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sábado, 11 de março de 2017

Fé e falácias

Adão e Eva no Éden (Lucas Cranach de Oude) 
Conhecer nossas origens, as do universo, da vida, tem sido um dos grandes desejos e desafios da humanidade. Ao longo da história diferentes culturas criaram seus mitos cosmogônicos, tanto em Oriente como Ocidente. O judaico-cristão com seus seis dias de criação, Adão e sua costela, cobras falantes, etc., é mais um entre eles e merece o mesmo respeito que as centenas de lendas cosmogônicas que existem ou já existiram. Todas têm sua importância histórica, social e antropológica. Mas elas são apenas lendas sem validade factual.

Com o advento da ciência, umas das mais notáveis conquistas da humanidade, finalmente conseguimos em vez de inventar respostas fabulosas, fazer as perguntas corretas. No caso das nossas origens, o assunto é bem complexo. Não à toa os cientistas o chamam de “hard problem”. Sobre a origem do homem a resposta encontrada por Darwin e Wallace e corroborada em mais de 150 anos de investigação parece ser uma ótima resposta. Somos o produto de um processo evolutivo que se inicia a partir de seres muito simples bilhões de anos atrás. Não encontramos evidência científica de nenhuma inteligência superior guiando a evolução, e sim mecanismos naturais. Sobre a origem da vida e do universo, temos avançado bastante, mas devido à complexidade intrínseca desses assuntos ainda não temos respostas conclusivas.

Para natural desencanto de alguns a ciência não encontrou nada até agora que indique que uma causa primeira, algum tipo de divindade ou coisa parecida tenha dado o pontapé inicial (e proposital) no processo. Mais, boa parte dos mais importantes físicos acreditam, à luz das evidências disponíveis, que o próprio universo pode ter se originado do nada (cuidado! este nada, quântico, não é o nada no qual estamos acostumados a pensar).

Acompanhar e aceitar criticamente as evidências (e as dúvidas) que a ciência nos revela, abandonando crenças primitivas (o que não é sinônimo de abandonar a crença religiosa) não tem relação alguma com ficar -como li dias atrás nesta Folha- “Sem rumo, sem destino. Sem passado sem futuro” (Padre Charles Borg, 26/02/2017). Ao contrário, o conhecimento científico é base do pensamento crítico e pilar do desenvolvimento humano nas almejadas e ainda utópicas sociedades do conhecimento.

Afirmar que “Ao negar a existência de transcendentes propósitos” passaremos a usufruir do que está ao alcance da mão sem nos importar com os limites éticos ou regras civilizatórias, como também li, parece-me um evidente non sequitur. Se precisamos acreditar em fábulas da idade do bronze ou na recompensa ou castigo dos deuses para fazer o que é certo ou deixar de fazer o que é errado, há evidentemente algo de intrinsecamente equivocado em nossa formação moral, e quem sabe a religião tenha muito a ver com essa falha.

Em tempos de triste intolerância, nunca é demais lembrar as palavras do Dalai Lama: “Os códigos morais se dão à margem das religiões. Baseiam-se no senso comum e também na ciência. ”

sábado, 21 de março de 2015

Com dor darás à luz.

De acordo com o mito cosmogônico judaico-cristão, Deus, irritado por Eva ter ouvido os conselhos de uma cobra falante e ter comido os frutos “da árvore que está no meio do jardim” –coisa que ele terminantemente proibira-, num ataque de ira a teria condenado nos seguintes termos: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; (...).” (Gênesis 3:16).

Lendas à parte, há algo de errado no parto das fêmeas humanas. Quem como eu foi criado no campo vendo ovelhas parirem sem grande esforço aparente (mal paravam de pastar), não deixa de ficar impressionado com o esforço e sofrimento que geralmente acompanha o parto vaginal humano. 


A resposta para esse tormento todo está nas alterações anatômicas decorrentes dos processos evolutivos, fundamentalmente por sermos a única espécie entre os mamíferos que adotou o bipedalismo completo.


Sem sinais comportamentais de dor, nos mamíferos, de forma geral, o parto é um processo simples
 que praticamente não altera a rotina dos animais.


Já descrevemos nesta coluna as consequências desse processo sobre estruturas como nossos pés e coluna vertebral, consequências que os especialistas denominam “cicatrizes da evolução”. Fora pés e coluna, os ossos da bacia tiveram também que modificar sua anatomia para tornar o bipedalismo eficiente. 

Em relação aos nossos primos mais próximos, os chimpanzés, nossa bacia encurtou longitudinalmente e se estendeu lateralmente. Para estabilizar o torso na posição ereta os músculos glúteos se tornaram bem mais desenvolvidos e exigiram uma maior área de inserção no quadril (nenhum outro mamífero tem nádegas tão avantajadas quanto as nossas), o que levou a uma lateralização da região ilíaca. O sacro, que forma junto com o cóccix a parte inferior da coluna vertebral, se afastou em direção posterior e as espinhas isquiáticas, localizadas na porção inferior da pelve se deslocaram em direção ao centro do corpo para permitir a inserção dos ligamentos que formam o soalho da cavidade pélvica, mas estreitando ainda mais o “canal do parto”.



À esquerda, pelve óssea do chimpanzé e à direita a pelve humana (Wittman e cols., 2007).  


O resultado de tudo isso foi uma bacia relativamente bem adaptada para caminhar sobre duas pernas mas muito estreita para dar passagem ao feto humano. Este também sofreu as consequências do outro processo evolutivo bem posterior ao bipedalismo, a encefalização. O cérebro do feto humano foi aumentando de tamanho em relação ao dos outros primatas. 

Com o estreitamento do canal do parto provocado pelo bipedalismo e o aumento do tamanho do crânio devido ao processo de encefalização, temos – e apenas nos humanos- a denominada desproporção cefalopélvica, uma cabeça grande e uma pelve estreita, que em muitos casos leva à obstrução na hora do nascimento (distócia) e complicações obstétricas catastróficas -se não houver meios para um tratamento adequado-, tanto para a mãe como para o feto, incluindo ruptura uterina, fístula vesicovaginal entre outras graves complicações.


A origem do problema. Em cinza o crânio do feto dentro do anel pélvico. Observar que em Pongo (orangotango), Pan (chimpanzé) e nos gorilas, o tamanho do crânio fetal é bem menor que o anel pélvico materno. Já nos humanos a situação é crítica (Weiner e cols., 2008).


Para contornar estas dificuldades o mecanismo do parto humano tornou-se um processo demorado, exigindo do feto um verdadeiro contorcionismo. Ao longo do nascimento o bebê tem que ir girando para que o longo eixo da sua cabeça fique sempre alinhado com o longo eixo do canal, que vai mudando conforme o feto vai descendo. Se tudo der certo ele nasce “olhando para as nádegas” da mãe, numa postura que impossibilita que esta o segure e desobstrua as vias respiratórias do recém-nascido, como outros primatas fazem. Depois que a cabeça emerge, são os ombros que devem se alinhar ao longo eixo da pelve materna, uma manobra também bastante complicada. Nenhum outro bebê primata tem esse trabalho.

Outro recurso para fugir do problema causado pela desproporção cefalopélvica é nascer antes da hora. Isso mesmo; para que nossos filhotes nascessem com uma maturidade encefálico-cognitiva comparável aos outros macacos a duração da nossa gravidez deveria ser bem superior que os atuais nove meses. Claro que se isto acontecesse a cabeça cresceria muito e o parto vaginal seria inviável. O nascimento de nossos filhotes nesse estado de fragilidade, dependência total e imaturidade cerebral acaba exigindo um cuidado e dedicação intensa das mães por um período bem mais prolongado que o observado em outros mamíferos.

Em virtude destas dificuldades, sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho. Ainda no século 20 o índice de morte materna por causa do parto chega a 30% entre algumas populações sem acesso a recursos médicos. Sim, esses números são desastrosos e, claro, colocam em péssimos lençóis os que ainda defendem a existência de um “Designer” minimamente inteligente.

Por outra parte, as dificuldades obstétricas causadas pela desproporção cefalopélvica levaram alguns pesquisadores a sugerir que, quem sabe, a cesariana –com todos seus inconvenientes- seria a solução ao dilema, uma solução saída do grande cérebro que tanto contribuiu para criar o problema.




Fontes:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Dor nas costas? Culpe a evolução.

Desde minha janela consigo ver a Nica. Várias vezes mãe e avô, mantém a agilidade e esperteza de sempre. Seus filhos e netos orbitam ao seu redor nesse espaço bem cuidado de grama onde todos se dedicam a brincar e procurar comida. Nem sempre é assim, claro. O corpo de Nica e sua prole evoluiu para viver fundamentalmente em árvores. Suas mãos e pés são bem adaptados para segurar em galhos, e ainda uma cauda preênsil com a qual pode ficar pendurada liberando os membros restantes para recolher frutas (ah! Nica é um macaco-prego, ou Sapajus apella para ser mais preciso)

Mas agora quase toda a comida que ela precisa está no chão, regularmente fornecida por seus cuidadores. Nica então vira um quadrúpede. Sem a elegância ao andar e correr de um felino, por exemplo, cuja linhagem já é especialista nesse lance de ser 100% quadrúpede desde bem antes que os primatas como Nica.

Mas há um detalhe curioso que também observo desde aqui. Quando a comida é depositada na grama pelos cuidadores o grupo inteiro de macacos se junta e alguns tentam recolher a maior quantidade possível de fruta para ir a algum lugar mais calmo e comer sem ameaças ou disputas. Como carregar duas ou três frutas ao mesmo tempo ocupa completamente suas mãos e braços não resta outra alternativa a Nica a não ser apelar ao bipedalismo. Seu andar agora é ainda mais desengonçado. Mesmo assim ela e outros conseguem seu objetivo e se afastam uns dez a vinte metros nesse seu andar tão peculiar.

Cientistas utilizam este tipo de observação comportamental de campo (não amadora como a minha, claro) associada ao estudo dos fósseis, da embriologia, de geologia, da genética, etc., para obter pistas sobre nós mesmos, sobre nossa história evolutiva, causas e consequências.

Hoje sabemos que bem provavelmente o primata ancestral que nos deu origem -assim como a nossos primos atuais mais próximos como chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos- há uns seis milhões de anos, vivia em árvores e raramente se aventurava a passear pelo solo, até que mudanças climáticas foram transformando florestas em savanas o que incentivou que alguns grupos desses primatas se arriscassem em terra firme.

A coluna vertebral destes primos distantes no tempo não era muito diferente da que observamos em Nica. A que mudou enormemente foi a nossa. De todos os primatas nós e nossos ancestrais diretos (Homos e Australopitecíneos) fomos os únicos que adotamos uma postura completamente ereta. Nosso andar bípede se fez bem mais eficiente que o pouco frequente e desajeitado bipedalismo que nossos primos atuais mais próximos, os chimpanzés, exibem. Nosso centro de gravidade se deslocou e nossa coluna vertebral adotou uma posição vertical. Com isto nossas mãos ficaram completamente liberadas da função de locomoção e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens



Macaco-prego (Sapajus apella). Observar a curvatura da coluna vertebral, formando um arco de convexidade superior, típica dos quadrúpedes. Devido à sua disposição horizontal da coluna, o impacto vertical entre as vértebras é mínimo.


Mas isso teve um preço. A coluna vertebral dos nossos ancestrais quadrúpedes tinha uma forma ligeiramente arqueada, com convexidade superior e posicionada horizontalmente. Vísceras e membros se fixavam a ela –como ainda o fazem nos quadrúpedes modernos- exercendo um jogo de forças perpendicular ao longo eixo. O impacto de uma vértebra sobre sua vizinha neste formato é mínimo. Mas ao adotar o bipedalismo cada vértebra foi se apoiando na imediata inferior. Com isto, nossas cinco vértebras lombares têm que absorver um impacto vertical intenso. 


Para compensar, nossa coluna vertebral apresenta curvaturas que lhe dão um aspecto de “S” quando vista de lado, e entre cada corpo vertebral cartilagens ou discos articulares amortecem em parte o impacto, mas considerando a quantidade de consultas médicas por causa de problemas associados à coluna, vemos que isto não é suficiente. 


Uma vértebra vista desde cima. À esquerda o aspecto normal, com o disco intervertebral intacto. À direita, o disco degenera devido ao impacto e seu interior (núcleo pulposo) extravasa comprimindo a raiz nervosa que sai da medula espinhal.


As curvaturas naturais se acentuam com o tempo. Uma nova e problemática curvatura lateral pode surgir (escoliose). Os discos intervertebrais não resistem ao impacto constante, degeneram e deformam, invadindo o forame intervertebral comprimindo as raízes nervosas (hérnia de disco) provocando dor, formigamento e limitação de movimento. Com o constante atrito gerado pela nova postura, algumas articulações entre as vértebras podem fraturar (espondilólise) provocando dores crônicas que chegam a ser incapacitantes. 



Imagem de ressonância magnética da região lombar da coluna vertebral humana com hérnia de disco. Observar entre as vértebras os discos intervertebrais. O círculo amarelo mostra uma protrusão do disco (núcleo polposo) em direção ao espaço medular, causando compressão dos nervos espinais (cauda equina). Ver também a diferença desse disco (degenerado) com os outros com aspecto normal.


É isso. A evolução não “criou” uma coluna vertebral nova para nós humanos, perfeita e completamente adaptada ao bipedalismo. Utilizou o que já existia e fez uma adaptação, meio que às presas em termos evolutivos, já que o bipedalismo oferecia vantagens adicionais importantes e sobre ele a seleção natural atuou. É assim que funciona. Se a cuidamos bem e temos sorte nossa coluna funciona bem umas cinco décadas. Depois disso...


E agora estou aqui, de novo, com meu velho problema entre L5-S1, olhando para Nica que nem sabe o que é ter dor nas costas.




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AS CICATRIZES DA EVOLUÇÃO. GRAVIDEZ E DOR NAS COSTAS.



Se você esteve ou está grávida ou conviveu com alguém que esteve, já deve ter sentido ou visto: a postura muda e as dores lombares são frequentes. Por quê? Se achou que é por causa do peso do bebê, acertou pela metade. É bem provável que nossos primos mais próximos, os chimpanzés, não sintam dor nenhuma. Sim, ao que parece os problemas não vêm pelo peso do feto e sim por uma “conquista” evolutiva relativamente recente: o bipedalismo.

Veja a figura. Na parte superior uma fêmea de chimpanzé, a, não grávida; b, grávida. Diferente de nós, chimpanzés são fundamentalmente quadrúpedes (e arborícolas). Sua coluna vertebral tem forma de arco com convexidade superior. O centro de massa do seu corpo (CDM, círculo preto e branco) não altera sua posição em relação à articulação do quadril (coxofemoral).

Agora veja o que acontece com nossas mulheres: c, situação normal (sem gravidez); diferente dos outros primatas nossa coluna vertebral não tem mais forma de arco, mas curvas bem características. Repare na curvatura da região lombar (azul). O CDM está bem próximo à articulação coxofemoral, o que proporciona maior equilíbrio e menor gasto energético para manter a postura ereta.
Agora veja em d, com a gravidez o CDM se desloca anteriormente afastando-se da articulação coxofemoral. Mas quanto mais afastado o CDM da articulação maior o esforço para manter a postura. Para compensar (aproximar novamente o CDM da articulação), a mulher aumenta a curvatura lombar (lordose, imagem e). A postura se equilibra, mas o aumento da curvatura lombar pressiona os discos intervertebrais e eventualmente as raízes nervosas. Como esta região lombar já é uma região crítica nos humanos, a gravidez acaba aumentando os fatores que levam à alteração de discos e articulações com o passar do tempo.


Fontes:

-The Scars of Human Evolution. AAAS, 2013 Annual Meeting, https://aaas.confex.com/aaas/2013/webprogram/Session5714.html
-Whitcome KK, Shapiro LJ, Lieberman DE (2007) Fetal load and the evolution of lumbar lordosis in bipedal hominins. Nature 450(7172):1075-8

sábado, 24 de janeiro de 2015

Darwin, Deus e as baratas.

Vespa-esmeralda ferroando  (através do pescoço)
o cérebro de uma barata.
Quando em 1831 Charles Darwin embarcou no HMS Beagle iniciando a viagem que iria mudar a história da ciência, ainda acreditava na existência de um Benevolente Criador. Mas voltou da viagem cinco anos depois duvidando da existência de deuses. Que aconteceu nessa viagem que produziu tamanha mudança? O que abalou sua fé? Ele mesmo escreveria:

"Durante estes dois anos fui levado a pensar muito sobre religião. Enquanto a bordo do Beagle eu era (religiosamente) bastante ortodoxo [...], gradualmente comecei a perceber que as histórias do Velho Testamento com sua visão manifestamente errada do mundo, com sua Torre de Babel, do arco íris e o dilúvio, etc., etc., e o fato de se atribuir a Deus os sentimentos de um tirano vingativo, eram tão confiáveis quanto os livros sagrados dos hindus ou as crenças de qualquer bárbaro.”

Fora isso, Darwin ficara bastante perplexo pelos requintes de crueldade nas estratégias utilizadas por alguns animais para sobreviver e reproduzir. Em particular ele descrevera a ação de um tipo de vespa da família das Ichneumonoidea, que parasitam lagartas depositando sobre elas larvas que as devoram lentamente. Que benevolente criador poderia pensar em algo tão malévolo? Posteriormente a ideia dos processos de seleção natural que eliminavam a necessidade de um designer seria a resposta às suas dúvidas.

Mas se Darwin tivesse conhecido o ciclo de reprodução da vespa-esmeralda (Ampulex compressa), seu desencanto com a ideia de um benevolente criador teria sido total e imediato.

A vespa-esmeralda pode ser considerada uma aliada para muita gente. Seu alvo é outro inseto: a Periplaneta americana; sim, o nome científico de nossa popular e não muito bem considerada barata.

Esta história de terror entre vespa e barata é mais ou menos assim. Quando a vespa capta a presença de uma barata parte logo para o ataque. Inicialmente tenta virar a vítima deixando-a com as patas para cima, momento em que acerta a primeira ferroada. O golpe é preciso. O ferrão penetra no tórax. O veneno na quantidade e local exatos não mata mas paralisa as patas dianteiras da barata que com isto não pode fugir. Agora, com mais tempo, a vespa calcula milimetricamente a segunda ferroada. Esta entra lentamente entre a cabeça e o tórax (ver figura acima) e utilizando sensores localizados na extremidade do ferrão alcança com precisão de fazer inveja a qualquer neurocirurgião regiões específicas do cérebro. Graças aos sensores o veneno é injetado nos gânglios encefálicos supra e subesofágico, e só lá. O veneno altera a química cerebral da barata, mas em vez de matá-la modifica seu comportamento tornando-a um verdadeiro zumbi sob controle total da vespa. 


Dominada mentalmente por causa do veneno, a vítima em vez de fugir fica no lugar limpando suas patas e antenas como se nada estivesse acontecendo. Enquanto isso a vespa, sabendo que sua presa não vai fugir, começa a segunda parte deste espetáculo macabro. Procura uma toca segura onde esconder sua vítima. Antes de arrastá-la ao local escolhido, corta suas antenas para beber a hemolinfa (o sangue da barata) repondo assim parte das energias perdidas durante a luta. O veneno agora produz outra alteração comportamental dramática na vítima: suprime o comportamento de fuga e a deixa num estado de aparente torpor que durará por vários dias. 

Vespa-esmeralda cortando as antenas da barata
 e bebendo sua hemolinfa.


Na sequência, a vespa arrasta a barata-zumbi até a toca. Antes de abandoná-la deposita um ovo sobre seu corpo, fecha a toca e vai embora procurando outra barata para parasitar. 

Barata com as antenas amputadas e parcialmente paralisada pelo veneno da vespa-esmeralda.
 Observar próximo à pata anterior direita a larva da vespa.


Mas quem pensou que o suplício acaba aqui se engana. Em poucas horas a larva da vespa começa a devorar o corpo semiparalisado da vítima. Faz um orifício em seu exoesqueleto e penetra em seu abdome. Pouco a pouco vai devorando todas suas vísceras mantendo intactas apenas àquelas que são indispensáveis para manter a vida. Depois de alguns dias, uma nova vespa adulta surge do abdome oco da barata, que agora poderá morrer em paz.

Completado o ciclo, uma vespa madura sai do abdome agora oco da barata.


Embora possa parecer roteiro de algum filme de terror a ação da vespa sobre a barata faz parte dos mecanismos de seleção natural operando e se aperfeiçoando em períodos de milhões de anos. Sem moral, sem deuses. Apesar da aparente crueldade (para nosso padrão humano do século 21) nunca as baratas estiveram sob ameaça de extinção por causa da ação da vespa, e alguns já pensaram até utilizar estas vespas para reduzir a população de baratas, num controle mais ecologicamente correto que os venenos que utilizamos rotineiramente (e bem mais eficiente que a famosa chinelada).

Todo este comportamento da vespa não foi aprendido. Como vimos, ela já sai do corpo da barata pronta para iniciar a caçada. Seu comportamento, com essa “crueldade” toda, está fixado em seus genes e depois em seu cérebro ao nascer. Não à toa Darwin descartou o design de um benevolente criador. 



Vídeo completo da ação da vespa-esmeralda.

Provavelmente pelo mesmo motivo, para fugir da armadilha moral de um deus bondoso criando maldades, somado a mais de 150 anos de evidências, várias autoridades religiosas, incluindo o Papa Francisco, já aceitaram a Evolução como um fato.

Em tempo, dia 12 de fevereiro no mundo todo é comemorado o Dia de Darwin (data do seu nascimento). O slogan comemorativo é “Continue pesquisando, continue aprendendo, continue evoluindo.”.

Que assim seja.


Fonte
Absurd Creature of the Week: The Wasp That Enslaves Cockroaches With a Sting to the Brain. WIRED-SCIENCE, http://www.wired.com/2014/02/absurd-creature-of-the-week-jewel-wasp/



sábado, 6 de dezembro de 2014

Atraso sem fim


No que parece ser um firme e insistente propósito de levar o país aos saudosos tempos da Idade Média, o pastor-deputado Marcos Feliciano acaba de propor um projeto de lei para incluir na grade curricular das Redes Públicas e Privadas de Ensino, de forma obrigatória, conteúdos sobre criacionismo. Conforme consta no projeto “Os conteúdos referidos neste artigo devem incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”.

A esta altura nada mais deveria nos surpreender vindo das hordas do fundamentalismo religioso que povoam o Congresso Nacional e às quais os governos fazem questão de dar tanto espaço e apoio (e que, claro, nosso eleitor democraticamente colocou em Brasília). Mas um disparate dessa magnitude chega a ser assustador.

O projeto (leia aqui) se resume a um amontoado de conceitos que carecem da mínima base educacional ou científica. Utiliza erroneamente o conceito de teoria científica, sem ter ideia da diferença com o conceito coloquial do termo; junta no mesmo saco de gatos evidências testáveis e atos de fé. Iguala sem o menor fundamento a Teoria (científica) da Evolução com dogmas de uma religião específica (a do pastor, baseada no livro do Gênesis, as outras são ignoradas no projeto). Mistura conceitos como origem da vida, Big Bang, evolução, como se tudo fosse fruto de uma mente “cientificista” anti-Deus. E ao tornar obrigatório o ensino do criacionismo cristão bate de frente com vários artigos da Constituição Federal. 

Em vão procurei trechos no texto que servissem de exemplo para ilustrar aqui a confusão à qual me refiro, não porque eles não existam e sim porque constituem a quase totalidade do projeto.

Ante tamanho feito, várias federações e associações científicas e de ensino de ciências já se manifestaram alertando sobre o perigo disto ser levado a sério e aprovado. Mas acho que a carta enviada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência aos deputados (ver aqui) resume de forma clara todo esse temor. Assim, com a licença do leitor, por ser a entidade que representa a ciência do Brasil, prefiro transcrever alguns parágrafos que reputo fundamentais.


Sobre a evolução

“A descoberta e o entendimento do processo da evolução representa uma das maiores conquistas na história da ciência. A evolução explica com sucesso a diversidade de vida na Terra e tem sido confirmada repetidamente por meio de observação e experimentos em uma ampla gama de disciplinas científicas. A ciência evolucionária foi que deu a base para o surgimento da moderna biologia, abrindo caminho para novos tipos de pesquisa médica, agrícola e ambiental, além de ter proporcionado o desenvolvimento de tecnologias que têm ajudado a prevenir e combater doenças que afligem a humanidade.”



Sobre o criacionismo

“Os argumentos criacionistas são baseados em crenças acerca de uma entidade de fora do mundo natural. Não pode ser investigado pela ciência, que somente investiga os fenômenos que ocorrem naturalmente.
O criacionismo não é uma teoria científica, não satisfaz a condição essencial de poder ser testada, refutada, confrontada com a realidade por meio de observações e experiências, de tal modo que se possa verificar se suas afirmações são conformes aos fatos. (...)”.



E finaliza...

“Definitivamente, não há como inserir o criacionismo no conteúdo de disciplinas científicas, para que não prejudique o ensino científico de boa qualidade no Brasil.
Diante do exposto, senhores deputados, a SBPC solicita que o PL 8099/2014, bem como o PL 309/2011, no qual o primeiro está apensado, sejam rejeitados e arquivados, mantendo assim o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela nossa Constituição federal, bem como não comprometa o ensino das Ciências a nossos alunos.".


É isso. Por mais deficiente que esteja nossa educação básica, sempre encontraremos voluntários para torná-la pior.






quarta-feira, 6 de março de 2013

Deus e a pata do avestruz

Quando criança me ensinaram que nosso corpo era o suprassumo da perfeição. Uma máquina ideal, o que não poderia ser diferente já que éramos criados à imagem e semelhança de Deus.

Os anos passaram, os mitos cosmogônicos deram lugar a uma visão mais real do nosso lugar no mundo - baseada em evidências - mas não por isso menos fascinante que as diversas lendas criacionistas. Claro que Darwin, o aniversariante do último dia 12 de fevereiro, teve muito a ver com isso.

No passado dia 15 de fevereiro no Congresso Anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) um grupo de especialistas se reuniu para tratar das imperfeições da nossa “máquina perfeita”, ou melhor, das cicatrizes deixadas pela nossa história evolutiva, cicatrizes que trazem consequências clínicas importantes nos dias de hoje.
No painel foram apresentados vários exemplos desses problemas evolutivos. Por falta de espaço, focaremos apenas um, o mais básico, o pé.

Antes de entender por que nosso pé não é nada perfeito – para desespero dos criacionistas do Design Inteligente-, temos que conhecer sua história evolutiva. 
Até cinco milhões de anos atrás nossos ancestrais raramente se aventuravam fora das árvores. O pé tinha evoluído para uma função principal: segurar nos galhos. Sua anatomia estava bastante bem adaptada para essa função. Mais de 25 ossos unidos por mais de 30 articulações, hálux (dedão) opositor fazendo pés e mãos bastante semelhantes, e centenas de músculos, tendões e ligamentos, davam ao pé a flexibilidade necessária para pular de galho em galho com destreza e segurança.




O pé do chimpanzé preserva caraterísticas de nossos ancestrais comuns de 5 milhões de anos atrás. 
O hálux é opositor, o que ainda lhe permite subir nas árvores com bastante facilidade  mesmo levando
 uma vida fundamentalmente terrestre. Já nosso pé teve que se adaptar rapidamente para a postura completamente bípede.

Mas há uns cinco milhões de anos alguns desses primatas arborícolas decidiram se aventurar no solo conquistando um riquíssimo e inexplorado nicho ecológico. Nossos ancestrais se adaptaram a essa vida e paulatinamente adotaram uma postura ereta. Relacionado a esse fato ocorreu uma revolução: as mãos foram liberadas e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens.

Estes eventos nos tornaram os primatas mais bem sucedidos do planeta. Rondando a casa dos sete bilhões, com uma enorme capacidade de adaptação, capazes de pensamentos abstratos e, graças ao nosso cérebro tão desenvolvido, possuidores de uma mente única.
Entretanto, essas conquistas que nos ajudaram a tornar-nos o que somos tiveram seu preço. Nosso pé teve que se ajustar à nova função: apoio e propulsão. A evolução teve que trabalhar a partir do material já existente para, em um período relativamente curto, transformar um pé bem adaptado à vida sobre as árvores para caminhar, sustentar e correr. Não foi fácil. O material era o mesmo, ossos demais, articulações demais, enfim, uma estrutura pouco estável.

Nosso hálux foi diminuindo e se reposicionando. Ter um pé parecido com a mão já não servia de nada. Ossos do tarso e metatarso formaram um arco para compensar o impacto. O resultado é esse que já conhecemos. Um pé preparado às presas para a nova função que o deixou propenso a entorses de tornozelo, fascite plantar, tendinite de Aquiles, dores nas pernas e tornozelos quebrados. E estes não são problemas modernos relacionados ao uso do salto alto. Fósseis mostram problemas semelhantes já ha três milhões de anos. Como comentam os especialistas do painel, se tivéssemos que planejar um pé humano ideal, certamente não seria esse.

Mas qual seria? De acordo com os mesmos especialistas, e por incrível que pareça, o pé ideal para um bípede como nós, seria o da avestruz. Os 13 ossos que compõem o tarso e metatarso humano foram simplificados para apenas um único osso, o tarsometatarso. Em vez de cinco dedos com suas respectivas 14 falanges, o avestruz possui apenas dois dedos. Este prodígio de simplicidade lhe permite correr por longas distâncias a quase 70 km/h suportando um corpo de mais de 100 quilos.


À direita, uma pata de avestruz, à esquerda, um pé humano. Destacado em cor laranja nossos ossos do tarso e metatarso (13 ossos) e o correspondente único osso da avestruz (tarsometatarso).  Foram necessários 230 milhões de anos para que a pata do avestruz alcançasse esse solução evolutiva, simples e completamente adaptada à função de apoiar, caminhar e correr.  Como nosso pé evoluiu inicialmente para a função de segurar nos galhos, seu passado evolutivo não o torna tão bem adaptado à posição ereta. Um bom exemplo para mostrar que a evolução não nos torna mais inteligentes, fortes ou bonitos, apenas bem adaptados ao meio em que vivemos.

A pergunta que fica, por que a avestruz tem um pé tão bem adaptado e nós não? Só podemos encontrar uma resposta razoável se olhamos desde uma perspectiva evolutiva. Avestruzes, como todas as aves – representantes atuais dos dinossauros – começaram sua jornada bípede há mais de 230 milhões de anos, enquanto que a nossa começou cinco milhões de anos atrás. A evolução não tornou a pata do avestruz mais complexa e sofisticada, e sim simples e perfeitamente adaptada a sua função. Nós ainda temos um longo caminho. 
Vai lá saber se chegaremos lá.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Teísmo, ateísmo e outros ismos

Dias atrás, numa entrevista concedida nesta Folha ao professor Arthur Leandro Lopes me foi pedida uma classificação do meu “status religioso”. Sempre fico na dúvida sobre a oportunidade de dar essas definições pessoais, fundamentalmente porque ao nos rotular atraímos todas as opiniões injustas e preconceituosas ainda associadas a esses rótulos (esta dúvida não é apenas minha como pode ser observado neste ótimo artigo de Michael Shermer).

Existem várias definições e considerações filosóficas sobre ateísmo e agnosticismo. Como não sou da área (filosofia) prefiro conhecer as mais relevantes e optar pela que mais me satisfaz. Assim, o que vem abaixo é um apanhado sobre o qual o leitor poderá concordar ou não (veja neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww uma explicação bem humorada e com muitos links para referências adicionais).


Agnosticismo (termo criado por Thomas Huxley no século 19) se relaciona com saber/conhecer. Como cientista considero que a melhor forma de conhecimento é a que nos proporciona a ciência. Não é perfeita, claro, é apenas a melhor que temos, fundamentalmente porque incorpora um mecanismo de detecção de erros que outras formas de conhecimento não possuem. Mas a ciência não tem uma fórmula que permita saber se deuses existem ou não. Não ha experimento possível já que a teoria "Deus" não é falseável, o que significa que não posso provar que esteja errada. Sem esse requisito ela não é mais uma teoria científica. Assim, eu me considero agnóstico porque não posso saber se deuses existem ou não, utilizando as fontes de conhecimento que eu disponho e aceito. 


É a Thomas Henry Huxley (1825 — 1895), biólogo britânico que ficou conhecido como "O Buldogue de Darwin" por ser o principal defensor público da teoria da evolução,  a quem foi creditada a utilização pela primeira vez do termo agnosticismo, conforme texto abaixo.


" When I reached intellectual maturity and began to ask myself whether I was an atheist, a theist, or a pantheist…I found that the more I learned and reflected, the less ready was the answer. They [believers] were quite sure they had attained a certain ‘gnosis,’—had, more or less successfully, solved the problem of existence; while I was quite sure I had not, and had a pretty strong conviction that the problem was insoluble. "
(Tradução aproximada: Quando alcancei a maturidade intelectual e comecei a perguntar a mim mesmo se eu era um ateu, um teísta, ou um panteísta..., percebi que quanto mais eu refletia mais longe estava da resposta. Eles (os crentes) estão convencidos de ter alcançado certa "gnosis"; tinham, com algum sucesso, resolvido o problema da existência, enquanto que eu estava longe disso, e tinha a forte convicção que esse problema era insolúvel.)

Já ateísmo (ou teísmo) se refere a "acreditar" (e não saber). Alguns dividem o ateísmo em dois tipos: o forte e o fraco (ou cético). Os ateus fortes acreditam que Deus não existe. Ou seja, ele está baseado numa crença. Já no ateísmo cético você não acredita na existência de Deus, o que não é a mesma coisa que acreditar na sua não existência. Uma diferença sutil, mas muito importante para mim.

Assim, eu sou agnóstico porque não posso saber se Deus existe ou não, e ateu (cético) porque pela minha experiência de vida e pelas evidências científicas existentes não acredito na existência de deuses. De fato, pelas informações que possuo tenho boas razões para crer que religiões e deuses são construções do cérebro humano. E claro, se novas e conclusivas evidências aparecessem mostrando o contrário, não teria problema em mudar de opinião.

Já como cientista –e curioso- também estou interessado em entender por que a maioria das pessoas tem fé –definida aqui como a crença ante a falta de evidências- e outras, como eu, não conseguem ter. Geralmente ateus não são ateus por motivos ideológicos. Como já comentou o Dr. Dráuzio Varella, somos ateus porque nosso cérebro não nos permite acreditar sem provas válidas. O caminho da crença é bloqueado rapidamente pela necessidade de conferir se a informação está correta ou não. Como os que propõem o sobrenatural falham em apresentar provas minimamente satisfatórias, as teorias místicas não nos convencem.

Provavelmente a base dessa diferença esteja na forma como o cérebro organiza o pensamento, como já comentamos em colunas anteriores.

Apenas isso nos diferencia. Sutis alterações na conetividade neural que fazem com que alguns utilizem prioritariamente o pensamento intuitivo e simbólico associado à religião, e outros o pensamento analítico associado à atividade científica.

É demasiado óbvio, pelo menos para mim, que não há nessas variações na forma como o cérebro processa a informação nada que indique que crentes ou ateus sejam moralmente superiores ou inferiores, a menos claro que a crença descambe para o fanatismo com todas as consequências que isto costuma acarretar. Nada que justifique o preconceito ou as perseguições. Nada que justifique, por exemplo, palavras como as proferidas recentemente pelo arcebispo de Maringá (PR), “Este ambiente de descrença, misturado com ateísmo, leva a pessoa a viver no deserto da vida sem gosto, sem rumo, vagando em busca de um sentido”.

Como vamos diminuir essa carga de confronto e preconceito se de quem se deve esperar cordura e ponderação ouvimos mensagens estigmatizadoras como essa?

Algumas autoridades religiosas –não todas- forçam demais a barra tentando criar uma imagem negativa de quem não acredita em deuses. Deveriam parar com isso. Com certeza encontrariam coisas mais edificantes para fazer.

sábado, 19 de maio de 2012

Senado analisa projeto de lei que exige conteúdo científico durante missas e cultos na TV

Se algum leitor religioso achou o título desta postagem absurdo, pode ficar tranquilo, ninguém proporia tal maluquice. Mas o espanto ao ler uma manchete dessas é semelhante ao que alguém preocupado com a educação científica da população sente ao se deparar com campanhas propondo conteúdo religioso nas aulas de ciência, conforme pode ser observado no inacreditável vídeo ao final deste artigo.

Religiosos mais sensatos, claro, não defendem que teorias criacionistas invadam especificamente as aulas de ciência, mesmo assim acham indispensável que o conteúdo religioso seja oferecido aos alunos do ensino fundamental e médio da rede pública.

Um dos argumentos mais utilizados para insistir com essa ideia é que sem religião os indivíduos cresceriam sem uma clara noção do bem e do mal. O argumento não é apenas equivocado, mas como veremos claramente insultuoso.

Afirmar que apenas através da religião podemos criar indivíduos com a correta noção do que é bom e justo é, em outras palavras, afirmar que casais ateus ou agnósticos estão desprovidos da capacidade de educar seus filhos de acordo com os princípios morais que devem nortear nossa sociedade. Mediante uma dedução lógica, devemos concluir que há uma falha moral -ou de algum outro tipo- nessas famílias que lhes impede passar à sua prole as noções fundamentais relacionadas com a honestidade, generosidade, altruísmo, e outras virtudes. Esta “falha” seria compensada por uma educação escolar religiosa.


O projeto de Lei n° 309/2011 "Papai do Céu na Escola", instituindo o ensino religioso obrigatório nas escolas públicas tramita atualmente no Congresso Nacional. Entre os objetivos do projeto "... disseminar, de uma maneira lúdica, a diversidade religiosa do país, os valores morais, a cultura da paz e o respeito às diferentes crenças.". Seu autor, o deputado federal e pastor Marco Feliciano, é o mesmo que tempos atrás  publicou no Twitter Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss.

As religiões, que tão zelosas se mostram para defender seus seguidores dos ataques que os céticos fazem aos implausíveis dogmas que sustentam, parecem não ter igual cuidado ao imputar aos não crentes esse tipo de acusação tão leviana e ofensiva. A nossa não é (ainda) uma sociedade litigiosa, mas nos Estados Unidos casais ateus e agnósticos já estão entrando na justiça por causa desse tipo de opinião emanada de autoridades religiosas. 

O argumento tampouco encontra respaldo em relação ao que sabemos sobre como nosso cérebro forma os conceitos do bem e do mal, e como esses mecanismos foram amadurecendo em nossa longa jornada evolutiva.

Cedo em nossa evolução aprendemos que a possibilidade de sobreviver e ter descendentes em um ambiente hostil seria maior vivendo em grupos que de forma isolada. Nem todas as espécies seguiram esse caminho evolutivo, mas muitas sim.

Entretanto, viver em grupo não é fácil. É necessário criar regras de convívio. Isto pode ser observado em todos os animais gregários. Existem comportamentos que devem ser seguidos e muitas vezes uma hierarquia que deve ser obedecida. Em animais mais simples como as abelhas, por exemplo, boa parte dessas “normas” provavelmente vem já inserida em seu código genético, de forma que o indivíduo adulto é capaz de desempenhar os comportamentos que são benéficos para ele e para o grupo. Em animais mais complexos, além do aspecto genético a capacidade de aprender -que também tem uma base genética- desempenha um papel fundamental. 

Grupo de suricatos enfrentando um predador. Comportamento cooperador e altruísta
pode ser observado em várias espécies, e pode ser a base de nosso apurado senso moral.
 Foto, Tim Clutton-Brock


Comportamentos individuais inadequados geram tensões dentro do grupo, o que pode acabar destruindo sua unidade. O grupo torna-se vulnerável e num ambiente competitivo -como o que tiveram que enfrentar os primeiros hominídeos nas savanas africanas- grupos mais coesos e organizados prevalecem, passando sua bagagem genética e cultural aos seus descendentes. O grupo que não soube controlar os comportamentos individuais de forma a permitir a sobrevivência geral sucumbe. A seleção natural parece ter atuado sobre essas características por milhares de anos, não apenas sobre os indivíduos, mas também sobre os grupos. Esta ação deixou suas marcas na estruturação de nossos circuitos cerebrais.

Aparentemente já nascemos com algo parecido com um senso moral. À medida que nosso cérebro vai amadurecendo com a idade, os circuitos que nos fazem sentir felicidade e orgulho por fazer o bem, e culpa e vergonha ao fazer o mal se consolidam. O que muda é apenas o que catalogamos como mal e como bem. Isto difere em cada sociedade e em cada período da história. Matar, teoricamente, entra na “gaveta” do mal, mas ao matar em nome de deuses ou da pátria, o mesmo ato pode ir para a “gaveta” do bem. O que importa é que todos os seres humanos normais experimentamos sentimentos prazerosos ao fazer (ou pensar em fazer) aquilo que nosso grupo social considera bom, e sentimentos negativos ao fazer o mal. Quando isto não ocorre, escorregamos para a área das sociopatias.


Como vimos, esse sentimento evoluiu a partir de comportamentos que foram selecionados e, o mais importante, precede nossa crença em deuses. Em outras palavras, os deuses apareceram quando já conseguíamos diferenciar o certo e o errado. Por isso o argumento em que se baseia a educação religiosa nas escolas é incorreto.


É provável que em sociedades humanas primitivas e desprovidas do conhecimento que hoje dispomos, códigos como os representados pelos livros sagrados das grandes religiões monoteístas atuais fossem necessários para assegurar a obediência a normas que permitissem a sobrevivência do indivíduo e do próprio grupo. Mas hoje, um sistema educacional moderno seria capaz de formar cidadãos empáticos e solidários, comprometidos com o conhecimento e o bem comum, sem a necessidade de ameaçar as crianças com os terríveis castigos infernais. Por outra parte, sem a doutrinação religiosa seria reduzida a possibilidade de jovens caírem nas garras dos fundamentalistas que tanto ódio, morte e intolerância têm semeado em nossa história recente.



Atenção! 
Ao contrário do título desta postagem, este filme não é brincadeira.





sábado, 18 de fevereiro de 2012

A lenda de Athot, a gravidade e o criacionismo

História 1
Todo dia, pontualmente às 16:00, milhões de mongóis se ajoelham sobre seus tapetes sagrados e olhando em direção ao centro da Terra oram para Athot, a deusa de todas as coisas, da pureza e da perfeição. O reino de Athot (Khann) é separado do mundo impuro (Govi-Altay, tudo o que existe na superfície, no mar e no céu) pelo escudo de Athiai, o Guerreiro (para os mongóis, o escudo de Athiai representa a crosta terrestre). No interior do planeta, Athot vive com os seres encantados, ou afians, todos nascidos da mente de Athot. Contam os livros sagrados que um dos afians, Dundgovi, seduzido pela beleza de Athot tentou tocar os cabelos dourados da deusa. Como castigo, seu corpo foi despedaçado e seus restos jogados no mundo impuro. Os fragmentos de Dundgovi entraram então em cada objeto existente em Govi-Altay, em cada folha, cada pedra, cada lança, cada criatura viva, cada objeto inanimado, natural ou construído pelo homem. Tudo o que podemos ver na superfície da Terra, nos mares e no céu tem em seu âmago algo do espírito de Dundgovi. Mas Dundgovi, arrependido, não quer ficar no mundo impuro da superfície. Cada fragmento do seu espírito quer retornar ao centro da Terra, se desculpar com Athot e pedir que seu corpo volte a ser uno. É por isso que todos os objetos tendem a cair, porque os fragmentos de Dundgovi os empurram em direção a Khann. 


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História 2
A gravidade é uma das quatro forças fundamentais da natureza. Por causa dela objetos com massa exercem atração uns sobre os outros. Classicamente, é descrita pela lei da gravitação universal de Newton. De acordo com Newton, todos os objetos no Universo atraem todos os outros objetos com uma força que é proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa. 


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As histórias 1 e 2 explicam, cada uma a sua maneira, por que as coisas caem. Na história 1 o fazem porque fragmentos do espírito de um deus as empurram em direção ao centro da Terra. A história é completamente falsa, claro. Foi inventada por mim. Não existe nenhuma divindade mongol chamada Athot, ou Dundgovi. Mongóis não rezam, suponho, para nenhum deus às quatro da tarde. Tudo foi fruto de 15 minutos de invenção literária.

Já a história 2, extraída da Wikipédia, embora também tenha saído da cabeça de alguém, surge de um trabalhoso processo de observação, análise e experimentação. Por séculos a humanidade tentou explicar por que os objetos caem, por que os planetas e satélites naturais como a lua não se afastam da Terra. Explicações místicas nunca faltaram. Se eu consegui inventar a deusa Athot e seu séquito em 15 minutos, imaginemos o que poderia ser feito com mais tempo, sem TV, e sem muita coisa para fazer.

Felizmente alguns decidiram duvidar de histórias como a minha e testar se essas explicações eram fruto apenas da imaginação ou estavam amparadas por evidências. Se a teoria não podia ser testada (é impossível criar um experimento que negue a existência de qualquer deus, seja este Athot, Zeus ou Jeová), era deixada de lado. Se os experimentos comprovassem que a teoria estava errada, era jogada no lixo. A teoria que sobrevivesse a todos os ataques persistiria. Esse tipo de pensamento originou o método científico. Não precisamos acreditar na teoria gravitacional científica porque Newton era um gênio (embora ele fosse mesmo). Acreditamos porque ela funciona.

Da mesma forma que a gravidade, a origem das espécies – incluindo a origem do homem-, possui explicações místicas e uma explicação científica. As primeiras nascem das dezenas de lendas cosmogônicas que cada religião ao longo da história do homem foi criando, suspeito que de uma forma não muito diferente ao processo mental que me levou a criar a história de Athot. A explicação científica - a teoria da evolução – foi fruto das observações de Darwin e Wallace, testada e aprimorada ao longo de 150 anos de muita pesquisa e trabalho árduo de milhares de cientistas.

Mesmo que a teoria de Athot não fosse minha, mesmo que ela fizesse parte dos mitos de criação de alguma religião, quero acreditar que nenhuma pessoa sensata daria a ela a mesma validade que a teoria gravitacional newtoniana. Salvo em algumas teocracias fieis a Athot, a explicação religiosa para a queda dos objetos jamais competiria com a explicação científica.

Mas ao contrário da gravidade, muitos querem que a explicação mística sobre a origem das espécies tenha a mesma relevância que a explicação científica, e oferecê-la como alternativa em nosso sistema de ensino. 


"O Plano de Deus Para os Ambientes", figura extraída da coleção "Crescer em Sabedoria", apostila elaborada pela Associação Internacional das Escolas Cristãs e usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1 em algumas escolas confessionais do país. 
Claro, muitos dirão, estou comparando uma teoria maluca inventada por mim em alguns minutos de ócio com o Gênesis bíblico. Respeito a crítica, mas discordo. Ensinar a alunos já tão pobremente preparados para enfrentar a Sociedade do Conhecimento que a Terra tem 10.000 anos e não bilhões, que dinossauros e humanos conviveram, que um deus lá no céu em seis dias criou tudo o que existe, que Noé teve seu primeiro filho com 500 anos e morreu com 950, não me parece muito mais sensato que o desejado retorno de Dundgovi ao fantástico reino de Khann.