Embora a experiência individual de felicidade seja um fenômeno complexo, vários de seus componentes como o prazer, conforto, satisfação, amparo, realização, etc., são o resultado secundário da ação de quatro substâncias químicas que nosso cérebro produz: endorfinas, dopamina, ocitocina e serotonina. Sua produção e liberação em áreas cerebrais específicas é um processo extremamente preciso e complexo, fruto de milhões de anos de evolução. Ao nos dar prazer, elas nos motivam para empreender ações e comportamentos que são fundamentais para nossa sobrevivência e para a reprodução. Como prêmio de salvar nossa própria pele e espalhar nossos genes, o cérebro recompensa com emoções positivas e orgasmos.
Nossos momentos mais felizes coincidem quando o nível de um desses quatros neurotransmissores –ou mais de um deles- está em seu pico mais alto. Nosso cérebro capta então que esse nível está elevado, confere se a ação primária do neurotransmissor foi desempenhada e imediatamente começa a remover o excesso dessas substâncias (recaptação). Ao fazer isto, a sensação de felicidade desaparece.
O problema é que esta descida natural de nosso estado anímico não condiz com a imagem de felicidade eterna à qual acreditamos ter direito. A volta ao estado normal é então confundida com “in-felicidade”, que confundimos por sua vez com tristeza e finalmente a associamos –para alegria da indústria farmacêutica- a uma profunda depressão.
Obviamente, depressão tem pouco ou nada a ver com isso. Depressão é uma doença que só pode ser diagnosticada eficientemente por um psiquiatra, e dos bons. Os altos e baixos de nosso humor fazem parte de um processo natural de equilíbrio de neurotransmissores associado com os problemas normais do dia a dia.
Um exemplo típico deste processo é o da endorfina. Como o nome indica -morfina interna- sua função principal em todos os mamíferos é eliminar a dor e gerar um estado de euforia. Por causa dessas propriedades, ela é liberada em situações onde ficar paralisado por causa da dor pode ser a pior das soluções. Imaginemos estar em meio a uma briga feroz (podemos também imaginar o antílope lutando para escapar das garras do leão). Se a dor provocada por uma ferida nos paralisa é bem provável que nosso oponente aproveite esse momento para dar o golpe definitivo. É nessa hora que a endorfina entra em ação. Pela sua ação a dor é suprimida e ao mesmo tempo sentimos a força necessária para continuar a luta ou, se for o caso, fugir. Mas assim que estamos a salvo não faz mais sentido continuar com um cérebro encharcado de endorfina. Precisamos sentir a dor das feridas para dar a elas uma atenção prioritária. Claro que os efeitos eufóricos também acabam. Essa não é mesmo a hora de estar feliz.
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Nesta hora a gazela não pode parar para cuidar suas feridas. A endorfina inibe a dor e dá forças para continuar a corrida. |
Uma história parecida nos contam os outros neurotransmissores. Os níveis de dopamina, por exemplo, sobem e ativam nosso sistema de recompensa quando empreendemos ações que nos levam a saciar nossas necessidades básicas, como alimentação e sexo. Depois que foram atendidas seu nível decai. Caso contrário sentiríamos o bem-estar gerado pelo sistema de recompensa mesmo quando não fazemos nada para suprir nossas necessidades. Não teríamos a motivação necessária para iniciar tarefas relacionadas com nossa sobrevivência individual e da nossa espécie, o que seria um péssimo negócio (curiosamente, as drogas pesadas agem justamente nesse sistema cerebral de recompensa, substituindo nossos desejos naturais de nos alimentar, saciar nossa sede e procriar pelo único objetivo de consumir a droga).
Neste quarteto, a ação da ocitocina é fundamental para estabelecer laços de confiança e afeto duradouros. Durante a amamentação ocitocina é liberada no cérebro da mãe e do filhote, reforçando os laços familiares, o comportamento materno e gerando a agradável sensação de amparo. Também liberamos ocitocina ao receber uma massagem e durante o orgasmo o que cria laços entre parceiros sexuais. Quanto mais sofisticado o cérebro do mamífero, mais complexas são as alianças sociais. Um cérebro constantemente encharcado de ocitocina nos levaria a confiar e estabelecer laços afetivos com todos indistintamente. Pode parecer até bonito, mas nas duras condições de sobrevivência impostas em milhões de anos pela seleção natural, isto seria inviável.
A compreensão destes mecanismos nos permite lidar de forma mais tranquila com nossos estados anímicos. Analisar nossos sentimentos de fundo, reconhecer se existem causas reais quando eles são negativos, relacioná-los com processos químicos normais de nosso cérebro -processos que compartilhamos com todos os mamíferos-, pode ser um passo importante para iniciar novos comportamentos recompensadores. Mas cuidado com essa necessidade constante de colocar a toda hora novas e mais difíceis metas para provocar picos dopaminérgicos. Não force a barra. Muitas vezes a melhor coisa a fazer é, simplesmente, não fazer absolutamente nada.
A compreensão destes mecanismos nos permite lidar de forma mais tranquila com nossos estados anímicos. Analisar nossos sentimentos de fundo, reconhecer se existem causas reais quando eles são negativos, relacioná-los com processos químicos normais de nosso cérebro -processos que compartilhamos com todos os mamíferos-, pode ser um passo importante para iniciar novos comportamentos recompensadores. Mas cuidado com essa necessidade constante de colocar a toda hora novas e mais difíceis metas para provocar picos dopaminérgicos. Não force a barra. Muitas vezes a melhor coisa a fazer é, simplesmente, não fazer absolutamente nada.
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