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sábado, 12 de setembro de 2015

As experiências de quase (quase!!) morte.

As chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM) sempre despertaram uma curiosidade enorme. Não poderia ser diferente. A morte continua a ser para muitos o grande mistério. Por termos um cérebro que temos, fruto do processo evolutivo que nos tornou humanos, somos conscientes prematuramente da nossa finitude. Um peso enorme que devemos suportar lá desde nossa infância, quando começamos a perceber que a morte existe, que é real e que é para sempre. Existem poucas dúvidas que esse peso todo está na base de quase todas as religiões, que nos prometem a vida eterna em troca da obediência terrena.

Nesta coluna já tínhamos abordado o assunto (ver aqui e aqui). Nas EQM geralmente estamos ante um quadro onde a irrigação sanguínea do cérebro diminui. Isto leva a um lento desconectar de algumas redes neurais e a um lento reconectar quando a irrigação é restabelecida. Quase todos os fenômenos descritos nas EQM como lembranças, luzes, sentimentos de paz e harmonia, encontros com entes sobrenaturais e mesmo a estranha sensação de estar flutuando fora do corpo podem ser hoje explicados por esse rearranjo de redes neurais.

Mas há um detalhe que sempre chama a atenção. Alguns (poucos) que passaram por EQM relatam não apenas estarem flutuando, mas afirmam serem capazes de lembrar tudo o que viram desde essa posição, fato que, obviamente, só poderia ocorrer se a consciência se separasse completamente do cérebro e saísse flutuando até parar no teto, à espera de uma decisão volto/não volto.

Mas existiria forma de verificar isso nas condições objetivas que a ciência exige? Algo que fosse além de relatos subjetivos para os quais uma explicação biológica já resolve muito bem? Para um pesquisador, Sam Parnia, especialista em reanimação e ele mesmo defensor da ideia de uma consciência separada do corpo físico, a resposta foi sim.

Para isto em 2008 iniciou o projeto AWARE (AWAreness during REsuscitation, algo assim como consciência durante a ressuscitação). Basicamente, a ideia foi analisar o que acontece com pacientes com parada cardiorrespiratória (PCR), situação onde a irrigação do cérebro é suspensa por alguns minutos com a consequente perda de consciência. O estudo foi realizado em 15 hospitais do Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Dias (ou meses) depois da reanimação, os pacientes foram entrevistados em relação àquilo que lembravam sobre esses momentos.

Para tornar as coisas algo mais objetivas em cada hospital foram escondidas entre 50 e 100 fotografias com diversas imagens nas salas de reanimação, imagens que só poderiam ser vistas de cima para baixo, ou seja apenas se a consciência se separasse mesmo do paciente desfalecido. Assim, a hipótese dualista (mente e cérebro serem coisas separadas) seria corroborada se algum sobrevivente revelasse a imagem escondida.

Os resultados mostraram que dos 2060 pacientes utilizados neste estudo, apenas 330 sobreviveram à PCR. Destes, 140 tiveram saúde suficiente para passar às seguintes fases do estudo baseadas em entrevistas. Só 55 (39%) afirmaram ter algum tipo de lembrança desse período (61% dos entrevistados não lembravam de nada). Desses 55 a maioria afirma ter tido lembranças da família, animais, plantas e a famosa luz brilhante. 5% lembraram cenas do passado, 22% afirmaram terem sentido paz e plenitude e 9% sentimentos de alegria. 8% alegam ter encontrado um ser místico e 13% a sensação de separação do corpo. Até aqui, nada que não possa ser explicado por um cérebro confuso se reconfigurando após o trauma.

De acordo com o estudo, apenas 1 paciente revelou informações que –segundo o autor- puderam ser verificadas, informações sobre o que estava ocorrendo durante a reanimação. Por causa desse único paciente veio todo um alarde midiático com manchetes do tipo


-"Vida após a morte? Maior estudo realizado fornece evidências de que as experiências "fora do corpo" e "quase-morte" podem ser reais."

-“Descoberta científica sugere que há vida após a morte.

-“Investigação científica conclui que é possível vida após a morte.”

-“Cientistas britânicos confirmam que vida após a morte é real.


Confesso que após ler essas manchetes imaginei que algum dos pacientes tivesse descrito sem erro a imagem escondida, única evidência que justificaria tamanho alvoroço jornalístico. Mas nada, nenhuma informação sobre isso. Quando finalmente consegui ler o artigo original aconteceu o que já suspeitava, esse único paciente que segundo o autor fornecia informações objetivas que corroborariam uma consciência separada do corpo físico simplesmente não identificou nenhuma imagem escondida. No artigo o autor apenas comenta este fato, alegando que o fracasso pode ter ocorrido porque a maioria das reanimações ocorreram em salas que não tinham essas imagens escondidas.

Como foi ele – o autor- quem criou a metodologia, isso não serve de desculpa para mascarar os resultados. Seu estudo simplesmente não corroborou –como ele desejaria- a ideia de uma consciência separada do corpo físico e assim a hipótese alternativa de uma consciência fruto apenas do funcionamento cerebral acaba sendo reforçada. Essa deveria ser a conclusão do seu estudo e das manchetes dos jornais.

Por outra parte tentar provar cientificamente a existência de uma consciência, alma ou espírito separada do corpo físico não é ciência. Por quê? Simples, não há experimento que nos permita negar a hipótese. A consciência desencarnada –caso existisse- poderia não se comunicar por motivos que vão além da experimentação. É como provar a inexistência de deuses, de gnomos ou da fada do dente. Enfim, é apenas uma questão de fé.





Fontes:

-AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Sam Parnia e cols., Resuscitation 85 (2014) 1799–1805

-No, this study is not evidence for "life after death". Sharon Hill, http://web.randi.org/swift/no-this-study-is-not-evidence-for-life-after-death


sábado, 16 de maio de 2015

Fantasmas no cérebro

Imagem tomográfica de hemorragia cerebral (fatal).  (Joshua P. Klein & 
Robin C. Ryther.N Engl J Med 2009; 361:1786 October 29, 2009
DOI: 10.1056/NEJMicm0900232
Fico imaginando um indivíduo na Idade Média sofrendo uma alucinação visuoauditiva complexa. A imagem que lhe surge aí, conversando com ele, seja um deus, santo, demônio ou um familiar morto será tão vívida quanto qualquer outra do mundo real. Se a imagem mental vai ao encontro do seu sistema de crenças, se ele acredita que essas figuras sobrenaturais existem e podem conversar com ele, dificilmente teria motivos, com o nível de conhecimento da época, para duvidar da sua autenticidade.

Tudo indica, entretanto, que toda essa população de criaturas sobrenaturais habita em nosso cérebro. Vozes, imagens, ações, tudo está lá. Durante os sonhos parte dessa fauna vem nos visitar, mas ao acordar sabemos que isso não era real. Mas em algumas circunstâncias o cérebro produz tudo isso quando estamos acordados e aí a confusão começa, como não poderia deixar de ser.

Mas por que isto acontece? Por que o cérebro cria essas histórias sobrenaturais e nos empurra no universo místico?

Hoje conhecemos algumas respostas, mas antes devemos lembrar que, ao que parece, temos uma predisposição cerebral para dar explicações sobrenaturais para eventos naturais. Somos dualistas natos. A ideia que a alma, espírito, self, consciência -ou seja qual for o nome que dermos- é uma entidade separada do corpo físico é algo muito arraigado em nós, algo intuitivo. 

Em parte isso acontece pela dificuldade de associar as atividades mentais com o cérebro, o que não sucede com os outros órgãos e sistemas do nosso corpo. Podemos, por exemplo, fazer uma associação visceral entre os alimentos que ingerimos e os órgãos do sistema digestório. Conseguimos perceber a passagem do bolo alimentar pelo esôfago, estômago, intestinos. Sentimos músculos e ossos ao nos movimentar, ao sentar ou ao cair. Enfim, de certa forma podemos relacionar nossas vísceras com suas respectivas funções, mas com o cérebro isto é impossível. Não temos como criar uma relação perceptiva entre aquilo que o cérebro faz (pensar, sentir, calcular, decidir, planejar, desejar, etc.) com essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça. A impressão que temos é que a produção de ideias e pensamentos é algo que de fato não se relaciona com o corpo. Assim, a ideia dualista está fortemente arraigada e com isso os relatos sobrenaturais são facilmente assimilados.

Voltando aos fantasmas, uma das formas de fazer o cérebro fugir da realidade e nos levar para o além é mediante o uso de drogas psicoativas. Aliás, ao longo da nossa história temos utilizado algumas dessas drogas com essa exata finalidade, nos comunicar com entes sobrenaturais. Plantas como a mandrágora, o ópio, ou a Datura inoxia (a “Erva do Diabo” do Carlos Castaneda) entre outras têm sido utilizadas em rituais por xamãs e outras figuras místicas. 

Hoje temos uma boa ideia sobre como os componentes dessas plantas mexem com o equilíbrio neuroquímico a ponto de nos fazer alucinar. Anestésicos como a quetamina estão associados a “experiências fora do corpo”. Drogas como a tenamfetamina (MDA) podem trazer memórias de eventos há muito experienciados e esquecidos nos dando uma sensação de regressão. A dimetiltriptamina (DMT), princípio ativo da Ayahuasca, provoca uma dissociação entre mente e corpo e essa estranha sensação de falta de limites corporais. O fungo Claviceps (ergot), a partir do qual foi isolado o LSD, tem efeito alucinógeno e alguns historiadores acreditam que ao contaminar grãos como trigo e cevada podem ter contribuído com o clima de histeria religiosa vivido durante a Idade Média.

Outra forma de induzir experiências místicas é mediante a meditação. Estudos realizados em monges budistas e freiras franciscanas durante o processo meditativo (ou prece) mostram alterações em áreas do cérebro responsáveis por estabelecer os limites entre nosso corpo e os objetos vizinhos. Pacientes com lesão nestas áreas cerebrais têm dificuldades em discriminar onde termina o corpo e começa, por exemplo, uma mesa, tropeçando frequentemente. Estudos de imagem mostraram que durante a meditação existe uma redução do fluxo sanguíneo nessas regiões, o que produz uma diminuição da atividade cerebral local. Isso poderia explicar a sensação de perda de limites físicos, o “pertencer a um todo” ou a fusão da “alma” com a mente de Deus. 


Imagens do cérebro "normal" à esquerda e durante a meditação à direita. Observar a diminuição
do fluxo sanguíneo na região parietal direita, uma região relacionada com a orientação no tempo e espaço  

A hipóxia, diminuição da oxigenação no cérebro, também desencadeia experiências místicas. Isto foi constatado com pilotos em treinamento submetidos a forças de aceleração poderosas (ver filme abaixo), o que leva a uma diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro com a consequente falta de oxigenação. Após o treino nos simuladores quase todos os pilotos relatavam ter passado por um estado de confusão consistindo de breves episódios de visão de túnel (por vezes com uma luz brilhante no final), bem como sentimentos de flutuação ou paralisia, e finalmente perda de consciência, e ao se recuperarem uma sensação de euforia ou de paz e serenidade. Esta descrição, claro, lembra os relatos das chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM). Não por coincidência, estas geralmente surgem durante episódios onde a circulação para o cérebro é diminuída. 






Várias outras situações, mesmo em indivíduos sadios, são capazes de distorcer nosso senso de realidade. Quando há uma alteração psiquiátrica ou neurológica, como na esquizofrenia, epilepsia, ou lesões cerebrais decorrentes de doença ou trauma, estas situações de disfunção cerebral são mais comuns, e temos sobre elas uma literatura muito interessante e rica. Autores como Oliver Sacks, Vilayanur Ramachandran (a quem peço emprestado o título desta postagem) entre outros, mestres na descrição desses casos, são uma referência e, fundamentalmente, uma delícia de ler.

Para os interessados, fica então a dica.

Leitura recomendada:
Why people see gosts. Michael Shermer & Pat Linse. www.skeptic.com

sábado, 24 de novembro de 2012

A alma está no cérebro?

Em verde, a rede de microtúbulos em uma célula de 
embrião de camundongo observada mediante
 microscopia de fluorescência. Fonte
É bem provável que sejamos todos intuitivamente dualistas. De fato temos bons motivos para não associar as atividades mentais com o cérebro. Isto não acontece com os outros órgãos e sistemas do nosso corpo. Podemos, por exemplo, fazer uma associação visceral entre os alimentos que ingerimos e os órgãos do sistema digestório. Conseguimos perceber a passagem do bolo alimentar pelo esôfago, estômago, intestinos... Da mesma forma associamos facilmente a respiração com nossas vias aéreas, cavidade nasal, brônquios..., sentimos o tórax expandir pela entrada do ar. Sentimos músculos e ossos ao nos movimentar, ao sentar ou ao cair. Enfim, de certa forma podemos relacionar nossas vísceras com suas respectivas funções, mas com o cérebro isso não acontece. 

Não temos como criar uma relação perceptiva entre aquilo que o cérebro faz (pensar, sentir, calcular, decidir, planejar, desejar, etc.) com essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça. A impressão que temos é que a produção de ideias e pensamentos é algo que fica fora do corpo, próximo da cabeça talvez, mas não dentro dela.

Em parte por causa disto -e em boa parte também pelo medo da morte- temos uma forte propensão a separar a mente do corpo.

Pensar numa mente, alma, espírito, ou self independente do nosso corpo é um pensamento espontâneo e intuitivo, amparado naquilo que nossos sentidos nos revelam, mas como vimos em colunas anteriores pensamentos intuitivos não são bons para resolver problemas complexos. Lembremos como foi intuitivo por séculos pensar que a Terra estava fixa e tudo se movia ao redor dela, ou que era plana, ou que raios eram a reação de deuses zangados.

Com esse pano de fundo podemos entender por que somente nas últimas décadas os cientistas passaram a apostar - a partir de todas as evidências disponíveis - que a consciência é uma propriedade da atividade química do cérebro.

Durante boa parte da nossa história isso foi algo impensável. No antigo Egito, por exemplo, o cérebro era considerado um órgão insignificante que devia ser retirado na hora da mumificação. Eles acreditavam que o coração era o órgão mais importante do corpo, essência da vida, origem do bem e do mal. Após a morte, o coração era pesado usando penas por Maet, a deusa da justiça. Coração pesado, portas fechadas.




Com a pluma da verdade Maet (à esquerda, com a pluma na cabeça) pesava as almas de todos que chegassem ao Salão de Julgamento subterrâneo. Colocava a pluma na balança e no prato oposto o coração do falecido. Se os pratos ficassem em equilíbrio, o morto podia festejar com as divindades e os espíritos dos mortos. Entretanto, se o coração fosse mais pesado, ele era devolvido para Ammit, (que é parte hipopótamo, parte leão, parte crocodilo) para ser devorado. Fonte Wikipedia.


Curiosamente, Alcmaeon, médico da Grécia antiga (ano 450 AEC) se aproximou bastante das teorias atuais ao concluir que era o cérebro, e não o coração, o órgão central de sensação e do pensamento. Mas esta aproximação com a realidade foi destruída pelo pensamento aristotélico. Aristóteles continuava defendendo que o órgão das ideias e as sensações era o coração e que o cérebro seria apenas um “radiador” destinado ao resfriamento. E como sabemos o pensamento aristotélico, tão anticientífico, dominou a civilização ocidental até o século 16, quando Galileu apontou uma luneta aos céus e comprovou que apenas com a intuição jamais conseguiríamos entender a complexidade do universo. Para isso precisávamos da ciência. E sobre a existência de uma alma imortal que sobreviva à morte do corpo físico, a ciência tem sido nada reconfortante. 




Alcmaeon (ano 450 AEC), médico da Grécia antiga (Magna Grécia, atual península itálica), é o primeiro a usar dissecação anatômica em animais para fundamentar suas teorias. Ele conclui a partir dos seus estudos que é o cérebro, e não o coração, o órgão central de sensação e do pensamento. Esta ideia contradiz frontalmente o conceito aceito nesse período segundo o qual era o coração o real local da inteligência. Alcmaeon também sugere que os nervos ópticos são vias de luz em direção ao cérebro e que o próprio olho produz luz. Fonte History of the brain


Por isso quando uma notícia como a que pipocou estes dias nos meios de comunicação com manchetes do tipo “Cientistas pesquisam existência da alma”, ou ainda uma mais chamativa: “Cientista encontra prova científica da existência da alma” ela gera uma forte expectativa e merece ao menos uma clicada esperançosa. 




Aristóteles (ano 335 AEC) afirma que o órgão das ideias e as sensações é o coração e que o cérebro é apenas um “radiador” destinado ao resfriamento. Ele esclarece, entretanto, que o “órgão” das ideias não é o mesmo que a “base” das ideias, a qual ele chama de alma racional, imaterial, e que não pode ser encontrada em nenhuma parte do corpo. Apesar dos erros e percepções equivocadas, as teorias aristotélicas sobre a memória foram mais acertadas. Ele corretamente afirmou que o processo envolvido na memória de curta duração é diferente do envolvido na memória de longa duração. Fonte History of the brain


Mas não há nada de novo nessa notícia. As teorias de Stuart Hamerroff e do físico britânico Sir Roger Penrose, segundo as quais a alma estaria localizada em estruturas dos neurônios denominadas microtúbulos, é da década dos 90 e recebeu da comunidade científica pouquíssima atenção devido à sua falta de evidências, mesmo que esta falta de evidências esteja revestida de palavreado quântico.

É isso aí. Muita manchete, pouco conteúdo. Quem preferir acreditar em sua alma imortal pode continuar acreditando. Se nenhum cientista conseguiu provar sua existência, tampouco conseguirá provar sua inexistência (e claro, o mesmo se aplica a qualquer entidade sobrenatural, desde a fada do dente aos espíritos da floresta).




sábado, 10 de dezembro de 2011

O corpo ficou pequeno

Não é apenas o grande negócio do futebol quem aguarda com expectativa o início da próxima copa do mundo. A comunidade científica também.

Se as coisas correrem como o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis prevê, o pontapé inicial será dado por dois adolescentes tetraplégicos vestindo um exoesqueleto, uma veste robótica controlada por seus próprios pensamentos. O projeto é para lá de ambicioso, mas Nicolelis e outros cientistas já percorreram um bom caminho numa linha de investigação que mais se assemelha a uma história de ficção científica: liberar o cérebro (e a mente que ele produz) das barreiras do nosso corpo carnal. Nessa mesma linha, mas com uma abordagem diferente, pesquisadores já tinham produzido “experiências fora do corpo” (EFCs) em laboratório, estimulando áreas específicas do córtex cerebral.

A ideia, por trás disso tudo, é que nosso corpo, embora seja uma construção evolutiva extraordinária, muitas vezes nos falha. Traumatismos e doenças podem mutilá-lo ou diminuir drasticamente sua capacidade. Envelhece inexoravelmente e bem mais rápido que o que nosso cérebro desejaria. Não nos permite estar em dois lugares ao mesmo tempo, e para transportá-lo gastamos tempo, energia e dinheiro. Não é assim tão rápido nem tão forte quanto algumas vezes desejaríamos que fosse. Mas por enquanto ele á a melhor interface mediante a qual nosso cérebro interage com o meio externo. E mais, pelo que descobrimos até agora, nossa atividade mental - pensamentos, sentimentos, percepções, lembranças, emoções, desejos, etc.-, tal como a conhecemos só é possível com uma constante interação cérebro-corpo.

Mas seja para aliviar o sofrimento daqueles que têm uma mente enclausurada em um corpo que não mais responde, seja para ampliar as fronteiras do conhecimento, grupos de pesquisadores decidiram que já está mais do que na hora desse limite ser desafiado.

Como nossa consciência pode abandonar o corpo físico e realizar esses fenômenos? Como ela movimenta um braço mecânico? Como produz uma EFC? Não estaria a ciência comprovando a existência de uma alma ou espírito imaterial? A volta do velho dualismo cartesiano? Não. Não há nada de sobrenatural nestas tentativas. Vejamos, por exemplo, a abordagem de Nicolelis.

Quando acidentalmente perdemos um membro ou, o que costuma ser pior, quando ocorre uma lesão na medula espinal que deixa o paciente para ou tetraplégico, a ordem que parte do cérebro para movimentar o corpo não atinge o alvo, seja porque o alvo não mais existe como no caso da amputação, seja porque os fios (nervos) que conectam o cérebro aos músculos foram seccionados (lesão medular). Mas a ordem para movimentar o braço ainda está sendo emitida por uma parte específica do córtex cerebral. A ideia então é captar esse estímulo (um potencial elétrico da ordem de milivolts), amplificá-lo e transformá-lo numa corrente elétrica capaz de movimentar uma peça mecânica. Esta peça pode estar acoplada a um exoesqueleto que envolve o corpo do paciente, mas pode estar a milhares de quilômetros de distância. 



A ideia em si é simples, porém os detalhes na sua execução e a quantidade de desafios biológicos e técnicos que devem ser enfrentados são tantos que, comparativamente, o resultado final da copa do mundo é algo absolutamente insignificante. 

Movimentar esse exoesqueleto é, entretanto, apenas parte do desafio. Quando seccionamos a medula ou amputamos um braço não apenas os nervos que levam ordens desde o cérebro para os músculos são seccionados. Os que levam sensações desde a pele para o cérebro também. Assim, a única forma de o paciente sentir o braço robótico como seu é conseguindo que a sensação de toque e movimento do membro artificial chegue ao cérebro como antes acontecia com o membro natural. Recuperar esta segunda via é bem mais complicado, mas o grupo de Nicolelis já conseguiu resultados promissores em macacos.

Sobre as EFCs já comentamos anteriormente. Desde 2006 o grupo liderado pelo pesquisador Olaf Blanke – entre outros – vem idealizando formas de provocar a projeção do “eu” ou “self” além dos limites do corpo físico. Inicialmente isto foi conseguido estimulando uma região cerebral, o giro angular, responsável pela formação de nossa imagem corporal. Posteriormente criando uma dissociação entre a informação visual e a informação tátil de partes específicas do corpo, utilizando realidade virtual. Mediante esses truques tecnológicos o cérebro é “enganado” e forma nossa imagem corporal fora do nosso corpo real. Para os pesquisadores, o próximo passo é incorporar o “self projetado” em avatares localizados em ambientes virtuais. Um ambiente onde os limites de tempo e espaço não existem. 


Se tudo isto for conseguido, em breve teremos que rever os conceitos que definem o que somos e o que nos torna humanos. Enquanto isso, vamos torcer para que Miguel Nicolelis e sua equipe tenham êxito. Milhares de pacientes aguardam com esperança.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Experiências fora do corpo

As chamadas “experiências fora do corpo” (EFCs) vêm intrigando a humanidade há séculos. EFCs podem ser definidas como experiências subjetivas nas quais uma pessoa aparentemente consciente vê seu corpo e o ambiente desde uma posição afastada do seu corpo físico, como se estivesse flutuando. Uma experiência semelhante é a autoscopia, onde sem “sair” do nosso corpo, vemos uma projeção dele separada do corpo real. Essas experiências costumam ser descritas por indivíduos atravessando situações traumáticas como acidentes de carro ou durante cirurgias, mas foram também relatadas durante acidentes vasculares cerebrais, epilepsia, uso de drogas, paralisia do sono, entre outras.

Desde o ponto de vista místico/religioso a explicação é simples. Nosso espírito, uma entidade independente do corpo físico, nessas ocasiões simplesmente se separa, ou desencarna parcialmente, ou ocorre uma “projeção astral”, etc.

Já para a ciência, que não tem nenhuma evidência que justifique a existência de espírito, alma, ou consciência independente do cérebro, as EFCs são uma ótima oportunidade para fazer perguntas e entender um pouco mais sobre o funcionamento cerebral. Além do mais, EFCs podem fazer parte de doenças neurológicas e psiquiátricas, o que torna uma necessidade entender por que o cérebro cria esses estados.

Recentemente, pesquisadores europeus conseguiram o que parecia ser coisa de ficção científica, reproduzir EFCs em laboratório.

No início, isto ocorreu quase acidentalmente quando um grupo de neurocirurgiões tentava localizar focos epilépticos no cérebro de uma das pacientes. Para isto, estimulavam eletricamente áreas específicas do córtex cerebral. Estimulando uma região chamada giro angular
, um dos pesquisadores observou que sua paciente movia a cabeça para a direita. Intrigado, perguntou por que fazia isso e ela respondeu que tinha a estranha impressão que outra pessoa estava deitada embaixo dela. Essa pessoa não se mexia, nem falava, parecia ser um jovem que queria lhe impedir alguma coisa. Mudando a posição da paciente (agora sentada segurando seus joelhos) e estimulando novamente o giro angular, esta sentia a presença desagradável dessa imagem também sentada atrás dela, segurando-a. Quando tentou ler uma carta, a sombria figura tentava arrebatá-la das suas mãos, “Ele não quer que eu leia”, explicava a paciente ao médico.


Pelo fato da presença imitar a postura e posição da paciente, o pesquisador concluiu que o estímulo elétrico artificial se somava ao estímulo vindo dos olhos, articulações, etc., formando duas imagens do corpo, uma criada pela estimulação normal dos nossos sentidos no giro angular, e outra criada pela estimulação artificial na mesma região cerebral. Mas por algum motivo, a jovem não conseguia perceber que essa segunda imagem era um dublê do seu próprio corpo.


Já outra paciente ao ser estimulada na mesma região cerebral comentou alarmada “Estou no teto. Estou olhando minhas pernas penduradas lá embaixo. Que está acontecendo?”. A cada novo estímulo, a jovem começava a flutuar.

Os cientistas perceberam então que estavam estimulando uma área cerebral responsável pela formação de nossa imagem corporal. Para formá-la, essa região recebe informações sobre nosso corpo que chegam a partir dos órgãos dos sentidos. A imagem que vêem nossos olhos, a informação que vem do toque das nossas mãos, do cheiro, informações sobre nossa posição e movimentos captadas por músculos e articulações. Tudo de forma sincronizada. Quando tudo funciona bem temos a imagem normal do nosso corpo. Mas quando nosso cérebro recebe informações desencontradas, como no caso da estimulação elétrica artificial, se confunde.


Em lilás, o giro angular, uma das regiões do cérebro
 responsáveis pela formação da imagem do nosso corpo.



Em virtude desses resultados, os pesquisadores começam a acreditar que os relatos de EFCs obedeçam à estimulação anômala nesta área cerebral (giro angular). Isto poderia ocorrer devido a traumatismos e hemorragias (como decorrência de acidentes de carro), sob a ação de drogas que afetem o cérebro (anestésicos, entorpecentes, etc.), ao despertar (quando nosso cérebro recomeça a atividade), etc.

Como conseqüência destes novos descobrimentos os pesquisadores, mediante técnicas de realidade virtual, estão conseguindo agora projetar o “eu” de voluntários sadios em imagens virtuais dos seus próprios corpos. As implicações destes experimentos são inimagináveis. É possível que em breve possamos entrar realmente em personagens virtuais, como as que “vivem” no jogo Second Life. Sentir em nosso corpo real o que acontece a esses personagens no computador. Mas também, pelo mesmo princípio, um cirurgião poderá se projetar em sua imagem virtual localizada em outro hospital, em outro continente.

Assim, e bem ante do que se pensava, a neurociência começa a dar passos desconcertantes em direção a um dos grandes mistérios da humanidade: nossa consciência.

Fonte: 
Arzy, S., Seeck, M., Ortigue, S., Spinelli, L., Blanke, O., 2006. Induction of an illusory shadow person: Stimulation of a site on the brain's left hemisphere prompts the creepy feeling that somebody is close byNature, 443(21), pp.287.