Quando criança me ensinaram que nosso corpo era o suprassumo da
perfeição. Uma máquina ideal, o que não poderia ser diferente já que éramos
criados à imagem e semelhança de Deus.
Os anos passaram, os mitos cosmogônicos deram lugar a uma
visão mais real do nosso lugar no mundo - baseada em evidências - mas não por isso menos fascinante
que as diversas lendas criacionistas. Claro que Darwin, o aniversariante do
último dia 12 de fevereiro, teve muito a ver com isso.
No passado dia 15 de fevereiro no Congresso Anual da
Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) um grupo de
especialistas se reuniu para tratar das imperfeições da nossa “máquina
perfeita”, ou melhor, das cicatrizes deixadas pela nossa história evolutiva,
cicatrizes que trazem consequências clínicas importantes nos dias de hoje.
Antes de entender por que nosso pé não é nada perfeito – para
desespero dos criacionistas do Design Inteligente-, temos que conhecer sua
história evolutiva.
Até cinco milhões de anos atrás nossos ancestrais raramente
se aventuravam fora das árvores. O pé tinha evoluído para uma função principal:
segurar nos galhos. Sua anatomia estava bastante bem adaptada para essa função.
Mais de 25 ossos unidos por mais de 30 articulações, hálux (dedão) opositor fazendo
pés e mãos bastante semelhantes, e centenas de músculos, tendões e ligamentos,
davam ao pé a flexibilidade necessária para pular de galho em galho com
destreza e segurança.
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O pé do chimpanzé preserva caraterísticas de nossos ancestrais comuns de 5 milhões de anos atrás.
O hálux é opositor, o que ainda lhe permite subir nas árvores com bastante facilidade mesmo levando
uma vida fundamentalmente terrestre. Já nosso pé teve que se adaptar rapidamente para a postura completamente bípede. |
Mas há uns cinco milhões de anos alguns desses
primatas arborícolas decidiram se aventurar no solo conquistando um riquíssimo
e inexplorado nicho ecológico. Nossos ancestrais se adaptaram a essa vida e
paulatinamente adotaram uma postura ereta. Relacionado a esse fato ocorreu uma
revolução: as mãos foram liberadas e com um cérebro em rápida expansão
tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia
associada ao Homo sapiens.
Estes eventos nos tornaram os primatas mais bem sucedidos
do planeta. Rondando a casa dos sete bilhões, com uma enorme capacidade de
adaptação, capazes de pensamentos abstratos e, graças ao nosso cérebro tão
desenvolvido, possuidores de uma mente única.
Entretanto, essas conquistas que nos ajudaram a tornar-nos o
que somos tiveram seu preço. Nosso pé teve que se ajustar à nova função: apoio
e propulsão. A evolução teve que trabalhar a partir do material já existente para,
em um período relativamente curto, transformar um pé bem adaptado à vida sobre as árvores para caminhar, sustentar e correr. Não foi fácil. O material era o
mesmo, ossos demais, articulações demais, enfim, uma estrutura pouco estável.
Nosso hálux foi diminuindo e se reposicionando. Ter um pé
parecido com a mão já não servia de nada. Ossos do tarso e metatarso formaram
um arco para compensar o impacto. O resultado é esse que já conhecemos. Um pé
preparado às presas para a nova função que o deixou propenso a entorses de
tornozelo, fascite plantar, tendinite de Aquiles, dores nas pernas e tornozelos
quebrados. E estes não são problemas modernos relacionados ao uso do salto
alto. Fósseis mostram problemas semelhantes já ha três milhões de anos. Como
comentam os especialistas do painel, se tivéssemos que planejar um pé humano
ideal, certamente não seria esse.
Mas qual seria? De acordo com os mesmos especialistas, e por
incrível que pareça, o pé ideal para um bípede como nós, seria o da avestruz. Os
13 ossos que compõem o tarso e metatarso humano foram simplificados para apenas
um único osso, o tarsometatarso. Em vez de cinco dedos com suas respectivas 14
falanges, o avestruz possui apenas dois dedos. Este prodígio de simplicidade
lhe permite correr por longas distâncias a quase 70 km/h suportando um corpo de
mais de 100 quilos.
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| À direita, uma pata de avestruz, à esquerda, um pé humano. Destacado em cor laranja nossos ossos do tarso e metatarso (13 ossos) e o correspondente único osso da avestruz (tarsometatarso). Foram necessários 230 milhões de anos para que a pata do avestruz alcançasse esse solução evolutiva, simples e completamente adaptada à função de apoiar, caminhar e correr. Como nosso pé evoluiu inicialmente para a função de segurar nos galhos, seu passado evolutivo não o torna tão bem adaptado à posição ereta. Um bom exemplo para mostrar que a evolução não nos torna mais inteligentes, fortes ou bonitos, apenas bem adaptados ao meio em que vivemos. |
A pergunta que fica, por que a avestruz tem um pé tão bem
adaptado e nós não? Só podemos encontrar uma resposta razoável se olhamos desde
uma perspectiva evolutiva. Avestruzes, como todas as aves – representantes
atuais dos dinossauros – começaram sua jornada bípede há mais de 230 milhões de
anos, enquanto que a nossa começou cinco milhões de anos atrás. A evolução não
tornou a pata do avestruz mais complexa e sofisticada, e sim simples e
perfeitamente adaptada a sua função. Nós ainda temos um longo caminho.
Vai lá
saber se chegaremos lá.