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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Zika e pesquisa em animais

Como no encontro das águas dos rios Negro e Solimões, no caso do vírus da zika estamos no encontro do medo e da ignorância. Sobre o medo há pouco a dizer. Com a difusão explosiva de toda a informação (boa e ruim) propiciada hoje em dia pelos meios de comunicação e redes sociais, a correlação ente o vírus da zika e situações graves como microcefalia (associada ou não com distúrbios neurológicos) em recém-nascidos já é de conhecimento de todos, no Brasil e fora. O medo entre as mulheres que planejam ter um filho agora ou num futuro próximo -que chega ao pânico nas já grávidas- ante essa avalanche de notícias ruins, teorias da conspiração, e fotos impactantes é completamente justificado. A recomendação de algumas autoridades sanitárias mundo afora no sentido de as mulheres não engravidarem por enquanto ou não visitarem o Brasil, aumenta a sensação de insegurança.

Boa parte deste medo nasce do outro rio, o da ignorância. O fato é que sabemos muito pouco sobre este vírus e das reais consequências do contágio. Entre as poucas certezas está que ele chegou para valer no Brasil e nas Américas. Que como falhamos como nação na tarefa de diminuir o principal vetor, o mosquito Aedes, ele, o vírus, teve e terá terreno fértil para se espalhar pelo país todo. Sabemos também que existe uma correlação geográfica e temporal entre a epidemia de zika e o aumento de casos de microcefalia. Que material genético do vírus foi encontrado no sangue de (algumas) mães e (alguns) bebês microcéfalos. Mas de fato, não há certeza que além dessa correlação exista um fator causal, ou seja, que o vírus seja a causa dessas alterações. Pessoalmente, por tudo o que li e conversei com gente especializada nessa área, acredito que essa relação exista. A comunidade científica está apostando muito nessa possibilidade. Mas em ciência, a única crença que serve se origina de evidências testáveis e reproduzíveis daquilo que dizemos.

Sem termos certeza da relação causal entre zika e microcefalia continuaremos meio que à deriva. Parte dessa certeza poderia ser dada pelas estatísticas, a evidência numérica que claramente relacione os dois fenômenos. Mas os números no Brasil são estranhos, como bem colocou recentemente o biólogo Fernando Reinach em sua coluna no Estadão. Para quem não leu, ele faz um relato no mínimo curioso. Nos Estados Unidos, em média, nascem 6 crianças com microcefalia para cada 1000 nascimentos, ou seja, uma taxa de 0,6%. Se uma taxa semelhante ocorresse no Brasil, em 2014 teríamos que ter 19.250 casos de microcefalia, mas tivemos 147. Como a notificação ao SUS não era obrigatória, é bem provável que muitos casos não tenham sido notificados. Como agora a notificação passou a ser obrigatória, a dúvida de saber se o atual aumento de casos está relacionado com o vírus (o palpite de boa parte da comunidade científica) ou com a notificação obrigatória, é uma dúvida pertinente que só o tempo poderá responder.

Fora os números, todo o trabalho recai no laboratório. O próprio vírus já está se encarregando de fazer um experimento natural com seres humanos. Somos suas cobaias. Cada grávida com zika, cada criança que nasce com microcefalia é um infeliz experimento que permite ir colhendo informações valiosas. Mas usando apenas cobaias humanas muitas informações não poderão ser colhidas por motivos óbvios, e demorará muito tempo para termos certeza das coisas. Há uma urgência que é de tirar o sono e um caminho longo a percorrer. Inicialmente para definir com segurança uma relação causal entre o vírus e a microcefalia e outras alterações que possam ir aparecendo com o aumento da epidemia. Depois sobre os mecanismos que o vírus utiliza para neutralizar as defesas imunológicas naturais. Como ocorre a passagem do vírus via placenta, como invade os neurônios e outra células? Ele sofre mutações? Quais as possíveis consequências no sentido de obter uma vacina eficaz?

Não deixa de ser paradoxal que a maior parte destas respostas que a população com razão cobra da ciência para enfrentar este problema tão dramático só poderá ser conseguida mediante um processo que tem despertado a desaprovação de uma parcela muito importante dessa mesma população: a utilização de animais para experimentação. No final, se tudo der certo, suspeito que vai acontecer a hipocrisia de sempre, usufruir da solução do problema, mas continuar a demonizar os cientistas pela sua insensibilidade por utilizar animais. Vemos esse filme todo dia.

domingo, 29 de novembro de 2015

O mosquito da microcefalia

No momento que escrevo esta coluna, o Ministério da Saúde acaba de divulgar os alarmantes números de casos de microcefalia. Foram notificados 739 casos suspeitos em 169 municípios do Norte e Nordeste. Nas palavras do virologista e professor da USP Paolo Zanotto, “um pesadelo”.

Microcefalia é um distúrbio no desenvolvimento do feto ou da criança que faz com que o tamanho da cabeça fique abaixo do normal. Com isto o encéfalo tampouco se desenvolve normalmente (microencefalia) o que leva a problemas sérios podendo incluir, dependendo da gravidade do quadro, deficiências motoras e cognitivas, hiperatividade, convulsões, dificuldades com a coordenação e equilíbrio entre outras alterações neurológicas. É uma síndrome que não tem cura.

A microcefalia já é bem conhecida, tendo uma incidência (internacional) aproximada de um caso para cada 10.000 nascimentos. Suas causas podem ser genéticas (algum erro no DNA da criança) ou adquiridas congenitamente. Entre estas podem ser incluídas as causadas por agentes contaminantes aos quais a mãe pode estar exposta, assim como alcoolismo e outras drogas. Infecções maternas por toxoplasmose, rubéola, HIV, herpes e citomegalovírus também podem causar a má formação.

Quando os pesquisadores observaram o aumento assustador de casos no N e NE, assim como a forma em que esses casos estavam se espalhando, começaram a suspeitar que algo “muito novo e muito sério” estava acontecendo. Um novo agente poderia estar causando a síndrome. Quando cruzaram todas as informações disponíveis um suspeito apareceu: o vírus zika (ZIKV).

O ZIKV foi isolado inicialmente na década de 1940 em macacos na floresta Zika, na Uganda (daí o nome) e em humanos em 1968 na Nigéria. A partir da África o vírus se espalhou por países da Oceania, Ásia e chegou no Brasil aparentemente em 2014 causando epidemias de febre zika no N e NE em 2015. Foi justamente a coincidência temporal e geográfica que levou inicialmente a suspeitar que o ZIKV poderia estar provocando surpreendentemente, além das febres e erupções cutâneas já conhecidas, o surto de microcefalia. O fato de ter sido encontrado material genético do vírus no líquido amniótico de grávidas de fetos com microcefalia reforçou as suspeitas, embora levaremos uns meses para poder confirmar se isto é apenas uma correlação acidental ou se de fato o ZIKV é o agente causal.

Mais a coisa ainda, infelizmente, complica. O ZIKV é transmitido pelo Aedes aegypti. Como temos levado uma surra deste mosquito nas últimas décadas e eles só tem aumentado sua presença entre nós, no momento as autoridades sanitárias não têm ideia de quantas pessoas já estão contaminadas também com o ZIKV, mesmo por que como não se conhecia que o vírus representava um perigo tão grande (não tinha sido registrada até agora uma associação do ZIKV com a microcefalia), não existia necessidade de comunicar todos os casos.

Daí o medo das autoridades sanitárias. Daí também a recomendação –não oficial- para as mulheres evitarem ficar grávidas até não termos uma noção mais clara sobre o que está de fato acontecendo. A recomendação para não engravidar vem de cientistas como o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, e também de médicos ginecologistas como Thomas Gollop, especialista em medicina fetal. A recomendação é para que a mulher que mesmo assim decida assumir o risco o faça após uma consulta com seu obstetra de forma a obter todas as informações disponíveis. Embora exista uma preocupação em não criar pânico, como afirma Cesar Fernandes, presidente federação dos ginecologistas e obstetras "Temos que ser transparentes e reconhecer nosso despreparo em lidar com algo muito novo e muito sério."

Por enquanto, é o que sabemos. Se de fato for confirmado que o ZIKV é agente causal da microcefalia, como comenta o infectologista e professar da UNESP Alexandre Naime Barbosa teremos feito uma desagradável e inconveniente descoberta científica. Ao mesmo tempo teremos que rever nossas ações no que diz respeito ao combate ao mosquito Aedes aegypti. Se conviver com a dengue já é muito ruim, fazê-lo também com um vírus como o ZIKV com potencial de causar problemas tão devastadores como a microcefalia (e quem sabe outros que ainda não conhecemos), seria desastroso. Todas as tentativas convencionais de diminuir a quantidade de mosquitos têm fracassado. Quem sabe seja a hora de pensar em outras abordagens. A de Piracicaba e o mosquito transgênico quem sabe esteja entre elas.













sábado, 14 de novembro de 2015

Crianças não religiosas são mais generosas

Dia 03/11, a notícia:


Pai se mata após filho de 4 anos morrer picado por escorpião

Comentários de alguns dos leitores sobre a notícia:

“Sinto muito pela criança que é um anjo,e partil por acaso do destino,mas infelizmente suicidas não tem lugar no reino dos céus, perdeu o filho e agora sua alma está condenada.” 

“o diabo vem matar roubar e destruir acordem pessoal procure jesus ele veio para dar vida e com abundançia pense nisto”


 “Desespero e astúcia do "outro" que não merece ser mencionado o nome, faz com que pessoas percam o direito de salvação da alma. QUE PENA!!!!"


“Grande fraqueza espiritual nao aguardaram o agir de deus para confortar seus coraçoes.” 


 “que besteira perca nao tem como subistituir pelo menos podiam ter tentado ter outro filho em vez desta besta atitude” 


 “acho covardia! é dificil uma perca mais Deus da forças! quem faiz isso é porque não quer sofrer!!!!” 


 “Infelizmente ..., esse pecado não tem perdão. Assassinato, homicídio, suicídio... Todos tem o mesmo teor de pacado diante de Deus. Suicídio é pior ainda, pq esse não tem chance de se arrepender pra pedir perdão.” 


 “a perdi um filho mais não pensei em me matar isso é pessoa fraca da cabeça se matar” 


 “A falta do conhecimento espiritual, coloca como se fosse o fim de tudo,e não é...temos um tempo na terra..devemos respeita-lo, pois não sabemos nossa hora.. conhecer e saber porque estamos aqui e obrigação...do contrario, ignorar nossa breve passagem faz com que se cometa esse tipo de loucura...” 


 “Pra mim isso não é amor...o erro de muitos é basear sua vida em pessoas ou coisas ...nossa vida precisa estar basesda na palavra de Deus pois ela éa garantia de vida em dias difíceis .” 


 “Tem que morre mesmo tanta gente precisando de um leito de hospital, isso ai é falta de Deus no coração”



Ao ler estes comentários seria válido indagar em qual momento da sua vida os autores foram perdendo a empatia, essa capacidade biológica inata que permite que nos coloquemos no lugar do outro sentindo parte da sua tristeza e pesar quando o outro está triste e pesaroso, ou mesmo nos alegrarmos quando o outro está feliz. Este processo de identificação, que compartilhamos com muitos outros animais, é uma ferramenta fundamental para o convívio social, base de coisas como a generosidade, o altruísmo, a compreensão e a tolerância.

Mas como essa capacidade pode ser perdida? A partir de que momento da nossa vida? Comentários tão pouco empáticos como os colocados acima podem nos dar algumas pistas. É possível observar, por exemplo, que quase todos têm algo em comum. Deuses e religiões são a toda hora invocados. Pesquisadores que analisam o efeito do pensamento religioso sobre o comportamento de indivíduos e sociedades já tinham percebido que alguns indivíduos religiosos acreditam ter algo assim como uma “licença moral”. Nesta situação comportamentos egoístas que levam a atitudes intolerantes são liberados, algo do tipo, posso ser insensível já que estou falando em nome de Deus, e Deus deixou bem claro o que pode ou o que não pode. Matar em nome de deuses pode ser o exemplo extremo dessa licença, mas podemos encontrá-la em outras atitudes.

Nessa linha de investigação, um grupo internacional de pesquisadores decidiu analisar a influência da religião sobre o altruísmo em crianças. Para isto examinaram a atitude de 1170 crianças com idades entre 5 e 12 anos de seis países com culturas e religiões diversas: Estados Unidos, Canadá, Turquia, Jordânia, África do Sul e China. De acordo com os questionários que avaliavam o nível de religiosidade (com dados fornecidos pelos pais), as crianças foram divididas em muçulmanas (43%), não religiosas (27,6%), cristãs (23,9%), judias (2,5%), budistas (1,6%), hinduístas (0,4%), agnósticas (0,2%) e sem classificação 0,5%. Por uma questão estatística, foram formados apenas três grupos: cristãos, muçulmanos e não religiosos.

Além de questionários que avaliavam a severidade de julgamento e punição da criança, um dos testes consistia numa entrevista individual com os pesquisadores. Estes ofereciam que as crianças escolhessem de presente, num conjunto de 30 stickers (adesivos), os dez que mais gostassem. Depois os pesquisadores informavam que por falta de tempo não poderiam dar este presente às outras crianças da classe, mas se a criança desejasse poderia separar dos seus dez stickers os que quisesse dar aos outros, colocando-os num envelope. Dito isto os experimentadores se retiravam ou viravam de costas e a criança tinha a liberdade de dar ou não algum dos seus adesivos aos outros que tinham ficado sem. A quantidade de adesivos doados representaria o índice de altruísmo.

Ao analisar os resultados os pesquisadores observaram que as crianças não religiosas ofereciam, em média, 4,1 adesivos, uma quantidade estatisticamente superior que a oferecida por crianças cristãs (3,3) e muçulmanas (3,2). Ainda, em relação às crianças religiosas o índice caia quanto maior o grau de religiosidade (declarado nas entrevistas pelos pais) e caia ainda mais quanto maior a idade da criança religiosa, o que indicava que quanto mais tempo exposta a sua religião, menos generosa se mostrava. 


Segundo os autores...


“Nossos resultados demonstram de forma robusta que as crianças de famílias que se identificam com uma das duas principais religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo) são menos altruístas do que as crianças de famílias não religiosas. Além disso, a relação negativa entre religiosidade, espiritualidade e altruísmo muda com a idade, com aquelas crianças com maior convívio religioso em seus lares apresentando as maiores correlações negativas.”.

Para Benjamin Beit-Hallahmi, psicólogo da Universidade de Haifa, em Israel e um especialista em psicologia da religião, com tantas crianças de diferentes culturas, o novo estudo oferece dados vitais. Ele suspeita que os resultados estão ligados à importância que muitas religiões colocam na autoridade exterior e as ameaças de castigo divino. De forma diferente que as crianças de famílias religiosas que geralmente aprendem a agir em obediência a um poder superior vigilante, crianças criadas em lares não religiosos poderiam ser ensinadas a seguir regras morais apenas porque é "a coisa certa a fazer". Então, "quando ninguém está olhando, as crianças de famílias não-religiosas se comportar melhor."

Já nas palavras do líder do estudo, o neurocientista Jean Decety, cujo trabalho visa analisar a emergência da moralidade em crianças, "Em conjunto, estes resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças. Eles desafiam a visão de que a religiosidade facilita um comportamento pró-social e põe em dúvida se a religião é vital para o desenvolvimento moral, sugerindo que a secularização do discurso moral não reduz a bondade humana. Na verdade, ela faz exatamente o oposto ".

Durante toda nossa vida fomos bombardeados com a ideia que sem religião não seríamos capazes de distinguir entre o bem e o mal, que não haveria como incorporar valores morais. A investigação séria (e o próprio noticiário) estão nos mostrando que não é nada disso.

Fontes:

-The Negative Association between Religiousness and Children’s Altruism across the World. Decety, J. e cols., Current Biology, DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2015.09.056, 2015


-Moral Self-Licensing: When Being Good Frees Us to Be Bad. Merrit, A. e cols.
Social and Personality Psychology Compass. Volume 4, Issue 5, pages 344–357, May 2010



sábado, 10 de outubro de 2015

Anastomose cefalossomática

Se o nome parece complicado, o procedimento –se der certo- será uma verdadeira proeza. Trata-se nada mais nem nada menos que o utópico transplante de corpo (nome preferível a transplante de cabeça), que se depender do neurocirurgião italiano Sergio Canavero pulará dos livros de ficção científica para as páginas dos jornais em um dia qualquer de 2017.

O procedimento faz parte da velha tentativa de dar a um cérebro ainda funcional um corpo que lhe permita se comunicar com o mundo exterior quando este já não o consegue fazer. A ideia faz todo o sentido naqueles casos em que por doença ou acidente o corpo já não permite mais que o cérebro interaja com o meio externo. Porque de fato é isso que nosso corpo é, uma interface que o cérebro controla e mediante a qual ele pode interagir com o mundo. Quando não mais funciona ou quando o cérebro já não consegue controlá-la, a ideia seria substituí-la por uma interface artificial ou, como neste caso, por um novo corpo.

A cirurgia exige a cuidadosa decapitação do doador e do receptor. Na cabeça deste último –provavelmente trabalhando em baixas temperaturas par diminuir o metabolismo cerebral enquanto a oxigenação não é restabelecida- seria fixado o novo corpo. Se suturar vasos, traqueia, esófago, músculos e fixar as vértebras cervicais é algo que cirurgiões fazem rotineiramente, fazer com que a medula espinal de doador e receptor se comuniquem de forma a restabelecer o controle motor e a sensibilidade do corpo transplantado é, pelo menos para a enorme maioria da comunidade científica uma tarefa ainda irrealizável.

E é aí que surge o dilema ético. Seria correto submeter um paciente a um procedimento experimental dessa magnitude quando as chances de sucesso são tão pequenas? As tentativas anteriores, feitas em animais, se bem mostraram que o procedimento é viável não foram nada animadoras em termos de sobrevivência e de reestabelecimento do controle nervoso. Os experimentos pioneiros nessa área foram do russo Vladimir Demikhov na década de 1950. Demikhov ficou bastante conhecido na época ao implantar cirurgicamente uma segunda cabeça no corpo de cães. As duas cabeças compartilhavam assim o mesmo sangue e mostravam reações independentes uma da outra, chegando até brigar entre elas (eticamente reprováveis nos dias atuais, os trabalhos de Demikhov formaram a base da ciência dos transplantes e muito contribuíram com o transplante pioneiro de coração realizado por Christiaan Barnard na África do Sul em 1967, e com boa parte de nosso conhecimento sobre a importância de drogas imunossupressoras para evitar a rejeição de órgãos transplantados).

Voltando ao presente, impedido de tentar essa quase loucura no hospital de Turim (Itália) onde lecionava, Canavero acabou convencendo as autoridades da província e universidade chinesa de Harbin (The Harbin Institute of Technology), que lhe ofereceram toda a infraestrutura necessária. E não é pouca. Estima Canavero que o procedimento durará em torno de 36 a 72 horas, com a participação de 150 médicos dos quais uns 80 serão cirurgiões.

Já existe até um voluntário para esta primeira cirurgia, Valery Spiridonov, um artista gráfico da Rússia de 31 anos de idade, vítima de uma severa e incurável atrofia muscular (doença de Werdnig Hoffman) que o manteve em cadeira de rodas por quase toda sua vida.

Agora é só esperar. A história toda soa disparatada quando analisamos quão longe estamos de termos a capacidade técnica para realizar um procedimento desses com sucesso. Mas Canavero acha que não, os chineses querem ficar na história e Valery Spiridonov quer um corpo funcional. Quem sabe os ingredientes necessários para um passo espetacular na história da medicina, ou para um previsível desastre.

sábado, 12 de setembro de 2015

As experiências de quase (quase!!) morte.

As chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM) sempre despertaram uma curiosidade enorme. Não poderia ser diferente. A morte continua a ser para muitos o grande mistério. Por termos um cérebro que temos, fruto do processo evolutivo que nos tornou humanos, somos conscientes prematuramente da nossa finitude. Um peso enorme que devemos suportar lá desde nossa infância, quando começamos a perceber que a morte existe, que é real e que é para sempre. Existem poucas dúvidas que esse peso todo está na base de quase todas as religiões, que nos prometem a vida eterna em troca da obediência terrena.

Nesta coluna já tínhamos abordado o assunto (ver aqui e aqui). Nas EQM geralmente estamos ante um quadro onde a irrigação sanguínea do cérebro diminui. Isto leva a um lento desconectar de algumas redes neurais e a um lento reconectar quando a irrigação é restabelecida. Quase todos os fenômenos descritos nas EQM como lembranças, luzes, sentimentos de paz e harmonia, encontros com entes sobrenaturais e mesmo a estranha sensação de estar flutuando fora do corpo podem ser hoje explicados por esse rearranjo de redes neurais.

Mas há um detalhe que sempre chama a atenção. Alguns (poucos) que passaram por EQM relatam não apenas estarem flutuando, mas afirmam serem capazes de lembrar tudo o que viram desde essa posição, fato que, obviamente, só poderia ocorrer se a consciência se separasse completamente do cérebro e saísse flutuando até parar no teto, à espera de uma decisão volto/não volto.

Mas existiria forma de verificar isso nas condições objetivas que a ciência exige? Algo que fosse além de relatos subjetivos para os quais uma explicação biológica já resolve muito bem? Para um pesquisador, Sam Parnia, especialista em reanimação e ele mesmo defensor da ideia de uma consciência separada do corpo físico, a resposta foi sim.

Para isto em 2008 iniciou o projeto AWARE (AWAreness during REsuscitation, algo assim como consciência durante a ressuscitação). Basicamente, a ideia foi analisar o que acontece com pacientes com parada cardiorrespiratória (PCR), situação onde a irrigação do cérebro é suspensa por alguns minutos com a consequente perda de consciência. O estudo foi realizado em 15 hospitais do Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Dias (ou meses) depois da reanimação, os pacientes foram entrevistados em relação àquilo que lembravam sobre esses momentos.

Para tornar as coisas algo mais objetivas em cada hospital foram escondidas entre 50 e 100 fotografias com diversas imagens nas salas de reanimação, imagens que só poderiam ser vistas de cima para baixo, ou seja apenas se a consciência se separasse mesmo do paciente desfalecido. Assim, a hipótese dualista (mente e cérebro serem coisas separadas) seria corroborada se algum sobrevivente revelasse a imagem escondida.

Os resultados mostraram que dos 2060 pacientes utilizados neste estudo, apenas 330 sobreviveram à PCR. Destes, 140 tiveram saúde suficiente para passar às seguintes fases do estudo baseadas em entrevistas. Só 55 (39%) afirmaram ter algum tipo de lembrança desse período (61% dos entrevistados não lembravam de nada). Desses 55 a maioria afirma ter tido lembranças da família, animais, plantas e a famosa luz brilhante. 5% lembraram cenas do passado, 22% afirmaram terem sentido paz e plenitude e 9% sentimentos de alegria. 8% alegam ter encontrado um ser místico e 13% a sensação de separação do corpo. Até aqui, nada que não possa ser explicado por um cérebro confuso se reconfigurando após o trauma.

De acordo com o estudo, apenas 1 paciente revelou informações que –segundo o autor- puderam ser verificadas, informações sobre o que estava ocorrendo durante a reanimação. Por causa desse único paciente veio todo um alarde midiático com manchetes do tipo


-"Vida após a morte? Maior estudo realizado fornece evidências de que as experiências "fora do corpo" e "quase-morte" podem ser reais."

-“Descoberta científica sugere que há vida após a morte.

-“Investigação científica conclui que é possível vida após a morte.”

-“Cientistas britânicos confirmam que vida após a morte é real.


Confesso que após ler essas manchetes imaginei que algum dos pacientes tivesse descrito sem erro a imagem escondida, única evidência que justificaria tamanho alvoroço jornalístico. Mas nada, nenhuma informação sobre isso. Quando finalmente consegui ler o artigo original aconteceu o que já suspeitava, esse único paciente que segundo o autor fornecia informações objetivas que corroborariam uma consciência separada do corpo físico simplesmente não identificou nenhuma imagem escondida. No artigo o autor apenas comenta este fato, alegando que o fracasso pode ter ocorrido porque a maioria das reanimações ocorreram em salas que não tinham essas imagens escondidas.

Como foi ele – o autor- quem criou a metodologia, isso não serve de desculpa para mascarar os resultados. Seu estudo simplesmente não corroborou –como ele desejaria- a ideia de uma consciência separada do corpo físico e assim a hipótese alternativa de uma consciência fruto apenas do funcionamento cerebral acaba sendo reforçada. Essa deveria ser a conclusão do seu estudo e das manchetes dos jornais.

Por outra parte tentar provar cientificamente a existência de uma consciência, alma ou espírito separada do corpo físico não é ciência. Por quê? Simples, não há experimento que nos permita negar a hipótese. A consciência desencarnada –caso existisse- poderia não se comunicar por motivos que vão além da experimentação. É como provar a inexistência de deuses, de gnomos ou da fada do dente. Enfim, é apenas uma questão de fé.





Fontes:

-AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Sam Parnia e cols., Resuscitation 85 (2014) 1799–1805

-No, this study is not evidence for "life after death". Sharon Hill, http://web.randi.org/swift/no-this-study-is-not-evidence-for-life-after-death