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sábado, 10 de outubro de 2015

Anastomose cefalossomática

Se o nome parece complicado, o procedimento –se der certo- será uma verdadeira proeza. Trata-se nada mais nem nada menos que o utópico transplante de corpo (nome preferível a transplante de cabeça), que se depender do neurocirurgião italiano Sergio Canavero pulará dos livros de ficção científica para as páginas dos jornais em um dia qualquer de 2017.

O procedimento faz parte da velha tentativa de dar a um cérebro ainda funcional um corpo que lhe permita se comunicar com o mundo exterior quando este já não o consegue fazer. A ideia faz todo o sentido naqueles casos em que por doença ou acidente o corpo já não permite mais que o cérebro interaja com o meio externo. Porque de fato é isso que nosso corpo é, uma interface que o cérebro controla e mediante a qual ele pode interagir com o mundo. Quando não mais funciona ou quando o cérebro já não consegue controlá-la, a ideia seria substituí-la por uma interface artificial ou, como neste caso, por um novo corpo.

A cirurgia exige a cuidadosa decapitação do doador e do receptor. Na cabeça deste último –provavelmente trabalhando em baixas temperaturas par diminuir o metabolismo cerebral enquanto a oxigenação não é restabelecida- seria fixado o novo corpo. Se suturar vasos, traqueia, esófago, músculos e fixar as vértebras cervicais é algo que cirurgiões fazem rotineiramente, fazer com que a medula espinal de doador e receptor se comuniquem de forma a restabelecer o controle motor e a sensibilidade do corpo transplantado é, pelo menos para a enorme maioria da comunidade científica uma tarefa ainda irrealizável.

E é aí que surge o dilema ético. Seria correto submeter um paciente a um procedimento experimental dessa magnitude quando as chances de sucesso são tão pequenas? As tentativas anteriores, feitas em animais, se bem mostraram que o procedimento é viável não foram nada animadoras em termos de sobrevivência e de reestabelecimento do controle nervoso. Os experimentos pioneiros nessa área foram do russo Vladimir Demikhov na década de 1950. Demikhov ficou bastante conhecido na época ao implantar cirurgicamente uma segunda cabeça no corpo de cães. As duas cabeças compartilhavam assim o mesmo sangue e mostravam reações independentes uma da outra, chegando até brigar entre elas (eticamente reprováveis nos dias atuais, os trabalhos de Demikhov formaram a base da ciência dos transplantes e muito contribuíram com o transplante pioneiro de coração realizado por Christiaan Barnard na África do Sul em 1967, e com boa parte de nosso conhecimento sobre a importância de drogas imunossupressoras para evitar a rejeição de órgãos transplantados).

Voltando ao presente, impedido de tentar essa quase loucura no hospital de Turim (Itália) onde lecionava, Canavero acabou convencendo as autoridades da província e universidade chinesa de Harbin (The Harbin Institute of Technology), que lhe ofereceram toda a infraestrutura necessária. E não é pouca. Estima Canavero que o procedimento durará em torno de 36 a 72 horas, com a participação de 150 médicos dos quais uns 80 serão cirurgiões.

Já existe até um voluntário para esta primeira cirurgia, Valery Spiridonov, um artista gráfico da Rússia de 31 anos de idade, vítima de uma severa e incurável atrofia muscular (doença de Werdnig Hoffman) que o manteve em cadeira de rodas por quase toda sua vida.

Agora é só esperar. A história toda soa disparatada quando analisamos quão longe estamos de termos a capacidade técnica para realizar um procedimento desses com sucesso. Mas Canavero acha que não, os chineses querem ficar na história e Valery Spiridonov quer um corpo funcional. Quem sabe os ingredientes necessários para um passo espetacular na história da medicina, ou para um previsível desastre.

sábado, 12 de setembro de 2015

As experiências de quase (quase!!) morte.

As chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM) sempre despertaram uma curiosidade enorme. Não poderia ser diferente. A morte continua a ser para muitos o grande mistério. Por termos um cérebro que temos, fruto do processo evolutivo que nos tornou humanos, somos conscientes prematuramente da nossa finitude. Um peso enorme que devemos suportar lá desde nossa infância, quando começamos a perceber que a morte existe, que é real e que é para sempre. Existem poucas dúvidas que esse peso todo está na base de quase todas as religiões, que nos prometem a vida eterna em troca da obediência terrena.

Nesta coluna já tínhamos abordado o assunto (ver aqui e aqui). Nas EQM geralmente estamos ante um quadro onde a irrigação sanguínea do cérebro diminui. Isto leva a um lento desconectar de algumas redes neurais e a um lento reconectar quando a irrigação é restabelecida. Quase todos os fenômenos descritos nas EQM como lembranças, luzes, sentimentos de paz e harmonia, encontros com entes sobrenaturais e mesmo a estranha sensação de estar flutuando fora do corpo podem ser hoje explicados por esse rearranjo de redes neurais.

Mas há um detalhe que sempre chama a atenção. Alguns (poucos) que passaram por EQM relatam não apenas estarem flutuando, mas afirmam serem capazes de lembrar tudo o que viram desde essa posição, fato que, obviamente, só poderia ocorrer se a consciência se separasse completamente do cérebro e saísse flutuando até parar no teto, à espera de uma decisão volto/não volto.

Mas existiria forma de verificar isso nas condições objetivas que a ciência exige? Algo que fosse além de relatos subjetivos para os quais uma explicação biológica já resolve muito bem? Para um pesquisador, Sam Parnia, especialista em reanimação e ele mesmo defensor da ideia de uma consciência separada do corpo físico, a resposta foi sim.

Para isto em 2008 iniciou o projeto AWARE (AWAreness during REsuscitation, algo assim como consciência durante a ressuscitação). Basicamente, a ideia foi analisar o que acontece com pacientes com parada cardiorrespiratória (PCR), situação onde a irrigação do cérebro é suspensa por alguns minutos com a consequente perda de consciência. O estudo foi realizado em 15 hospitais do Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Dias (ou meses) depois da reanimação, os pacientes foram entrevistados em relação àquilo que lembravam sobre esses momentos.

Para tornar as coisas algo mais objetivas em cada hospital foram escondidas entre 50 e 100 fotografias com diversas imagens nas salas de reanimação, imagens que só poderiam ser vistas de cima para baixo, ou seja apenas se a consciência se separasse mesmo do paciente desfalecido. Assim, a hipótese dualista (mente e cérebro serem coisas separadas) seria corroborada se algum sobrevivente revelasse a imagem escondida.

Os resultados mostraram que dos 2060 pacientes utilizados neste estudo, apenas 330 sobreviveram à PCR. Destes, 140 tiveram saúde suficiente para passar às seguintes fases do estudo baseadas em entrevistas. Só 55 (39%) afirmaram ter algum tipo de lembrança desse período (61% dos entrevistados não lembravam de nada). Desses 55 a maioria afirma ter tido lembranças da família, animais, plantas e a famosa luz brilhante. 5% lembraram cenas do passado, 22% afirmaram terem sentido paz e plenitude e 9% sentimentos de alegria. 8% alegam ter encontrado um ser místico e 13% a sensação de separação do corpo. Até aqui, nada que não possa ser explicado por um cérebro confuso se reconfigurando após o trauma.

De acordo com o estudo, apenas 1 paciente revelou informações que –segundo o autor- puderam ser verificadas, informações sobre o que estava ocorrendo durante a reanimação. Por causa desse único paciente veio todo um alarde midiático com manchetes do tipo


-"Vida após a morte? Maior estudo realizado fornece evidências de que as experiências "fora do corpo" e "quase-morte" podem ser reais."

-“Descoberta científica sugere que há vida após a morte.

-“Investigação científica conclui que é possível vida após a morte.”

-“Cientistas britânicos confirmam que vida após a morte é real.


Confesso que após ler essas manchetes imaginei que algum dos pacientes tivesse descrito sem erro a imagem escondida, única evidência que justificaria tamanho alvoroço jornalístico. Mas nada, nenhuma informação sobre isso. Quando finalmente consegui ler o artigo original aconteceu o que já suspeitava, esse único paciente que segundo o autor fornecia informações objetivas que corroborariam uma consciência separada do corpo físico simplesmente não identificou nenhuma imagem escondida. No artigo o autor apenas comenta este fato, alegando que o fracasso pode ter ocorrido porque a maioria das reanimações ocorreram em salas que não tinham essas imagens escondidas.

Como foi ele – o autor- quem criou a metodologia, isso não serve de desculpa para mascarar os resultados. Seu estudo simplesmente não corroborou –como ele desejaria- a ideia de uma consciência separada do corpo físico e assim a hipótese alternativa de uma consciência fruto apenas do funcionamento cerebral acaba sendo reforçada. Essa deveria ser a conclusão do seu estudo e das manchetes dos jornais.

Por outra parte tentar provar cientificamente a existência de uma consciência, alma ou espírito separada do corpo físico não é ciência. Por quê? Simples, não há experimento que nos permita negar a hipótese. A consciência desencarnada –caso existisse- poderia não se comunicar por motivos que vão além da experimentação. É como provar a inexistência de deuses, de gnomos ou da fada do dente. Enfim, é apenas uma questão de fé.





Fontes:

-AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Sam Parnia e cols., Resuscitation 85 (2014) 1799–1805

-No, this study is not evidence for "life after death". Sharon Hill, http://web.randi.org/swift/no-this-study-is-not-evidence-for-life-after-death


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Detox funciona?

A ideia que devemos de alguma forma purificar nosso corpo não é nada nova. Entre os judeus ortodoxos, por exemplo, após o nascimento de um filho ou mesmo após a menstruação mulheres devem passar por um banho ritual de purificação (Mikveh). Rituais semelhantes são descritos em diversas culturas, praticados por xamãs ou outras figuras religiosas. Todos sabemos, claro, que esses rituais estão ligados ao misticismo, mas nada a ver com ciência.

Mas agora querem nos vender uma forma “científica” de purificação baseada na “desintoxicação”, ou apenas “detox” (não confundir com os procedimentos sérios de desintoxicação realizados, por exemplo, junto a usuários de drogas), a qual seria fundamental para eliminar as toxinas que vão se acumulando em nosso corpo, resultado de uma “alimentação pobre em vitaminas e rica em hormônios, agrotóxicos, aditivos alimentares, açúcar, gordura e uso abusivo de medicamentos (...) que comprometem o bom funcionamento do corpo”. Então, caso você sofra –como li num grande portal de notícias- de “cansaço excessivo, insônia, dificuldade de digestão, mau funcionamento do intestino, excesso se gases, retenção de líquido, falta de concentração, dores de cabeça e dificuldade para perder peso”, uma semana à base de chá de brócolis com limão (claro, acompanhado de uma dieta) ou uma boa lavagem intestinal detox, ou um banho em água detox, “vão deixar você como nova”.

Se alguém curtir suco de brócolis com limão ou mesmo outros mais exóticos, vá em frente. Provavelmente mal não deva fazer. O problema é que não existe nenhuma evidência científica indicando que essas dietas detox tenham a propriedade de desintoxicar coisa alguma. Qual a toxina que elas eliminam? Qual o processo bioquímico? Para entender por que isso não passa de enganação (para variar utilizando um palavreado muito sedutor), temos que ter uma ideia mínima da complexa bioquímica do nosso corpo –que hoje conhecemos bastante bem- e a função de órgãos especialmente capacitados para eliminar todas as toxinas que entram ou são produzidas pelo nosso organismo.

Resumidamente, para gerar a energia que nos mantém vivos nosso corpo deve absorver ou produzir substâncias essenciais como água, carboidratos, peptídeos, oxigênio, lipídeos, ácidos nucleicos e, em menor quantidade, vitaminas e sais minerais. Uma vez utilizados pelas células, esses compostos geram subprodutos metabólicos tóxicos que devem ser eliminados. Outras toxinas podem entrar em nosso organismo pelo que ingerimos ou respiramos. Achar que conseguiremos eliminar tudo isso tomando um suco detox ou terapias similares como “detox intestinal” é, como li por aí, o pináculo da charlatanice.

A bioquímica por trás desses processos de eliminação é para lá de complexa. Felizmente estamos equipados com órgãos que dão conta de todo o processo. Pulmões removem o CO2 resultante da respiração celular. Sem a remoção de CO2, o pH de nosso sangue baixa, o que leva a uma condição grave chamada acidose que se não tratada com urgência mata. Os rins também desempenham uma função importante ao eliminar ácidos do sangue e não há, claro, dieta detox que dê conta de uma insuficiência renal.

Mas entre os órgãos detox nada iguala nosso fígado. Como lemos nos livros de fisiologia, o fígado atua tanto como porteiro ao limitar a entrada de substâncias tóxicas na corrente sanguínea, e como lixeiro ao remover os produtos metabólicos potencialmente tóxicos. Ele é o primeiro órgão a receber tudo o que é absorvido pelos intestinos durante a digestão, tanto as coisas boas quanto as ruins (incluindo aqui os remédios que ingerimos). Antes de voltar para a corrente sanguínea, as células do fígado, os hepatócitos, fazem uma verdadeira triagem e mediante processos físicos e bioquímicos transformam elementos nocivos de forma que possam ser eliminados posteriormente através dos rins ou das fezes via bile.

Se tudo está funcionando bem, não precisamos de mais nada fora uma dieta saudável, exercício físico regular, fugir do cigarro, e outras boas práticas que estamos cansados de conhecer. Não há dieta de desintoxicação que possa fazer o que seu organismo sadio já faz ou deixa de fazer por causa de doença. Se um desses órgãos falhar, esqueça as dietas da moda e procure um bom médico. E antes de ser atraído por um desses sistemas naturais e mágicos de desintoxicação, lembre-se que a única limpeza que eles podem fazer de fato é no seu bolso.


É isso.

sábado, 11 de julho de 2015

Cérebro e maioridade penal


Na figura, imagens de ressonância magnética de um mesmo
 indivíduo realizadas aos 5, 8, 12, 16 e 20 anos. O nível de maturidade 
do córtex cerebral é expresso na escala de cores, do amarelo 
(menos maduro), ao violeta (mais maduro). Observar que o córtex pré-frontal 
(à esquerda no cérebro) é o último a madurecer. 
(Extraído de CRIME, CULPABILITY,  AND THE ADOLESCENT 
BRAIN, Beckman, M. Science 30 July 2004: Vol. 305)
Em meio a esse tiroteio todo sobre a maioridade penal, vez ou outra surge o argumento neurológico. Jovens não poderiam ser penalizados da mesma forma que adultos porque seus cérebros não estariam prontos para tomar as decisões corretas e suprimir os impulsos agressivos. Se a justiça já trata indivíduos com deficiências cognitivas de forma diferente (utilizando argumentos neurocientíficos) deveria fazer a mesma coisa com jovens. Quanto de verdade há nisso e quanto de mito?

A discussão não é nova, mesmo na neurociência, mas existem algumas evidências importantes que nos dão boas pistas. 

Hoje sabemos que algumas regiões do cérebro são parcialmente responsáveis por algo que os neurocientistas denominam “processo de tomada de decisão”, processo este que envolve a análise de risco e dano potencial. É essa capacidade cognitiva que nos permite avaliar antecipadamente as consequências das nossas eventuais ações. Algo assim como “se faço isto vai acontecer aquilo, e se acontecer aquilo então pode acontecer isso ou isto; agora, se faço isto outro pode acontecer isto ou isto...” e por aí vai. Como um bom jogador de xadrez o cérebro maduro permite antecipar alguns lances, o que depende muito da nossa inteligência e das nossas experiências de vida, das quais -muitas vezes de forma inconsciente- o cérebro lança mão para que sintamos antecipadamente o que sentiríamos se o pior acontecesse em virtude de uma decisão errada ou precipitada. Ou seja, antes de fazer sentimos como se tivéssemos já feito.

Cientistas já descobriram que a área cerebral mais diretamente envolvida em tudo isso é o córtex pré-frontal (CPf), uma região muito desenvolvida nos humanos localizada na parte mais anterior do cérebro. Esse conhecimento surge tanto de experimentos em animais como no estudo clínico e comportamental de humanos com lesões no CPf. Alguns pacientes com lesão nessa área têm poucas alterações comportamentais evidentes fora a incapacidade de processar normalmente informação com fundo emocional. Ao que parece se as emoções que uma situação provoca não são bem avaliadas pelo cérebro, a capacidade de tomar a melhor decisão diminui drasticamente. Resumindo, a decisão racional é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato (ver aqui e aqui casos clínicos de pacientes com lesão no CPf).

Paralelamente vários estudos confirmam que essa região, o CPf, é uma das últimas do cérebro a ficar pronta. Os processos de ajuste no número de neurônios, na forma como os neurônios estabelecem suas conexões para formar redes neurais (o que depende e muito do ambiente onde o jovem está inserido), e até o importante processo de mielinização (a formação de uma camada lipídica que envolve os prolongamentos neuronais e que aumenta a velocidade de comunicação entre essas células), terminam em idades que, dependendo do estudo, variam entre os 18 a 25 anos.

Mas na prática, isso resultaria no quê? Em que aos 16 anos pular de cabeça nas águas desconhecidas de um rio, experimentar cocaína ou pegar uma carona com um amigo bêbado podem ser decisões aceitáveis. O benefício imediato não seria suficientemente avaliado em relação ao dano potencial. Da mesma forma, ante uma ofensa a agressão física poderia ser a resposta imediata. E claro, se o jovem com esse cérebro em plena remodelação convive num ambiente onde o crime e a violência fazem parte do seu dia a dia, o cérebro resultante será condicionado por esse ambiente.

Mas de certa forma todos suspeitamos que isso é assim mesmo. Se aceitamos que um jovem não tem maturidade para participar de um júri, comprar ou consumir bebidas alcoólicas, casar sem autorização dos pais, assinar contratos ou até entrar no cinema, é porque aceitamos que sua capacidade de discernimento não é a mesma que a de um adulto.

Tudo isto, claro, não justifica de forma alguma que jovens delinquentes sejam “perdoados” porque não sabem o que fazem ou algo do gênero. Isso seria absurdo. Sociedades têm o direito e o dever de defender os indivíduos daqueles que apresentam comportamentos que ameaçam a vida e a segurança dos outros. A discussão é o que fazer com o jovem infrator. A experiência internacional mostra que uma parcela desses jovens –não todos- pode ser recuperada para o convívio social se utilizados os mecanismos educacionais adequados.

A solução que estamos adotando aqui no Brasil parece ser a menos inteligente. O menor infrator será colocado num dos piores sistemas prisionais, em companhia de adultos delinquentes, com garantia mínima de recuperação. Caso não morra em prisão, será provavelmente posto em liberdade no máximo em dez a quinze anos. Em outras palavras, prendemos um menor como se adulto fosse pela ameaça que ele representa, e o soltamos dez anos depois representando uma ameaça bem mais grave, já que praticamente eliminamos a chance de reabilitação social.

Às vezes temos que ter cuidado para que o natural e primário desejo de vingança e punição não nos impeça de tomar a medida mais racional. A evolução nos deu o mais desenvolvido CPf do reino animal, talvez o que nos torna humanos.


Façamos então bom uso dele.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homossexualidade é “não natural”?

Mesmo depois de dezenas e dezenas de artigos escritos no jornal e no blog sobre diversos assuntos, “Homossexualidade sob a lupa da ciência”, de 2012, continua a ser o mais lido e acessado. Pelos motivos certos ou errados o tema da homossexualidade não sai da pauta. Entre os motivos errados, a constante tentativa de negar direitos civis entre outras formas de discriminação.

Um dos argumentos mais utilizados para esta atitude seria que esta, a homossexualidade, é “não natural”. Deuses (ou a natureza) teriam criado macho e fêmea e baseado nisso os comportamentos “naturais” de corte, acasalamento e reprodução, que seriam a base do que li por aí como “valores irrefutáveis da família”. Se considerarmos que “natural” significa “que pertence ou se refere à natureza” ou “regido pelas leis da natureza; provocado pela natureza” (Dicionário Houaiss), o argumento é um completo equívoco.

Já foram identificadas mais de 1300 espécies animais com comportamentos homossexuais, e é certo que esse número é subestimado. Cientistas denominam comportamentos homossexuais em animais não humanos com a sigla SSB, do inglês “same-sex sexual behavior”, definido como “interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo que também ocorrem com indivíduos do sexo oposto com a finalidade de reprodução”. O termo SSB substitui nesses estudos denominações como “preferência” ou “orientação” sexual, que implica um desejo consciente que, por motivos óbvios, não pode ser comprovado em animais (não podemos saber o que um animal deseja, podemos apenas observar o que ele faz e a partir de aí fazer inferências).

SSB foi descrito cientificamente em animais de todos os níveis de complexidade e tamanho, incluindo vermes (nemátodos), moluscos, insetos, anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos, entre os quais nossos primos mais próximos, os bonobos, mas também golfinhos, felinos, morcegos e muitos outros. A duração do SSB na natureza é extremamente variável, podendo ser identificados casais homossexuais relativamente estáveis a comportamentos homossexuais esporádicos.

Pelas evidências disponíveis cientistas especulam que interações homossexuais poderiam permitir alianças estratégicas como ocorre entre algumas espécies de golfinhos, ou para facilitar a reconciliação após conflitos, como foi observado entre alguns primatas (Macaca fuscata). Também foram observadas em situações onde é necessário confirmar hierarquias (bisão-americano) ou diminuir o sucesso reprodutivo de competidores (moscas Hydromyza livens). A lista de utilidades ainda inclui o simples “treino” entre machos jovens para depois ter mais sucesso numa situação real ante uma fêmea (descrito em Drosophila) e, ainda, como forma de inseminação indireta, depositando o esperma em outros machos para que estes o depositem nas fêmeas posteriormente, comportamento descrito entre alguns tipos de besouros.

Biólogos ainda discutem o aparente paradoxo evolutivo da preferência homossexual em humanos ou do SSB nos outros animais. Por que os genes que levam ao SSB, mesmo diminuindo o potencial reprodutivo, permanecem na população? Apesar de paradoxal, não seria a primeira vez que nos resulta difícil conciliar certas características e comportamentos observados na natureza com o que sabemos sobre evolução darwiniana, fundamentalmente quando não conseguimos descobrir de forma imediata os benefícios de características que à primeira vista parecem muito pouco adaptativas. Este já foi o caso de comportamentos como a agressão, o altruísmo e mesmo a complexa e custosa ornamentação exibida por alguns animais.

Nos últimos anos, dezenas de estudos vêm abordando esta questão. Em relação aos animais não humanos, não há dúvida que a resposta está nos genes. Duas teorias, não necessariamente excludentes, tentam explicar a sobrevivência evolutiva de genes ligados ao SSB: a sobredominância e o antagonismo sexual.

Resumindo – e muito- na sobredominância o par de genes que seriam responsáveis pelo SSB (que denominaremos aqui genes H-H) confeririam esse comportamento apenas na condição homozigótica (quando os dois genes são idênticos). Mas se um dos genes for diferente (H-h, condição heterozigótica) não apenas o comportamento SSB poderia não se manifestar como outras caraterísticas com valor adaptativo poderiam surgir. Uma situação semelhante se observa na anemia falciforme, uma doença hereditária. Quando o indivíduo é homozigótico para os genes que provocam a doença esta se manifesta, mas na condição heterozigótica a doença pode não se manifestar e ainda a combinação genética oferecer resistência para outra doença, a malária, o que em regiões onde é endêmica representou uma vantagem adaptativa que permitiu assim a sobrevivência dos genes da anemia.

Já no antagonismo sexual, o par de genes que em um sexo pode gerar uma situação pouco adaptativa, pode apresentar uma situação adaptativa no outro. Isto foi observado num recente estudo utilizando a mosca da fruta (Drosophila melanogaster). Pesquisadores observaram que machos com uma carga genética relacionada com o SSB, que os colocaria em desvantagem na hora de reproduzir, quando o fazem geram fêmeas com maior capacidade reprodutiva, equilibrando assim a deficiência reprodutiva dos pais machos. 


Algo semelhante foi observado em humanos. Em um estudo com mais de 4900 gêmeos foi observado que indivíduos heterossexuais, quando eram irmãos gêmeos de indivíduos não heterossexuais (de acordo com os resultados de questionários psicológicos específicos) apresentavam um número maior de relacionamentos (heterossexuais) que no caso de gêmeos heterossexuais, o que parece indicar que carregar fatores genéticos que predisponham para a homossexualidade pode oferecer alguma vantagem reprodutiva nos heterossexuais, o que, finalmente, poderia explicar a sobrevivência evolutiva destes genes "H-H".

É isso, de “antinatural” a homossexualidade parece não ter nada. Seria legal se a informação científica conseguisse desarmar essa intolerância toda que permeia a discussão sobre os direitos civis, mas claro, não será o caso. Fundamentalismos não são permeáveis a este tipo de esclarecimento.

E para finalizar, é bom lembrar que se uma delicada propaganda de perfume tem o potencial de destruir os “valores irrefutáveis da família”, com certeza o problema não está na propaganda, não é mesmo?


Fontes:

-Hoskins JL, Ritchie MG, Bailey NW. 2015 A test of genetic models for the evolutionary maintenance of same-sex sexual behaviour. Proc. R. Soc. B 282: 20150429.
-Bailey, Nathan W. et al. Same-sex sexual behavior and evolution Trends in Ecology & Evolution , Volume 24 , Issue 8 , 439 - 446
-Brendan P. Zietsch et al. Genetic factors predisposing to homosexuality may increase mating success in heterosexuals. Evolution and Human Behavior 29 (2008) 424 – 433