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sábado, 21 de março de 2015

Com dor darás à luz.

De acordo com o mito cosmogônico judaico-cristão, Deus, irritado por Eva ter ouvido os conselhos de uma cobra falante e ter comido os frutos “da árvore que está no meio do jardim” –coisa que ele terminantemente proibira-, num ataque de ira a teria condenado nos seguintes termos: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; (...).” (Gênesis 3:16).

Lendas à parte, há algo de errado no parto das fêmeas humanas. Quem como eu foi criado no campo vendo ovelhas parirem sem grande esforço aparente (mal paravam de pastar), não deixa de ficar impressionado com o esforço e sofrimento que geralmente acompanha o parto vaginal humano. 


A resposta para esse tormento todo está nas alterações anatômicas decorrentes dos processos evolutivos, fundamentalmente por sermos a única espécie entre os mamíferos que adotou o bipedalismo completo.


Sem sinais comportamentais de dor, nos mamíferos, de forma geral, o parto é um processo simples
 que praticamente não altera a rotina dos animais.


Já descrevemos nesta coluna as consequências desse processo sobre estruturas como nossos pés e coluna vertebral, consequências que os especialistas denominam “cicatrizes da evolução”. Fora pés e coluna, os ossos da bacia tiveram também que modificar sua anatomia para tornar o bipedalismo eficiente. 

Em relação aos nossos primos mais próximos, os chimpanzés, nossa bacia encurtou longitudinalmente e se estendeu lateralmente. Para estabilizar o torso na posição ereta os músculos glúteos se tornaram bem mais desenvolvidos e exigiram uma maior área de inserção no quadril (nenhum outro mamífero tem nádegas tão avantajadas quanto as nossas), o que levou a uma lateralização da região ilíaca. O sacro, que forma junto com o cóccix a parte inferior da coluna vertebral, se afastou em direção posterior e as espinhas isquiáticas, localizadas na porção inferior da pelve se deslocaram em direção ao centro do corpo para permitir a inserção dos ligamentos que formam o soalho da cavidade pélvica, mas estreitando ainda mais o “canal do parto”.



À esquerda, pelve óssea do chimpanzé e à direita a pelve humana (Wittman e cols., 2007).  


O resultado de tudo isso foi uma bacia relativamente bem adaptada para caminhar sobre duas pernas mas muito estreita para dar passagem ao feto humano. Este também sofreu as consequências do outro processo evolutivo bem posterior ao bipedalismo, a encefalização. O cérebro do feto humano foi aumentando de tamanho em relação ao dos outros primatas. 

Com o estreitamento do canal do parto provocado pelo bipedalismo e o aumento do tamanho do crânio devido ao processo de encefalização, temos – e apenas nos humanos- a denominada desproporção cefalopélvica, uma cabeça grande e uma pelve estreita, que em muitos casos leva à obstrução na hora do nascimento (distócia) e complicações obstétricas catastróficas -se não houver meios para um tratamento adequado-, tanto para a mãe como para o feto, incluindo ruptura uterina, fístula vesicovaginal entre outras graves complicações.


A origem do problema. Em cinza o crânio do feto dentro do anel pélvico. Observar que em Pongo (orangotango), Pan (chimpanzé) e nos gorilas, o tamanho do crânio fetal é bem menor que o anel pélvico materno. Já nos humanos a situação é crítica (Weiner e cols., 2008).


Para contornar estas dificuldades o mecanismo do parto humano tornou-se um processo demorado, exigindo do feto um verdadeiro contorcionismo. Ao longo do nascimento o bebê tem que ir girando para que o longo eixo da sua cabeça fique sempre alinhado com o longo eixo do canal, que vai mudando conforme o feto vai descendo. Se tudo der certo ele nasce “olhando para as nádegas” da mãe, numa postura que impossibilita que esta o segure e desobstrua as vias respiratórias do recém-nascido, como outros primatas fazem. Depois que a cabeça emerge, são os ombros que devem se alinhar ao longo eixo da pelve materna, uma manobra também bastante complicada. Nenhum outro bebê primata tem esse trabalho.

Outro recurso para fugir do problema causado pela desproporção cefalopélvica é nascer antes da hora. Isso mesmo; para que nossos filhotes nascessem com uma maturidade encefálico-cognitiva comparável aos outros macacos a duração da nossa gravidez deveria ser bem superior que os atuais nove meses. Claro que se isto acontecesse a cabeça cresceria muito e o parto vaginal seria inviável. O nascimento de nossos filhotes nesse estado de fragilidade, dependência total e imaturidade cerebral acaba exigindo um cuidado e dedicação intensa das mães por um período bem mais prolongado que o observado em outros mamíferos.

Em virtude destas dificuldades, sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho. Ainda no século 20 o índice de morte materna por causa do parto chega a 30% entre algumas populações sem acesso a recursos médicos. Sim, esses números são desastrosos e, claro, colocam em péssimos lençóis os que ainda defendem a existência de um “Designer” minimamente inteligente.

Por outra parte, as dificuldades obstétricas causadas pela desproporção cefalopélvica levaram alguns pesquisadores a sugerir que, quem sabe, a cesariana –com todos seus inconvenientes- seria a solução ao dilema, uma solução saída do grande cérebro que tanto contribuiu para criar o problema.




Fontes:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Dor nas costas? Culpe a evolução.

Desde minha janela consigo ver a Nica. Várias vezes mãe e avô, mantém a agilidade e esperteza de sempre. Seus filhos e netos orbitam ao seu redor nesse espaço bem cuidado de grama onde todos se dedicam a brincar e procurar comida. Nem sempre é assim, claro. O corpo de Nica e sua prole evoluiu para viver fundamentalmente em árvores. Suas mãos e pés são bem adaptados para segurar em galhos, e ainda uma cauda preênsil com a qual pode ficar pendurada liberando os membros restantes para recolher frutas (ah! Nica é um macaco-prego, ou Sapajus apella para ser mais preciso)

Mas agora quase toda a comida que ela precisa está no chão, regularmente fornecida por seus cuidadores. Nica então vira um quadrúpede. Sem a elegância ao andar e correr de um felino, por exemplo, cuja linhagem já é especialista nesse lance de ser 100% quadrúpede desde bem antes que os primatas como Nica.

Mas há um detalhe curioso que também observo desde aqui. Quando a comida é depositada na grama pelos cuidadores o grupo inteiro de macacos se junta e alguns tentam recolher a maior quantidade possível de fruta para ir a algum lugar mais calmo e comer sem ameaças ou disputas. Como carregar duas ou três frutas ao mesmo tempo ocupa completamente suas mãos e braços não resta outra alternativa a Nica a não ser apelar ao bipedalismo. Seu andar agora é ainda mais desengonçado. Mesmo assim ela e outros conseguem seu objetivo e se afastam uns dez a vinte metros nesse seu andar tão peculiar.

Cientistas utilizam este tipo de observação comportamental de campo (não amadora como a minha, claro) associada ao estudo dos fósseis, da embriologia, de geologia, da genética, etc., para obter pistas sobre nós mesmos, sobre nossa história evolutiva, causas e consequências.

Hoje sabemos que bem provavelmente o primata ancestral que nos deu origem -assim como a nossos primos atuais mais próximos como chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos- há uns seis milhões de anos, vivia em árvores e raramente se aventurava a passear pelo solo, até que mudanças climáticas foram transformando florestas em savanas o que incentivou que alguns grupos desses primatas se arriscassem em terra firme.

A coluna vertebral destes primos distantes no tempo não era muito diferente da que observamos em Nica. A que mudou enormemente foi a nossa. De todos os primatas nós e nossos ancestrais diretos (Homos e Australopitecíneos) fomos os únicos que adotamos uma postura completamente ereta. Nosso andar bípede se fez bem mais eficiente que o pouco frequente e desajeitado bipedalismo que nossos primos atuais mais próximos, os chimpanzés, exibem. Nosso centro de gravidade se deslocou e nossa coluna vertebral adotou uma posição vertical. Com isto nossas mãos ficaram completamente liberadas da função de locomoção e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens



Macaco-prego (Sapajus apella). Observar a curvatura da coluna vertebral, formando um arco de convexidade superior, típica dos quadrúpedes. Devido à sua disposição horizontal da coluna, o impacto vertical entre as vértebras é mínimo.


Mas isso teve um preço. A coluna vertebral dos nossos ancestrais quadrúpedes tinha uma forma ligeiramente arqueada, com convexidade superior e posicionada horizontalmente. Vísceras e membros se fixavam a ela –como ainda o fazem nos quadrúpedes modernos- exercendo um jogo de forças perpendicular ao longo eixo. O impacto de uma vértebra sobre sua vizinha neste formato é mínimo. Mas ao adotar o bipedalismo cada vértebra foi se apoiando na imediata inferior. Com isto, nossas cinco vértebras lombares têm que absorver um impacto vertical intenso. 


Para compensar, nossa coluna vertebral apresenta curvaturas que lhe dão um aspecto de “S” quando vista de lado, e entre cada corpo vertebral cartilagens ou discos articulares amortecem em parte o impacto, mas considerando a quantidade de consultas médicas por causa de problemas associados à coluna, vemos que isto não é suficiente. 


Uma vértebra vista desde cima. À esquerda o aspecto normal, com o disco intervertebral intacto. À direita, o disco degenera devido ao impacto e seu interior (núcleo pulposo) extravasa comprimindo a raiz nervosa que sai da medula espinhal.


As curvaturas naturais se acentuam com o tempo. Uma nova e problemática curvatura lateral pode surgir (escoliose). Os discos intervertebrais não resistem ao impacto constante, degeneram e deformam, invadindo o forame intervertebral comprimindo as raízes nervosas (hérnia de disco) provocando dor, formigamento e limitação de movimento. Com o constante atrito gerado pela nova postura, algumas articulações entre as vértebras podem fraturar (espondilólise) provocando dores crônicas que chegam a ser incapacitantes. 



Imagem de ressonância magnética da região lombar da coluna vertebral humana com hérnia de disco. Observar entre as vértebras os discos intervertebrais. O círculo amarelo mostra uma protrusão do disco (núcleo polposo) em direção ao espaço medular, causando compressão dos nervos espinais (cauda equina). Ver também a diferença desse disco (degenerado) com os outros com aspecto normal.


É isso. A evolução não “criou” uma coluna vertebral nova para nós humanos, perfeita e completamente adaptada ao bipedalismo. Utilizou o que já existia e fez uma adaptação, meio que às presas em termos evolutivos, já que o bipedalismo oferecia vantagens adicionais importantes e sobre ele a seleção natural atuou. É assim que funciona. Se a cuidamos bem e temos sorte nossa coluna funciona bem umas cinco décadas. Depois disso...


E agora estou aqui, de novo, com meu velho problema entre L5-S1, olhando para Nica que nem sabe o que é ter dor nas costas.




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AS CICATRIZES DA EVOLUÇÃO. GRAVIDEZ E DOR NAS COSTAS.



Se você esteve ou está grávida ou conviveu com alguém que esteve, já deve ter sentido ou visto: a postura muda e as dores lombares são frequentes. Por quê? Se achou que é por causa do peso do bebê, acertou pela metade. É bem provável que nossos primos mais próximos, os chimpanzés, não sintam dor nenhuma. Sim, ao que parece os problemas não vêm pelo peso do feto e sim por uma “conquista” evolutiva relativamente recente: o bipedalismo.

Veja a figura. Na parte superior uma fêmea de chimpanzé, a, não grávida; b, grávida. Diferente de nós, chimpanzés são fundamentalmente quadrúpedes (e arborícolas). Sua coluna vertebral tem forma de arco com convexidade superior. O centro de massa do seu corpo (CDM, círculo preto e branco) não altera sua posição em relação à articulação do quadril (coxofemoral).

Agora veja o que acontece com nossas mulheres: c, situação normal (sem gravidez); diferente dos outros primatas nossa coluna vertebral não tem mais forma de arco, mas curvas bem características. Repare na curvatura da região lombar (azul). O CDM está bem próximo à articulação coxofemoral, o que proporciona maior equilíbrio e menor gasto energético para manter a postura ereta.
Agora veja em d, com a gravidez o CDM se desloca anteriormente afastando-se da articulação coxofemoral. Mas quanto mais afastado o CDM da articulação maior o esforço para manter a postura. Para compensar (aproximar novamente o CDM da articulação), a mulher aumenta a curvatura lombar (lordose, imagem e). A postura se equilibra, mas o aumento da curvatura lombar pressiona os discos intervertebrais e eventualmente as raízes nervosas. Como esta região lombar já é uma região crítica nos humanos, a gravidez acaba aumentando os fatores que levam à alteração de discos e articulações com o passar do tempo.


Fontes:

-The Scars of Human Evolution. AAAS, 2013 Annual Meeting, https://aaas.confex.com/aaas/2013/webprogram/Session5714.html
-Whitcome KK, Shapiro LJ, Lieberman DE (2007) Fetal load and the evolution of lumbar lordosis in bipedal hominins. Nature 450(7172):1075-8

quarta-feira, 6 de março de 2013

Deus e a pata do avestruz

Quando criança me ensinaram que nosso corpo era o suprassumo da perfeição. Uma máquina ideal, o que não poderia ser diferente já que éramos criados à imagem e semelhança de Deus.

Os anos passaram, os mitos cosmogônicos deram lugar a uma visão mais real do nosso lugar no mundo - baseada em evidências - mas não por isso menos fascinante que as diversas lendas criacionistas. Claro que Darwin, o aniversariante do último dia 12 de fevereiro, teve muito a ver com isso.

No passado dia 15 de fevereiro no Congresso Anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) um grupo de especialistas se reuniu para tratar das imperfeições da nossa “máquina perfeita”, ou melhor, das cicatrizes deixadas pela nossa história evolutiva, cicatrizes que trazem consequências clínicas importantes nos dias de hoje.
No painel foram apresentados vários exemplos desses problemas evolutivos. Por falta de espaço, focaremos apenas um, o mais básico, o pé.

Antes de entender por que nosso pé não é nada perfeito – para desespero dos criacionistas do Design Inteligente-, temos que conhecer sua história evolutiva. 
Até cinco milhões de anos atrás nossos ancestrais raramente se aventuravam fora das árvores. O pé tinha evoluído para uma função principal: segurar nos galhos. Sua anatomia estava bastante bem adaptada para essa função. Mais de 25 ossos unidos por mais de 30 articulações, hálux (dedão) opositor fazendo pés e mãos bastante semelhantes, e centenas de músculos, tendões e ligamentos, davam ao pé a flexibilidade necessária para pular de galho em galho com destreza e segurança.




O pé do chimpanzé preserva caraterísticas de nossos ancestrais comuns de 5 milhões de anos atrás. 
O hálux é opositor, o que ainda lhe permite subir nas árvores com bastante facilidade  mesmo levando
 uma vida fundamentalmente terrestre. Já nosso pé teve que se adaptar rapidamente para a postura completamente bípede.

Mas há uns cinco milhões de anos alguns desses primatas arborícolas decidiram se aventurar no solo conquistando um riquíssimo e inexplorado nicho ecológico. Nossos ancestrais se adaptaram a essa vida e paulatinamente adotaram uma postura ereta. Relacionado a esse fato ocorreu uma revolução: as mãos foram liberadas e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens.

Estes eventos nos tornaram os primatas mais bem sucedidos do planeta. Rondando a casa dos sete bilhões, com uma enorme capacidade de adaptação, capazes de pensamentos abstratos e, graças ao nosso cérebro tão desenvolvido, possuidores de uma mente única.
Entretanto, essas conquistas que nos ajudaram a tornar-nos o que somos tiveram seu preço. Nosso pé teve que se ajustar à nova função: apoio e propulsão. A evolução teve que trabalhar a partir do material já existente para, em um período relativamente curto, transformar um pé bem adaptado à vida sobre as árvores para caminhar, sustentar e correr. Não foi fácil. O material era o mesmo, ossos demais, articulações demais, enfim, uma estrutura pouco estável.

Nosso hálux foi diminuindo e se reposicionando. Ter um pé parecido com a mão já não servia de nada. Ossos do tarso e metatarso formaram um arco para compensar o impacto. O resultado é esse que já conhecemos. Um pé preparado às presas para a nova função que o deixou propenso a entorses de tornozelo, fascite plantar, tendinite de Aquiles, dores nas pernas e tornozelos quebrados. E estes não são problemas modernos relacionados ao uso do salto alto. Fósseis mostram problemas semelhantes já ha três milhões de anos. Como comentam os especialistas do painel, se tivéssemos que planejar um pé humano ideal, certamente não seria esse.

Mas qual seria? De acordo com os mesmos especialistas, e por incrível que pareça, o pé ideal para um bípede como nós, seria o da avestruz. Os 13 ossos que compõem o tarso e metatarso humano foram simplificados para apenas um único osso, o tarsometatarso. Em vez de cinco dedos com suas respectivas 14 falanges, o avestruz possui apenas dois dedos. Este prodígio de simplicidade lhe permite correr por longas distâncias a quase 70 km/h suportando um corpo de mais de 100 quilos.


À direita, uma pata de avestruz, à esquerda, um pé humano. Destacado em cor laranja nossos ossos do tarso e metatarso (13 ossos) e o correspondente único osso da avestruz (tarsometatarso).  Foram necessários 230 milhões de anos para que a pata do avestruz alcançasse esse solução evolutiva, simples e completamente adaptada à função de apoiar, caminhar e correr.  Como nosso pé evoluiu inicialmente para a função de segurar nos galhos, seu passado evolutivo não o torna tão bem adaptado à posição ereta. Um bom exemplo para mostrar que a evolução não nos torna mais inteligentes, fortes ou bonitos, apenas bem adaptados ao meio em que vivemos.

A pergunta que fica, por que a avestruz tem um pé tão bem adaptado e nós não? Só podemos encontrar uma resposta razoável se olhamos desde uma perspectiva evolutiva. Avestruzes, como todas as aves – representantes atuais dos dinossauros – começaram sua jornada bípede há mais de 230 milhões de anos, enquanto que a nossa começou cinco milhões de anos atrás. A evolução não tornou a pata do avestruz mais complexa e sofisticada, e sim simples e perfeitamente adaptada a sua função. Nós ainda temos um longo caminho. 
Vai lá saber se chegaremos lá.

sábado, 15 de setembro de 2012

Poligamia no oeste paulista

No belo filme "Eu, tu, eles", um raro caso de poliandria.
A decisão tomada em um cartório da cidade de Tupã (SP) oficializando a união legal (poliafetiva) entre um homem e duas mulheres teria tudo para provocar um intenso debate. A final de contas é o próprio conceito de casamento monogâmico que está em jogo.

Pessoalmente acredito que esse tipo de decisão –que se soma a outras geralmente oriundas do Judiciário- tem a benéfica capacidade de arejar nossa estrutura social e gerar debate sobre assuntos de fato relevantes. Como já comentamos em relação ao casamento gay, trata-se fundamentalmente de uma discussão sobre direitos individuais dentro de um estado laico e democrático. Cada um deveria ser capaz de decidir, sem interferência governamental, com quem ou com quantos queremos dividir nossa vida. Não faz mesmo muito sentido que o Estado decida sobre algo tão íntimo.

Claro que esta visão vai de encontro a tradições muito bem enraizadas, e por isso gera uma forte resistência. Não há novidade nisso. Foi assim em relação ao fim da escravidão, ao direito ao voto feminino, no caso da luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos na década de 1960, do divórcio, dos direitos civis dos gays... 
Sociedades evoluem e leis e normas devem se adaptar aos novos tempos. E claro, se alguém se sentir prejudicado terá sempre o direito de recorrer à Justiça que é nos estados democráticos quem acaba ditando o ritmo dessas mudanças.

Se a discussão dos aspectos sociais e jurídicos do modelo familiar é ao mesmo tempo interessante e polêmica, seu estudo desde a óptica evolutiva chega a ser fascinante. Mas quando fazemos este tipo de abordagem devemos sempre lembrar que nosso cérebro mamífero não quer saber sobre conceitos politicamente corretos. Há uma diferença conflitante entre o que biologicamente desejamos e o que socialmente podemos almejar. Muitas vezes essa diferença nos choca.

Nosso cérebro evoluiu durante milhões de anos se preocupando com nossa sobrevivência e reprodução. Criou mecanismos gratificantes quando fazemos coisas relacionadas com atividades como comer, beber e fundamentalmente procriar. Somos consciente ou inconscientemente obcecados em ter descendentes e cuidar para que eles sobrevivam. Tudo o que permite esse objetivo será recompensado na forma de prazer. Fugir da dor e ir atrás do prazer é o que motiva nosso comportamento, mesmo que não percebamos.

Se analisarmos apenas nossa curta história como Homo sapiens (uma história de uns 200.000 anos), observaremos que em mais de 95% desse período vivemos uma vida de caçadores coletores em meio a um ambiente hostil e parco de recursos. Nosso cérebro evoluiu para sobreviver e procriar nessas condições, onde passamos quase toda nossa história, e por isso tem dificuldade em compreender e lidar com aspectos e normas de relacionamento atuais que não existiam em nosso habitat ancestral. Ser politicamente correto representa muitas vezes não fazer o que no fundo queremos. Obviamente isso gera conflitos.

Com isso em mente, ficamos mais preparados para analisar de forma menos passional o dilema entre poligamia e monogamia que agora se apresenta para tirar nosso sossego.

Pelo que sabemos os humanos somos naturalmente polígamos, predominando notavelmente a poliginia (união entre um homem e várias mulheres) sobre a poliandria (união de uma mulher com vários homens). Os cientistas sabem disso porque o homem é maior que a mulher. O dimorfismo sexual parece ser um indicativo eficaz para analisar se uma espécie é monógama ou polígama. Em primatas estritamente monógamos como o gibão, machos e fêmeas são do mesmo tamanho. Gorilas, que são fortemente polígamos, apresentam grande dimorfismo sexual. Nessa escala, nós humanos apresentamos um dimorfismo sexual médio, o que se correlaciona também com uma disposição média para a poliginia.



À esquerda, o poligâmico gorila e seu harém. À direita, um monogâmico casal de gibões. 
Observar as diferenças no dimorfismo sexual entre as duas espécies de primatas.


Corroborando essa tendência biológica e de acordo com os registros mais atualizados, das 1.231 sociedades humanas encontradas hoje no planeta, apenas 186 são monogâmicas, 453 são ocasionalmente poligínicas, 588 frequentemente poligínicas, e quatro poliândricas. Assim que ninguém se espante se alguém disser que não há nada de novo ou errado na poligamia.

Mas o que é mais socialmente conveniente, a poligamia ou a monogamia? E quem mais se beneficia com uma ou outra, o homem ou a mulher?

Se o leitor apostou que são as mulheres as mais beneficiadas com a monogamia, parece que fez a aposta errada.

Mas é fácil errar. Numa passeada rápida pelas mídias sociais encontramos essas românticas mensagens glorificando o amor eterno, geralmente acompanhadas por casais idosos abraçados, deitados, dormindo de conchinha, tomando banho, correndo pela praia...  Quase que irremediavelmente essas mensagens foram postadas por mulheres. Já as mensagens masculinas se inclinam mais para o lado da promiscuidade. Assim, o sistema monogâmico vigente parece ser um pesadelo para a maioria dos homens. Será?

Os cientistas parecem ter outra opinião. Fêmeas em geral preferem compartilhar um macho alfa a ter exclusividade sobre um macho inferior. Ou como diria o escritor George Bernard ShawO instinto maternal leva a mulher a preferir a décima parte de um homem de primeira categoria do que a posse exclusiva de um de quinta.”.  Essa tendência aumenta em regimes onde a distribuição de bens é muito desigual. Nesses casos, “a décima parte de um homem de primeira categoria” representa mais de 100% dos recursos de um homem de quinta. Já em sociedades com recursos mais igualitariamente distribuídos, onde ricos não são muito mais ricos que os pobres, “um décimo” dos recursos de um homem rico provavelmente representará menos da totalidade dos recursos de um homem pobre.  Aí a exclusividade compensa.

E para os homens, a poliginia é tão boa quanto eles alardeiam? 
Não para a maioria. Numa sociedade onde a poliginia é legal (como a islâmica de hoje), um homem pode ter até quatro esposas. Considerando uma distribuição de 50% entre homens e mulheres entre a população, somente os homens considerados mais “aptos” pelas mulheres (ou suas famílias) terão direito a ter uma esposa. Se metade dos homens decidir casar com duas mulheres, a outra metade não terá esposa nenhuma. Se decidirem fazer jus às suas quatro esposas, um número maior de homens vai ficar solteiro para sempre. Uma receita para o desastre. Mais cedo ou mais tarde a necessidade de procriar dos machos menos atraentes vai gerar uma pressão que só poderá ser reprimida com violência e morte.

Assim, para as mulheres, como tanto em regimes monogâmicos como poligâmicos (excluindo aqui a rara poliandria) terão um único parceiro, a poligamia opcional é conveniente porque permite uma flexibilidade de opção caso exista uma diferença muito grande na distribuição dos bens entre os homens. Já para a maioria dos homens a monogomia compulsória é a única que assegura -mesmo aos homens menos atraentes- a possibilidade de conseguir uma esposa. Se por um lado a poligamia assegura a reprodução dos mais "aptos", ela pode gerar uma tensão social muito grande.

Claro que a complexidade do comportamento humano não se restringe aos apelos hedonistas de nosso cérebro mamífero. A evolução selecionou também comportamentos que privilegiaram nosso convívio em grupo, mesmo por que a sobrevivência individual depende de um grupo coeso, o que por sua vez demanda em alguns casos sacrifícios pessoais. Altruísmo e empatia também fazem parte, felizmente, de nosso repertório cognitivo.  
Finalizando, é sempre importante conhecer todas as forças que nos fazem ser como somos, sem esconder nenhuma embaixo do tapete. 
Ou como diriam os gregos, nosce te ipsum.

Leitura recomendada: Por que os homens jogam e as mulheres compram sapatos. Satoshi Kanazawa e Allan Miller, 2007.



sábado, 18 de agosto de 2012

A boa vida dos bonobos (e o que eles podem nos ensinar)

Sexo bonobo. Fotografia extraída do site da
pesquisadora Vanessa Woods.
Em um período da nossa história geológica conhecida como Mioceno começou a se diferenciar evolutivamente um grupo de primatas que daria origem – em um longo processo de 15 milhões de anos - aos gorilas, chimpanzés, humanos, bonobos e orangotangos.
Como muitos já leram por aí, é enorme a semelhança genética que mantemos com esses primos. Compartilhamos com alguns deles 98,7% do nosso DNA
Para mim sempre foi fascinante a história que esses dados genéticos e os associados ao estudo do seu comportamento nos contam sobre o que somos, sobre a forma como agimos e pensamos. E analisando tudo isso alguns pesquisadores chegaram a questionar, provocativamente, se nós humanos não tomamos o caminho errado em nossa caminhada evolutiva.
Essa constatação surge quando analisamos a forma como os grandes primatas nos relacionamos, como lidamos com nossos conflitos, como tratamos aquilo que nos dá prazer. Em todos esses quesitos, os bonobos dão um banho de sabedoria e bom viver no restante da família símia. Já escrevemos sobre o assunto nesta coluna quando tratamos da história evolutiva do pênis

Mas qual a grande diferença entre animais tão semelhantes? Bom, evidentemente nosso cérebro, graças provavelmente a algumas mutações em genes responsáveis pela organização neural, deu o pulo cognitivo que podemos hoje testemunhar e estudar. Mas em termos de relacionamento, não diferimos muito dos gorilas e dos agressivos chimpanzés. Somos proclives à violência, à territorialidade, ao rapto, ao estupro, à guerra, à submissão pela força, mesmo compartilhando estruturas cerebrais que nos permitem ter empatia. Criamos uma sociedade competitiva, estressante e machista, que costuma associar prazer com algo ruim e pecaminoso. Tudo o contrário da forma “bonoba” de viver a vida. 

Um dos maiores estudiosos do comportamento desses primatas, o holandês Frans de Waal, associou definitivamente os bonobos com a expressão “faça amor, não faça a guerra”. Ao comparar os bonobos com seus quase irmãos chimpanzés (os bonobos são também conhecidos como chimpanzés-anões) observou que “enquanto chimpanzés usam violência para obter sexo, bonobos usam o sexo para evitar a violência”. 

Mas o que diferencia realmente os bonobos do resto dos grandes macacos? A principal diferença parece estar em que entre eles, e só entre eles, as fêmeas assumiram o comando, e criaram uma sociedade pacífica onde a guerra não existe e o sexo é tão comum quanto um amistoso aperto de mãos. Promíscuo? Sim, talvez, mas pelas evidências que temos todos os primatas somos. E os bonobos parecem ter descoberto que entre a promiscuidade e a violência a primeira é infinitamente melhor. 

Tudo o que diz respeito à forma como os bonobos se organizam em sociedade é digno de ser estudado. Eles levaram o sexo a um patamar superior aos dos outros mamíferos. Na quase totalidade do reino animal, o objetivo do sexo é a procriação, e o prazer que ele proporciona apenas uma recompensa química para que os animais procriem e perpetuem a espécie. Já os humanos modernos utilizamos o sexo de forma fundamentalmente recreativa, para obter um prazer individual ou a dois. Ao que parece, os bonobos transcendem esse limite e utilizam o sexo para criar laços sociais baseados no companheirismo, na camaradagem e na colaboração, conforme pode ser observado nos textos de Frans de Waal e nos vídeos indicados ao final deste post. 

Infelizmente, seus primos humanos estão conseguindo a proeza de eliminar essa espécie, hoje resumida a uns 10.000 indivíduos sobrevivendo em um único país: a República Democrática do Congo, na África. Caso consigamos a humana façanha de acabar com eles, não teremos mais condições de estudar animais que aprenderam a resolver seus problemas com níveis mínimos de violência, animais que parecem possuir o que há de melhor em nós mesmos.



O que os bonobos podem nos ensinar sobre amor e sexo?


Os estudos de Frans de Waal e de outros que se debruçaram para entender a organização social destes primos tão particulares, alimentaram uma série de artigos e livros sobre a vida dos bonobos e sua relação com nossa própria organização social e sexualidade. Um dos mais lidos atualmente é “Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality”, de Christopher Ryan e Cacilda Jethá (sem tradução ao português, mas sim em espanhol: “En el principio era el sexo”).
Recentemente, a neurocientista e editora do Huffington Post, Cara Santa Maria, solicitou a Christopher Ryan, em ocasião do dia dos namorados, que este citasse sete dicas que os bonobos poderiam nos dar sobre amor e sexo. Quem quiser ler o original em inglês pode clicar no link acima. 
Aqui vai uma tradução aproximada:

1. Mais sexo = menos conflito. Como o grande primatologista Frans de Waal comenta "chimpanzés usam violência para conseguir sexo, enquanto os bonobos usam o sexo para evitar a violência." Enquanto os chimpanzés se maltratam de várias formas (guerras, estupro, homicídio, infanticídio, etc.) nunca houve um único caso observado de qualquer uma dessas formas de agressão entre os bonobos, que são muito mais sexy que os chimpanzés. Como James Prescott demonstra em uma meta-análise com todos os dados antropológicos disponíveis, a conexão entre sexualidade menos restritiva e menos conflitos geralmente vale também para as sociedades humanas.

2. O feminismo pode ser muito sexy. Quando as fêmeas estão no comando, todo mundo vive melhor (incluindo os machos). Ao contrário dos chimpanzés, onde os machos dão as cartas, entre os bonobos são elas que mandam, com muito melhor qualidade de vida para todos os envolvidos (ver item 1).


3. Irmandade feminina é poderosa. Embora bonobos fêmeas sejam cerca de 20% menores que os machos – relação semelhante à observada entre chimpanzés e seres humanos- elas dominam os machos mediante sua união. Se um macho sair da linha e perturbar uma fêmea, TODAS as outras se unirão contra ele. Esta solidariedade fraternal, combinada com muito sexo, tende a manter os machos se comportando educadamente.


4. Ciúme não é romântico. Embora bonobos sejam capazes de sentir sentimentos direcionados especificamente a um indivíduo, eles não se preocupam muito em controlar a vida sexual do seu parceiro. Nem parece gostarem de fofocas... 


5. Ha promessa de promiscuidade. Todo o sexo casual entre bonobos é sem dúvida uma grande parte do que os colocou entre os mais inteligentes de todos os primatas. Até os humanos chegarem para estragar festa, bonobos desfrutavam muito com sua qualidade de vida, baixos níveis de estresse, e grande interação social. Na verdade, das muitas espécies de primatas sociais que vivem em grupos compostos de muitos machos, não existe uma única espécie sexualmente monógama. Os mamíferos mais inteligentes - humanos, chimpanzés, bonobos e golfinhos- são promíscuos. 


6. O bom sexo não precisa incluir sempre um orgasmo, e sexo "casual" não significa necessariamente "vazio" ou "barato". A maioria das interações sexuais entre bonobos não são nada mais do que uma sensação rápida, uma bolinação, uma penetração, um “aperto de mãos bonobo”, conforme narra Vanessa Woods em seu ótimo livro. Mas os bonobos são muito românticos: como os seres humanos, eles se beijam, seguram as mãos (e os pés!), e olham nos olhos um do outro enquanto fazem sexo.


7. Pelo menos para os bonobos, sexo e comida combinam melhor que sexo e casamento. Nada incentiva mais o início de uma orgia bonoba do que um banquete. Dê a um grupo de bonobos uma boa refeição e eles partirão para um sexo rápido antes de compartilhar educadamente a comida. Não há necessidade de partir para a briga sobre os restos como um grosseiro bando de chimpanzés!

Quem quiser assistir vídeos sobre a vida dos bonobos, recomendamos o site da pesquisadora Vanessa Woods: http://www.bonobohandshake.com/
Sobre a organização social dos primatas (incluindo os humanos) recomendo o ótimo "Eu, primata. - Por que somos como somos" de Frans de Waal.


sábado, 31 de março de 2012

A inútil busca pela felicidade eterna

Felicidade virou objeto de consumo. Ambicionamos ser constantemente felizes como mostram os anúncios de televisão onde são todos jovens, bonitos, extrovertidos e sempre sorridentes. Nossa realidade, claro, é bem diferente. A juventude desaparece inexoravelmente, pouquíssimos somos bonitos, nem todos são extrovertidos e isso de estar felizes sempre pode ser sintoma de uma doença denominada mania.

Embora a experiência individual de felicidade seja um fenômeno complexo, vários de seus componentes como o prazer, conforto, satisfação, amparo, realização, etc., são o resultado secundário da ação de quatro substâncias químicas que nosso cérebro produz: endorfinas, dopamina, ocitocina e serotonina. Sua produção e liberação em áreas cerebrais específicas é um processo extremamente preciso e complexo, fruto de milhões de anos de evolução. Ao nos dar prazer, elas nos motivam para empreender ações e comportamentos que são fundamentais para nossa sobrevivência e para a reprodução. Como prêmio de salvar nossa própria pele e espalhar nossos genes, o cérebro recompensa com emoções positivas e orgasmos.

Nossos momentos mais felizes coincidem quando o nível de um desses quatros neurotransmissores –ou mais de um deles- está em seu pico mais alto. Nosso cérebro capta então que esse nível está elevado, confere se a ação primária do neurotransmissor foi desempenhada e imediatamente começa a remover o excesso dessas substâncias (recaptação). Ao fazer isto, a sensação de felicidade desaparece.

O problema é que esta descida natural de nosso estado anímico não condiz com a imagem de felicidade eterna à qual acreditamos ter direito. A volta ao estado normal é então confundida com “in-felicidade”, que confundimos por sua vez com tristeza e finalmente a associamos –para alegria da indústria farmacêutica- a uma profunda depressão.



Figura 1 - Microfotografia de dois neurônios corados com um marcador fluorescente. O quadrado branco indica o local onde o neurônio A entra em contato com o neurônio B. As setas vermelhas sinalizam o caminho da informação (de A para B). O local de contato entre os neurônios (sinapse) dentro do quadrado está ampliada (e esquematizada) na figura abaixo. 






Figura 2 - Esquema da sinapse indicada na figura 1. No neurônio A (denominado pré-sináptico porque está antes da sinapse no sentido do caminho da informação) encontramos organelas como as mitocôndrias (1), que fornecem energia à célula, e vesículas (2) contendo algum dos neurotransmissores citados no texto (neste caso, serotonina). No momento oportuno (7), as vesículas são liberadas na fenda sináptica (4) e acoplam com os receptores localizados no neurônio pós-sináptico (5) iniciando uma série de ações. O excesso de serotonina é recaptado pelo neurônio A (8). Medicamentos como o Prozac inibem esta recaptação (8), permitindo que a serotonina permaneça mais tempo na fenda sináptica, prolongando seus efeitos.


Obviamente, depressão tem pouco ou nada a ver com isso. Depressão é uma doença que só pode ser diagnosticada eficientemente por um psiquiatra, e dos bons. Os altos e baixos de nosso humor fazem parte de um processo natural de equilíbrio de neurotransmissores associado com os problemas normais do dia a dia.

Um exemplo típico deste processo é o da endorfina. Como o nome indica -morfina interna- sua função principal em todos os mamíferos é eliminar a dor e gerar um estado de euforia. Por causa dessas propriedades, ela é liberada em situações onde ficar paralisado por causa da dor pode ser a pior das soluções. Imaginemos estar em meio a uma briga feroz (podemos também imaginar o antílope lutando para escapar das garras do leão). Se a dor provocada por uma ferida nos paralisa é bem provável que nosso oponente aproveite esse momento para dar o golpe definitivo. É nessa hora que a endorfina entra em ação. Pela sua ação a dor é suprimida e ao mesmo tempo sentimos a força necessária para continuar a luta ou, se for o caso, fugir. Mas assim que estamos a salvo não faz mais sentido continuar com um cérebro encharcado de endorfina. Precisamos sentir a dor das feridas para dar a elas uma atenção prioritária. Claro que os efeitos eufóricos também acabam. Essa não é mesmo a hora de estar feliz.



Nesta hora a gazela não pode parar para cuidar suas feridas.
A endorfina inibe a dor e dá forças para continuar a corrida.


Uma história parecida nos contam os outros neurotransmissores. Os níveis de dopamina, por exemplo, sobem e ativam nosso sistema de recompensa quando empreendemos ações que nos levam a saciar nossas necessidades básicas, como alimentação e sexo. Depois que foram atendidas seu nível decai. Caso contrário sentiríamos o bem-estar gerado pelo sistema de recompensa mesmo quando não fazemos nada para suprir nossas necessidades. 
Não teríamos a motivação necessária para iniciar tarefas relacionadas com nossa sobrevivência individual e da nossa espécie, o que seria um péssimo negócio (curiosamente, as drogas pesadas agem justamente nesse sistema cerebral de recompensa, substituindo nossos desejos naturais de nos alimentar, saciar nossa sede e procriar pelo único objetivo de consumir a droga).


Neste quarteto, a ação da ocitocina é fundamental para estabelecer laços de confiança e afeto duradouros. Durante a amamentação ocitocina é liberada no cérebro da mãe e do filhote, reforçando os laços familiares, o comportamento materno e gerando a agradável sensação de amparo. Também liberamos ocitocina ao receber uma massagem e durante o orgasmo o que cria laços entre parceiros sexuais. Quanto mais sofisticado o cérebro do mamífero, mais complexas são as alianças sociais. Um cérebro constantemente encharcado de ocitocina nos levaria a confiar e estabelecer laços afetivos com todos indistintamente. Pode parecer até bonito, mas nas duras condições de sobrevivência impostas em milhões de anos pela seleção natural, isto seria inviável.

A compreensão destes mecanismos nos permite lidar de forma mais tranquila com nossos estados anímicos. Analisar nossos sentimentos de fundo, reconhecer se existem causas reais quando eles são negativos, relacioná-los com processos químicos normais de nosso cérebro -processos que compartilhamos com todos os mamíferos-, pode ser um passo importante para iniciar novos comportamentos recompensadores. Mas cuidado com essa necessidade constante de colocar a toda hora novas e mais difíceis metas para provocar picos dopaminérgicos. Não force a barra. Muitas vezes a melhor coisa a fazer é, simplesmente, não fazer absolutamente nada.




Leitura recomendada

Towards a functional neuroanatomy of pleasure and happinessKringelbach MLBerridge KCTrends Cogn Sci. 2009 Nov;13(11):479-87. Epub 2009 Sep 24.

Meet Your Happy Chemicals: Dopamine, Endorphin, Oxytocin, Serotonin.  Breuning, LG, 2012. 



sábado, 3 de março de 2012

Uma anomalia chamada seios

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Chamar os seios de anomalia pode parecer uma afronta. Seios exercem um enorme fascínio sobre os homens, ao menos sobre os heterossexuais. Mas, por quê? E mais, por que as mulheres têm seios e não apenas mamas?

Para começar a entender o motivo pelo qual muitos cientistas acham que os seios são uma anomalia evolutiva, vale a pena analisar o que acontece com os outros animais.

A existência de mamas é, obviamente, uma caraterística de todos os mamíferos. Em todos, elas têm a função de produzir leite para alimentar a prole. Assim, sua estrutura é basicamente composta de tecido glandular. Esse tecido aumenta de tamanho apenas próximo e durante o período de lactação. Quando a fêmea deixa de amamentar ele regride de forma que suas mamas ficam aproximadamente do mesmo tamanho que as do macho. Isto pode ser visto em praticamente todos os mamíferos, incluindo aqui os grandes primatas não humanos (gorilas, bonobos, chimpanzés e orangotangos). Menos em nossa espécie.





O tórax desta gorila fêmea adulta pouco se diferencia em relação ao macho.


As mamas de nossas fêmeas possuem, além do tecido glandular, quantidades abundantes de tecido adiposo e tecido conjuntivo. Ao contrário dos outros mamíferos, o crescimento dos seios começa na puberdade, sem nenhuma relação com a amamentação. Embora durante a amamentação aumentem de tamanho, finalizado esse período continuam bem maiores que as mamas do macho. Não há nenhuma relação confirmada entre o tamanho das mamas e a quantidade ou qualidade do leite produzido. Seios grandes indicam fundamentalmente seios com um maior conteúdo de gordura. Mulheres anoréxicas ou maratonistas profissionais, onde há uma queda acentuada na quantidade geral de gordura pelo corpo têm uma redução acentuada do tamanho e consistência dos seios. Mulheres que fazem regime severo sabem disso.



O desenho mostra o aspecto interno da mama de uma mulher adulta.
Comparar a quantidade de tecido glandular (produtor de leite) na cor roxa em relação
ao tecido adiposo (amarelo) e conjuntivo (bege).


Tudo indica então que as mamas adquiriram em nossa espécie outra função além daquela básica de amamentar os filhotes. Qual seria? De acordo com estudos evolutivos, mamas sempre volumosas são um ornamento selecionado por processos de seleção sexual, algo análogo à vistosa cauda do pavão. Daí nossa atração atávica.

A evolução desse traço parece ter sido bem recente, originando-se provavelmente depois que alguns hominídeos adquiriram uma postura ereta, o que aconteceu há uns 4,2 milhões de anos AEC. Com o bipedalismo, o pênis, clitóris, mamas, cintura e quadril ficaram expostos e tornaram-se alvos potenciais da seleção sexual. O mesmo aconteceu com a agora volumosa região glútea. Já vimos que este processo afetou também a evolução do pênis, cujo tamanho relativamente avantajado parece ter sido resultado da seleção da fêmea. Da mesma forma, é bem provável que machos tenham determinado mediante processos seletivos a morfologia externa dessas estruturas em suas parceiras.

Mas por que seios sempre volumosos poderiam representar uma vantagem evolutiva? Ao que parece, durante o pleistoceno -período geológico onde os humanos evoluímos- seios volumosos poderiam servir como sinalizadores de juventude, saúde geral e inteligência, características que tornariam a fêmea desejável desde o ponto de vista reprodutivo. De fato, seios grandes dão boas dicas da idade. A ação da gravidade e as repetidas gestações exercem um efeito já bem conhecido por todos: os seios “caem”. Assim, seios empinados seriam um claro sinal de juventude que não passaria inadvertido pelos machos.

Seios volumosos também dariam importantes pistas sobre o estado de saúde da fêmea e sua capacidade de enfrentar as adversidades do ambiente. E isto parece não estar relacionado com o tamanho dos seios, e sim com sua simetria. A bilateralidade das estruturas do nosso corpo, como braços, dedos, seios e estruturas da face está determinada em nossos genes. A ordem genética é criar estruturas bilaterais idênticas. Mas fatores ambientais como nutrição, doença, contaminação do ambiente, estresse, etc., acabam interferindo nesse processo provocando assimetrias (em biologia, isto é denominado assimetria flutuante). Estruturas assimétricas indicam que a ação dos genes não foi suficientemente robusta a ponto de contornar esses fatores. Ao contrário, altos níveis de simetria (simetria absoluta é muito raro) é sinal de uma boa capacidade do indivíduo resistir às ameaças ambientais.

A escolha de indivíduos com elevados níveis de simetria foi comprovada em testes de atração facial. Quando confrontados a fotografias, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes faces simétricas. Por outra parte, mulheres com seios simétricos têm maior índice de fertilidade.

Finalmente, seios volumosos (e quadril largo) também seriam um sinal de acúmulo de gordura. Nas duras condições das savanas africanas do pleistoceno, este acúmulo indicaria, em parte, uma maior possibilidade das fêmeas enfrentarem períodos com pouca oferta alimentar e ao mesmo tempo uma habilidade comparativamente maior para conseguir alimentos, todas características vantajosas desde o ponto de vista da sobrevivência.

O aumento comparativo do tamanho das mamas nas fêmeas humanas veio acompanhado de outras caraterísticas. Houve um deslocamento do tecido adiposo no abdome feminino. Gorilas e chimpanzés fêmeas acumulam gordura na cintura e no quadril, de forma semelhante ao que acontece em machos humanos. Já a silhueta de fêmeas humanas jovens e férteis apresenta forma de ampulheta, com uma cintura fina e medidas maiores na região do quadril e seios. Esta silhueta permitiria mesmo a distância e em condições de pouca luminosidade –o que deveria ser comum nas savanas africanas por onde nossos ancestrais viveram por centenas de milhares de anos- que fêmeas férteis fossem facilmente distinguidas de machos e mesmo de fêmeas idosas, onde a silhueta já não guarda essas proporções.





Ao longo da história, várias culturas em diversas regiões do planeta reverenciaram
 a silhueta feminina em forma de ampulheta. Nesta estátua, a deusa hindu Parvati
 tem essa forma exagerada, provavelmente enfatizando sua fertilidade.


Silhueta apropriada, nádegas arredondadas, seios simétricos e empinados sinalizam fêmeas jovens, férteis e saudáveis, aptas assim para gerar descendentes bem adaptados . Um material em tanto sobre o qual toda a seleção guiada pelo sexo pudesse agir durante centenas de milhares de anos e provocasse ainda nos politicamente corretos dias de hoje algumas situações constrangedoras, como a do filme abaixo.




Fontes:


Moller, AP, Soler, M and Thornhill R (1995) Breast asymmetry, sexual selection, and human reproductive success. Ethology and Sociobiology. 16 (3): 207-219
Zaidel, DW e cols., (2005) Appearance of symmetry, beauty, and health in human faces. Brain and Cognition 57 (2005) 261–263
Jahme C., Breast size: a human anomaly; The Guardian (Science), 14/05/2010.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

E o macaco disse “Não!”

Cesar, protagonista do filme Rise of the Planet of the Apes
No final de agosto teremos a chance de assistir o novo filme da série “O Planeta dos Macacos”. Quem é um pouco mais velho deve lembrar o primeiro da série, estrelado por Charlton Heston, sucesso enorme e um clássico no gênero de ficção científica. Nesta última sequência, "Planeta dos macacos - O início", a trama se desenvolve nos dias atuais. Will, o protagonista humano, é um cientista que experimenta com sucesso uma droga capaz de combater o mal de Alzheimer. A droga é testada em chimpanzés, mas o problema é que estes acabam atingindo níveis de inteligência humana e aí a coisa começa a complicar.

Como filme, é bastante divertido, embora os efeitos especiais não cheguem a ser tão convincentes assim. A carga de fantasia é grande, mas não compromete o resultado final, mesmo porque sendo um filme de ficção científica esses exageros são sempre toleráveis e esperados.

Separar o que é ficção do que é ciência está ficando cada dia mais difícil. Bons escritores de ficção científica utilizam informações que vêm da ciência e boas doses de imaginação fazendo assim uma projeção no futuro. Por vezes, como no caso de Isaac Asimov, Julio Verne e outros, algumas das previsões acabam se tornando realidade.

Agora, o eixo do filme gira ao redor da possibilidade de, mediante manipulação laboratorial, animais (macacos) passarem a ter características cognitivas que reconhecemos como humanas. Entre elas, a linguagem, uma capacidade que Cesar –o macaco protagonista- adquire em determinado momento do filme.

Mas cientificamente falando, estamos muito longe disso? Aparentemente nem tanto quanto eu imaginava até uns dias atrás.

No final de julho deste ano, a Academia Britânica de Ciências Médicas (The Academy of Medicas Sciences, AMS) lançou um relatório recomendando a criação de um comitê para analisar os aspectos éticos de pesquisas científicas envolvendo a introdução de material humano (genes ou células) em animais. Esses procedimentos já são rotineiramente utilizados pela ciência com objetivos muito bem delimitados.

Só para citar alguns exemplos:

-Genes humanos relacionados com várias alterações como síndrome de Down, osteoporose, doenças do coração e câncer, vêm sendo implantados no DNA de camundongos, criando assim animais experimentais que exibem alguns traços dessas alterações, o que permite desenvolver abordagens de cura.

-Genes humanos responsáveis pela produção de um elemento fundamental na coagulação sanguínea (fator IX) são incorporados no DNA de cabras que assim passam a produzir essa proteína em grandes quantidades no leite, de onde ela é posteriormente extraída, purificada e oferecida a pacientes que dela necessitam.

-Células tumorais humanas são introduzidas em camundongos para estudar como os tumores se desenvolvem e espalham.

-Células-tronco humanas são implantadas no cérebro de ratos para estudar a capacidade de reparação cerebral após um acidente vascular cerebral, traumatismo, etc.

Essas pesquisas não têm restrições, mas segundo a AMS determinados experimentos deveriam ser rigorosamente analisados ou mesmo proibidos.

Nesta lista entrariam:

a) Experimentos que venham a criar em animais, mediante manipulação genética, características percebidas apenas como humanas, como forma da face ou membros, textura da pele, entre outras.

b) Fertilização de óvulos animais por esperma humano, e vice-versa.

c) Modificação da estrutura cerebral animal de forma que venha a permitir funções cognitivas humanas, incluindo a linguagem e a fala.

Se alguém notou uma semelhança entre esta última possibilidade e o enredo do filme "Planeta dos macacos - O início", não terá sido uma coincidência. Uma coisa é implantar células-tronco humanas em cérebros de camundongos. Mas nos Estados Unidos ainda é permitida a experimentação invasiva em grandes primatas, como os chimpanzés. Eventualmente, para pesquisar a cura de algumas das doenças degenerativas do cérebro (mais coincidências?), algum grupo de pesquisadores poderia tentar implantar células-tronco humanas no córtex cerebral de chimpanzés. Teoricamente, existiria a possibilidade que essas células criassem redes neurais semelhantes às que em humanos são responsáveis pelo pensamento abstrato, linguagem, planejamento...

Seis milhões de anos atrás, a partir de um ancestral comum, chimpanzés e humanos seguiram linhagens evolutivas diferentes. Mesmo assim, compartilhamos aproximadamente 99,4% de nossos genes. Os 0,6% que nos diferenciam parecem corresponder a estruturas de DNA responsáveis pelo desenvolvimento da região do cérebro que mais nos torna humanos, o córtex cerebral
. Na prática, isso representa a enorme diferença nas capacidades mentais que diferenciam as duas espécies. Teme-se que células-tronco humanas implantadas no córtex cerebral desses símios permitam que eles pulem a distância que evolutivamente nos separa.
Quem sabe ainda estamos longe disso. A AMS deve ter suas razões para dar o aviso.

Se o aviso vai surtir efeito, eu duvido.





Para entender mais sobre as diferenças no DNA que nos separam dos chimpanzés, assistam esse ótimo documentário. Recomendo assistir os oito capítulos desta série da BBC, O que Darwin nunca soube (What Darwin didn't know)