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sábado, 14 de novembro de 2015

Crianças não religiosas são mais generosas

Dia 03/11, a notícia:


Pai se mata após filho de 4 anos morrer picado por escorpião

Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:

“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.” 

“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”


 “Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"


“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.” 


 “que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude” 


 “acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!” 


 “Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.” 


 “a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar” 


 “A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...” 


 “Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .” 


 “Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”



Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.

Mas como essa capacidade pode ser perdida? A partir de que momento da nossa vida? Comentários tão pouco empáticos como os colocados acima podem nos dar algumas pistas. É possível observar, por exemplo, que quase todos têm algo em comum. Deuses e religiões são a toda hora invocados. Pesquisadores que analisam o efeito do pensamento religioso sobre o comportamento de indivíduos e sociedades já tinham percebido que alguns indivíduos religiosos acreditam ter algo assim como uma “licença moral”. Nesta situação comportamentos egoístas que levam a atitudes intolerantes são liberados, algo do tipo, posso ser insensível já que estou falando em nome de Deus, e Deus deixou bem claro o que pode ou o que não pode. Matar em nome de deuses pode ser o exemplo extremo dessa licença, mas podemos encontrá-la em outras atitudes.

Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.

Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.

Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava. 


Segundo os autores...


“Nossos resultados demonstram de forma robusta que as crianças de famílias que se identificam com uma das duas principais religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo) são menos altruístas do que as crianças de famílias não religiosas. Além disso, a relação negativa entre religiosidade, espiritualidade e altruísmo muda com a idade, com aquelas crianças com maior convívio religioso em seus lares apresentando as maiores correlações negativas.”.

Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."

Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".

Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.

Fontes:

-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015


-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010



sábado, 10 de outubro de 2015

Anastomose cefalossomática

Se o nome parece complicado, o procedimento –se der certo- será uma verdadeira proeza. Trata-se nada mais nem nada menos que o utópico transplante de corpo (nome preferível a transplante de cabeça), que se depender do neurocirurgião italiano Sergio Canavero pulará dos livros de ficção científica para as páginas dos jornais em um dia qualquer de 2017.

O procedimento faz parte da velha tentativa de dar a um cérebro ainda funcional um corpo que lhe permita se comunicar com o mundo exterior quando este já não o consegue fazer. A ideia faz todo o sentido naqueles casos em que por doença ou acidente o corpo já não permite mais que o cérebro interaja com o meio externo. Porque de fato é isso que nosso corpo é, uma interface que o cérebro controla e mediante a qual ele pode interagir com o mundo. Quando não mais funciona ou quando o cérebro já não consegue controlá-la, a ideia seria substituí-la por uma interface artificial ou, como neste caso, por um novo corpo.

A cirurgia exige a cuidadosa decapitação do doador e do receptor. Na cabeça deste último –provavelmente trabalhando em baixas temperaturas par diminuir o metabolismo cerebral enquanto a oxigenação não é restabelecida- seria fixado o novo corpo. Se suturar vasos, traqueia, esófago, músculos e fixar as vértebras cervicais é algo que cirurgiões fazem rotineiramente, fazer com que a medula espinal de doador e receptor se comuniquem de forma a restabelecer o controle motor e a sensibilidade do corpo transplantado é, pelo menos para a enorme maioria da comunidade científica uma tarefa ainda irrealizável.

E é aí que surge o dilema ético. Seria correto submeter um paciente a um procedimento experimental dessa magnitude quando as chances de sucesso são tão pequenas? As tentativas anteriores, feitas em animais, se bem mostraram que o procedimento é viável não foram nada animadoras em termos de sobrevivência e de reestabelecimento do controle nervoso. Os experimentos pioneiros nessa área foram do russo Vladimir Demikhov na década de 1950. Demikhov ficou bastante conhecido na época ao implantar cirurgicamente uma segunda cabeça no corpo de cães. As duas cabeças compartilhavam assim o mesmo sangue e mostravam reações independentes uma da outra, chegando até brigar entre elas (eticamente reprováveis nos dias atuais, os trabalhos de Demikhov formaram a base da ciência dos transplantes e muito contribuíram com o transplante pioneiro de coração realizado por Christiaan Barnard na África do Sul em 1967, e com boa parte de nosso conhecimento sobre a importância de drogas imunossupressoras para evitar a rejeição de órgãos transplantados).

Voltando ao presente, impedido de tentar essa quase loucura no hospital de Turim (Itália) onde lecionava, Canavero acabou convencendo as autoridades da província e universidade chinesa de Harbin (The Harbin Institute of Technology), que lhe ofereceram toda a infraestrutura necessária. E não é pouca. Estima Canavero que o procedimento durará em torno de 36 a 72 horas, com a participação de 150 médicos dos quais uns 80 serão cirurgiões.

Já existe até um voluntário para esta primeira cirurgia, Valery Spiridonov, um artista gráfico da Rússia de 31 anos de idade, vítima de uma severa e incurável atrofia muscular (doença de Werdnig Hoffman) que o manteve em cadeira de rodas por quase toda sua vida.

Agora é só esperar. A história toda soa disparatada quando analisamos quão longe estamos de termos a capacidade técnica para realizar um procedimento desses com sucesso. Mas Canavero acha que não, os chineses querem ficar na história e Valery Spiridonov quer um corpo funcional. Quem sabe os ingredientes necessários para um passo espetacular na história da medicina, ou para um previsível desastre.

sábado, 12 de setembro de 2015

As experiências de quase (quase!!) morte.

As chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM) sempre despertaram uma curiosidade enorme. Não poderia ser diferente. A morte continua a ser para muitos o grande mistério. Por termos um cérebro que temos, fruto do processo evolutivo que nos tornou humanos, somos conscientes prematuramente da nossa finitude. Um peso enorme que devemos suportar lá desde nossa infância, quando começamos a perceber que a morte existe, que é real e que é para sempre. Existem poucas dúvidas que esse peso todo está na base de quase todas as religiões, que nos prometem a vida eterna em troca da obediência terrena.

Nesta coluna já tínhamos abordado o assunto (ver aqui e aqui). Nas EQM geralmente estamos ante um quadro onde a irrigação sanguínea do cérebro diminui. Isto leva a um lento desconectar de algumas redes neurais e a um lento reconectar quando a irrigação é restabelecida. Quase todos os fenômenos descritos nas EQM como lembranças, luzes, sentimentos de paz e harmonia, encontros com entes sobrenaturais e mesmo a estranha sensação de estar flutuando fora do corpo podem ser hoje explicados por esse rearranjo de redes neurais.

Mas há um detalhe que sempre chama a atenção. Alguns (poucos) que passaram por EQM relatam não apenas estarem flutuando, mas afirmam serem capazes de lembrar tudo o que viram desde essa posição, fato que, obviamente, só poderia ocorrer se a consciência se separasse completamente do cérebro e saísse flutuando até parar no teto, à espera de uma decisão volto/não volto.

Mas existiria forma de verificar isso nas condições objetivas que a ciência exige? Algo que fosse além de relatos subjetivos para os quais uma explicação biológica já resolve muito bem? Para um pesquisador, Sam Parnia, especialista em reanimação e ele mesmo defensor da ideia de uma consciência separada do corpo físico, a resposta foi sim.

Para isto em 2008 iniciou o projeto AWARE (AWAreness during REsuscitation, algo assim como consciência durante a ressuscitação). Basicamente, a ideia foi analisar o que acontece com pacientes com parada cardiorrespiratória (PCR), situação onde a irrigação do cérebro é suspensa por alguns minutos com a consequente perda de consciência. O estudo foi realizado em 15 hospitais do Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Dias (ou meses) depois da reanimação, os pacientes foram entrevistados em relação àquilo que lembravam sobre esses momentos.

Para tornar as coisas algo mais objetivas em cada hospital foram escondidas entre 50 e 100 fotografias com diversas imagens nas salas de reanimação, imagens que só poderiam ser vistas de cima para baixo, ou seja apenas se a consciência se separasse mesmo do paciente desfalecido. Assim, a hipótese dualista (mente e cérebro serem coisas separadas) seria corroborada se algum sobrevivente revelasse a imagem escondida.

Os resultados mostraram que dos 2060 pacientes utilizados neste estudo, apenas 330 sobreviveram à PCR. Destes, 140 tiveram saúde suficiente para passar às seguintes fases do estudo baseadas em entrevistas. Só 55 (39%) afirmaram ter algum tipo de lembrança desse período (61% dos entrevistados não lembravam de nada). Desses 55 a maioria afirma ter tido lembranças da família, animais, plantas e a famosa luz brilhante. 5% lembraram cenas do passado, 22% afirmaram terem sentido paz e plenitude e 9% sentimentos de alegria. 8% alegam ter encontrado um ser místico e 13% a sensação de separação do corpo. Até aqui, nada que não possa ser explicado por um cérebro confuso se reconfigurando após o trauma.

De acordo com o estudo, apenas 1 paciente revelou informações que –segundo o autor- puderam ser verificadas, informações sobre o que estava ocorrendo durante a reanimação. Por causa desse único paciente veio todo um alarde midiático com manchetes do tipo


-"Vida após a morte? Maior estudo realizado fornece evidências de que as experiências "fora do corpo" e "quase-morte" podem ser reais."

-“Descoberta científica sugere que há vida após a morte.

-“Investigação científica conclui que é possível vida após a morte.”

-“Cientistas britânicos confirmam que vida após a morte é real.


Confesso que após ler essas manchetes imaginei que algum dos pacientes tivesse descrito sem erro a imagem escondida, única evidência que justificaria tamanho alvoroço jornalístico. Mas nada, nenhuma informação sobre isso. Quando finalmente consegui ler o artigo original aconteceu o que já suspeitava, esse único paciente que segundo o autor fornecia informações objetivas que corroborariam uma consciência separada do corpo físico simplesmente não identificou nenhuma imagem escondida. No artigo o autor apenas comenta este fato, alegando que o fracasso pode ter ocorrido porque a maioria das reanimações ocorreram em salas que não tinham essas imagens escondidas.

Como foi ele – o autor- quem criou a metodologia, isso não serve de desculpa para mascarar os resultados. Seu estudo simplesmente não corroborou –como ele desejaria- a ideia de uma consciência separada do corpo físico e assim a hipótese alternativa de uma consciência fruto apenas do funcionamento cerebral acaba sendo reforçada. Essa deveria ser a conclusão do seu estudo e das manchetes dos jornais.

Por outra parte tentar provar cientificamente a existência de uma consciência, alma ou espírito separada do corpo físico não é ciência. Por quê? Simples, não há experimento que nos permita negar a hipótese. A consciência desencarnada –caso existisse- poderia não se comunicar por motivos que vão além da experimentação. É como provar a inexistência de deuses, de gnomos ou da fada do dente. Enfim, é apenas uma questão de fé.





Fontes:

-AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Sam Parnia e cols., Resuscitation 85 (2014) 1799–1805

-No, this study is not evidence for "life after death". Sharon Hill, http://web.randi.org/swift/no-this-study-is-not-evidence-for-life-after-death


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Detox funciona?

A ideia que devemos de alguma forma purificar nosso corpo não é nada nova. Entre os judeus ortodoxos, por exemplo, após o nascimento de um filho ou mesmo após a menstruação mulheres devem passar por um banho ritual de purificação (Mikveh). Rituais semelhantes são descritos em diversas culturas, praticados por xamãs ou outras figuras religiosas. Todos sabemos, claro, que esses rituais estão ligados ao misticismo, mas nada a ver com ciência.

Mas agora querem nos vender uma forma “científica” de purificação baseada na “desintoxicação”, ou apenas “detox” (não confundir com os procedimentos sérios de desintoxicação realizados, por exemplo, junto a usuários de drogas), a qual seria fundamental para eliminar as toxinas que vão se acumulando em nosso corpo, resultado de uma “alimentação pobre em vitaminas e rica em hormônios, agrotóxicos, aditivos alimentares, açúcar, gordura e uso abusivo de medicamentos (...) que comprometem o bom funcionamento do corpo”. Então, caso você sofra –como li num grande portal de notícias- de “cansaço excessivo, insônia, dificuldade de digestão, mau funcionamento do intestino, excesso se gases, retenção de líquido, falta de concentração, dores de cabeça e dificuldade para perder peso”, uma semana à base de chá de brócolis com limão (claro, acompanhado de uma dieta) ou uma boa lavagem intestinal detox, ou um banho em água detox, “vão deixar você como nova”.

Se alguém curtir suco de brócolis com limão ou mesmo outros mais exóticos, vá em frente. Provavelmente mal não deva fazer. O problema é que não existe nenhuma evidência científica indicando que essas dietas detox tenham a propriedade de desintoxicar coisa alguma. Qual a toxina que elas eliminam? Qual o processo bioquímico? Para entender por que isso não passa de enganação (para variar utilizando um palavreado muito sedutor), temos que ter uma ideia mínima da complexa bioquímica do nosso corpo –que hoje conhecemos bastante bem- e a função de órgãos especialmente capacitados para eliminar todas as toxinas que entram ou são produzidas pelo nosso organismo.

Resumidamente, para gerar a energia que nos mantém vivos nosso corpo deve absorver ou produzir substâncias essenciais como água, carboidratos, peptídeos, oxigênio, lipídeos, ácidos nucleicos e, em menor quantidade, vitaminas e sais minerais. Uma vez utilizados pelas células, esses compostos geram subprodutos metabólicos tóxicos que devem ser eliminados. Outras toxinas podem entrar em nosso organismo pelo que ingerimos ou respiramos. Achar que conseguiremos eliminar tudo isso tomando um suco detox ou terapias similares como “detox intestinal” é, como li por aí, o pináculo da charlatanice.

A bioquímica por trás desses processos de eliminação é para lá de complexa. Felizmente estamos equipados com órgãos que dão conta de todo o processo. Pulmões removem o CO2 resultante da respiração celular. Sem a remoção de CO2, o pH de nosso sangue baixa, o que leva a uma condição grave chamada acidose que se não tratada com urgência mata. Os rins também desempenham uma função importante ao eliminar ácidos do sangue e não há, claro, dieta detox que dê conta de uma insuficiência renal.

Mas entre os órgãos detox nada iguala nosso fígado. Como lemos nos livros de fisiologia, o fígado atua tanto como porteiro ao limitar a entrada de substâncias tóxicas na corrente sanguínea, e como lixeiro ao remover os produtos metabólicos potencialmente tóxicos. Ele é o primeiro órgão a receber tudo o que é absorvido pelos intestinos durante a digestão, tanto as coisas boas quanto as ruins (incluindo aqui os remédios que ingerimos). Antes de voltar para a corrente sanguínea, as células do fígado, os hepatócitos, fazem uma verdadeira triagem e mediante processos físicos e bioquímicos transformam elementos nocivos de forma que possam ser eliminados posteriormente através dos rins ou das fezes via bile.

Se tudo está funcionando bem, não precisamos de mais nada fora uma dieta saudável, exercício físico regular, fugir do cigarro, e outras boas práticas que estamos cansados de conhecer. Não há dieta de desintoxicação que possa fazer o que seu organismo sadio já faz ou deixa de fazer por causa de doença. Se um desses órgãos falhar, esqueça as dietas da moda e procure um bom médico. E antes de ser atraído por um desses sistemas naturais e mágicos de desintoxicação, lembre-se que a única limpeza que eles podem fazer de fato é no seu bolso.


É isso.

sábado, 11 de julho de 2015

Cérebro e maioridade penal


Na figura, imagens de ressonância magnética de um mesmo
 indivíduo realizadas aos 5, 8, 12, 16 e 20 anos. O nível de maturidade 
do córtex cerebral é expresso na escala de cores, do amarelo 
(menos maduro), ao violeta (mais maduro). Observar que o córtex pré-frontal 
(à esquerda no cérebro) é o último a madurecer. 
(Extraído de CRIME, CULPABILITY,  AND THE ADOLESCENT 
BRAIN, Beckman, M. Science 30 July 2004: Vol. 305)
Em meio a esse tiroteio todo sobre a maioridade penal, vez ou outra surge o argumento neurológico. Jovens não poderiam ser penalizados da mesma forma que adultos porque seus cérebros não estariam prontos para tomar as decisões corretas e suprimir os impulsos agressivos. Se a justiça já trata indivíduos com deficiências cognitivas de forma diferente (utilizando argumentos neurocientíficos) deveria fazer a mesma coisa com jovens. Quanto de verdade há nisso e quanto de mito?

A discussão não é nova, mesmo na neurociência, mas existem algumas evidências importantes que nos dão boas pistas. 

Hoje sabemos que algumas regiões do cérebro são parcialmente responsáveis por algo que os neurocientistas denominam “processo de tomada de decisão”, processo este que envolve a análise de risco e dano potencial. É essa capacidade cognitiva que nos permite avaliar antecipadamente as consequências das nossas eventuais ações. Algo assim como “se faço isto vai acontecer aquilo, e se acontecer aquilo então pode acontecer isso ou isto; agora, se faço isto outro pode acontecer isto ou isto...” e por aí vai. Como um bom jogador de xadrez o cérebro maduro permite antecipar alguns lances, o que depende muito da nossa inteligência e das nossas experiências de vida, das quais -muitas vezes de forma inconsciente- o cérebro lança mão para que sintamos antecipadamente o que sentiríamos se o pior acontecesse em virtude de uma decisão errada ou precipitada. Ou seja, antes de fazer sentimos como se tivéssemos já feito.

Cientistas já descobriram que a área cerebral mais diretamente envolvida em tudo isso é o córtex pré-frontal (CPf), uma região muito desenvolvida nos humanos localizada na parte mais anterior do cérebro. Esse conhecimento surge tanto de experimentos em animais como no estudo clínico e comportamental de humanos com lesões no CPf. Alguns pacientes com lesão nessa área têm poucas alterações comportamentais evidentes fora a incapacidade de processar normalmente informação com fundo emocional. Ao que parece se as emoções que uma situação provoca não são bem avaliadas pelo cérebro, a capacidade de tomar a melhor decisão diminui drasticamente. Resumindo, a decisão racional é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato (ver aqui e aqui casos clínicos de pacientes com lesão no CPf).

Paralelamente vários estudos confirmam que essa região, o CPf, é uma das últimas do cérebro a ficar pronta. Os processos de ajuste no número de neurônios, na forma como os neurônios estabelecem suas conexões para formar redes neurais (o que depende e muito do ambiente onde o jovem está inserido), e até o importante processo de mielinização (a formação de uma camada lipídica que envolve os prolongamentos neuronais e que aumenta a velocidade de comunicação entre essas células), terminam em idades que, dependendo do estudo, variam entre os 18 a 25 anos.

Mas na prática, isso resultaria no quê? Em que aos 16 anos pular de cabeça nas águas desconhecidas de um rio, experimentar cocaína ou pegar uma carona com um amigo bêbado podem ser decisões aceitáveis. O benefício imediato não seria suficientemente avaliado em relação ao dano potencial. Da mesma forma, ante uma ofensa a agressão física poderia ser a resposta imediata. E claro, se o jovem com esse cérebro em plena remodelação convive num ambiente onde o crime e a violência fazem parte do seu dia a dia, o cérebro resultante será condicionado por esse ambiente.

Mas de certa forma todos suspeitamos que isso é assim mesmo. Se aceitamos que um jovem não tem maturidade para participar de um júri, comprar ou consumir bebidas alcoólicas, casar sem autorização dos pais, assinar contratos ou até entrar no cinema, é porque aceitamos que sua capacidade de discernimento não é a mesma que a de um adulto.

Tudo isto, claro, não justifica de forma alguma que jovens delinquentes sejam “perdoados” porque não sabem o que fazem ou algo do gênero. Isso seria absurdo. Sociedades têm o direito e o dever de defender os indivíduos daqueles que apresentam comportamentos que ameaçam a vida e a segurança dos outros. A discussão é o que fazer com o jovem infrator. A experiência internacional mostra que uma parcela desses jovens –não todos- pode ser recuperada para o convívio social se utilizados os mecanismos educacionais adequados.

A solução que estamos adotando aqui no Brasil parece ser a menos inteligente. O menor infrator será colocado num dos piores sistemas prisionais, em companhia de adultos delinquentes, com garantia mínima de recuperação. Caso não morra em prisão, será provavelmente posto em liberdade no máximo em dez a quinze anos. Em outras palavras, prendemos um menor como se adulto fosse pela ameaça que ele representa, e o soltamos dez anos depois representando uma ameaça bem mais grave, já que praticamente eliminamos a chance de reabilitação social.

Às vezes temos que ter cuidado para que o natural e primário desejo de vingança e punição não nos impeça de tomar a medida mais racional. A evolução nos deu o mais desenvolvido CPf do reino animal, talvez o que nos torna humanos.


Façamos então bom uso dele.