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sábado, 21 de maio de 2011

A biologia da fé


Nascemos com a necessidade biológica de acreditar. No início das nossas vidas, o que os adultos nos dizem é lei, fundamentalmente se são adultos importantes em nosso entorno, pais, parentes próximos, líderes do grupo, etc. Devemos ouvir e aprender rapidamente que o fogo queima, que podemos nos afogar no mar, que determinadas plantas são venenosas, que predadores estão à nossa espreita. É uma questão de sobrevivência que compartilhamos com os outros primatas e boa parte dos mamíferos. Essas informações são vitais para nossa sobrevivência e não vale a pena colocá-las em dúvida para testar. A evolução selecionou esse comportamento. Dificilmente você encontrará uma criança de sete anos que seja cética.

Isso, é claro, tem seu lado ruim. Se um adulto inventar uma história, a criança a terá como verdadeira. O teor das histórias contadas pelos adultos às crianças varia enormemente. Podem ensinar o valor da tolerância, mas podem também ensinar que nosso vizinho de outra etnia, nacionalidade ou religião é nosso inimigo.
Por exemplo, aproveitando essa característica biológica do cérebro em desenvolvimento, alguns adultos querem transformar crianças em crianças católicas ou muçulmanas, ou judias. Claro que não existem crianças católicas ou evangélicas, ou de qualquer outra religião, da mesma forma que não existem crianças marxistas ou partidárias do liberalismo econômico de Adam Smith. Se isto soou absurdo, deveríamos pensar por que parece sem sentido pensar numa criança marxista e não numa criança católica. Depois de tudo acreditar na luta de classes parece bem mais coerente que acreditar na existência de um homem invisível -que mora no céu- que observa e anota tudo o que ela e todas as pessoas do mundo fazem a cada minuto de cada dia. E ainda que esse homem invisível exige ser amado e obedecido e se ela não o obedecer, amar e seguir, ele a mandará para um lugar terrível embaixo da terra, onde a criança será queimada e torturada mesmo que chore e grite para o resto da eternidade. *
Essa fase onde a criança é completamente permeável ao ensinamento dos mais velhos é lentamente transformada durante o crescimento e o desenvolvimento neurológico normal.
De fato, com o desenvolvimento acontecem duas coisas fundamentais: enriquecimento da experiência individual e o amadurecimento e formação de novas redes neuronais. A experiência individual nos mostra que o mundo é mais complexo que aquele contado pelos adultos, que o mar mata mas também é agradável, que o fogo queima mas é fundamental para a vida, que das plantas venenosas podemos extrair medicinas.
Os humanos somos provavelmente os únicos animais capazes de ultrapassar o nível de conhecimento que nos foi passado pela geração anterior. Ninguém faz isso na natureza como nós. Um camundongo chegará a ser tão inteligente e sabido quanto seus pais, não muito mais que isso. Já nós, graças ao nosso extraordinário cérebro, temos a capacidade de criar rapidamente novo conhecimento e novas estratégias a partir dos ensinamentos que nos foram transmitidos e as experiências individuais adquiridas. E a velocidade com que isso acontece é cada vez maior.
Desenvolvemos também algo fundamental: o pensamento crítico. A capacidade única dos humanos de questionar o conhecimento atual. É através do pensamento crítico que a humanidade avança, reconhece os erros do passado e transforma seu futuro. Por isso é importante que durante a infância e a adolescência – período fundamental para o desenvolvimento cerebral-  o pensamento crítico seja incentivado. Isso deve ser feito tanto na escola quanto em casa. Se a criança não é incentivada a questionar, quando adulta dificilmente terá a capacidade de analisar o mundo de forma a encontrar a saída para os problemas que dia a dia tem que enfrentar.
Como nossa escola fracassa neste aspecto -nosso sistema educacional prioriza a memorização e a “decoreba” em vez do questionamento- o espírito indagador é substituído pela facilidade da resposta pronta. O cérebro não é estimulado para descobrir. Aos poucos perdemos a capacidade mental que permitiu nosso progresso como espécie. Como dizem os estudiosos do cérebro “use it or lose it” (use-o ou perca-o).
Sem estimular o pensamento crítico viramos crianças adultas, ávidas para acreditar em tudo.
Com esse pano de fundo não é de estranhar que aceitemos como verdadeiras histórias sem fundamento, como as relacionadas com o fim do mundo em 2012, ou tratamentos miraculosos baseados em cristais, florais, energias místicas e na lei da atração. E também na justificativa esfarrapada do político corrupto que foi pego com as mãos na massa, mas em quem votamos novamente. Ou no bispo que foi preso com dinheiro camuflado na bíblia mas diz ser destinado à obra de Deus.
Nos anos noventa eu era fã de uma série chamada Arquivo X. A sala do agente Fox Mulder era enfeitada com um cartaz com a frase “Eu quero acreditar.” É isso. Poucos colocariam um cartaz com a frase “Eu quero conhecer.”
*Minha homenagem póstuma ao grande George Carlin.

sábado, 14 de maio de 2011

O gene egoísta no dia das mães

Imagem: Biblioteca de Imagens da Natureza Recursos / Rex
O que leva o antílope a enfrentar um bando de leoas famintas? Por que tenta proteger os outros e não foge para salvar sua vida? Como explicar esse comportamento altruísta?

Estas questões intrigaram os biólogos por décadas. Simplesmente essa atitude não se encaixava na ideia da evolução darwiniana. Ao enfrentar os felinos as chances de morrer são bem maiores que as de sobreviver. Morrendo, o antílope não consegue repassar seus genes, objetivo fundamental de um organismo de acordo com a visão darwiniana. Por outra parte, caso existisse um gene para o altruísmo que levasse a essa atitude este acabaria também desaparecendo já que o animal é devorado. Se assim estivesse acontecendo não teriam sobrado animais altruístas e veríamos hoje apenas machos fujões, o que não é o caso.

Para tentar responder essa questão, o biólogo inglês Richard Dawkins (estrela da última FLIP) lançou na década de 1970 a teoria do gene egoísta. Para Dawkins –a ideia central foi inspirada na obra do biólogo George Williams- o conceito de evolução não deveria estar baseado no grupo nem no organismo, mas no gene, o segmento do cromossomo que contém a informação básica para produzir uma proteína, controlar uma caraterística física (como a cor dos olhos) ou mesmo ser parcialmente responsável por um comportamento.

O gene é uma estrutura replicadora. Um dos seus objetivos principais é criar cópias de si mesmo para que a informação que carrega se espalhe no maior número possível de indivíduos. Nossos corpos seriam apenas máquinas (que eles constroem) que tornam possível que as cópias sobrevivam e se espalhem.

No contexto da evolução baseada no gene proposta por Dawkins a própria definição de gene muda, não sendo mais uma simples partícula de DNA, mas todas as réplicas de um bit particular de DNA distribuídas através do planeta.

A ideia de evolução baseada no gene permitiu uma explicação coerente não apenas para entender o altruísmo do antílope que enfrenta o leão, mas também a tendência dos animais de criar estratégias que facilitem a reprodução e sobrevivência de animais aparentados (seleção de parentesco). Pela óptica dos genes, vale a pena sacrificar o organismo do antílope para assegurar que os descendentes deste (em maior número e mais jovens, carregando assim um maior número de cópias replicáveis do gene) sobrevivam. Da mesma forma, permitiria explicar a percepção que temos de que vale mais a pena se sacrificar por um irmão que por um primo (o irmão carrega 50% de nossos genes, o primo de primeiro grau apenas 12,5%).

A capacidade de sacrifício que pais e mães demonstram com sua prole, a ponto de dar a própria vida por ela, não passaria de uma consequência natural da pressão de nossa herança genética. Uma estratégia que os genes utilizam para assegurar maiores possibilidades de replicação. Nada que justifique tanta comemoração no segundo domingo de maio, ou no segundo de agosto.

Como toda teoria científica, a do gene egoísta tem também seus críticos. O próprio termo “egoísta” foi mal interpretado. Dawkins confessa que “gene imortal” teria sido mais apropriado. Genes não são egoístas nem generosos. Apenas são programados para replicar e competir. Eles competem até no interior das próprias células para que seja a informação que eles carregam a que apareça como caraterística do indivíduo (conflito intragenômico, como no caso da cor dos olhos).


Por outro lado, a ideia que nossos genes são egoístas poderia justificar atitudes humanas egoístas e intolerantes. Nada disso é correto. Como o próprio Dawkins afirma, conhecer a natureza de nossa carga evolutiva não justifica atitudes antissociais. Ao contrário das outras espécies, nossas ações e comportamentos são dominadas pelo extraordinário cérebro que possuímos. Somos a única espécie que conseguiu entender e criar argumentos morais para combater a falta de moral evolutiva.

Cada vez que fazemos sexo utilizando métodos contraceptivos estamos deliberadamente contrariando as ordens de nossos genes. Fazemos isso por que nosso cérebro permite avaliar os prós e contras de cada atitude e decidir qual a mais adequada para nós e para o grupo. Não há motivo para não fazer isso sempre.

Genes podem criar tendências comportamentais, mas nos humanos essas tendências podem e devem ser dominadas quando se tornam moralmente inaceitáveis.

Fonte: O gene egoísta; Dawkins, R. Companhia das Letras, 2007.



terça-feira, 3 de maio de 2011

Nas raízes da maldade

"Empatia: processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro". (Dicionário Houaiss)

Na década de 1980, o grupo liderado pelo cientista italiano Giacomo Rizzolati estudava uma região do cérebro de macacos responsável pela realização de movimentos complexos como os necessários para pegar um objeto, onde uma grande quantidade de músculos deve ser contraída de forma sincronizada.

Para isso, registravam mediante o uso de eletrodos a atividade elétrica de neurônios de uma zona denominada córtex pré-motor. Conhecer a atividade e localização desses neurônios era passo fundamental na tentativa de entender como o cérebro controla nossos movimentos e dessa forma pensar na possibilidade dessa região comandar, por exemplo, membros artificiais.

Assim, cada vez que o animal era solicitado a segurar uma fruta, os neurônios que davam a ordem aos músculos aumentavam sua atividade elétrica e podiam ser identificados e mapeados. Surpreendentemente os pesquisadores observaram que alguns desses neurônios não apenas “disparavam” ao realizar o movimento, mas também ao ver o experimentador segurar a fruta.

Era a descoberta, quase que acidental, dos neurônios espelho, uma das mais importantes dos últimos 20 anos (curiosamente, o artigo foi enviado à prestigiosa revista Nature quem o rejeitou por “falta de interesse geral”).

Mas o que representa de fato essa descoberta? O que os cientistas perceberam é que alguns neurônios teriam a capacidade de desencadear reações tanto ao executar uma ação -situação esperada- ou apenas observando outro indivíduo executando-a.

Quando vemos alguém triste, por exemplo, os mesmos neurônios responsáveis por esta observação podem estimular os circuitos associados com a tristeza, e sem que nada “triste” tenha nos acontecido passamos a sentir parte da tristeza que o outro sente. Ao mesmo tempo, permitem antecipar o que alguém vai sentir caso tomemos determinada atitude que o atinja.

O fascinante da descoberta é que com ela percebemos que existe um sistema cerebral que nos possibilita sentir o que outra pessoa experimenta emocionalmente ao atravessar determinada situação. Enfim, permitem que nos coloquemos no lugar do outro.

A descoberta dos neurônios espelho e dos circuitos a eles associados possibilitou formular novas hipóteses para responder coisas simples, como por que o bocejo parece ser algo contagioso, e coisas mais complexas, como por que nos envergonhamos ao ver alguém cometer uma gafe, ou por que sentimos tanta tristeza ao presenciar a dor de um pai desconhecido que perdeu seu filho.

As implicações da existência desse sistema empático são enormes e é difícil entender por qual motivo até agora não nos empenhamos como grupo em incentivar seu funcionamento, da mesma forma que o fazemos com a leitura, a linguagem, a memória e outras capacidades cerebrais.

Atualmente, pesquisadores do comportamento humano relacionam o nível de “maldade” de um indivíduo a deficiências ou subdesenvolvimento -por falta de treino- desse sistema neural de empatia. Fazer o mal estaria em parte relacionado com a dificuldade de antecipar e tornar nosso o sofrimento da vítima da nossa “maldade”. O mal que podemos infringir pelo não uso de nossa capacidade empática é muito variável. Desde pequenas crueldades que frequentemente somos capazes de praticar, passando pelo bullying, e chegando aos extremos de sadismo que se observa em assassinos seriais.

Neste sentido, estudos de imagem cerebral indicam que alguns psicopatas e outros pacientes com desordens de personalidade exibem alterações nos sistemas neurais associados com a empatia, como corpo amigdaloide, córtex cingulado anterior e estriado ventral. Esses pacientes apresentam uma impossibilidade patológica de sentir empatia e a capacidade de recuperar esse sentimento parece ser pequena. Mas no restante da população, desenvolver maiores níveis de empatia poderia ser conseguido mediante a educação que damos às crianças, da mesma forma que as educamos -e nos educamos- em tantos outros aspectos.

Como menciona Simon Baron-Cohen, diretor do Centro de Pesquisas sobre Autismo da Universidade de Cambridge, milhões de anos de evolução proporcionaram um sistema cerebral que permite a todos antecipar e resolver problemas interpessoais, conflitos internacionais, dificuldades com uma amizade, disputas familiares e problemas com os vizinhos.

Ao contrário da indústria de armas, que consome trilhões de dólares, ou dos sistemas de justiça e prisional, que precisam de milhões para se manter funcionando -sistemas geralmente utilizados para resolver esses problemas-, a empatia é de graça. E ao contrário da religião, empatia, por definição, não oprime ninguém.

Fonte: Zero Degrees of Empathy: a New Theory of Human Cruelty. Simon Baron-Cohen; Ed. Allen Lane, 2011.

sábado, 16 de abril de 2011

Homofobia. De onde vem? Para onde vai?


Se um homem dormir com outro, como se fosse com mulher, ambos cometem uma abominação e serão punidos com a morte: seu sangue cairá sobre eles.
(Levíticos 20:13)


Temos um cérebro moral. Pelo que sabemos até agora, possuímos redes neurais que participam em decisões e julgamentos morais. Descobrimos isso, em parte, através do estudo de casos clínicos, onde pacientes com lesões em áreas específicas do cérebro passaram a ter um comportamento social alterado.

Já escrevemos nesta coluna sobre alguns desses casos, antigos como o de Phineas Gage e modernos como os descritos pelo neurocientista Antônio Damásio. Também comentamos os experimentos onde com o uso de imãs gerando campos magnéticos sobre áreas específicas do córtex cerebral foram produzidas alterações temporárias em determinados julgamentos morais.

Há anos a neurociência está interessada em saber como essas redes neurais “morais” se formam. Já nascemos com elas ou são criadas pelo convívio em sociedade? As evidências indicam um pouco das duas possibilidades. Os genes gerariam o circuito cerebral básico que nos leva a sentir prazer quando fazemos coisas que nosso grupo considera positivas, e emoções negativas quando realizamos ações nocivas a nós mesmos ou ao grupo ao qual pertencemos.

sábado, 2 de abril de 2011

O fim da religião

Imagine que não existam países
Não é algo difícil de fazer
Nada pelo qual matar ou morrer
Nem tampouco religião
Imagine todas as pessoas
vivendo a vida em paz


(John Lennon)


Será que o sonho de John Lennon de uma sociedade sem religiões está mais próximo do que ele previa? Pelos resultados de um estudo apresentado durante encontro da Sociedade Americana de Física nos Estados Unidos, a resposta parece ser afirmativa.

Da sala de imprensa do congresso, o texto já bastante resumido foi para as grandes agências de notícias, as quais soltaram manchetes do tipo "Estudo indica que religião pode ser extinta em 9 países ricos", ou "Estudo indica que religião pode acabar em 9 países ricos" e por aí vai.

Mas será que mais uma vez um grupo de cientistas ateus desandou a falar horrores da religião? Não, nada disso.

No estudo não há nenhuma discussão filosófica sobre o valor (ou falta dele) da religião. O estudo é matemática pura. Tanto é assim que o trabalho foi realizado por uma equipe de matemáticos e físicos que utilizam termos tão complicados como "statistical mechanics nonlinear dynamics".

Trata-se da aplicação de métodos matemáticos que permitem avaliar o comportamento de grupos sociais utilizando dados do passado -fundamentalmente obtidos através de censos populacionais- para realizar uma previsão a meio e longo prazo. O método pode ser usado para analisar uma gama de fenômenos físicos e sociais onde grande quantidade de fatores acabam interferindo no resultado final.

O modelo parte do pressuposto que estar conectado a grupos que com um maior número -ou um número crescente- de membros é mais atrativo e socialmente vantajoso, e associar-se a esses grupos gera uma ideia de utilidade social. Um exemplo típico é a utilização de determinados idiomas locais. Geralmente estes tendem a ser abandonados por idiomas utilizados por um número maior de pessoas.

No caso do presente estudo, ele baseou-se em dados obtidos em censos em nove países: Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça. Nesses países, todos democracias modernas e seculares, o número de pessoas que se declaram sem filiação religiosa tem aumentado ano a ano chegando a 40% na Holanda e 60% na República Checa.

Baseados nessa tendência e aplicando o modelo matemático descrito detalhadamente no estudo original, os autores chegaram à conclusão que as religiões nesses países desaparecerão em poucas décadas.

Alegria de uns, tristeza de outros. Mas sempre é bom analisar esse tipo de estudo -e qualquer outro- com uma boa dose de ceticismo científico. Primeiro, as manchetes com que o estudo foi divulgado fazem questão de citar que esses dados correspondem a "países ricos". Esta classificação já pode influenciar nossa análise desde uma perspectiva moral. Riqueza é associada por alguns com atitudes consumistas, gente mais interessada em bens materiais, sem se importar com a pobreza do mundo, etc.

Nesse contexto, o fim de religiosidade seria consequência desse egoísmo existencial.

Mas cabe também uma análise diferente, e para mim mais adequada. O que caracteriza quase todos esses países é que eles têm um sistema educacional acima da média internacional. Esse fato pode ser facilmente constatado mediante análise dos resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

É válido pensar que em sociedades com um sistema educacional que incentive o questionamento e o pensamento crítico -base das sociedades do conhecimento- , a possibilidade de aderir a dogmas baseados na fé seja bem menor que em sociedades que incentivem a doutrinação das crianças.

Como já comentamos nesta coluna, o que a criança absorve dos adultos nos primeiros anos da sua vida acaba moldando sua existência futura.

Outro fato a levar em consideração é a existências de fluxos migratórios. A República Checa, que registra o maior número de pessoas que se declaram não religiosas, apresenta um fluxo migratório muito pequeno. Migrantes levam consigo seus padrões culturais, incluindo aqui seus valores religiosos.

O conflito que isto gera já é bastante evidente em países europeus, onde a tradição secular tenta resistir de forma algumas vezes discutível, como no episódio da proibição dos véus islâmicos na França. Seja como for, ainda não está claro como estes fluxos migratórios podem alterar a tendência para o fim da religião observada nesses países.

Finalmente, que os amantes do pensamento crítico não fiquem muito empolgados. O fim da religião não é o fim do "pensamento mágico". Os gurus da Nova Era, os enganadores da lei da atração, os vendedores de cristais, pulseiras terapêuticas e curas quânticas não se valem necessariamente da religião, e sim da ingenuidade da fé, essa desculpa que damos quando queremos aceitar algo para o qual não existe evidência nenhuma. Essa continua viva, com ou sem religião.

Fonte: A mathematical model of social group competition with application to the growth of religious non-affiliation. Abrams, D.M e cols., http://arxiv.org/abs/1012.1375.