Lembro também que vinte anos atrás, quando tinha que consultar alguma coisa para uma pesquisa científica, não havia muita escapatória. A fonte de toda a informação estava localizada na velha biblioteca da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde fazia minha pós-graduação. “Onde” localizar a informação não era problema. O relevante era a informação em si.
Mas agora as coisas não são mais assim.
Atravessamos uma mudança tecnológica que está afetando nossas habilidades cognitivas de uma forma que ainda não conseguimos avaliar. A internet está mudando nosso cérebro. Provavelmente a partir de uma região bastante específica.
Ao longo de milhões de anos de evolução os vertebrados desenvolvemos uma estrutura cerebral importantíssima: o hipocampo. O nome vem do fato dos antigos anatomistas acharem que nos humanos essa estrutura lembra a forma de um cavalo marinho (hippocampus, lembra mesmo).
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À esquerda um hipocampo humano dissecado; à direita um cavalo marinho (hippocampus, um peixe pertencente à família Syngnathidae) |
Há livros e livros (melhor, bites e bites) dedicados a essa estrutura. Não vou me estender muito aqui. O importante é que uma das suas funções básicas está relacionada com a consolidação de memória. Resumindo, o hipocampo ajuda a consolidar informações fazendo com que estas passem a fazer parte da nossa memória de longa duração. Ele é uma das primeiras estruturas a ser atingida no mal de Alzheimer (daí os primeiros déficits cognitivos dessa doença estarem relacionados com a memória). Quando danificado (por causa de cirurgias, AVEs, etc.), o paciente perde a capacidade de estabelecer novas memórias (amnésia anterógrada).
Durante milhões de anos nossa única fonte de informação era aquilo que estava armazenado em nossos cérebros -graças à ação do hipocampo- e que era transmitido de geração em geração e de boca em boca. Tempos da tradição oral. A quantidade de informação passível de ser transmitida era limitada mas dava conta de nos salvar do ambiente hostil em que vivíamos. Sobreviver já estava bom demais.
Com o surgimento da escrita (provavelmente uns 4.000 anos AEC), boa parte da informação passou a ser registrada materialmente, o que ampliou enormemente a capacidade de transmitir informação. A popularização da leitura graças à invenção da imprensa no século 15 fez com certeza os humanos mais inteligentes. Hoje sabemos que a leitura tem um efeito de enriquecimento cognitivo real, o que significa que, bem provavelmente, nos últimos séculos a leitura modificou nossa arquitetura cerebral.
Hoje também sabemos que, em termos cognitivos, se o que lemos é muito importante, como lemos parecer ser tão importante quanto. E aí as coisas mudaram. Um estudo recente mostra que em virtude da enorme quantidade de informação disponível na internet, os leitores ficam pulando entre uma informação e outra, via hiperlinks, sem se aprofundar muito em nenhuma delas. Os pesquisadores definem esse tipo de leitura como horizontal (pouco reflexiva), que estaria substituindo a leitura profunda e detalhada (vertical).
Mas a maior mudança atinge diretamente o hipocampo. Hoje, toda a informação relevante não precisa ser armazenada no cérebro. Ela está disponível em um simples clique, e de uma forma mais rápida, completa e eficiente que o estaria se dependêssemos de nosso cérebro para acessá-la. Aí surge a grande interrogante. Se substituímos parcialmente o hipocampo pelo Google, que acontecerá com nosso cérebro? Ante a falta de dados conclusivos, os pesquisadores se dividem. Os pessimistas simplesmente acham que ficaremos cada vez menos inteligentes. Para eles, o funcionamento do hipocampo, do jeito que ele foi programado por milhões de anos de evolução, não apenas é importante para fazer a memória funcionar, mas também para outros processos cognitivos associados.
Mas têm também os otimistas (ou pelo menos, menos pessimistas; ver aqui). Estes acham que as redes hipocampais que não forem usadas em processos mnemônicos poderão ser utilizadas para outras funções cognitivas, graças à plasticidade cerebral. Quem sabe seremos menos hábeis para memorizar (como já ficamos menos hábeis para outras funções, como o olfato), mas podemos desenvolver nossa capacidade de fazer associações, aumentar a velocidade de cálculo...
Fora as especulações um fato parece evidente, embora seja extremamente positivo que tenhamos toda essa informação em nossas mãos, sem um cérebro treinado para o pensamento crítico não seremos capazes de transformar essa informação em conhecimento. E é justamente isso o que diferencia a "Era da Informação" com as ainda longínquas (principalmente por estas terras, o PISA que o diga) Sociedades do Conhecimento.
Com o surgimento da escrita (provavelmente uns 4.000 anos AEC), boa parte da informação passou a ser registrada materialmente, o que ampliou enormemente a capacidade de transmitir informação. A popularização da leitura graças à invenção da imprensa no século 15 fez com certeza os humanos mais inteligentes. Hoje sabemos que a leitura tem um efeito de enriquecimento cognitivo real, o que significa que, bem provavelmente, nos últimos séculos a leitura modificou nossa arquitetura cerebral.
Hoje também sabemos que, em termos cognitivos, se o que lemos é muito importante, como lemos parecer ser tão importante quanto. E aí as coisas mudaram. Um estudo recente mostra que em virtude da enorme quantidade de informação disponível na internet, os leitores ficam pulando entre uma informação e outra, via hiperlinks, sem se aprofundar muito em nenhuma delas. Os pesquisadores definem esse tipo de leitura como horizontal (pouco reflexiva), que estaria substituindo a leitura profunda e detalhada (vertical).
Mas a maior mudança atinge diretamente o hipocampo. Hoje, toda a informação relevante não precisa ser armazenada no cérebro. Ela está disponível em um simples clique, e de uma forma mais rápida, completa e eficiente que o estaria se dependêssemos de nosso cérebro para acessá-la. Aí surge a grande interrogante. Se substituímos parcialmente o hipocampo pelo Google, que acontecerá com nosso cérebro? Ante a falta de dados conclusivos, os pesquisadores se dividem. Os pessimistas simplesmente acham que ficaremos cada vez menos inteligentes. Para eles, o funcionamento do hipocampo, do jeito que ele foi programado por milhões de anos de evolução, não apenas é importante para fazer a memória funcionar, mas também para outros processos cognitivos associados.
Mas têm também os otimistas (ou pelo menos, menos pessimistas; ver aqui). Estes acham que as redes hipocampais que não forem usadas em processos mnemônicos poderão ser utilizadas para outras funções cognitivas, graças à plasticidade cerebral. Quem sabe seremos menos hábeis para memorizar (como já ficamos menos hábeis para outras funções, como o olfato), mas podemos desenvolver nossa capacidade de fazer associações, aumentar a velocidade de cálculo...
Fora as especulações um fato parece evidente, embora seja extremamente positivo que tenhamos toda essa informação em nossas mãos, sem um cérebro treinado para o pensamento crítico não seremos capazes de transformar essa informação em conhecimento. E é justamente isso o que diferencia a "Era da Informação" com as ainda longínquas (principalmente por estas terras, o PISA que o diga) Sociedades do Conhecimento.
Boa noite! Apesar de ser advogada, acho muito interessante a área das ciências e achar recentemente este blog tem sido uma experiência ótima. Falar que sou advogada logo de início tem um propósito específico: não tenho profundo conhecimento sobre o tema, então posso cometer alguns "deslizes" no comentário de maneira não proposital.
ResponderExcluirJá havia pensado há alguns anos sobre a influência da internet no aprendizado em geral, por atualmente ser muito mais fácil fazer pesquisas e até a troca de material entre os alunos é facilitada (ainda me formei na época em que metade da bolsa de estágio ia para a xerox e cadernos e canetas eram utilizados por praticamente todos). Percebi que, no período da faculdade (sem smartphone e com caderno) a facilidade de concentração era muito maior que hoje em dia, na pós graduação, com smartphone e computador para anotações.
O curioso é que, ao começar a monografia na pós, uma das professoras da equipe de orientação (sim, tem pedagogos e professores especialistas na matéria atuando juntos, não sei se isso é comum nas outras áreas - no Direito não é) recomendou veementemente que eu parasse de usar o laptop para anotar as aulas e voltasse para os velhos caderno e caneta. As palavras usadas para explicar foram mais ou menos essas: "No computador, o que se anota fica na memória do computador, não na sua". E ela falou de pesquisas que já haviam sido feitas que comprovariam isso (não tenho as fontes, infelizmente).
Resultado: minhas notas e a capacidade de concentração em sala realmente melhoraram. Não sei se por influência do que foi dito ou por realmente ser verdade a tal teoria, que de certa forma coaduna com o que foi dito neste post e achei uma informação interessante, pelo menos.
Desculpa pelo texto longo, mas espero ter colaborado com alguma coisa. Abraço!
Tem um ditado popular, conhecido em todo o mundo, que versa assim: “a oportunidade faz o ladrão”. Lamentavelmente muita gente pensa que este ditado é verdadeiro, demonstrando falta de compreensão ou falta de dignidade. A frase certa a ser dita seria: “a oportunidade mostra o ladrão”, porque aquele que não tem intenção de roubar, não rouba, por mais oportunidade que tiver, alias, nem passaria pela cabeça a idéia de ser uma oportunidade. Desta forma a internet nos dá a oportunidade de termos informação rápida e uma visão mais ampla das idéias que rodam o mundo, deixando-nos no que poderia ser uma consciência coletiva humana mundial. Da mesma forma que o livro foi uma revolução para o conhecimento humano, a internet é uma revolução. O problema em si é como usamos isso. Normalmente as pessoas que dizem que “não gostam de ler”, utilizam a internet de uma forma diferente de aquele que tem o hábito de pesquisar. Então a idéia é que a internet deixa o ignorante, ignorante?. As pessoas que não gostam de ler, pelo menos praticam a leitura, e alguma delas termina habituando-se. Alem disso, as pessoas que não gostam de ler, tem oportunidade de saber de mais coisas entrando online. A tecnologia não é problema, o problema está em como usá-la. Mudar de um papel e um lápis para um “bloco de notas” no telefone, não incapacita a mente. Podemos perder alguma capacidade de movimentar as mãos para desenhar letras, mas é parte do avanço tecnológico. Da mesma forma a calculadora, que terminou tirando nossa capacidade de fazer cálculos mentais, mas acelerou geometricamente a tecnologia e com isto o bem estar. Quando surgiu o livro, nos tirou a necessidade de experimentar para saber?. Todos nos experimentamos o que é uma viagem espacial graças à tecnologia e a nossa capacidade de interpretação. Se uma pessoa que não usa a inteligência, pode ficar mais estúpida perante a internet, não quer dizer que esta tecnologia seja ruim. Aquele que não sabe usar um martelo se machuca. Para aquele que tem avidez cultural, a internet e a tecnologia são uma grande oportunidade. Alem de ser ecologicamente correto.
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