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Imagem da “face de Marte” fotografada em 1976 pela sonda Viking 1. |
De acordo com o fabricante os efeitos terapêuticos das pulseiras estariam relacionados com o fato delas conterem embutidos “dois hologramas quânticos de Mylar programados com frequências que interagem naturalmente com o campo eletromagnético do corpo humano”.
O episódio serve para refletir sobre uma característica que nos acompanha desde sempre: por que tendemos a acreditar em todo tipo de bizarrice sobrenatural?
Por um lado, claro, tem o efeito do marketing. Ver personalidades que admiramos usando determinados produtos tem um apelo comercial óbvio.
Falta de conhecimento? Bom, em parte sim. Conhecimentos básicos de física e biologia (que hoje estão ao alcance de um clique na Internet) nos levariam a suspeitar que isso de “hologramas quânticos” é uma balela, e que a própria mecânica quântica não pode ser usada para justificar efeitos biológicos já que as leis do universo quântico não interferem diretamente em nosso dia a dia.
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Por que pagar mais de R$ 100,00 pelas originais? Estas vendidas na Austrália (e feitas provavelmente na China), têm tudo o que as outras têm, e um charmoso aviso: Placebo (e custam apenas US$2,00!!) |
Mas isso de acreditar em bizarrices parece estar ainda mais arraigado.
Acho até que sou um exemplo desse nonsense relacionado com a fé. Mesmo sendo uma pessoa cética (como li em algum lugar, sou cético não porque não quero acreditar, e sim porque quero entender), toda vez que um pensamento negativo ou trágico atravessa minha mente tenho a compulsão de procurar algum objeto de madeira e dar um toc-toc-toc. Claro que sei que isso é uma bobagem, mas quando não consigo cumprir esse ritual sinto uma emoção negativa. E emoção, como quase tudo, é algo que meu cérebro cria.
De onde vem isso? Nesta coluna já falamos de um fenômeno cognitivo básico, a padronicidade (ou apofenia). É a capacidade do nosso cérebro de encontrar padrões mesmo quando eles não existem. A famosa “face de Marte” é um exemplo bem ilustrativo. Nosso cérebro cria uma face a partir de um par de elevações no solo marciano. A associação que fazemos é quase automática. Muitos veem Jesus ou a mãe dele em torradas, janelas, etc. Somos bons e rápidos fazendo essas associações, mas desfazê-las quando elas se provam incorretas é um processo que exige o uso de outras capacidades cognitivas como o pensamento crítico, que não são automáticas.
O porquê disto? Bom, já mencionamos uma possível explicação ao falar sobre a fé religiosa.
Imaginemos um homem pré-histórico perambulando pelas savanas africanas. De repente ouve um barulho na vegetação próxima. Será o vento ou um perigoso predador à espreita? Se for o vento mas ele associa o barulho ao predador imaginário (para os psicólogos cognitivistas, erro tipo um), fugirá correndo. Cometerá um erro, mas este não será fatal. Mas se não fizer a associação e for de fato um predador (erro tipo dois), poderá servir de refeição e assim seus genes não serão passados para as futuras gerações. Desta forma a própria seleção natural poderia fazer que pessoas propensas ao erro do tipo um fossem selecionadas em detrimento das outras. Com o tempo, para as seguintes gerações o comportamento de associar coisas naturais a causas imaginárias e potencialmente ameaçadoras (sobrenaturais ou não) pode ter se tornado comum.
Sim, nosso cérebro vem preparado de fábrica para acreditar. Não a toa mais de 80% da população mundial acredita nas mais diversas divindades (e pulseiras mágicas, amuletos, florais, bruxinhas boas e más...). Se nos primeiros anos da nossa formação os adultos que temos como referência reforçam essa característica, o que a educação religiosa faz de forma muito eficiente, resulta cada vez mais difícil desfazer associações incorretas.
A face de Marte ou a virgem na janela permitem descrever outro fenômeno cognitivo, a agenticidade: a tendência de acreditar que o mundo é controlado por forças invisíveis e intencionais. Não apenas vemos uma face em Marte, tendemos a acreditar que foi construída por uma civilização desconhecida com o objetivo de nos passar uma mensagem. Alguns “elegidos” entendem essa mensagem e se transformam em gurus ou sacerdotes da verdade revelada (hummm..., onde já vi isso?).
Finalmente, embora ainda sinta a compulsão de bater na madeira, há uma distância enorme entre essa pressão cerebral e acreditar que isso realmente funcione. Associar vem primeiro, e talvez não possamos evitar, mas racionalizar tem que vir depois.
Nosso cérebro já permite fazer as duas coisas.
Fonte:
Why People Believe Invisible Agents Control the World? Michael Shermer , Scientific American, May 19, 2009.
Patternicity: Finding Meaningful Patterns in Meaningless Noise. Michael Shermer , Scientific American, November 25, 2008 | 74
Imaginemos um homem pré-histórico perambulando pelas savanas africanas. De repente ouve um barulho na vegetação próxima. Será o vento ou um perigoso predador à espreita? Se for o vento mas ele associa o barulho ao predador imaginário (para os psicólogos cognitivistas, erro tipo um), fugirá correndo. Cometerá um erro, mas este não será fatal. Mas se não fizer a associação e for de fato um predador (erro tipo dois), poderá servir de refeição e assim seus genes não serão passados para as futuras gerações. Desta forma a própria seleção natural poderia fazer que pessoas propensas ao erro do tipo um fossem selecionadas em detrimento das outras. Com o tempo, para as seguintes gerações o comportamento de associar coisas naturais a causas imaginárias e potencialmente ameaçadoras (sobrenaturais ou não) pode ter se tornado comum.
Sim, nosso cérebro vem preparado de fábrica para acreditar. Não a toa mais de 80% da população mundial acredita nas mais diversas divindades (e pulseiras mágicas, amuletos, florais, bruxinhas boas e más...). Se nos primeiros anos da nossa formação os adultos que temos como referência reforçam essa característica, o que a educação religiosa faz de forma muito eficiente, resulta cada vez mais difícil desfazer associações incorretas.
A face de Marte ou a virgem na janela permitem descrever outro fenômeno cognitivo, a agenticidade: a tendência de acreditar que o mundo é controlado por forças invisíveis e intencionais. Não apenas vemos uma face em Marte, tendemos a acreditar que foi construída por uma civilização desconhecida com o objetivo de nos passar uma mensagem. Alguns “elegidos” entendem essa mensagem e se transformam em gurus ou sacerdotes da verdade revelada (hummm..., onde já vi isso?).
Finalmente, embora ainda sinta a compulsão de bater na madeira, há uma distância enorme entre essa pressão cerebral e acreditar que isso realmente funcione. Associar vem primeiro, e talvez não possamos evitar, mas racionalizar tem que vir depois.
Nosso cérebro já permite fazer as duas coisas.
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Imagens da “face de Marte”. A fotografia de 1976 foi tirada pela sonda Viking 1. A de 1988 pela sonda Mars Global Surveyor (MGS) com imagens da alta definição. A imagem de 2001 é uma reconstrução tridimensional realizada pela MGS utilizando técnicas ainda mais sofisticadas. As imagens pertencem ao site da NASA, e são de domínio público (http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/image_feature_60.html). |
Fonte:
Why People Believe Invisible Agents Control the World? Michael Shermer , Scientific American, May 19, 2009.
Patternicity: Finding Meaningful Patterns in Meaningless Noise. Michael Shermer , Scientific American, November 25, 2008 | 74