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domingo, 2 de outubro de 2016

Adultos, um caso perdido?



Umberto Eco
Pouco tempo antes de morrer, o escritor italiano Umberto Eco teria afirmado que redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”, aos “idiotas da aldeia”. Antes estes tinham direito à palavra “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Ainda, “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

Este desabafo de Eco me lembrou algo que li num livro do biólogo inglês Richard Dawkins. Comentando sobre a possibilidade de termos uma sociedade letrada cientificamente, ele achava que deveríamos dedicar todos nossos esforços para educar as crianças. Para Dawkins, os adultos são um caso pedido. Ele se referia especificamente à dificuldade da maioria dos adultos de organizar seu pensamento de uma forma crítica, incapazes de analisar criteriosamente todos os argumentos incluindo aqueles que não nos são imediatamente simpáticos, sendo também incapazes de mudar de opinião quando os argumentos dos outros são melhores que os nossos.

Infelizmente, as observações de Dawkins parecem estar corretas. Esta percepção ficou de fato mais evidente com o surgimento das redes sociais, quando quase todos estão tendo a oportunidade de externar seu pensamento. Para nossa consternação, ideias como a Terra plana, o Sol orbitando ao redor de nosso planeta, campanhas antivacina e outros absurdos parecem ter o mesmo valor que as respostas geradas pelo processo científico.

Boa parte dessa dificuldade vem de nossa tendência de acreditar em respostas reconfortantes, mesmo em detrimento da realidade. Porque claro, a realidade pode ser muito dura. Doenças, sofrimento e finalmente a morte nos atingindo indiscriminada e inexoravelmente. Como aparentemente somos os únicos bichos a perceber isso, o peso desse conhecimento pode ser demais para muitos. A solução, apelar para (e o que é pior, defender irracionalmente) terapias que nos curam sem sofrimento, um Universo que conspira a nosso favor quando assim o desejamos, essa miríade de seres sobrenaturais que desde o além ou outras dimensões estão aí sempre para nos ajudar e guiar, etc.
 

Ainda, nosso cérebro usa mecanismos automáticos e inconscientes no sentido de sempre reforçar nosso sistema de crenças. De um grande leque de informações disponíveis nossa tendência automática é selecionar e aceitar aquelas que vão ao encontro daquilo em que já acreditamos. O cérebro nos faz praticamente cegos para as evidências que indicam que nossas convicções estão equivocadas. Superar este processo de pensamento automático e tendencioso, como bem descreve o psicólogo israelense Daniel Kahneman, exige um esforço consciente que nem todos querem ou estão educacionalmente preparados para fazer..

Caso não criemos um sistema educacional que incentive o pensamento crítico desde a infância, caso não ensinemos nossas crianças, nas escolas e nos lares, nesse longo processo de amadurecimento a diferenciar esperanças de fatos, continuaremos a ser quando adultos presa fácil de manipuladores de todos os tipos, pseudocientistas, religiosos, políticos, imprensa e dos donos do poder. Estes descobriram como nos enganar e o fazem profissionalmente. Tão bem que não apenas acreditamos nas mentiras que contam, ajudamos a divulgá-las.

Voltando a Eco, ou mudamos ou nossa aldeia continuará a ser majoritariamente de idiotas.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Atraso sem fim


No que parece ser um firme e insistente propósito de levar o país aos saudosos tempos da Idade Média, o pastor-deputado Marcos Feliciano acaba de propor um projeto de lei para incluir na grade curricular das Redes Públicas e Privadas de Ensino, de forma obrigatória, conteúdos sobre criacionismo. Conforme consta no projeto “Os conteúdos referidos neste artigo devem incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”.

A esta altura nada mais deveria nos surpreender vindo das hordas do fundamentalismo religioso que povoam o Congresso Nacional e às quais os governos fazem questão de dar tanto espaço e apoio (e que, claro, nosso eleitor democraticamente colocou em Brasília). Mas um disparate dessa magnitude chega a ser assustador.

O projeto (leia aqui) se resume a um amontoado de conceitos que carecem da mínima base educacional ou científica. Utiliza erroneamente o conceito de teoria científica, sem ter ideia da diferença com o conceito coloquial do termo; junta no mesmo saco de gatos evidências testáveis e atos de fé. Iguala sem o menor fundamento a Teoria (científica) da Evolução com dogmas de uma religião específica (a do pastor, baseada no livro do Gênesis, as outras são ignoradas no projeto). Mistura conceitos como origem da vida, Big Bang, evolução, como se tudo fosse fruto de uma mente “cientificista” anti-Deus. E ao tornar obrigatório o ensino do criacionismo cristão bate de frente com vários artigos da Constituição Federal. 

Em vão procurei trechos no texto que servissem de exemplo para ilustrar aqui a confusão à qual me refiro, não porque eles não existam e sim porque constituem a quase totalidade do projeto.

Ante tamanho feito, várias federações e associações científicas e de ensino de ciências já se manifestaram alertando sobre o perigo disto ser levado a sério e aprovado. Mas acho que a carta enviada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência aos deputados (ver aqui) resume de forma clara todo esse temor. Assim, com a licença do leitor, por ser a entidade que representa a ciência do Brasil, prefiro transcrever alguns parágrafos que reputo fundamentais.


Sobre a evolução

“A descoberta e o entendimento do processo da evolução representa uma das maiores conquistas na história da ciência. A evolução explica com sucesso a diversidade de vida na Terra e tem sido confirmada repetidamente por meio de observação e experimentos em uma ampla gama de disciplinas científicas. A ciência evolucionária foi que deu a base para o surgimento da moderna biologia, abrindo caminho para novos tipos de pesquisa médica, agrícola e ambiental, além de ter proporcionado o desenvolvimento de tecnologias que têm ajudado a prevenir e combater doenças que afligem a humanidade.”



Sobre o criacionismo

“Os argumentos criacionistas são baseados em crenças acerca de uma entidade de fora do mundo natural. Não pode ser investigado pela ciência, que somente investiga os fenômenos que ocorrem naturalmente.
O criacionismo não é uma teoria científica, não satisfaz a condição essencial de poder ser testada, refutada, confrontada com a realidade por meio de observações e experiências, de tal modo que se possa verificar se suas afirmações são conformes aos fatos. (...)”.



E finaliza...

“Definitivamente, não há como inserir o criacionismo no conteúdo de disciplinas científicas, para que não prejudique o ensino científico de boa qualidade no Brasil.
Diante do exposto, senhores deputados, a SBPC solicita que o PL 8099/2014, bem como o PL 309/2011, no qual o primeiro está apensado, sejam rejeitados e arquivados, mantendo assim o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela nossa Constituição federal, bem como não comprometa o ensino das Ciências a nossos alunos.".


É isso. Por mais deficiente que esteja nossa educação básica, sempre encontraremos voluntários para torná-la pior.






sábado, 21 de junho de 2014

O dilema do homem gordo


(Por favor, leia tudo e vote ao final)

As redes sociais têm nos permitido confirmar algo que sempre soubemos: quanto os outros são imorais e como somos bons. Nesse pano de fundo de falta generalizada de ética, que tal uma pílula da moralidade? Algo que torne as pessoas assim, boas como nós. Será que algum dia a ciência inventará algo parecido? Isso é possível? Sim e não. Por quê? Bom, em parte porque a resposta para dilemas morais pode ser também sim e não.

Decisões de conteúdo moral são complexas. Filósofos têm estudado esse tema por séculos e agora os neurocientistas começaram a mexer nesse vespeiro.


Mas vamos a um exemplo filosófico clássico (este é do tipo moral-pessoal e, como verão, anterior à existência do “Politicamente Correto”).


Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores (li no Facebook que foram amarrados aos trilhos por militantes do PT; se deu no FB deve ser verdade). Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?

Existem algumas variantes desse dilema e escolas filosóficas têm se dividido quanto à decisão final, influenciando inclusive os sistemas jurídicos. Os utilitaristas (ver Jeremy Bentham, 1748-1832) são favoráveis a decisões que produzam o melhor resultado final. Neste caso seriam favoráveis a empurrar o homem gordo já que isso salvaria cinco pessoas. Outros como Immanuel Kant (1724-1804) argumentam que algumas ações, como matar uma pessoa inocente, são absolutamente proibidas, assim, não aceitariam sacrificar a vida de um para salvar cinco. 

Quando colocados ante esses dilemas indivíduos mentalmente saudáveis têm se dividido para um ou outro lado. Podemos assim quantificar aqueles que decidem uma coisa ou outra e correlacionar essa decisão com caraterísticas como idade, sexo, escolaridade, religião, nacionalidade, etc. Isto nos fornece parâmetros que podem ser analisados cientificamente. Mas pode a ciência palpitar sobre decisões que envolvem aspectos morais? 

De novo, sim e não. De fato, não há nada na metodologia científica que nos permita saber se algo é ético ou não. Aspectos éticos são decididos por indivíduos e sociedades. 

Por outro lado, decisões morais são decisões, e estas são produto –até que outras evidências surjam- da atividade do cérebro. Assim a decisão moral é produto da circuitaria cerebral, moldada pela genética, a evolução e a cultura.

Seriam então os conceitos éticos passíveis de manipulação mediante intervenção farmacológica? Uma droga poderia afetar sutilmente nossas decisões morais? 

Agora a resposta é sim. 

Em um estudo de 2010, pesquisadores analisaram a resposta de voluntários sadios ante dilemas morais como o descrito acima sob efeitos de citalopram, uma droga que aumenta a quantidade de serotonina no cérebro, e compararam os resultados com indivíduos que ingeriam placebo. Com mais serotonina, a decisão de empurrar o homem tornava-se mais condenável moralmente. Em outro estudo semelhante os pesquisadores testaram agora a droga lorazepam, um ansiolítico. Desta vez, a opção de empurrar tornava-se moralmente mais palatável.

Assim, como afirma a autora de um dos estudos, a pesquisadora Molly Crockett, algo parecido com a droga da moralidade pode já existir, mas o que não existe é uma unanimidade sobre o que é moralmente correto, pelo menos em determinadas circunstâncias. Pelos resultados destes experimentos, utilitaristas recomendariam o uso de lorazepam, mas os partidários de Kant o de citalopram. Claro, como as coisas não são nada claras a opção da droga da moralidade deve ficar, pelo menos por enquanto, no campo da ficção científica. 

Cérebros criam cultura e culturas criam normativas éticas que, em teoria, estão aí para assegurar o convívio harmonioso dos grupos, permitindo por sua vez a sobrevivência dos indivíduos (ou dos cérebros?). Parece ser uma boa ideia, por enquanto, deixar para lá as informações que nos vem da neurociência, dados perturbadores que apontam que o livre-arbítrio pode não passar de um mito e nosso conceito de moralidade o resultado de um equilíbrio instável de neurotransmissores. 

Parafraseando John Lennon, conhecimento pode ser uma arma quente, quente, quente.

Mas, qual a sua opinião sobre o dilema acima?
Caso tenha esquecido, aqui vai de novo.

Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores. Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?


Vote de 1 a 5, sendo que 1 significa "completamente inaceitável", e 5 "absolutamente justificável"
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sábado, 9 de novembro de 2013

Fé causa depressão

Nada como uma manchete sensacionalista para despertar interesse. Que o diga a turma da revista Superinteressante, que estampou na capa da sua última edição a conclusiva afirmação “Fé faz bem”. Uma pena. Temos poucas revistas de divulgação científica. Seus editores deveriam ser mais cuidadosos e não transformar evidências fracas em verdades definitivas. 

Mas vamos direto ao assunto. Por que estou colocando em dúvida aqui a veracidade da manchete da revista? Ao final, ter fé contribui para nossa saúde mental e com isso, claro, nossa saúde física? O que a ciência pode dizer sobre isso?

Temos de fato alguns estudos que apontam que a prática religiosa contribui para o bem-estar psicológico. Este bem-estar parece melhorar inclusive alguns aspectos do nosso sistema imunológico. Mas ao analisar mais criteriosamente esses estudos observamos que quase todos foram realizados em Norte-América  utilizando indivíduos caucasianos de origem católica ou protestante. Assim, é muito difícil generalizar esses resultados aos diferentes contextos culturais. E se algo aprendemos nestes anos é que a cultura em que estamos inseridos é capaz de modificar nossas redes neurais, e com isso nosso comportamento, sentimentos, reações e emoções.

Outro aspecto importante é que os resultados positivos da religiosidade –que são estatisticamente apenas marginalmente significantes- parecem estar mais relacionadas com a realização de atividades em grupo que com a fé propriamente dita. Somos animais gregários e conviver em grupos nos faz muito bem. Os efeitos positivos da religiosidade são menos evidentes quando os indivíduos optam por uma prática espiritual individual e prescindem do contato com outras pessoas, contato que se obtêm, por exemplo, nas religiões institucionalizadas.

Estes aspectos não são sequer citados na reportagem da Superinteressante, embora já tenham sido levantados pela comunidade científica.

Estranhamente também, a revista não cita o estudo mais recente e amplo feito sobre o assunto. Nele foi analisada a relação entre as crenças religiosas ou espirituais e o aparecimento de episódios de depressão. Como esta é porta de entrada para várias outras disfunções psicológicas, se a prática religiosa ou a espiritualidade “fizessem bem” (como afirma a manchete da revista) o número de indivíduos com depressão seria menor entre pessoas de fé.

A diferença dos estudos anteriores, este incluiu um número relativamente grande de indivíduos (8318), de várias nacionalidades (Reino Unido, Espanha, Chile, Eslovênia, Estônia, Holanda e Portugal) em diversos contextos culturais e socioeconômicos.

Os autores dividiram os participantes em três grupos: 1) os que praticavam uma religiosidade institucionalizada (frequentando igrejas, templos, etc.,); 2) os que não seguiam nenhuma religião mas tinham crenças e experiências espirituais (por exemplo, eles acreditavam na existência de um poder ou força além deles mesmos, o qual poderia influenciar suas vidas); e finalmente o grupo 3, dos seculares, que não manifestavam crença em qualquer religião nem força sobrenatural capaz de influenciar suas vidas. Foi solicitado também aos membros dos grupos 1 e 2 que, de 1 a 6, dessem uma nota à intensidade da sua fé.

Os resultados como era de se esperar variaram bastante entre países, mas em média a maior frequência de episódios depressivos foi observada nos membros do grupo 2 (pessoas com fé mas sem religião específica). Neste grupo 10,5% apresentaram pelo menos um episódio de depressão ao ano, contra 10,3% do grupo 1 (pessoas religiosas que frequentavam igrejas), e os menos deprimidos foram os seculares, com apenas 7,0% tendo episódios depressivos. No Reino Unido estas diferenças foram mais significativas, com os membros do grupo 2 tendo uma frequência de crises depressivas três vezes maior que o grupo secular. A intensidade da fé também afetou, sendo que aqueles que tinham uma fé mais intensa apresentaram um risco de depressão que era o dobro em relação àqueles que tinham fé menos intensa.

Os autores concluem que estes resultados não sustentam a ideia que uma vida religiosa ou espiritual seja capaz de melhorar o bem-estar psicológico. Ainda, observaram que a crença religiosa não exercia nenhum efeito moderador no impacto que eventuais acontecimentos dramáticos em nossa vida poderiam ter em relação ao aparecimento ou não de episódios depressivos.

Será que estes resultados justificam a manchete que escolhi para este artigo? Não! Propositalmente forcei a barra. As diferenças estatísticas são muito pequenas (salvo no Reino Unido) e seria impossível que um único estudo elucidasse um aspecto tão complexo. A conclusão dos autores é um exemplo de cautela científica, os resultados apenas não validam a hipótese que religiosidade melhore nosso bem-estar psicológico, mas eles não concluem: fé causa depressão. É assim que se faz.

Mas por outro lado, quando vejo milhões de pessoas em nosso país sendo ludibriadas, acreditando em milagres comprados e deixando boa parte de seu pouco dinheiro para financiar o atraso que representa um estado regido por crenças religiosas, devo reconhecer que sim, fé causa depressão!



Fonte: Spiritual and religious beliefs as risk factors for the onset of major depression: an international cohort study. B. Leurent e cols., Psychological Medicine; 43:2109 – 2120; 2013.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

E Einstein continua ateu

Quando li estes dias a manchete “'Carta de Deus' escrita por Albert Einstein será leiloada na internet” me perguntei por que será que a imprensa está requentando uma notícia de 2008? Nesta coluna já tinha escrito sobre o assunto há alguns anos, daí minha surpresa. 

O que de fato ocorreu (e isto a imprensa parece não ter noticiado agora) é que a mesma carta está sendo renegociada. Ela foi descoberta em 2008 e nesse mesmo ano leiloada por 170.000 libras esterlinas (uns US$275.000,00). Agora, será novamente leiloada, só que com um lance mínimo de três milhões de dólares!!!

O medo na época era que o comprador fosse algum fanático religioso capaz de, em nome da fé, destruir o documento. Nada disso. Um investidor esperto salvou a carta e vai lucrar mais de 1000% em quatro anos.

Com a fortuna que nossos pastores andaram acumulando aqui no Brasil, espero que os temores de 2008 não se confirmem agora!!!






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O discreto ateísmo de Einstein

(Publicado 07/06/2008)

“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis.”

Albert Einstein


Uma carta do físico Albert Einstein que ficou escondida por mais de 50 anos, parece ter jogado uma pá de cal sobre o debate sem fim a respeito da “religiosidade” do pai da teoria da relatividade. A frase acima foi extraída dela, e permite entender o porquê de tanta decepção por parte dos defensores de um Einstein religioso.


A carta de Einstein, escrita em 1954, um ano antes da sua morte, foi uma resposta dirigida a Erich Gutkind, autor do livro “O chamado bíblico para a revolta”. Talvez tivesse pensado Gutkind que o endosso de um grande cientista reforçaria as teses religiosas da sua obra. Na carta, Einstein não apenas deixa clara sua posição em relação a Deus, como também sua posição como judeu: 


“Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é a encarnação de algumas das superstições mais infantis. E o povo judeu, ao qual tenho o prazer de pertencer e com cuja mentalidade tenho grande afinidade, não tem qualquer diferença de qualidade para mim em relação aos outros povos.”

Segundo o jornal britânico The Guardian, a carta, que era desconhecida por alguns dos principais biógrafos do cientista, foi leiloada por 170.000 libras (mais de R$540 mil) no último dia 15 de maio (2008).




Original da carta de Einstein que será leiloada com lance mínimo de 
US$3.000.000,00

Não é de hoje que a suposta religiosidade de Einstein é motivo de debate. Boa parte da mídia e aqueles que pregam uma visão religiosa sempre deram ênfase a alguns aforismos e frases proferidas em público pelo físico alemão que apontavam nesse sentido, enquanto que posições em sentido contrário expressas geralmente através de cartas particulares ficavam escondidas. A frase “Ciência sem religião é manca, religião sem ciência é cega” talvez tenha sido a mais explorada. “Deus não joga dados” é outra. Em relação a esta última, hoje fica claro que fora tirada do contexto. No caso Einstein se referia de forma bastante irritada aos pressupostos da física quântica -de seus colegas Niels Bohr, Max Born e outros- nos quais Einstein não acreditava muito (evidências posteriores, entretanto, mostraram que Einstein estava errado). 

Mas em várias ocasiões a posição de Einstein tinha ficado clara. Também em 1954, respondendo uma carta que lhe fora enviada por um missivista presumivelmente ateu perguntando se de fato Einstein era, como a mídia americana afirmava, um homem religioso, este respondeu


“Foi, claro, uma mentira o que o Sr. leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que vem sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal e nunca neguei isso, ao contrário, tenho expressado isso claramente. Se há algo em mim que pode ser chamado religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do universo até onde nossa ciência pode revelá-la.”

Em outra oportunidade, recusando o convite de um rabino para freqüentar a sinagoga, Einstein responde:


“Desde o ponto de vista de um padre jesuíta eu sou, claro, e sempre tenho sido, um ateu. Eu tenho dito repetidamente que a ideia de um Deus pessoal é infantil. Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não compartilho o espírito de cruzada (crusading spirit) dos ateus profissionais cujo fervor é principalmente devido a um doloroso ato de liberação dos grilhões da doutrinação religiosa que eles receberam na sua juventude. Eu prefiro uma atitude de humildade correspondente com a fraqueza de nossa compreensão intelectual sobre a natureza e nosso ser.”

Independente se esta carta acabará ou não com a controvérsia, é curioso assistir esta relação de contestação e desejo da religião para com a ciência. Quando a ciência, através de evidências e sem nenhum propósito de atacar alguém, diz que a Terra tem bilhões de anos e não os oito mil e poucos que a Bíblia indica, a ciência não serve. Quando diz que o universo parece ter sido criado bilhões de anos atrás através de uma grande explosão a partir da qual surgiu todo o resto, contradizendo assim a versão literal do Gênesis, a ciência está errada. Quando a ciência diz que os humanos e todas as outras espécies são fruto de um lento processo de evolução e não de criação, a ciência está absurdamente enganada. Mas quando um cientista eminente manifesta uma posição pessoal pró-religião, ou quando algum experimento científico parece sustentar, mesmo que indiretamente, alguma revelação bíblica, cientista e descoberta assumem um valor inquestionável. Agora a ciência serve, mas apenas este minúsculo fragmento do pensamento científico!

A fé de quem crê não deveria ser posta em dúvida pela opinião pessoal de outro indivíduo, cientista ou não. A fé não se fundamenta em argumentos racionais, assim, não faz sentido utilizar a racionalidade da ciência para sustentá-la. Se as evidências científicas chegam a abalar nossa fé, é porque ela não era tão forte - e cega - assim. 

Ainda bem!




segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Teísmo, ateísmo e outros ismos

Dias atrás, numa entrevista concedida nesta Folha ao professor Arthur Leandro Lopes me foi pedida uma classificação do meu “status religioso”. Sempre fico na dúvida sobre a oportunidade de dar essas definições pessoais, fundamentalmente porque ao nos rotular atraímos todas as opiniões injustas e preconceituosas ainda associadas a esses rótulos (esta dúvida não é apenas minha como pode ser observado neste ótimo artigo de Michael Shermer).

Existem várias definições e considerações filosóficas sobre ateísmo e agnosticismo. Como não sou da área (filosofia) prefiro conhecer as mais relevantes e optar pela que mais me satisfaz. Assim, o que vem abaixo é um apanhado sobre o qual o leitor poderá concordar ou não (veja neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww uma explicação bem humorada e com muitos links para referências adicionais).


Agnosticismo (termo criado por Thomas Huxley no século 19) se relaciona com saber/conhecer. Como cientista considero que a melhor forma de conhecimento é a que nos proporciona a ciência. Não é perfeita, claro, é apenas a melhor que temos, fundamentalmente porque incorpora um mecanismo de detecção de erros que outras formas de conhecimento não possuem. Mas a ciência não tem uma fórmula que permita saber se deuses existem ou não. Não ha experimento possível já que a teoria "Deus" não é falseável, o que significa que não posso provar que esteja errada. Sem esse requisito ela não é mais uma teoria científica. Assim, eu me considero agnóstico porque não posso saber se deuses existem ou não, utilizando as fontes de conhecimento que eu disponho e aceito. 


É a Thomas Henry Huxley (1825 — 1895), biólogo britânico que ficou conhecido como "O Buldogue de Darwin" por ser o principal defensor público da teoria da evolução,  a quem foi creditada a utilização pela primeira vez do termo agnosticismo, conforme texto abaixo.


" When I reached intellectual maturity and began to ask myself whether I was an atheist, a theist, or a pantheist…I found that the more I learned and reflected, the less ready was the answer. They [believers] were quite sure they had attained a certain ‘gnosis,’—had, more or less successfully, solved the problem of existence; while I was quite sure I had not, and had a pretty strong conviction that the problem was insoluble. "
(Tradução aproximada: Quando alcancei a maturidade intelectual e comecei a perguntar a mim mesmo se eu era um ateu, um teísta, ou um panteísta..., percebi que quanto mais eu refletia mais longe estava da resposta. Eles (os crentes) estão convencidos de ter alcançado certa "gnosis"; tinham, com algum sucesso, resolvido o problema da existência, enquanto que eu estava longe disso, e tinha a forte convicção que esse problema era insolúvel.)

Já ateísmo (ou teísmo) se refere a "acreditar" (e não saber). Alguns dividem o ateísmo em dois tipos: o forte e o fraco (ou cético). Os ateus fortes acreditam que Deus não existe. Ou seja, ele está baseado numa crença. Já no ateísmo cético você não acredita na existência de Deus, o que não é a mesma coisa que acreditar na sua não existência. Uma diferença sutil, mas muito importante para mim.

Assim, eu sou agnóstico porque não posso saber se Deus existe ou não, e ateu (cético) porque pela minha experiência de vida e pelas evidências científicas existentes não acredito na existência de deuses. De fato, pelas informações que possuo tenho boas razões para crer que religiões e deuses são construções do cérebro humano. E claro, se novas e conclusivas evidências aparecessem mostrando o contrário, não teria problema em mudar de opinião.

Já como cientista –e curioso- também estou interessado em entender por que a maioria das pessoas tem fé –definida aqui como a crença ante a falta de evidências- e outras, como eu, não conseguem ter. Geralmente ateus não são ateus por motivos ideológicos. Como já comentou o Dr. Dráuzio Varella, somos ateus porque nosso cérebro não nos permite acreditar sem provas válidas. O caminho da crença é bloqueado rapidamente pela necessidade de conferir se a informação está correta ou não. Como os que propõem o sobrenatural falham em apresentar provas minimamente satisfatórias, as teorias místicas não nos convencem.

Provavelmente a base dessa diferença esteja na forma como o cérebro organiza o pensamento, como já comentamos em colunas anteriores.

Apenas isso nos diferencia. Sutis alterações na conetividade neural que fazem com que alguns utilizem prioritariamente o pensamento intuitivo e simbólico associado à religião, e outros o pensamento analítico associado à atividade científica.

É demasiado óbvio, pelo menos para mim, que não há nessas variações na forma como o cérebro processa a informação nada que indique que crentes ou ateus sejam moralmente superiores ou inferiores, a menos claro que a crença descambe para o fanatismo com todas as consequências que isto costuma acarretar. Nada que justifique o preconceito ou as perseguições. Nada que justifique, por exemplo, palavras como as proferidas recentemente pelo arcebispo de Maringá (PR), “Este ambiente de descrença, misturado com ateísmo, leva a pessoa a viver no deserto da vida sem gosto, sem rumo, vagando em busca de um sentido”.

Como vamos diminuir essa carga de confronto e preconceito se de quem se deve esperar cordura e ponderação ouvimos mensagens estigmatizadoras como essa?

Algumas autoridades religiosas –não todas- forçam demais a barra tentando criar uma imagem negativa de quem não acredita em deuses. Deveriam parar com isso. Com certeza encontrariam coisas mais edificantes para fazer.

sábado, 17 de março de 2012

A partícula de Deus, e Deus

A esta altura muitos já devem estar ao tanto das notícias que chegaram no final do ano passado desde a sede da Organização Européia para a Pesquisa Nuclear (em francês, Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire ou CERN, como é mais conhecida), e que foram parcialmente confirmadas por cientistas americanos do acelerador Tevatron/Fermilab esta semana.
Resumidamente, os mais de cem pesquisadores que neste momento realizam experimentos nos dois grandes aceleradores obtiveram evidências -ainda não conclusivas- sobre a possível existência do bóson de Higgs, partícula subatômica hipotética que serviria para dar massa a todas as outras partículas do universo.

A expectativa dos cientistas do CERN e do Fermilab se justifica. O bóson de Higgs (em homenagem a Peter Higgs, que em 1964 junto com outros cientistas postulou teoricamente sua existência) é fundamental para manter em pé o chamado modelo standard da física de partículas, a principal teoria que tenta explicar boa parte das coisas que ocorrem no universo, entre elas, a formação de toda a matéria conhecida.

O modelo standard da física começou a ser erguido a partir da década de 1970 e novas partículas com nomes exóticos como lepton, quark, charm, tau, strange foram surgindo, algumas inicialmente em modelos matemáticos e depois comprovadas experimentalmente. Mas do bóson de Higgs, nem notícia.

Contrariado com esse fato, outro grande físico, Leon Lederman, ganhador do prêmio Nobel, escreveu em 1993 um livro cujo título inicial era "A Partícula Maldita" ("The Goddamn Particle"), em alusão às dificuldades em encontrá-la. Entretanto, o editor achando que o título “maldita” poderia resultar ofensivo decidiu trocá-lo por “A partícula de Deus”, uma denominação que Higgs, como ateu, sempre questionou e que até agora gera uma grande e desnecessária discussão. De fato, a existência do bóson de Higgs permitiria explicar como toda a matéria poderia ter surgido a partir do nada, algo que afetaria um dos argumentos preferidos pelos teólogos para defender a ideia de um criador (não à toa, o papa João Paulo II pediu teria pedido ao físico Stephen Hawking para não estudar a origem do universo, solicitação que felizmente não foi atendida; ver aquiaquiaqui e no vídeo abaixo).

Mas a postagem de hoje não é sobre física, e sim sobre religião e sobre ciência. No final deste texto e aqui disponibilizamos links que direcionam o leitor para páginas mais apropriadas para entender a importância da existência ou não do bóson de Higgs.

Na pesquisa para escrever esta coluna cheguei a um artigo do teólogo Alister McGrath. Não sou fã dele, mas reconheço que vez ou outra apresenta bons argumentos e é capaz de debater à altura com cientistas e filósofos ilustres como Richard Dawkins e Daniel Dennet.

McGrath coloca uma questão muito instigante, não estaria o bóson de Higgs para os cientistas assim como Deus para os religiosos? De fato, cientistas utilizam uma partícula ainda inexistente para apoiar uma teoria que explicaria o resto das coisas que podem ser observadas. Por enquanto, a existência do bóson de Higgs só ocorre porque ela dá sustentação a uma concepção do universo que é cara à comunidade científica. 



De acordo com McGrath – que provocativamente chama o bóson de Higgs “partícula da fé” - o mesmo acontece com os religiosos, para quem só a existência de Deus dá sentido ao universo que eles podem observar. 
Assim, por que esses cientistas chatos ficam no pé dos crentes pedindo provas da existência de Deus quando eles fazem a mesma coisa, sustentando toda uma teoria do universo encima de uma partícula que só existe na imaginação do Sr. Higgs?

A colocação de McGrath não está totalmente errada, mas como foi bem observado pelo biólogo PZ Myers em seu ótimo blog Pharyngula, ignora o fundamental. Foi justamente para não permanecer no campo da fé que centenas de cientistas de mais de 100 países juntaram nove bilhões de dólares para construir a maior e mais sofisticada máquina da história da humanidade, um imenso tubo/acelerador de prótons de mais de 27 km localizado 175 metros abaixo do nível do solo na fronteira franco-suíça. 



Tudo para quê? Para testar uma hipótese. Se a hipótese não for confirmada, todo o modelo standard da física terá que ser revisto. Sem problema. Nada melhor para a ciência que abandonar velhas teorias quando as evidências não mais as suportam. Isso faz parte do seu ethos. 

E aí está toda a diferença. Para a religião é impensável testar a hipótese de Deus. O questionamento fica sempre truncado pelo dogma. Questionar é pecado. Assim, nossas faculdades de pensamento crítico não se desenvolvem.

O mais preocupante é que muitos –temo que a maioria- querem que essa forma não questionadora de pensar volte a ser predominante em nossa sociedade, até nos bancos escolares.

No momento que escrevo esta coluna as autoridades políticas de Ilhéus declaram obrigatória a reza do pai nosso nas escolas, as de Araguaína exigem a leitura da bíblia em sala de aula, deputados do Rio aprovam a liberação de R$ 5 mi dos cofres públicos para evento religioso, nosso prefeito entrega as chaves da cidade para o deus dos cristãos e nossa presidenta coloca um líder religioso no ministério da pesca, assunto sobre o qual o novo ministro, como faz questão de esclarecer, não entende patavina.

Quando vejo este panorama tão pouco propício à cultura da ciência, vem à minha mente uma frase do saudoso Carl Sagan...

“A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar.”

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Quem criou o universo? 
O fantástico documentário
 (em quatro partes) da Discovery,
 criado e narrado por Stephen Hawking. 
Assistam com calma e atenção. 
Professores, exibam nas escolas!