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domingo, 24 de julho de 2016

Drogas (não) viciam


Neste espaço temos escrito bastante sobre drogas (ver aqui e aqui). A ideia que passamos, e a que prevalece na comunidade científica, é que existem mecanismos celulares que fazem com que o uso de drogas psicoativas (incluindo, claro, tabaco e álcool) acaba provocando a adição. Resumidamente, essas drogas ativam de forma intensa um conjunto de estruturas cerebrais que formam nosso sistema de recompensa. Este sistema existe em todos os mamíferos e é graças a ele que sentimos prazer quando conseguimos coisas básicas como comer para saciar a fome, beber para saciar a sede e, de forma mais intensa, sexo. Alcançar esse prazer, que em termos bioquímicos se traduz na liberação de dopamina numa região cerebral denominada núcleo accumbens, é a que motiva o início de todos os comportamentos que nos permitem obter essas coisas tão fundamentais para a sobrevivência individual e da nossa espécie.

De acordo com a ideia predominante na comunidade científica, a droga agindo nesse centro de recompensa compete com as recompensas naturais, mas como seu efeito é bem mais intenso o drogado obtém um nível de prazer maior com a droga do que com bebida, comida ou sexo. Por isso o comportamento do viciado é motivado fundamentalmente para obter droga e acaba dando menos valor a outras atividades que antes eram prazerosas.

Mas para um grupo de neurocientistas esta explicação não é a melhor para entender por que as drogas viciam. A base para esta discordância está nos experimentos realizados na década de 1970 pelo psicólogo canadense Bruce K. Alexander, conhecidos em seu conjunto como Rat Park (algo assim como parque de diversões para ratos).

Alexander observou corretamente que os experimentos que eram realizados com ratos sobre adição eram extremamente estressantes. O rato ficava numa gaiola pequena e isolado. Nestas condições quando lhe é oferecida opcionalmente em um recipiente, água e em outro uma solução de água com morfina, com o tempo o animal terminava optando sempre por esta última, consumindo a droga até morrer. Alexander decidiu mudar o experimento. Criou colônias com 16 a 20 ratos machos e fêmeas (sexo sem restrições então) em um espaço 200 vezes maior que nos experimentos com ratos isolados. Além disso, a colônia tinha além de ração e sexo à vontade diversos objetos como tubos, caixas, bolas, “rodas gigantes” para os animais brincarem.


Imagens do "Rat Park" criado por  Bruce K. Alexander





Resumidamente, Alexander verificou que ratos vivendo nestas condições optavam por beber água pura em vez da solução água + morfina. Os ratos não ficavam viciados mesmo experimentando eventualmente a droga. Nenhum morreu de overdose. Assim Alexandre sugeriu que não era a droga a que causava a dependência e sim o ambiente onde o indivíduo convivia. Extrapolando estes resultados aos humanos, se estes vivessem em um ambiente que promovesse vínculos interpessoais satisfatórios e desse opções de lazer adequadas, dificilmente a droga por si só seria capaz de causar as alterações que citei no início deste artigo. Em resumo, os humanos ficaríamos viciados então por causa das poucas oportunidades que a sociedade acaba oferecendo a determinados grupos.

Esta opção do ambiente como responsável pela dependência é defendida por cientistas importantes, entre os quais o norte-americano Carl Hart, que recentemente esteve no Brasil lançando um livro sobre o assunto.

A controvérsia persiste. Alguns cientistas não conseguiram reproduzir os resultados de Alexander em experimentos realizados posteriormente e observaram que provavelmente não seja o ambiente e sim fatores genéticos, epigenéticos e congênitos que aumentam ou diminuem a predisposição ao vício.

Por outra parte alegam que as condições de rat park são muito artificiais. Em seu habitat natural qualquer animal tem maiores níveis de estresse quando comparado a rat park (que os críticos chamam, com razão, rat heaven) já que estão lutando constantemente para se alimentar e escapar dos predadores, preocupação que não existe no ambiente artificial criado por Alexandre. Assim, mesmo que os resultados de rat park estejam corretos, não seria possível extrapolar a sociedades humanas já que nenhuma sociedade ou governo seria capaz de oferecer condições semelhantes a rat park a todos seus habitantes (suspeito que nossos ricos vivam em algo parecido, e mesmo assim a dependência química não é pequena entre eles).

É isso. Provavelmente a opção correta em relação à adição incorpore todos os aspectos que aqui citamos. Existem mecanismos celulares, mas deve existir também uma forte predisposição individual causada por mecanismos genéticos, epigenéticos ou congênitos, e com certeza o ambiente desempenha um fortíssimo papel.

E para terminar, uma quase-piada que nos deve fazer refletir bastante. Ao defender que usar drogas não implica em ser viciado em drogas, o neurocientista Carl Hart foi questionado pelo nosso Dráuzio Varella, como separar então o vício do uso de drogas? Hart respondeu: “Os últimos três presidentes dos EUA admitiram ser usuários de drogas. Nenhum deles era viciado”.

sábado, 16 de maio de 2015

Fantasmas no cérebro

Imagem tomográfica de hemorragia cerebral (fatal).  (Joshua P. Klein & 
Robin C. Ryther.N Engl J Med 2009; 361:1786 October 29, 2009
DOI: 10.1056/NEJMicm0900232
Fico imaginando um indivíduo na Idade Média sofrendo uma alucinação visuoauditiva complexa. A imagem que lhe surge aí, conversando com ele, seja um deus, santo, demônio ou um familiar morto será tão vívida quanto qualquer outra do mundo real. Se a imagem mental vai ao encontro do seu sistema de crenças, se ele acredita que essas figuras sobrenaturais existem e podem conversar com ele, dificilmente teria motivos, com o nível de conhecimento da época, para duvidar da sua autenticidade.

Tudo indica, entretanto, que toda essa população de criaturas sobrenaturais habita em nosso cérebro. Vozes, imagens, ações, tudo está lá. Durante os sonhos parte dessa fauna vem nos visitar, mas ao acordar sabemos que isso não era real. Mas em algumas circunstâncias o cérebro produz tudo isso quando estamos acordados e aí a confusão começa, como não poderia deixar de ser.

Mas por que isto acontece? Por que o cérebro cria essas histórias sobrenaturais e nos empurra no universo místico?

Hoje conhecemos algumas respostas, mas antes devemos lembrar que, ao que parece, temos uma predisposição cerebral para dar explicações sobrenaturais para eventos naturais. Somos dualistas natos. A ideia que a alma, espírito, self, consciência -ou seja qual for o nome que dermos- é uma entidade separada do corpo físico é algo muito arraigado em nós, algo intuitivo. 

Em parte isso acontece pela dificuldade de associar as atividades mentais com o cérebro, o que não sucede com os outros órgãos e sistemas do nosso corpo. Podemos, por exemplo, fazer uma associação visceral entre os alimentos que ingerimos e os órgãos do sistema digestório. Conseguimos perceber a passagem do bolo alimentar pelo esôfago, estômago, intestinos. Sentimos músculos e ossos ao nos movimentar, ao sentar ou ao cair. Enfim, de certa forma podemos relacionar nossas vísceras com suas respectivas funções, mas com o cérebro isto é impossível. Não temos como criar uma relação perceptiva entre aquilo que o cérebro faz (pensar, sentir, calcular, decidir, planejar, desejar, etc.) com essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça. A impressão que temos é que a produção de ideias e pensamentos é algo que de fato não se relaciona com o corpo. Assim, a ideia dualista está fortemente arraigada e com isso os relatos sobrenaturais são facilmente assimilados.

Voltando aos fantasmas, uma das formas de fazer o cérebro fugir da realidade e nos levar para o além é mediante o uso de drogas psicoativas. Aliás, ao longo da nossa história temos utilizado algumas dessas drogas com essa exata finalidade, nos comunicar com entes sobrenaturais. Plantas como a mandrágora, o ópio, ou a Datura inoxia (a “Erva do Diabo” do Carlos Castaneda) entre outras têm sido utilizadas em rituais por xamãs e outras figuras místicas. 

Hoje temos uma boa ideia sobre como os componentes dessas plantas mexem com o equilíbrio neuroquímico a ponto de nos fazer alucinar. Anestésicos como a quetamina estão associados a “experiências fora do corpo”. Drogas como a tenamfetamina (MDA) podem trazer memórias de eventos há muito experienciados e esquecidos nos dando uma sensação de regressão. A dimetiltriptamina (DMT), princípio ativo da Ayahuasca, provoca uma dissociação entre mente e corpo e essa estranha sensação de falta de limites corporais. O fungo Claviceps (ergot), a partir do qual foi isolado o LSD, tem efeito alucinógeno e alguns historiadores acreditam que ao contaminar grãos como trigo e cevada podem ter contribuído com o clima de histeria religiosa vivido durante a Idade Média.

Outra forma de induzir experiências místicas é mediante a meditação. Estudos realizados em monges budistas e freiras franciscanas durante o processo meditativo (ou prece) mostram alterações em áreas do cérebro responsáveis por estabelecer os limites entre nosso corpo e os objetos vizinhos. Pacientes com lesão nestas áreas cerebrais têm dificuldades em discriminar onde termina o corpo e começa, por exemplo, uma mesa, tropeçando frequentemente. Estudos de imagem mostraram que durante a meditação existe uma redução do fluxo sanguíneo nessas regiões, o que produz uma diminuição da atividade cerebral local. Isso poderia explicar a sensação de perda de limites físicos, o “pertencer a um todo” ou a fusão da “alma” com a mente de Deus. 


Imagens do cérebro "normal" à esquerda e durante a meditação à direita. Observar a diminuição
do fluxo sanguíneo na região parietal direita, uma região relacionada com a orientação no tempo e espaço  

A hipóxia, diminuição da oxigenação no cérebro, também desencadeia experiências místicas. Isto foi constatado com pilotos em treinamento submetidos a forças de aceleração poderosas (ver filme abaixo), o que leva a uma diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro com a consequente falta de oxigenação. Após o treino nos simuladores quase todos os pilotos relatavam ter passado por um estado de confusão consistindo de breves episódios de visão de túnel (por vezes com uma luz brilhante no final), bem como sentimentos de flutuação ou paralisia, e finalmente perda de consciência, e ao se recuperarem uma sensação de euforia ou de paz e serenidade. Esta descrição, claro, lembra os relatos das chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM). Não por coincidência, estas geralmente surgem durante episódios onde a circulação para o cérebro é diminuída. 






Várias outras situações, mesmo em indivíduos sadios, são capazes de distorcer nosso senso de realidade. Quando há uma alteração psiquiátrica ou neurológica, como na esquizofrenia, epilepsia, ou lesões cerebrais decorrentes de doença ou trauma, estas situações de disfunção cerebral são mais comuns, e temos sobre elas uma literatura muito interessante e rica. Autores como Oliver Sacks, Vilayanur Ramachandran (a quem peço emprestado o título desta postagem) entre outros, mestres na descrição desses casos, são uma referência e, fundamentalmente, uma delícia de ler.

Para os interessados, fica então a dica.

Leitura recomendada:
Why people see gosts. Michael Shermer & Pat Linse. www.skeptic.com

sábado, 9 de junho de 2012

Maconha; liberou geral?

A notícia sobre a proposta de descriminalização do plantio, compra e porte de qualquer tipo de droga para uso próprio, sugerida pela comissão de juristas que discute a reforma do Código Penal deixou muita gente para lá de preocupada, e alguns decididamente revoltados.

Embora o assunto seja internacionalmente controverso, o que a comissão fez foi seguir uma tendência mundial e irreversível de não tratar o usuário de drogas como criminoso. Essa política só enche os julgados e as cadeias de jovens que precisariam na realidade de cuidado e atenção, e deixa cada vez mais rico o crime organizado. A proposta tenta assim separar o usuário do traficante e surge ante a constatação mundial que a guerra contra o narcotráfico, da forma que está sendo travada, está perdida.

Neste contexto é importante também entender a diferença entre descriminalizar e legalizar. A descriminalização se refere ao usuário, a legalização ao produto. Descriminalizar é reconhecer o óbvio: usuário não é criminoso. Já legalizar daria à maconha, por exemplo, o mesmo status que têm o cigarro e o álcool (como veremos, drogas mais nocivas que a maconha). A Comissão não sugeriu a legalização (por enquanto, a legalização simples já foi defendida até pela imprensa neoliberal como The Economist).

Com a legalização a venda seria permitida com as restrições de praxe. Os que a defendem alegam entre outras coisas que o Estado poderia arrecadar via impostos o que está indo para o bolso do crime organizado. Este dinheiro “limpo” seria usado em programas –sempre muito caros- de reinserção e desintoxicação de viciados, incluindo aqui os viciados em drogas pesadas.

Outro aspecto a ser levado em conta ao discutir o assunto é a tendência de tratar “drogas” como se todas fossem a mesma coisa. O resultado é sempre ruim. Se dissermos que maconha é igual à cocaína, quem já usou maconha muitas vezes e não teve nenhum efeito de dependência poderá pensar “se é tudo igual e a maconha não me fez nada, por que não experimentar heroína ou crack?”.






Quando uma pessoa fuma maconha, seu ingrediente ativo, o Tetrahidrocanabinol (THC), alcança rapidamente o cérebro. Algumas áreas como as indicadas na figura apresentam uma grande quantidade de receptores para THC, como o núcleo accumbens (NA), núcleo caudado (NC), hipocampo (H), área tegmental ventral (ATV), cerebelo (C) e córtex cerebral (Cx). A grande quantidade de receptores no NC e C explica a perda de coordenação motora produzida pela maconha. Já a ligação no hipocampo explicaria a perda de memória de curta duração e outras alterações cognitivas. A ATV e o NA estão relacionados com a ativação do sistema de recompensa, embora os cientistas ainda não saibam exatamente como a maconha produz a ativação desse sistema (ver figura abaixo).


A figura ilustra a hipotética ação de moléculas de THC sobre o sistema de recompensa (núcleo accumbens). A ação parece ser semelhante à descrita para a cocaína (ver aqui). Neste caso, o THC liga-se num terceiro neurônio (acima à direita), o qual libera um neurotransmissor inibitório (GABA) na sinapse. GABA, por ser inibitório, normalmente inibe a liberação de dopamina no neurônio pré-sináptico (superior esquerda). Na presença de THC, o GABA não é liberado e a liberação de dopamina aumenta por falta de inibição. Assim, uma quantidade maior de dopamina acaba ativando o neurônio pós-sináptico (abaixo na figura).





Não, droga não é tudo a mesma coisa. Ao avaliar o dano que uma droga produz são utilizados geralmente três critérios: o dano físico que ela causa (cérebro, coração, pulmões, etc.); a capacidade que ela tem de produzir dependência; e o dano social que provoca em famílias, comunidades, e sociedades. De acordo com essa avaliação as drogas são classificadas em três grupos, A, B e C, sendo as “A” as mais perigosas.

No mais atualizado e amplo estudo sobre essa avaliação de risco das 20 drogas mais consumidas, os especialistas chegaram a algumas conclusões sobre as quais deveríamos refletir. As drogas ganharam notas que vão de 0 (sem dano) a 3 (dano máximo). A heroína foi a pior de todas, com nota 2,78 no dano físico, 3 na dependência, e 2,54 no dano social, seguida de perto pela cocaína (e crack). Numa lista decrescente de danos e sempre nessa sequência de dano físico, dependência e dano social, barbitúricos obtiveram notas 2,23; 2,01 e 2. Álcool 1,4; 1,93 e 2,21; anfetaminas 1,81; 1,67 e 1,5; tabaco 1,24; 2,21 e 1,42; maconha 0,99; 1,51 e 1,5; ecstasy 1,05; 1,13 e 0,97 (veja tabela abaixo).




O gráfico mostra a posição relativa de cada uma das 20 drogas analisadas no estudo de  Nutt e colaboradores (2007).  As notas de 0 a 3 representam a média para dano físico, dependência e dano social. Observar que álcool e tabaco não são classificadas como drogas ilícitas, porém apresentam médias maiores que algumas drogas consideradas entre as mais perigosas (drogas classe A, em vermelho no gráfico).


A tabela detalha todas as notas de cada uma das 20 drogas analisadas. Clique aqui para a imagem original.





Maconha altera a fertilidade? Ainda não ha dados conclusivos, mas um recente estudo indica  que a mobilidade dos espermatozoides e a fecundidade masculina diminuem em camundongos tratados com THC (aparentemente estes resultados não se aplicam a rastafáris).


O estudo reforça o que já se sabia. Os danos físicos de drogas “legais” como álcool e tabaco são maiores que os da maconha.
Isto significa que devemos usá-la? Pessoalmente desaconselho. Ativar o sistema de recompensa mediante atividades prazerosas básicas como sexo e comida é bem mais saudável. Ainda, embora não estejam comprovados danos a longo prazo – salvo para usuários “pesados” -, sob seus efeitos nossa coordenação motora e memória de curta duração passam a funcionar muito mal. Como esta última é a base de vários processos cognitivos importantes, quando estamos chapados não conseguimos aprender nada e, de forma geral, ficamos incapacitados para as atividades diárias que exigem concentração e raciocínio. Por causa disso a imagem de um usuário de maconha em plena viagem só é divertida para alguém que está viajando junto. Torpe, sem lembrar o que acabou de dizer ou fazer, rindo a toa... Definitivamente, nada parecido com a imagem que fazemos de alguém inteligente. Claro que isto não justifica que o indivíduo deva ir para a cadeia. A imagem do bêbado cambaleante é bem mais deplorável e muitos acham engraçado.

E você, que acha? Descriminaliza, legaliza, libera, ou deixa como está?

Informe-se e opine, antes que decidam por você.



Fonte: Development of a rational scale to assess the harm of drugs of potential misuse. David Nutt, Leslie A King, William Saulsbury, Colin Blakemore. Lancet 2007; 369: 1047–53

Em relação à política sobre consumo de drogas, você é a favor de...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Esquecendo a droga

MARIANNE WILLIAMS PHOTOGRAPHY/GETTY IMAGES
Como comentamos em nossa última coluna, um dos problemas enfrentados na reabilitação de viciados é que uma vez que eles abandonam os centros de recuperação o contato com o ambiente e a parafernália associada ao consumo – seringas, cigarros, garrafas, colheres e outros objetos – trás de novo a lembrança do prazer que a droga proporciona e isso leva a recaídas. Seria possível mudar essa lembrança? De acordo com um artigo recém-publicado na revista Science, sim.

Para entender a base desta descoberta devemos recuar aos trabalhos do cientista russo Ivan Pavlov e seus experimentos sobre reflexos condicionados na década de 1920. Pavlov tinha criado um dispositivo capaz de medir a salivação em cães. Ele observou que esta aumentava quando o tratador servia a ração, mas também percebeu que depois de um tempo a simples visualização do tratador, mesmo sem oferecer ração, já provocava um aumento na quantidade de saliva produzida pelo animal.

Pavlov suspeitou que os animais tinham aprendido a associar a imagem do tratador com a alimentação, o que gerava a salivação por ação reflexa. Para testar essa hipótese começou a tocar um sino cada vez que era oferecida ração aos animais. Depois de um tempo e como já era esperado, ao apenas ouvir o sino os animais começavam a salivar.

Pavlov também verificou que se depois dos cães terem feito essa associação (sino / ração) ele tocasse o sino sem oferecer o alimento, após algumas repetições o reflexo de salivação cessava, processo que denominou “extinção”.

Boa parte dos tratamentos para viciados baseiam-se nesse princípio de extinção. Na clínica são colocados ao seu alcance todos os elementos relacionados com seu vício, mas sem oferecer a droga de forma que a lembrança do prazer associado aos objetos vai desaparecendo (ou extinguindo). O problema é que embora esse tipo de terapia funcione na clínica, quando o paciente retorna para casa “limpo” as recaídas são frequentes.

Neste novo estudo, os cientistas descobriram que o processo de extinção poderia ser mais efetivo se fosse associado à modificação prévia da lembrança da droga.

Os pesquisadores trabalharam sobre dois processos já bem conhecidos, o de consolidação e reconsolidação da memória. Consolidação é o mecanismo mediante o qual novas informações são armazenadas na memória de longa duração. Para que isso ocorra a nova informação deve ser “avaliada” por uma estrutura cerebral denominada hipocampo. Uma lesão no hipocampo impede que o paciente crie novas memórias embora continue a lembrar de tudo que ocorreu antes da lesão, algo semelhante ao que acontece no filme “Como se fosse a primeira vez”.


Em vermelho, o hipocampo, estrutura fundamental para a formação de novas memórias.



Já no processo de reconsolidação a memória armazenada é trazida novamente à esfera consciente (recordação), mas quando o fazemos a lembrança fica instável, momento onde ela pode ser manipulada e alterada. É como se tirássemos um texto da gaveta, o modificássemos e depois o guardássemos novamente.

É essa a possibilidade que foi explorada no novo estudo. Nele participaram 66 viciados em heroína. Antes da costumeira terapia da extinção os pacientes foram divididos em três grupos. Dois deles foram expostos a vídeos de cinco minutos mostrando cenas com a injeção ou inalação de heroína, ou filmes sobre assuntos neutros como imagens da natureza (grupos controle). Dez minutos ou seis horas depois dos filmes, todos participaram dos procedimentos de extinção habituais.

Os pesquisadores observaram que a terapia de extinção era agora mais efetiva já que antes dela ser executada a lembrança da droga tinha sido previamente trazida para a esfera consciente mediante os filmes, ficando quimicamente instável e passível de ser alterada posteriormente. Os melhores resultados ocorreram justamente no grupo de 10 minutos, quando a recordação ainda estava fresca.

Embora ainda muita pesquisa seja necessária os resultados abrem uma perspectiva auspiciosa no tratamento do vício. Pesquisadores já tinham tentado manipular a memória utilizando ferramentas farmacológicas. É possível fazê-lo, mas os aspectos éticos destes procedimentos impedem que esse tipo de medicação seja usado em humanos. Este novo tratamento de manipulação comportamental da memória é mais palatável desde o ponto de vista ético, gera resultados por até 180 dias, e em tese poderia ser repetido sem grandes prejuízos para o paciente.

Mas uma pergunta fica no ar. Se cada vez que recordamos algo esse “algo” é modificado, quão a sério podemos levar nossas lembranças?





Fonte: A Memory Retrieval-Extinction Procedure to Prevent Drug Craving and Relapse. Yan-Xue Xue e cols., Science 13 April 2012: Vol. 336 no. 6078 pp. 241-245

sábado, 28 de abril de 2012

Por que as drogas viciam?

Representação artística de uma sinapse.
Dias atrás descrevemos como quatro substâncias químicas produzidas no cérebro são capazes de agir diretamente em nosso humor e percepção da felicidade. De passagem, mencionamos que quase todas as drogas utilizam mecanismos semelhantes para produzir seus efeitos. Alguns leitores ficaram especialmente interessados nesse trecho, e como realmente o problema das drogas é e continuará sendo um grande problema, vale a pena mostrar o que a ciência sabe sobre sua ação.

Todos os mamíferos possuímos em nosso cérebro um conjunto de estruturas que se conectam formando os denominados circuitos de recompensa. É esse sistema o responsável por nos dar a sensação de prazer quando alcançamos um objetivo básico de sobrevivência, como procriar, comer, saciar a sede e cuidar da nossa prole. Nos humanos esses objetivos primários estão por trás de outros comportamentos mais “sofisticados”, como ganhar dinheiro, consumir, sair para a balada, buscar aconchego... Nosso cérebro complexo fantasia os objetivos primários com disfarces socialmente mais palatáveis, mas tudo ativa o mesmo sistema básico. O fato é que o objetivo de obter prazer -e fugir da dor- é o grande motivador de nosso comportamento.






A descoberta do sistema de recompensa remonta aos estudos de James Olds e Peter Milner,
na década de 1950. Estes autores observaram que estimulando mediante eletrodos
 determinas áreas cerebrais de ratos, estes obtinham um efeito prazeroso.
Quando era permitido que os animais se auto-estimulassem mediante
o acionamento voluntário de uma alavanca colocada dentro da jaula (ver na foto),
os ratos repetidamente acionavam o dispositivo mais de 2000 vezes por hora.
Nos anos posteriores foram definidos com precisão os circuitos e foi o verificado
o papel da dopamina nesse sistema.


Esse sistema de recompensa é formado por regiões encefálicas conhecidas como área tegmental ventral, núcleo accumbens, e as regiões cingular e ventromedial do córtex pré-frontal (entre outras). Neurônios dessas estruturas se comunicam entre si mediante a produção e liberação de um neurotransmissor, a dopamina (DA). A quantidade de DA liberada, assim com o tempo que ela permanece comunicando os neurônios é cuidadosamente controlada de forma a não se sentir prazer de mais ou de menos. Se sentirmos prazer constantemente -ou não sentirmos prazer nenhum- não teremos motivação para empreender as ações necessárias para nossa sobrevivência. 


Estruturas e circuitos cerebrais que compõem o "sistema de recompensa".


Podemos ter uma ideia desse equilíbrio ao analisar uma ação corriqueira. Apenas a título de exemplo, lembremos nosso comportamento, ações e desejos ao ver na vitrine um objeto há muito desejado. Possuir esse objeto se transforma no agente motivador do comportamento. Podemos ser capazes de prever o prazer que sentiremos ao possuí-lo. E de fato, na hora da compra, quando o objetivo é alcançado, a DA é liberada no sistema de recompensa gerando o prazer correspondente. Como já vivenciamos, o nível de prazer vai decaindo com o tempo, tempo este coincidente com a reabsorção do excesso de DA.







A figura esquematiza a comunicação sináptica entre dois neurônios. Acima, o neurônio 
pré-sináptico produz e armazena em vesículas (1) neurotransmissores (2), neste caso dopamina (DA). Mediante o estímulo apropriado a DA é liberada no espaço sináptico e se liga aos 
receptores (3) no neurônio pós-sináptico, desencadeando diversas repostas metabólicas. 
Após exercer sua ação, parte da DA volta para o neurônio pré-sináptico
 mediante o sistema de recaptação (4).



O delicado equilíbrio deste sistema é destruído ao consumir drogas. Quase todas elas agem no sistema de recompensa aumentando a quantidade e o tempo que a DA permanece entre os neurônios. A cocaína, por exemplo, bloqueia o sistema de recaptação da DA (ver aqui detalhes desse sistema de recaptação) de forma que esta se acumula em quantidades muito grandes entre os neurônios potencializando a sensação de prazer. Outras drogas, como a heroína, atuam de forma algo diferente, mas o resultado final é sempre um aumento na disponibilidade de DA.





Na presença de cocaína, esta bloqueia o sistema de recaptação (1) o que leva
a um aumento na quantidade de DA no espaço sináptico potencializando
os efeitos metabólicos no neurônio pós-sináptico.

Como a quantidade de DA circulante no sistema é bem maior pela ação da droga, as recompensas naturais associadas à procriação, alimentação, etc., acabam dando um prazer comparativamente menor. Ao mesmo tempo, para compensar o excesso de DA o cérebro responde diminuindo o número de receptores para esse neurotransmissor no sistema de recompensa, o que leva a que seja necessária uma quantidade cada vez maior da droga para obter o mesmo nível de prazer, fenômeno conhecido como tolerância.


Com o passar do tempo, a motivação do viciado se resume às ações necessárias para conseguir a droga. Para quem vê de fora, custa entender como uma pessoa antes tão inteligente e atenta ao seu bem-estar possa estar agora numa situação tão crítica. Será que não consegue perceber as consequências do vício?

Não, não consegue. Em casos graves, a alteração do sistema de recompensa alcança as regiões cerebrais responsáveis pela análise das consequências futuras de nossas ações. A organização temporal do comportamento, que nos permite antecipar o que acontecerá caso façamos isto ou aquilo, para de funcionar corretamente. Com isto, o processo de tomada de decisão fica comprometido, de forma semelhante ao que acontece com pacientes com lesão no córtex pré-frontal (ver aqui e aqui).





Imagens obtidas mediante tomografia de emissão positrônica.
À esquerda o cérebro de um indivíduo normal; à direita, de um usuário de cocaína.
Os níveis de atividade cerebral nesta técnica de imagem criam imagens coloridas,
onde áreas vermelhas representam os maiores níveis de atividade cerebral e as azuis os menores.
Notar que a quantidade de áreas vermelhas no usuário de cocaína é menor que no indivíduo normal.
Estas áreas apresentam uma redução da atividade metabólica
 que com o tempo leva à alteração de várias funções cerebrais.


Assim, o viciado dificilmente consegue se ajudar. A ação de amigos e familiares é fundamental. Clínicas de reabilitação tentam diminuir a dependência química criada, mas as recaídas são muito comuns. A lembrança do prazer proporcionado pela droga volta com força quando o indivíduo retorna ao seu convívio habitual.

Mas, será que podemos modificar essas lembranças e associações numa versão moderna do filme Laranja Mecânica? Podemos manipular a memória para promover a cura?

Ao que parece podemos, mas devemos?

Isto fica para a próxima coluna.

sábado, 31 de março de 2012

A inútil busca pela felicidade eterna

Felicidade virou objeto de consumo. Ambicionamos ser constantemente felizes como mostram os anúncios de televisão onde são todos jovens, bonitos, extrovertidos e sempre sorridentes. Nossa realidade, claro, é bem diferente. A juventude desaparece inexoravelmente, pouquíssimos somos bonitos, nem todos são extrovertidos e isso de estar felizes sempre pode ser sintoma de uma doença denominada mania.

Embora a experiência individual de felicidade seja um fenômeno complexo, vários de seus componentes como o prazer, conforto, satisfação, amparo, realização, etc., são o resultado secundário da ação de quatro substâncias químicas que nosso cérebro produz: endorfinas, dopamina, ocitocina e serotonina. Sua produção e liberação em áreas cerebrais específicas é um processo extremamente preciso e complexo, fruto de milhões de anos de evolução. Ao nos dar prazer, elas nos motivam para empreender ações e comportamentos que são fundamentais para nossa sobrevivência e para a reprodução. Como prêmio de salvar nossa própria pele e espalhar nossos genes, o cérebro recompensa com emoções positivas e orgasmos.

Nossos momentos mais felizes coincidem quando o nível de um desses quatros neurotransmissores –ou mais de um deles- está em seu pico mais alto. Nosso cérebro capta então que esse nível está elevado, confere se a ação primária do neurotransmissor foi desempenhada e imediatamente começa a remover o excesso dessas substâncias (recaptação). Ao fazer isto, a sensação de felicidade desaparece.

O problema é que esta descida natural de nosso estado anímico não condiz com a imagem de felicidade eterna à qual acreditamos ter direito. A volta ao estado normal é então confundida com “in-felicidade”, que confundimos por sua vez com tristeza e finalmente a associamos –para alegria da indústria farmacêutica- a uma profunda depressão.



Figura 1 - Microfotografia de dois neurônios corados com um marcador fluorescente. O quadrado branco indica o local onde o neurônio A entra em contato com o neurônio B. As setas vermelhas sinalizam o caminho da informação (de A para B). O local de contato entre os neurônios (sinapse) dentro do quadrado está ampliada (e esquematizada) na figura abaixo. 






Figura 2 - Esquema da sinapse indicada na figura 1. No neurônio A (denominado pré-sináptico porque está antes da sinapse no sentido do caminho da informação) encontramos organelas como as mitocôndrias (1), que fornecem energia à célula, e vesículas (2) contendo algum dos neurotransmissores citados no texto (neste caso, serotonina). No momento oportuno (7), as vesículas são liberadas na fenda sináptica (4) e acoplam com os receptores localizados no neurônio pós-sináptico (5) iniciando uma série de ações. O excesso de serotonina é recaptado pelo neurônio A (8). Medicamentos como o Prozac inibem esta recaptação (8), permitindo que a serotonina permaneça mais tempo na fenda sináptica, prolongando seus efeitos.


Obviamente, depressão tem pouco ou nada a ver com isso. Depressão é uma doença que só pode ser diagnosticada eficientemente por um psiquiatra, e dos bons. Os altos e baixos de nosso humor fazem parte de um processo natural de equilíbrio de neurotransmissores associado com os problemas normais do dia a dia.

Um exemplo típico deste processo é o da endorfina. Como o nome indica -morfina interna- sua função principal em todos os mamíferos é eliminar a dor e gerar um estado de euforia. Por causa dessas propriedades, ela é liberada em situações onde ficar paralisado por causa da dor pode ser a pior das soluções. Imaginemos estar em meio a uma briga feroz (podemos também imaginar o antílope lutando para escapar das garras do leão). Se a dor provocada por uma ferida nos paralisa é bem provável que nosso oponente aproveite esse momento para dar o golpe definitivo. É nessa hora que a endorfina entra em ação. Pela sua ação a dor é suprimida e ao mesmo tempo sentimos a força necessária para continuar a luta ou, se for o caso, fugir. Mas assim que estamos a salvo não faz mais sentido continuar com um cérebro encharcado de endorfina. Precisamos sentir a dor das feridas para dar a elas uma atenção prioritária. Claro que os efeitos eufóricos também acabam. Essa não é mesmo a hora de estar feliz.



Nesta hora a gazela não pode parar para cuidar suas feridas.
A endorfina inibe a dor e dá forças para continuar a corrida.


Uma história parecida nos contam os outros neurotransmissores. Os níveis de dopamina, por exemplo, sobem e ativam nosso sistema de recompensa quando empreendemos ações que nos levam a saciar nossas necessidades básicas, como alimentação e sexo. Depois que foram atendidas seu nível decai. Caso contrário sentiríamos o bem-estar gerado pelo sistema de recompensa mesmo quando não fazemos nada para suprir nossas necessidades. 
Não teríamos a motivação necessária para iniciar tarefas relacionadas com nossa sobrevivência individual e da nossa espécie, o que seria um péssimo negócio (curiosamente, as drogas pesadas agem justamente nesse sistema cerebral de recompensa, substituindo nossos desejos naturais de nos alimentar, saciar nossa sede e procriar pelo único objetivo de consumir a droga).


Neste quarteto, a ação da ocitocina é fundamental para estabelecer laços de confiança e afeto duradouros. Durante a amamentação ocitocina é liberada no cérebro da mãe e do filhote, reforçando os laços familiares, o comportamento materno e gerando a agradável sensação de amparo. Também liberamos ocitocina ao receber uma massagem e durante o orgasmo o que cria laços entre parceiros sexuais. Quanto mais sofisticado o cérebro do mamífero, mais complexas são as alianças sociais. Um cérebro constantemente encharcado de ocitocina nos levaria a confiar e estabelecer laços afetivos com todos indistintamente. Pode parecer até bonito, mas nas duras condições de sobrevivência impostas em milhões de anos pela seleção natural, isto seria inviável.

A compreensão destes mecanismos nos permite lidar de forma mais tranquila com nossos estados anímicos. Analisar nossos sentimentos de fundo, reconhecer se existem causas reais quando eles são negativos, relacioná-los com processos químicos normais de nosso cérebro -processos que compartilhamos com todos os mamíferos-, pode ser um passo importante para iniciar novos comportamentos recompensadores. Mas cuidado com essa necessidade constante de colocar a toda hora novas e mais difíceis metas para provocar picos dopaminérgicos. Não force a barra. Muitas vezes a melhor coisa a fazer é, simplesmente, não fazer absolutamente nada.




Leitura recomendada

Towards a functional neuroanatomy of pleasure and happinessKringelbach MLBerridge KCTrends Cogn Sci. 2009 Nov;13(11):479-87. Epub 2009 Sep 24.

Meet Your Happy Chemicals: Dopamine, Endorphin, Oxytocin, Serotonin.  Breuning, LG, 2012.