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sábado, 26 de novembro de 2016

Homeopatia e propaganda enganosa

Em nossa Coluna Ciência já escrevemos bastante sobre homeopatia (ver aqui e aqui). Basicamente, temos reiterado o consenso da comunidade científica e esta é clara ao apontar que esta, a homeopatia, é uma pseudociência. Mas por que tanta implicância com as gotinhas de Hahnemann? Por quase tudo. Apenas para citar alguns motivos: os princípios nos quais se baseia como a lei dos semelhantes, doses infinitesimais, etc., se faziam algum sentido no século 18 ficaram completamente obsoletos quando começamos a estudar farmacologia moderna e a relação dose/efeito. Na forma como o medicamento homeopático é preparado não ficam praticamente traços do princípio ativo no produto final, ou seja, o paciente acabará ingerindo gotinhas de água puríssima. Os estudos que atestariam os bons resultados da homeopatia são geralmente malconduzidos (poucas pessoas tratadas, controles mal feitos, análise estatística deficiente, etc.) e quase sempre publicados em revistas “científicas” destinadas a homeopatas. Quando estudos independentes são realizados, incluindo as meta-análises (estudos sobre estudos científicos), os resultados mostram claramente que a homeopatia não funciona fora o efeito placebo. Para se ter uma ideia, uma recente revisão científica independente mostrou que de 68 doenças analisadas a homeopatia não se mostrou superior ao placebo em nenhuma delas (um retumbante 68 a 0!!!)

Dito isto, o leitor poderá muito bem pensar, e daí? Se alguém quer se tratar com gotinhas de água é problema dele. Por outra parte, o efeito placebo também é um efeito e pessoas podem encontrar alívio aos sintomas de algumas doenças. Nada a objetar quanto a isto. Mas seria correto tratar com uma terapia pseudocientífica crianças inocentes pelas quais somos responsáveis? É correto gastar dinheiro público em pesquisas e tratamentos que a ciência reprova há décadas?

Para se ter uma ideia, nosso CNPq junto com a ANVISA, acaba de abrir um edital para subsidiar pesquisas sobre homeopatia. Numa crise de verbas tão aguda como a que vivemos, que ameaça de morte pesquisas realmente relevantes sobre zika, dengue e tantas outras, faz algum sentido esse gasto numa terapia que já foi profundamente pesquisada e rejeitada? Que estudo resta fazer?

Neste sentido, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) acaba de dar um passo importante para impedir que o consumidor seja ludibriado pela propaganda dos produtos homeopáticos. Vendidos livremente nos balcões das farmácias, estes produtos não serão acusados de propaganda enganosa se ficar claramente registrado que: 

1) não há nenhuma evidência científica de que o produto funciona; e 
2) as alegações sobre a validade do produto são baseadas apenas em teorias homeopáticas do século 18, que não são aceitas pela maioria dos especialistas médicos modernos.

Assim, a decisão da FTC não proíbe a venda, mas exige que os consumidores sejam alertados sobre aquilo que estão consumindo.

Seria salutar se nossas autoridades tomassem uma atitude semelhante.

domingo, 28 de agosto de 2011

Homeopatia funciona em animais?

Como já mostramos nesta coluna, para a maior parte da comunidade científica a homeopatia, quando funciona, o faz através de sugestão e efeito placebo. Isto porque quimicamente o medicamento homeopático de tão diluído perde qualquer possível efeito farmacológico. De fato, na maioria das concentrações homeopáticas utilizadas, não existe sequer uma única molécula do princípio ativo.

Curiosamente esta é, na realidade, a própria definição do termo placebo: “preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição de um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações de natureza psicológica, que acompanham o procedimento terapêutico.”

Mas e em animais? Eles também foram “convencidos” pelo veterinário homeopata? O gado entrou na conversa? Impossível, claro. Temos aqui então uma situação intrigante. Por que os animais melhoram tomando um medicamento que basicamente contem água puríssima?

Antes de tudo, devemos tomar cuidado com o termo “melhoram”. Os animais podem melhorar por vários motivos. O dono do bichinho pode notar melhoras após o tratamento homeopático -principalmente quando o próprio dono é adepto à homeopatia- por diversas causas não associadas à medicação.

Por exemplo, tratando-se de uma doença benigna, estas costumam ter um ciclo (em humanos também) onde o animal piora, chega ao “fundo do poço” e a partir daí vai melhorando. Assim, quando ministramos o medicamento (homeopático ou não) temos a impressão que o animal melhorou por causa do remédio, quando na realidade foi uma reação natural do organismo.

Ao mesmo tempo, ao saber que nossa mascote está doente, geralmente lhe dedicamos uma maior atenção, mudamos sua dieta, somos mais afetuosos e atentos com o animal, etc., o que também exerce uma ação terapêutica real.

Mas em parte, essa explicação parece não se aplicar a um rebanho. Difícil acreditar que o dono da boiada seja especialmente afetuoso com todos os animais tratados. Neste caso, se há melhora esta tem que obedecer outros motivos, entre os quais, quem sabe, a ação do medicamento homeopático.

Para checar esta possibilidade existe apenas uma forma: testes clínicos amplos, independentes, tipo duplo-cego, com controles adequados, correta análise estatística, e publicados em revistas científicas sérias. É difícil na literatura médica encontrar trabalhos homeopáticos que atendam esses requisitos. Entre estes, parecem ser poucos os favoráveis à homeopatia (na rápida pesquisa que fiz, não achei nenhum).

Em 2003 o Instituto Nacional de Veterinária da Suécia realizou um desses estudos clínicos testando o remédio homeopático Podophyllum, utilizado para curar a diarréia em bezerros, e não encontrou nenhuma evidência que suportasse a eficácia da homeopatia.

Em outro estudo realizado em 2005, um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, testou um medicamento homeopático -com os cuidados experimentais descritos anteriormente- com o objetivo de verificar qualquer sinal de melhora no úbere de vacas acometidas com mastite, analisando o número de leucócitos -glóbulos brancos- encontrados no leite (em vacas com mastite, por causa da infecção um número apreciável dessas células do sangue passa para o leite, o que serve como indicador da doença), e a conclusão foi que a homeopatia não foi mais eficiente quando comparada com o placebo.

Além dessas abordagens mais independentes, mesmo revistas científicas destinadas a trabalhos de terapias alternativas ou complementares -onde geralmente os homeopatas publicam seus estudos- reconhecem que a eficiência da prevenção ou tratamento homeopático em medicina veterinária não tem suficiente suporte de estudos clínicos (uma forma delicada de dizer que não funciona).

Resumindo, a homeopatia, embora cada vez mais popular -e ao que parece também entre os veterinários- continua tendo o privilégio de ser a única especialidade médica sem ter a obrigatoriedade de apresentar evidências científicas sólidas que a sustentem, contrariando os princípios da MBE (medicina baseada em evidências).

No caso da medicina veterinária, alguns profissionais bastante irritados com esse fato partiram para a brincadeira e criaram (na Inglaterra) a Sociedade Britânica de Veterinária Vudu (The British Veterinary Voodoo Society). Com o típico humor inglês, reivindicam a possibilidade de realizar tratamentos não diretamente no corpo dos animais e sim através de bonecos vudu.

De acordo com eles, se os homeopatas têm autorização de tratar animais com medicamentos “mágicos”, por que eles não?



Fontes: No Effect of a Homeopathic Preparation on Neonatal Calf Diarrhoea in a Randomised Double-Blind, Placebo-Controlled Clinical Trial. K .de Verdier e cols., Acta Vet Scand. 2003, 44: 97–101.

Controlled clinical trial of the effect of a homoeopathic nosode on the somatic cell counts in the milk of clinically normal dairy cows. M.A. Holmes e cols., Vet Rec., 2005, 156:565-7.

Immunology and Homeopathy. 3. Experimental Studies on Animal Models. P. Bellavite e cols., Evid Based Complement Alternat Med. 2006, 3:171–186
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sábado, 16 de julho de 2011

O fim da homeopatia

Nesta coluna já tivemos a oportunidade de escrever sobre homeopatia. Em 2006 comentamos um editorial do prestigioso periódico cientifico inglês The Lancet, que a atacava duramente. Em 2007 alertávamos sobre a perigosa ideia da Prefeitura de São José de Rio Preto de combater a dengue com um tipo de vacinação homeopática -finalmente proibida pela ANVISA-, e em 2009 questionávamos a alegada eficácia da homeopatia em animais. 
Entretanto, em meio a tanta propaganda positiva sobre a terapia Hahnemanniana, artigos críticos, como esses e outros poucos veiculados pela imprensa, com certeza passaram despercebidos para todos. Mas aparentemente as coisas estão mudando. A eficácia da homeopatia vem sendo colocada em xeque  pela grande imprensa, com direito a espaço no Jornal Nacional e Fantástico. O que será que aconteceu? Alguma nova descoberta? Não, nada disso. Parece apenas que a indulgência demostrada em relação à homeopatia nestes mais de 200 anos está chegando ao fim.

No Reino Unido, país com um grande número de simpatizantes, a homeopatia é oferecida no sistema público de saúde. A comunidade científica local não concorda, entretanto, que o sistema de saúde gaste dinheiro em terapias sem comprovação científica. Desde o artigo do The Lancet em 2005, as críticas das autoridades médico-científicas inglesas contra a homeopatia só aumentaram, o que levou o Comité de Ciência e Tecnologia do parlamento inglês a fazer uma ampla consulta sobre o assunto.

Nessa investigação todas as partes foram ouvidas. A poderosa Associação Homeopática Britânica enviou seus mais ilustres representantes, incluindo o Dr. Peter Fisher, diretor do Royal London Homeopathic Hospital, e anexou toda a documentação que comprovaria que a homeopatia, ao contrário do que alegam seus detratores, é sim mais eficaz que o placebo.

Depois de meses de consultas, debates e investigações, as conclusões da Comité de Ciência e Tecnologia foram devastadoras. O relatório oficial conclui que “as revisões sistemáticas e meta-análises demonstram conclusivamente que os produtos homeopáticos não apresentam resultados superiores ao placebo” e ainda que “as explicações sobre como a homeopatia poderia funcionar são cientificamente implausíveis”. Finalmente, o relatório solicita a completa retirada tanto da licença oficial, que permite ainda que produtos homeopáticos sejam vendidos como medicamentos, como dos fundos do sistema de saúde para financiar esse tipo de terapia.




Parlamento inglês recomendou fim da homeopatia
 no sistema público de saúde. 
A leitura de algumas das transcrições do processo revela trechos constrangedores. Em determinado momento, o Dr. Peter Fisher foi indagado sobre o processo de agitação (sucussão) durante o preparo de medicamento homeopático (ver abaixo). Traduzo um fragmento: “Dr. Fisher afirmou que o processo de “sucussão é importante” mas foi incapaz de dizer quanta sucussão é necessária. Ele disse “que ainda não tinha sido completamente investigado” mas nos disse que “Você tem que sacudir vigorosamente […] se você sacudir levemente não funciona.””. 

Como comenta o jornal inglês The Guardian, é difícil saber o que é mais constrangedor, um senhor respeitável afirmar algo sem sentido como isso ou o fato que mesmo depois de 200 anos os homeopatas ainda não saibam quanto de sucussão um remédio homeopático precisa para funcionar.

É importante não confundir essas críticas contra a homeopatia com alegações em relação à utilização de produtos fitoterápicos. Não existe nenhuma relação. Medicamentos fitoterápicos, quando corretamente elaborados, seguem todo o processo de validação científica e podem representar um ótimo recurso terapêutico. O problema com a homeopatia não está no fato de ela utilizar “produtos naturais” e sim a dose em que são utilizados. A química comprova que diluições homeopáticas eliminam completamente qualquer rastro do princípio ativo, natural ou não. O que o paciente acaba ingerindo -pensando se tratar de medicação- é água (ou açúcar) puríssima. Uma ótima definição de placebo!


E aqui, no Brasil, como fica? Seguindo recomendações ainda existentes da Organização Mundial da Saúde (que já dá mostras de estar perdendo a paciência com a homeopatia), nosso SUS também gasta dinheiro financiando essa terapia. Se se conclui que a homeopatia não é baseada em evidências científicas, sua manutenção em nosso sistema público de saúde fica insustentável. Não haveria justificativa para manter dentro do sistema a homeopatia e ao mesmo tempo negar financiamento para outras terapias como a pajelança, a imposição de mãos, a reflexologia podal holística, os florais de Bach e outras tantas. O fato que muitos acreditem na eficácia desta ou daquela terapia não pode ser uma justificativa para financiá-las com o contado dinheiro do SUS.

Sei que os adeptos e defensores da homeopatia alegarão que isto não passa de mais uma campanha das multinacionais farmacêuticas para nos encher de alopatia. Não duvido que a indústria farmacêutica de fato queira lucrar com nossa saúde. Temos que ser cuidadosos e críticos também com ela. Mas isso não justifica que continuemos considerando plausíveis crenças homeopáticas do século 18. É mais ou menos como querer tratar tuberculose, apendicite, ou fratura de tornozelo como se fazia em 1779. 
Provavelmente nem o bom Dr. Hahnemann, se vivo estivesse, iria aceitar. 




Fontes: 
The end of homoeopathy, The Lancet (Editorial), vol. 366, pág. 690, 2005. 
Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy; Aijing Shang e cols., The Lancet, vol. 366, pág. 726-732, 2005. 
O relatório do Comité de Ciência e Tecnologia do parlamento inglês pode ser lido aqui http://www.parliament.uk/parliamentary_committees/science_technology/s_t_homeopathy_inquiry.cfm



Como é preparado um medicamento homeopático?

Uma das leis basilares da homeopatia é a Lei da Dose Mínima, ou dos Infinitesimais, que diz respeito à diluição do princípio ativo, o controverso princípio do "quanto mais diluído mais forte". Por causa disto, os remédios homeopáticos são preparados seguindo uma série crescente de diluições. 

Primeiro, é diluída uma parte de princípio ativo em nove de água (ou outro solvente). Os homeopatas chamam esta diluição de 1DH (decimal hahnemanniana), ou seja, uma parte em dez. Para obter uma diluição 2DH mistura-se uma parte da solução anterior em nove de água, o que resulta em solução com uma parte de soluto em 100 (1/100) de solvente. Se fizermos isto mais uma vez teremos uma diluição 3DH (1/1000) e assim por diante. Se repetirmos 100 vezes, a diluição será 100DH ou uma parte de soluto em volume de solvente representado pelo número um seguido de 100 zeros. Durante essas diluições, a solução é agitada vigorosamente (sucussão) num processo denominado "Dinamização".

Além da escala decimal, é utilizada a escala centesimal hahnemanniana. Nesta escala, uma solução 1CH é 1/100, 2CH é 1/10.000, 3CH é 1/1.000.000, etc. 
Para se ter uma ideia do que esses números representam na prática, anos atrás as autoridades sanitárias de Rio Preto (SP) iniciaram uma campanha de vacinação com um produto homeopático (Eupatorium) com diluição 30CH. Isto representa uma parte do Eupatorium em volume de solvente representado pelo número um seguido de 60 zeros. O problema é que nestas diluições tão extremas não sobram mais moléculas do soluto (Eupatorium).

Isto pode ser demostrado aproveitando os estudos do grande químico e físico italiano Amadeo Avogadro (1776-1856). Não é o caso de discutir detalhes sobre esses estudos aqui, mas eles permitem calcular quanto podemos diluir uma solução sem a eliminação completa da substância original. Estatisticamente, só é garantida a presença de pelo menos uma molécula do princípio ativo em soluções de concentração igual ou maior do que uma parte de soluto por volume equivalente ao número de Avogadro de partes de solvente, ou seja, uma parte de soluto por 602.213.700.000.000.000.000.000 partes de solvente. Isso quer dizer que a partir das diluições homeopáticas 24DH ou 12CH, a chance de existir uma única molécula do princípio ativo no medicamento é praticamente nula, e diminui ainda mais se continuarmos diluindo. 

Como estes números escapam à nossa compreensão podemos exemplificar afirmando que seria necessário ingerir bem mais de 25 toneladas do medicamento para ter certeza de ter ingerido apenas uma única molécula de Eupatorium!

Muitas vezes os homeopatas reclamam de uma postura hostil e arrogante da comunidade científica em relação a eles. Em parte, têm razão. Mas muito contribuiria para melhorar essa situação se a homeopatia conseguisse explicar como é possível que um composto que não mais existe no medicamento, possa causar algum efeito fora do efeito placebo. Quem quer jogar o jogo da ciência, deve aceitar suas regras.


Fontes: 
Agradeço ao Prof. Tibor Rabóczkay, Professor Titular do Instituto de Química (USP) pela ajuda na elaboração deste artigo. O físico e a pororoca, José Colucci Jr. (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ofjor/ofc140220013.htm).