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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Bisfenol A – O veneno escondido


Sem dúvida, a internet tem revolucionado a forma de nos comunicar e transmitir dados. No meio dessa enxurrada de informações, algumas chamam nossa atenção. Quem já não recebeu e-mails alertando sobre o perigo que representa determinado refrigerante, cosmético, alimento e tantas outras coisas. Muitas dessas informações não passam de boatos sem nenhuma fundamentação que lotam nosso computador com bobagens de todo tipo. 
Curiosamente, no caso do bisfenol A isso não tem acontecido. E não que o bisfenol não mereça entrar no rol dessas “correntes” e lendas urbanas. Essa substância, também conhecida como BPA, é amplamente utilizada em uma enorme gama de produtos plásticos, como garrafas, embalagens para alimentos, revestimento de recipiente de leite, tubulação, mamadeiras, brinquedos, e até mesmo em selantes e resinas dentais. 

A utilização de BPA em mamadeiras e outros produtos
foi banida em vários países do mundo.


Tampouco são recentes as suspeitas que o BPA tem efeito tóxico para o organismo. Mesmo assim, a FDA (Food and Drug Administration), agência que faz o controle e autoriza a liberação para consumo dos alimentos, medicamentos, cosméticos, etc., nos Estados Unidos, tem autorizado a comercialização de produtos com BPA. Segundo ela, nas quantidades que vem sendo consumido, o BPA não traria danos para os seres humanos. Valendo-se dessa autorização, a Associação Dental Americana (ADA) por exemplo, continua a liberar e recomendar a utilização de produtos odontológicos à base de BPA.

Entretanto, nos últimos meses dados científicos e investigativos exigiram que a FDA aceitasse no início de junho deste ano reconsiderar sua posição e restabelecer o antes possível quais os níveis máximos de BPA permitidos.

Um dos alertas foi dado por um grupo de 30 renomados especialistas, que denunciam que tanto a FDA como sua contra-parte europeia EFSA (European Food Safety Authority) têm baseado a liberação do BPA em dados originados fundamentalmente de apenas dois estudos, ambos oriundos de laboratórios ligados às empresas fabricantes de BPA, e ao mesmo tempo têm dado muito menos importância a “uma grande quantidade (centenas) de experimentos independentes realizados com fundos estatais por um grande número especialistas de vários campos da ciência ao redor do mundo”. Estes estudos indicariam que o BPA é tóxico mesmo em concentrações que a FDA aprova.

Em um desses trabalhos, apresentado neste mês de junho em um congresso da Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos, cientistas mostraram que baixas doses de BPA provocavam arritmias cardíacas em ratas. Esses resultados vieram a confirmar dados anteriores que indicavam uma maior frequência de doença cardíaca em pessoas com altos níveis de BPA na urina.

Em outro estudo, um grupo de pesquisadores demostrou que a exposição de ratas prenhes a doses de BPA iguais ou mesmo inferiores aos níveis considerados aceitáveis pela FDA provocavam alterações no sistema reprodutor dos fetos. Ratas nascidas de mães que tinham sido expostas a essas doses baixas de BPA nos primeiros dias de gravidez, tinham um adiantamento no início da puberdade, importantes malformações nos ovários e perda prematura do ciclo reprodutivo. Esses dados são importantes já que mostram que as doses que a FDA recomenda como seguros, de fato não o são, pelo menos para os ratos.

Um dos autores do estudo, o Dr. Heather Patisaul da Universidade da Carolina do Norte nos Estados Unidos, afirmou que embora os dados tenham sido obtidos em roedores e não em humanos “eles se somam ao crescente conjunto de evidências que indicam que a exposição a baixas doses de BPA durante o período fetal pode ter impacto na saúde reprodutiva feminina”. De acordo com Hugh Taylor, cientista chefe na Universidade de Yale nos Estados Unidos, o BPA mesmo em pequenas doses alteraria os genes necessários para uma gravidez normal, “Ele muda o código do DNA e a capacidade do DNA expressar esses genes” alertou. Segundo o cientista, a mensagem para as mulheres grávidas é: “apenas tente evitar beber e comer de embalagens de plástico e, quem sabe, não utilize selantes odontológicos nesse período. Não há nada de errado em comer vegetais frescos”.

Bom, e agora? Como escapar de um mundo rodeado de BPA por todos os lados? Selantes odontológicos, por exemplo, têm contribuído muito para a redução do número de cáries em nossa população. Até agora, aplicar selantes só tinha benefícios. A dose de BPA contida neles estaria dentro dos níveis de segurança. Mas se esses dados, como parece ser, não correspondem à realidade? Qual agora a relação custo/benefício?

A lembrança dos clorofluorcarbonos (CFC´s) vem logo à memória. Os níveis utilizados no final da década dos '60 pareciam ser seguros. Cientistas alertavam entretanto que os CFC's estavam destruindo a camada de ozônio, mas só quando o buraco nesta camada foi constatado em 1985 é que providências foram tomadas.

O mais paradoxal é que já podem ser fabricados plásticos sem BPA. Não imagino o motivo da resistência das agências reguladoras e da indústria em banir o BPA, como foi feito com o amianto, e substituí-lo por materiais mais seguros.

Você imagina?



Fontes: Why Public Health Agencies Cannot Depend on Good Laboratory Practices as a Criterion for Selecting Data: The Case of Bisphenol A; Myers, J.P e cols., Environmental Health Perspectives, 117(3), 2009.

Neonatal bisphenol-A exposure alters rat reproductive development and ovarian morphology without impairing activation of gonadotropin releasing hormone neurons; Patisaul, H. e cols., Biology of Reproduction (publicado on-line, 17/06/2009).

Bisphenol A exposure increases risk of abnormal heart rhythms in female rodents; Wang, H.S. e cols., The Endocrine Society's 91st Annual Meeting, Washington, D.C., 06/06/2009.







Atualização


Este artigo foi publicado na Coluna Ciência do jornal Folha da Região no dia 27 de junho de 2009. De lá para cá, um informe da FDA aumentou a preocupação quanto ao uso do BPA.
 O Canadá classificou o BPA como tóxico, e a Comunidade Europeia baniu o uso de BPA na fabricação de mamadeiras
No Brasil, está em tramitação na Câmara dos Deputados um projeto de lei do deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) que proíbe o uso do BPA em mamadeiras e produtos destinados ao consumo em todo o território nacional.