre-arbítrio fica comprometida. Embora perturbador, se essas suspeitas sobre o fundamental papel do cérebro sobre nossos comportamentos, crenças e decisões se confirmarem, justificarão ao menos uma visão mais tolerante e compreensiva sobre nossas atitudes, vaidades e fraquezas.

(1 Em tempo, de acordo com as pesquisas mais recentes, os ateus são ainda mais rejeitados que os homossexuais. 63% dos entrevistados, por exemplo, não votariam em um ateu “de jeito nenhum”. Parece não haver dúvida que este nível de rejeição só pode ser explicado devido à histórica intolerância religiosa. 


(2) O termo Homossexualismo usado neste artigo corresponde à definição do dicionário eletrônico Houaiss, versão 3.0:



Homossexualismo 
n substantivo masculino    
1 a prática de relação amorosa e/ou sexual entre indivíduos do mesmo sexo    
2 m.q. homossexualidade
Fontes: 
PET and MRI show differences in cerebral asymmetry and functional connectivity between homo- and heterosexual subjects. Ivanka Savic and Per Lindström; PNAS, junho 2008.
Kranz F, Ishai A (2006) Face perception is modulated by sexual preference. Curr Biol, 16:63–68.
Ponseti J, et al. (2007) Homosexual women have less grey matter in perirhinal cortex
than heterosexual women. PLoS ONE 2:e762.

(Artigo originalmente publicado no jornal Folha da Região, Araçatuba, SP, em 21/06/2008)




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O dilema da pílula

Mulheres que usam pílula anticoncepcional sentem menos atração por seus parceiros e estão menos satisfeitas sexualmente que mulheres que não tomam pílula. Esse foi o resultado de um estudo recém publicado, que analisou o comportamento de mais de 2500 casais. E, o que é mais curioso, os pesquisadores também observaram que o uso da pílula pode influenciar o tipo de parceiro que a mulher escolhe, o que obviamente terá um impacto na sua vida futura.

Mas antes de tentar explicar como a pílula provoca essas diferenças, é necessário lembrar o que sabemos sobre a biologia desta escolha.

A seleção do parceiro por parte das mulheres obedece a influências sociais e biológicas. A influência social está relacionada ao contexto cultural. O que a sociedade indiana espera do matrimônio e do papel e virtudes de cada um dos cônjuges é diferente do que é esperado na Arábia Saudita, Suécia, Brasil, etc. Já a influência biológica é menos evidente. Ela é muitas vezes inconsciente e se esconde por trás do equilíbrio de substâncias químicas no cérebro.

Deixando os aspectos socioculturais para os sociólogos, como a biologia pode nos ajudar a entender essas escolhas? Os resultados nessa área são, no mínimo, intrigantes.

Como todos sabemos, o ciclo hormonal feminino determina um período fértil e outro não fértil. Embora a mulher possa sentir satisfação sexual em ambos, durante o período fértil o desejo por acasalamento é mais intenso. A recompensa que o cérebro oferece na forma de liberação de dopamina é maior, o que direciona o comportamento feminino à procura de parceiros.

O objetivo, claro, não é o prazer sexual em si, e sim ter descendentes, e estes têm que ser o mais sadios possível, os mais aptos para sobreviver num meio eventualmente hostil. Assim, no período fértil a mulher tende a escolher parceiros com caraterísticas físicas masculinas evidentes e, ao mesmo tempo, que sejam geneticamente diferentes. Diversidade genética gera descendentes com um sistema imune mais resistente, o que aumenta a chance de sobrevivência.

O responsável por isso é o denominado complexo principal de histocompatibilidade, mais conhecido como MHC (major histocompatibility complex). O MHC é um conjunto de genes responsáveis pela resposta imunológica. Sua ação está por trás da nossa capacidade de resistir ao ataque de bactérias, vírus, fungos, assim como pela rejeição a enxertos. Cada vez que enfrentamos um organismo invasor, o MHC é ativado para iniciar todas as ações de defesa de nosso corpo e ao mesmo tempo se modifica para “lembrar” esse novo ataque. Assim, acasalar com um indivíduo com MHC diferente aumentará a possibilidade dos descendentes terem um sistema imune capaz de responder a ataques diversificados. No extremo oposto, um matrimônio consanguíneo diminuirá essa possibilidade.

Mas como a mulher pode enxergar a variabilidade imunológica entre seus potenciais parceiros? Na realidade, ao que parece essas diferenças não são “enxergadas” e sim “cheiradas”. Alguns estudos indicam que substâncias químicas produzidas pelo MHC são liberadas pela urina, saliva e suor, e podem ativar o olfato do parceiro.

Em um experimento já clássico, jovens vestiram por três dias a mesma camiseta, sendo proibidos banhos e perfumes. Depois foi solicitado a um grupo de mulheres em seu período fértil que escolhesse as camisetas cujo cheiro produzisse maior prazer. De forma significativa, as mulheres optaram por camisetas de indivíduos com os MHCs mais diferentes dos seus. Curiosamente, mulheres fazendo uso da pílula tiveram reações opostas, escolhendo camisetas pertencentes a indivíduos com MHCs mais semelhantes.

De acordo com os pesquisadores, o anticoncepcional prolonga artificialmente o período não fértil, de forma que a escolha é menos influenciada pelos fatores biológicos associados com masculinidade/variabilidade genética, e mais com aspectos ligados à capacidade do macho de cuidar da prole, honestidade, confiabilidade, etc.

Embora os resultados deste tipo de estudo sempre tenham que ser analisados com cautela, as evidências apontam que ao fazer uso de pílula direcionamos o equilíbrio químico do cérebro no sentido de minimizar o apelo biológico e priorizar os aspectos não sexuais do casamento. De fato, o estudo comprovou que mulheres que escolheram seus parceiros durante o uso da pílula tiveram em média relacionamentos mais longos e foram mais felizes em aspectos como o cuidado dos filhos, segurança e amparo, mas ao mesmo tempo sua insatisfação sexual foi mais acentuada e também a frequência com que elas iniciaram os processos de separação.


Se o uso da pílula é capaz de influenciar decisões que nos acompanharão por décadas, é importante estar bem informados sobre as consequências do seu uso. Como o próprio autor do estudo afirma “Escolher um parceiro é uma das decisões mais importantes que tomamos. Se dá certo, nós ficaremos com eles pelo resto de nossas vidas, e teremos filhos com eles, e compartilharemos nossos recursos econômicos. É um passo em tanto, e você vai querer que seja o passo certo”.



Fontes:

Relationship satisfaction and outcome in women who meet their partner while using oral contraception. Roberts, SC e cols., Proc. R. Soc. B doi: 10.1098/rspb.2011.1647;12 October 2011

sábado, 18 de junho de 2011

Mulheres têm mesmo obsessão pelo tamanho do pênis?

Priapo, deus grego da fertilidade,
 pesando seu pênis em ouro,
num afresco da Casa dei Vettii, em Pompeia.

Em tempos tão politicamente corretos como os atuais fazer esta pergunta pode parecer uma heresia, mas como nossas características físicas -e mesmo cognitivas- foram influenciadas pelos politicamente incorretos critérios da evolução darwiniana, a pergunta faz muito sentido, haja vista a quantidade de vezes que este assunto aparece na mídia virtual e escrita.

Para entender a complicada história do nosso pênis e tentar responder a pergunta inicial, devemos recuar 15 a 20 milhões de anos, quando surgiram os primeiros primatas da família Hominidae, que originaram os atuais gorilas, chimpanzés, orangotangos, bonobos e nossa própria espécie. As características que nos diferenciam são o resultado desses milhões de anos de evolução, onde não apenas a seleção natural mas também a seleção sexual foram nos fazendo de jeito que somos. O pênis, claro, não fugiu a este processo.

Se compararmos o pênis entre essas espécies de grandes primatas, observaremos algo curioso. O pênis do gorila é o menor de todos, atingindo em média três centímetros quando ereto, mesmo sendo o gorila o maior de todos os símios com seus mais de 200 quilogramas. Já o dos chimpanzés e bonobos atinge aproximadamente oito centímetros e o do homem 14 centímetros em ereção máxima, em média. Assim, o pênis humano é o maior em comprimento e largura entre os grandes primatas, tanto em termos absolutos como em termos relativos. 


Apesar da sua imponência, o pênis do gorila
 é o menor entre os grandes primatas.

Mas existem outras diferenças além do tamanho. Tanto gorilas quanto chimpanzés e bonobos têm um osso no interior do pênis (denominado báculo) de forma que a ereção é basicamente uma simples ação muscular. No homem, o báculo não existe e o mecanismo de ereção é bem mais complicado, dependendo de uma complexa interação psicológica, neurológica, vascular e endócrina que leva ao acúmulo de sangue e assim à turgidez e aumento de tamanho peniano (se tivéssemos báculo, provavelmente não existiria disfunção erétil nem Viagra!!).

Como isto ocorreu? Por que essas diferenças? Pelo que as pesquisas têm apontado, a resposta parece indicar que esta evolução foi direcionada pela escolha da fêmea, nos casos, claro, em que ela pôde escolher.

Entre os gorilas, por exemplo, as fêmeas têm pouquíssima escolha. O macho dominante, com seus músculos e caninos avantajados, expulsa os outros machos de forma que as fêmeas só podem copular com ele. Não há opção para elas nesse sistema de harém. 

Já no matriarcal e pacífico grupo dos bonobos, as fêmeas dão as cartas. Sabiamente, quando o nível de agressividade começa a aumentar, elas incentivam práticas sexuais homo e heterossexuais de forma que a paz volta rapidamente. Pelo que conhecemos, entre nossos ancestrais Homo tivemos um sistema matriarcal semelhante, de forma que as fêmeas tiveram a opção de escolher o macho. Considerando que entre os Homo erectus (este erectus não tem nada a ver como o pênis) e sapiens primitivos que nos precederam a prática das preliminares provavelmente não estava estabelecida, apresentar um belo falo poderia ser um atrativo importante para a fêmea em termos do prazer que ele poderia proporcionar. Alguns autores afirmam que o bipedalismo total observado apenas no homem, pode em parte estar relacionado com a possibilidade de exibir melhor seu pênis. 

Já em relação ao tamanho dos testículos, são os bonobos os que os têm proporcionalmente maiores e, mais uma vez, os gorilas os menores, estando os humanos numa posição intermediária. Os biólogos acreditam, pelas evidências disponíveis, que grupos de animais onde uma fêmea copula com vários machos –como nos bonobos- a competição entre machos não ocorre dentro do grupo, e sim dentro da vagina. Produzir muitos espermatozóides e ejaculações volumosas pode ser uma vantagem competitiva na hora de fecundar o único óvulo. No caso dos gorilas o sêmen do líder não compete com outros, assim testículos grandes e ejaculações volumosas seriam um gasto de energia desnecessário. Já com os bonobos –e outros mamíferos- ocorre o contrário.


Bonobo relaxando.

Cada vez fica mais claro para os especialistas que a seleção sexual, geralmente baseada na escolha da fêmea, foi bem mais importante do que o próprio Darwin pensara. A psicologia evolutiva, uma fantástica e apaixonante área do conhecimento, começa a nos mostrar que este tipo de seleção não apenas moldou nossos aspectos físicos como nossa sofisticada capacidade intelectual.

Em relação à pergunta inicial, provavelmente nem todas as mulheres têm obsessão pelo tamanho do pênis, e parece óbvio que na cultura atual o tamanho do pênis não é fator fundamental na escolha do parceiro. Todos sabemos que outros fatores jogam papel mais destacado. Mesmo assim as mulheres não podem deixar de pensar nisso já que esse assunto está profundamente arraigado em sua história evolutiva. A cultura pode ter dado uma suavizada, mas o apelo inicial ainda está lá no cérebro.


Onde ler mais:

-Jahme C., Penis size: An evolutionary perspective; The Guardian (Science), 07/05/2010.
-Dixson, A. (2003) Sexual selection by cryptic female choice and the evolution of primate sexuality. Evolutionary Anthropology; 11 (S1): 195-199.
-de Waal, F. B. M., (1995) Bonobo sex and society, the behavior of a close relative challenges assumptions about male supremacy in human evolution. Scientific American, March 1995, 82-88