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sábado, 9 de junho de 2012

Maconha; liberou geral?

A notícia sobre a proposta de descriminalização do plantio, compra e porte de qualquer tipo de droga para uso próprio, sugerida pela comissão de juristas que discute a reforma do Código Penal deixou muita gente para lá de preocupada, e alguns decididamente revoltados.

Embora o assunto seja internacionalmente controverso, o que a comissão fez foi seguir uma tendência mundial e irreversível de não tratar o usuário de drogas como criminoso. Essa política só enche os julgados e as cadeias de jovens que precisariam na realidade de cuidado e atenção, e deixa cada vez mais rico o crime organizado. A proposta tenta assim separar o usuário do traficante e surge ante a constatação mundial que a guerra contra o narcotráfico, da forma que está sendo travada, está perdida.

Neste contexto é importante também entender a diferença entre descriminalizar e legalizar. A descriminalização se refere ao usuário, a legalização ao produto. Descriminalizar é reconhecer o óbvio: usuário não é criminoso. Já legalizar daria à maconha, por exemplo, o mesmo status que têm o cigarro e o álcool (como veremos, drogas mais nocivas que a maconha). A Comissão não sugeriu a legalização (por enquanto, a legalização simples já foi defendida até pela imprensa neoliberal como The Economist).

Com a legalização a venda seria permitida com as restrições de praxe. Os que a defendem alegam entre outras coisas que o Estado poderia arrecadar via impostos o que está indo para o bolso do crime organizado. Este dinheiro “limpo” seria usado em programas –sempre muito caros- de reinserção e desintoxicação de viciados, incluindo aqui os viciados em drogas pesadas.

Outro aspecto a ser levado em conta ao discutir o assunto é a tendência de tratar “drogas” como se todas fossem a mesma coisa. O resultado é sempre ruim. Se dissermos que maconha é igual à cocaína, quem já usou maconha muitas vezes e não teve nenhum efeito de dependência poderá pensar “se é tudo igual e a maconha não me fez nada, por que não experimentar heroína ou crack?”.






Quando uma pessoa fuma maconha, seu ingrediente ativo, o Tetrahidrocanabinol (THC), alcança rapidamente o cérebro. Algumas áreas como as indicadas na figura apresentam uma grande quantidade de receptores para THC, como o núcleo accumbens (NA), núcleo caudado (NC), hipocampo (H), área tegmental ventral (ATV), cerebelo (C) e córtex cerebral (Cx). A grande quantidade de receptores no NC e C explica a perda de coordenação motora produzida pela maconha. Já a ligação no hipocampo explicaria a perda de memória de curta duração e outras alterações cognitivas. A ATV e o NA estão relacionados com a ativação do sistema de recompensa, embora os cientistas ainda não saibam exatamente como a maconha produz a ativação desse sistema (ver figura abaixo).


A figura ilustra a hipotética ação de moléculas de THC sobre o sistema de recompensa (núcleo accumbens). A ação parece ser semelhante à descrita para a cocaína (ver aqui). Neste caso, o THC liga-se num terceiro neurônio (acima à direita), o qual libera um neurotransmissor inibitório (GABA) na sinapse. GABA, por ser inibitório, normalmente inibe a liberação de dopamina no neurônio pré-sináptico (superior esquerda). Na presença de THC, o GABA não é liberado e a liberação de dopamina aumenta por falta de inibição. Assim, uma quantidade maior de dopamina acaba ativando o neurônio pós-sináptico (abaixo na figura).





Não, droga não é tudo a mesma coisa. Ao avaliar o dano que uma droga produz são utilizados geralmente três critérios: o dano físico que ela causa (cérebro, coração, pulmões, etc.); a capacidade que ela tem de produzir dependência; e o dano social que provoca em famílias, comunidades, e sociedades. De acordo com essa avaliação as drogas são classificadas em três grupos, A, B e C, sendo as “A” as mais perigosas.

No mais atualizado e amplo estudo sobre essa avaliação de risco das 20 drogas mais consumidas, os especialistas chegaram a algumas conclusões sobre as quais deveríamos refletir. As drogas ganharam notas que vão de 0 (sem dano) a 3 (dano máximo). A heroína foi a pior de todas, com nota 2,78 no dano físico, 3 na dependência, e 2,54 no dano social, seguida de perto pela cocaína (e crack). Numa lista decrescente de danos e sempre nessa sequência de dano físico, dependência e dano social, barbitúricos obtiveram notas 2,23; 2,01 e 2. Álcool 1,4; 1,93 e 2,21; anfetaminas 1,81; 1,67 e 1,5; tabaco 1,24; 2,21 e 1,42; maconha 0,99; 1,51 e 1,5; ecstasy 1,05; 1,13 e 0,97 (veja tabela abaixo).




O gráfico mostra a posição relativa de cada uma das 20 drogas analisadas no estudo de  Nutt e colaboradores (2007).  As notas de 0 a 3 representam a média para dano físico, dependência e dano social. Observar que álcool e tabaco não são classificadas como drogas ilícitas, porém apresentam médias maiores que algumas drogas consideradas entre as mais perigosas (drogas classe A, em vermelho no gráfico).


A tabela detalha todas as notas de cada uma das 20 drogas analisadas. Clique aqui para a imagem original.





Maconha altera a fertilidade? Ainda não ha dados conclusivos, mas um recente estudo indica  que a mobilidade dos espermatozoides e a fecundidade masculina diminuem em camundongos tratados com THC (aparentemente estes resultados não se aplicam a rastafáris).


O estudo reforça o que já se sabia. Os danos físicos de drogas “legais” como álcool e tabaco são maiores que os da maconha.
Isto significa que devemos usá-la? Pessoalmente desaconselho. Ativar o sistema de recompensa mediante atividades prazerosas básicas como sexo e comida é bem mais saudável. Ainda, embora não estejam comprovados danos a longo prazo – salvo para usuários “pesados” -, sob seus efeitos nossa coordenação motora e memória de curta duração passam a funcionar muito mal. Como esta última é a base de vários processos cognitivos importantes, quando estamos chapados não conseguimos aprender nada e, de forma geral, ficamos incapacitados para as atividades diárias que exigem concentração e raciocínio. Por causa disso a imagem de um usuário de maconha em plena viagem só é divertida para alguém que está viajando junto. Torpe, sem lembrar o que acabou de dizer ou fazer, rindo a toa... Definitivamente, nada parecido com a imagem que fazemos de alguém inteligente. Claro que isto não justifica que o indivíduo deva ir para a cadeia. A imagem do bêbado cambaleante é bem mais deplorável e muitos acham engraçado.

E você, que acha? Descriminaliza, legaliza, libera, ou deixa como está?

Informe-se e opine, antes que decidam por você.



Fonte: Development of a rational scale to assess the harm of drugs of potential misuse. David Nutt, Leslie A King, William Saulsbury, Colin Blakemore. Lancet 2007; 369: 1047–53

Em relação à política sobre consumo de drogas, você é a favor de...

domingo, 27 de maio de 2012

Quanto mais pensamos, menos acreditamos

Foto: Nils Jorgensen/Rex Features
Tente resolver este problema: um taco de beisebol e uma bola custam $110,00 e o taco custa $100,00 a mais que a bola. Quanto custa a bola? Se -como a grande maioria- rapidamente concluiu que a bola custa $10,00, provavelmente você é religioso. Mas se respondeu $5, provavelmente você não tem crenças religiosas.

Este e outros testes foram utilizados por um grupo de pesquisadores canadenses interessados em estudar as bases cognitivas da religiosidade. O estudo foi publicado no mês passado na prestigiosa revista Science. Mas antes de tentar explicar a “mágica” por trás desses resultados -e dessas estranhas conclusões- peço ao leitor um pouco de paciência para explicar dois aspectos importantes da sua base conceitual.

1) Já faz algum tempo estudiosos do cérebro tentam elucidar os mecanismos que nos levam à tomada de decisão. Uma das teorias -conhecida como teoria do processamento dual do pensamento humano- indica que em nosso cérebro ocorrem dois processos de análise, diferentes mas interconectados. O primeiro, denominado Sistema 1, é instintivo, intuitivo e aparentemente o compartilhamos com outros animais. De acordo com Daniel Kahneman, um dos idealizadores da teoria, esse sistema “é escravo das emoções, atuando rápida e automaticamente, com pequeno ou nenhum esforço, e sem a percepção de um controle voluntário”. Já o Sistema 2 utiliza o pensamento analítico e é uma conquista evolutiva mais recente, exclusiva dos humanos, não é intuitivo e utiliza o raciocínio lógico para tomar decisões.




A ideia geocêntrica de Aristóteles e Ptolomeu, segundo a qual a Terra seria estática e os outros astros orbitariam ao redor dela, é típica do processamento intuitivo do Sistema 1 (ver no texto). A intuição é apoiada pela informação que nos chega pelos nossos sentidos e pelas nossas concepções mais arraigadas. Mas está errada. Essa visão aristotélica predominou até o século XV quando Nicolau Copérnico fez ressurgir a teoria heliocêntrica de Aristarco de Samos, fruto do pensamento analítico.

Os dois sistemas convivem em nosso cérebro, mas cada indivíduo parece ter o predomínio de um deles. Pela sua base instintiva o Sistema 1 aparece espontaneamente e nos leva a decidir rapidamente com as poucas pistas que temos. Embora tenha desempenhado um papel fundamental em nossa história evolutiva, ele falha bastante quando temos que decidir e analisar coisas complexas (ver a figura acima). O exercício colocado no início deste texto é um exemplo. Utilizando o intuitivo Sistema 1 respondemos $10, e claro, erramos. Poucos tiveram o impulso de verificar essa intuição, transformar a dúvida em uma equação matemática, e verificar que a resposta correta é $5.

2) Também já faz algum tempo os cientistas verificaram que atividades que estimulam o raciocínio analítico –como calcular, refletir, analisar, ordenar sequências de palavras – executadas previamente à realização de testes cognitivos complexos melhoram o desempenho nesses testes; e mais, o processamento analítico subjacente a essas atividades pode até inibir o processamento intuitivo, como se o Sistema 2 fosse agora capaz de bloquear o instintivo Sistema1.

Mas o leitor deve estar se perguntando, que tem a ver isto com ser religioso ou não? De acordo com os pesquisadores, a crença em deuses é composta na realidade de várias presunções intuitivas básicas do Sistema 1, que abrangem conceitos teológicos, dualismo mente-corpo, imortalidade da consciência entre outros. Assim, é de se esperar uma maior religiosidade em indivíduos onde o Sistema 1 é preponderante e uma maior descrença religiosa em indivíduos onde o Sistema 2 comanda.

No estudo da revista Science os pesquisadores verificaram inicialmente que voluntários que respondiam corretamente testes como os colocados no início deste artigo mostravam um menor nível de religiosidade*, confirmando a relação entre fé religiosa e Sistema 1, e descrença religiosa e Sistema 2. 


No estudo canadense foi solicitado aos voluntários que visualizassem a imagem de O Pensador (de Rodin, à esquerda)  ou da escultura O Discóbolo. Observar que as imagens são semelhantes, mas desencadeiam processos cognitivos diferentes. Estudos anteriores já tinham comprovado que a  contemplação de O Pensador  melhorava a capacidade para realizar testes que exigissem raciocínio dedutivo (do tipo  "todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais"). No presente estudo, a observação de O Pensador aumentou significativamente a descrença religiosa.


Posteriormente analisaram se a realização prévia de atividades que estimulam o raciocínio analítico (como a observação da figura acima entre outras), era capaz de alterar o nível de religiosidade. Este grupo foi comparado com o grupo controle, que respondeu os testes de religiosidade sem a realização prévia de atividades analíticas. Os pesquisadores confirmaram que de fato, o nível de religiosidade caía significativamente em todos os experimentos realizados.

De acordo com os autores, quando as pessoas são encorajadas a pensar analiticamente bloqueiam o pensamento intuitivo que é a base da crença religiosa. Talvez isto possa justificar o fato de mais de 90% dos grandes cientistas serem ateus ou agnósticos e que apenas 15% dos filósofos atuais se considerem teístas.

Prevendo a saraivada de críticas que o estudo iria despertar, os autores tentaram relativizar seus resultados o que, aliás, é sempre importante. Não entram no mérito de julgar se o Sistema 1 é melhor ou pior que o 2 , cada sistema provoca resultados diferentes e para cada resultado temos um preço a pagar 
(tenho minhas dúvidas pessoais sobre isto). Também não afirmam que a descrença religiosa esteja apenas baseada na predominância de um dos sistemas. O grau de crença ou descrença pode estar relacionado com aspectos culturais e mesmo com o grau de bem-estar social que o Estado oferece. 

Também, como outros já apontaram, devemos ter muito cuidado ao generalizar estes resultados. É difícil acreditar que filósofos da religião como Tomás de Aquino, David Hume, Emanuel Kant ou George Berkeley seriam menos religiosos caso usassem mais o pensamento analítico.

Mas o estudo é importante já que dá uma base biológica para diferenças que têm sido tratadas com muita intolerância, tanto por parte dos crentes como dos não crentes. Quem sabe, como o Dr. Dráuzio Varella comenta em um recente artigo defendendo seu ateísmo “Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.”

Vamos respeitar então. Sem demonizar.



* O nível de religiosidade foi medido pela escolha espontânea por parte dos voluntários de frases que mais se ajustassem às suas crenças individuais, como "Minha fé envolve toda minha vida", "Na minha vida sinto a presença do Divino", "Minha fé por vezes restringe minhas ações", "Embora eu seja uma pessoa religiosa, não permito que a religião influencie meus assuntos cotidianos", "Quando as pessoas rezam, estão apenas falando consigo mesmas", entre outras.

Fonte: Analytic Thinking Promotes Religious Disbelief. Will M. Gervais, Ara Norenzayan; Science 27 April 2012: Vol. 336 no. 6080 pp. 493-496 DOI: 10.1126/science.1215647

sábado, 19 de maio de 2012

Senado analisa projeto de lei que exige conteúdo científico durante missas e cultos na TV

Se algum leitor religioso achou o título desta postagem absurdo, pode ficar tranquilo, ninguém proporia tal maluquice. Mas o espanto ao ler uma manchete dessas é semelhante ao que alguém preocupado com a educação científica da população sente ao se deparar com campanhas propondo conteúdo religioso nas aulas de ciência, conforme pode ser observado no inacreditável vídeo ao final deste artigo.

Religiosos mais sensatos, claro, não defendem que teorias criacionistas invadam especificamente as aulas de ciência, mesmo assim acham indispensável que o conteúdo religioso seja oferecido aos alunos do ensino fundamental e médio da rede pública.

Um dos argumentos mais utilizados para insistir com essa ideia é que sem religião os indivíduos cresceriam sem uma clara noção do bem e do mal. O argumento não é apenas equivocado, mas como veremos claramente insultuoso.

Afirmar que apenas através da religião podemos criar indivíduos com a correta noção do que é bom e justo é, em outras palavras, afirmar que casais ateus ou agnósticos estão desprovidos da capacidade de educar seus filhos de acordo com os princípios morais que devem nortear nossa sociedade. Mediante uma dedução lógica, devemos concluir que há uma falha moral -ou de algum outro tipo- nessas famílias que lhes impede passar à sua prole as noções fundamentais relacionadas com a honestidade, generosidade, altruísmo, e outras virtudes. Esta “falha” seria compensada por uma educação escolar religiosa.


O projeto de Lei n° 309/2011 "Papai do Céu na Escola", instituindo o ensino religioso obrigatório nas escolas públicas tramita atualmente no Congresso Nacional. Entre os objetivos do projeto "... disseminar, de uma maneira lúdica, a diversidade religiosa do país, os valores morais, a cultura da paz e o respeito às diferentes crenças.". Seu autor, o deputado federal e pastor Marco Feliciano, é o mesmo que tempos atrás  publicou no Twitter Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss.

As religiões, que tão zelosas se mostram para defender seus seguidores dos ataques que os céticos fazem aos implausíveis dogmas que sustentam, parecem não ter igual cuidado ao imputar aos não crentes esse tipo de acusação tão leviana e ofensiva. A nossa não é (ainda) uma sociedade litigiosa, mas nos Estados Unidos casais ateus e agnósticos já estão entrando na justiça por causa desse tipo de opinião emanada de autoridades religiosas. 

O argumento tampouco encontra respaldo em relação ao que sabemos sobre como nosso cérebro forma os conceitos do bem e do mal, e como esses mecanismos foram amadurecendo em nossa longa jornada evolutiva.

Cedo em nossa evolução aprendemos que a possibilidade de sobreviver e ter descendentes em um ambiente hostil seria maior vivendo em grupos que de forma isolada. Nem todas as espécies seguiram esse caminho evolutivo, mas muitas sim.

Entretanto, viver em grupo não é fácil. É necessário criar regras de convívio. Isto pode ser observado em todos os animais gregários. Existem comportamentos que devem ser seguidos e muitas vezes uma hierarquia que deve ser obedecida. Em animais mais simples como as abelhas, por exemplo, boa parte dessas “normas” provavelmente vem já inserida em seu código genético, de forma que o indivíduo adulto é capaz de desempenhar os comportamentos que são benéficos para ele e para o grupo. Em animais mais complexos, além do aspecto genético a capacidade de aprender -que também tem uma base genética- desempenha um papel fundamental. 

Grupo de suricatos enfrentando um predador. Comportamento cooperador e altruísta
pode ser observado em várias espécies, e pode ser a base de nosso apurado senso moral.
 Foto, Tim Clutton-Brock


Comportamentos individuais inadequados geram tensões dentro do grupo, o que pode acabar destruindo sua unidade. O grupo torna-se vulnerável e num ambiente competitivo -como o que tiveram que enfrentar os primeiros hominídeos nas savanas africanas- grupos mais coesos e organizados prevalecem, passando sua bagagem genética e cultural aos seus descendentes. O grupo que não soube controlar os comportamentos individuais de forma a permitir a sobrevivência geral sucumbe. A seleção natural parece ter atuado sobre essas características por milhares de anos, não apenas sobre os indivíduos, mas também sobre os grupos. Esta ação deixou suas marcas na estruturação de nossos circuitos cerebrais.

Aparentemente já nascemos com algo parecido com um senso moral. À medida que nosso cérebro vai amadurecendo com a idade, os circuitos que nos fazem sentir felicidade e orgulho por fazer o bem, e culpa e vergonha ao fazer o mal se consolidam. O que muda é apenas o que catalogamos como mal e como bem. Isto difere em cada sociedade e em cada período da história. Matar, teoricamente, entra na “gaveta” do mal, mas ao matar em nome de deuses ou da pátria, o mesmo ato pode ir para a “gaveta” do bem. O que importa é que todos os seres humanos normais experimentamos sentimentos prazerosos ao fazer (ou pensar em fazer) aquilo que nosso grupo social considera bom, e sentimentos negativos ao fazer o mal. Quando isto não ocorre, escorregamos para a área das sociopatias.


Como vimos, esse sentimento evoluiu a partir de comportamentos que foram selecionados e, o mais importante, precede nossa crença em deuses. Em outras palavras, os deuses apareceram quando já conseguíamos diferenciar o certo e o errado. Por isso o argumento em que se baseia a educação religiosa nas escolas é incorreto.


É provável que em sociedades humanas primitivas e desprovidas do conhecimento que hoje dispomos, códigos como os representados pelos livros sagrados das grandes religiões monoteístas atuais fossem necessários para assegurar a obediência a normas que permitissem a sobrevivência do indivíduo e do próprio grupo. Mas hoje, um sistema educacional moderno seria capaz de formar cidadãos empáticos e solidários, comprometidos com o conhecimento e o bem comum, sem a necessidade de ameaçar as crianças com os terríveis castigos infernais. Por outra parte, sem a doutrinação religiosa seria reduzida a possibilidade de jovens caírem nas garras dos fundamentalistas que tanto ódio, morte e intolerância têm semeado em nossa história recente.



Atenção! 
Ao contrário do título desta postagem, este filme não é brincadeira.





terça-feira, 15 de maio de 2012

Esquecendo a droga

MARIANNE WILLIAMS PHOTOGRAPHY/GETTY IMAGES
Como comentamos em nossa última coluna, um dos problemas enfrentados na reabilitação de viciados é que uma vez que eles abandonam os centros de recuperação o contato com o ambiente e a parafernália associada ao consumo – seringas, cigarros, garrafas, colheres e outros objetos – trás de novo a lembrança do prazer que a droga proporciona e isso leva a recaídas. Seria possível mudar essa lembrança? De acordo com um artigo recém-publicado na revista Science, sim.

Para entender a base desta descoberta devemos recuar aos trabalhos do cientista russo Ivan Pavlov e seus experimentos sobre reflexos condicionados na década de 1920. Pavlov tinha criado um dispositivo capaz de medir a salivação em cães. Ele observou que esta aumentava quando o tratador servia a ração, mas também percebeu que depois de um tempo a simples visualização do tratador, mesmo sem oferecer ração, já provocava um aumento na quantidade de saliva produzida pelo animal.

Pavlov suspeitou que os animais tinham aprendido a associar a imagem do tratador com a alimentação, o que gerava a salivação por ação reflexa. Para testar essa hipótese começou a tocar um sino cada vez que era oferecida ração aos animais. Depois de um tempo e como já era esperado, ao apenas ouvir o sino os animais começavam a salivar.

Pavlov também verificou que se depois dos cães terem feito essa associação (sino / ração) ele tocasse o sino sem oferecer o alimento, após algumas repetições o reflexo de salivação cessava, processo que denominou “extinção”.

Boa parte dos tratamentos para viciados baseiam-se nesse princípio de extinção. Na clínica são colocados ao seu alcance todos os elementos relacionados com seu vício, mas sem oferecer a droga de forma que a lembrança do prazer associado aos objetos vai desaparecendo (ou extinguindo). O problema é que embora esse tipo de terapia funcione na clínica, quando o paciente retorna para casa “limpo” as recaídas são frequentes.

Neste novo estudo, os cientistas descobriram que o processo de extinção poderia ser mais efetivo se fosse associado à modificação prévia da lembrança da droga.

Os pesquisadores trabalharam sobre dois processos já bem conhecidos, o de consolidação e reconsolidação da memória. Consolidação é o mecanismo mediante o qual novas informações são armazenadas na memória de longa duração. Para que isso ocorra a nova informação deve ser “avaliada” por uma estrutura cerebral denominada hipocampo. Uma lesão no hipocampo impede que o paciente crie novas memórias embora continue a lembrar de tudo que ocorreu antes da lesão, algo semelhante ao que acontece no filme “Como se fosse a primeira vez”.


Em vermelho, o hipocampo, estrutura fundamental para a formação de novas memórias.



Já no processo de reconsolidação a memória armazenada é trazida novamente à esfera consciente (recordação), mas quando o fazemos a lembrança fica instável, momento onde ela pode ser manipulada e alterada. É como se tirássemos um texto da gaveta, o modificássemos e depois o guardássemos novamente.

É essa a possibilidade que foi explorada no novo estudo. Nele participaram 66 viciados em heroína. Antes da costumeira terapia da extinção os pacientes foram divididos em três grupos. Dois deles foram expostos a vídeos de cinco minutos mostrando cenas com a injeção ou inalação de heroína, ou filmes sobre assuntos neutros como imagens da natureza (grupos controle). Dez minutos ou seis horas depois dos filmes, todos participaram dos procedimentos de extinção habituais.

Os pesquisadores observaram que a terapia de extinção era agora mais efetiva já que antes dela ser executada a lembrança da droga tinha sido previamente trazida para a esfera consciente mediante os filmes, ficando quimicamente instável e passível de ser alterada posteriormente. Os melhores resultados ocorreram justamente no grupo de 10 minutos, quando a recordação ainda estava fresca.

Embora ainda muita pesquisa seja necessária os resultados abrem uma perspectiva auspiciosa no tratamento do vício. Pesquisadores já tinham tentado manipular a memória utilizando ferramentas farmacológicas. É possível fazê-lo, mas os aspectos éticos destes procedimentos impedem que esse tipo de medicação seja usado em humanos. Este novo tratamento de manipulação comportamental da memória é mais palatável desde o ponto de vista ético, gera resultados por até 180 dias, e em tese poderia ser repetido sem grandes prejuízos para o paciente.

Mas uma pergunta fica no ar. Se cada vez que recordamos algo esse “algo” é modificado, quão a sério podemos levar nossas lembranças?





Fonte: A Memory Retrieval-Extinction Procedure to Prevent Drug Craving and Relapse. Yan-Xue Xue e cols., Science 13 April 2012: Vol. 336 no. 6078 pp. 241-245

sábado, 28 de abril de 2012

Por que as drogas viciam?

Representação artística de uma sinapse.
Dias atrás descrevemos como quatro substâncias químicas produzidas no cérebro são capazes de agir diretamente em nosso humor e percepção da felicidade. De passagem, mencionamos que quase todas as drogas utilizam mecanismos semelhantes para produzir seus efeitos. Alguns leitores ficaram especialmente interessados nesse trecho, e como realmente o problema das drogas é e continuará sendo um grande problema, vale a pena mostrar o que a ciência sabe sobre sua ação.

Todos os mamíferos possuímos em nosso cérebro um conjunto de estruturas que se conectam formando os denominados circuitos de recompensa. É esse sistema o responsável por nos dar a sensação de prazer quando alcançamos um objetivo básico de sobrevivência, como procriar, comer, saciar a sede e cuidar da nossa prole. Nos humanos esses objetivos primários estão por trás de outros comportamentos mais “sofisticados”, como ganhar dinheiro, consumir, sair para a balada, buscar aconchego... Nosso cérebro complexo fantasia os objetivos primários com disfarces socialmente mais palatáveis, mas tudo ativa o mesmo sistema básico. O fato é que o objetivo de obter prazer -e fugir da dor- é o grande motivador de nosso comportamento.






A descoberta do sistema de recompensa remonta aos estudos de James Olds e Peter Milner,
na década de 1950. Estes autores observaram que estimulando mediante eletrodos
 determinas áreas cerebrais de ratos, estes obtinham um efeito prazeroso.
Quando era permitido que os animais se auto-estimulassem mediante
o acionamento voluntário de uma alavanca colocada dentro da jaula (ver na foto),
os ratos repetidamente acionavam o dispositivo mais de 2000 vezes por hora.
Nos anos posteriores foram definidos com precisão os circuitos e foi o verificado
o papel da dopamina nesse sistema.


Esse sistema de recompensa é formado por regiões encefálicas conhecidas como área tegmental ventral, núcleo accumbens, e as regiões cingular e ventromedial do córtex pré-frontal (entre outras). Neurônios dessas estruturas se comunicam entre si mediante a produção e liberação de um neurotransmissor, a dopamina (DA). A quantidade de DA liberada, assim com o tempo que ela permanece comunicando os neurônios é cuidadosamente controlada de forma a não se sentir prazer de mais ou de menos. Se sentirmos prazer constantemente -ou não sentirmos prazer nenhum- não teremos motivação para empreender as ações necessárias para nossa sobrevivência. 


Estruturas e circuitos cerebrais que compõem o "sistema de recompensa".


Podemos ter uma ideia desse equilíbrio ao analisar uma ação corriqueira. Apenas a título de exemplo, lembremos nosso comportamento, ações e desejos ao ver na vitrine um objeto há muito desejado. Possuir esse objeto se transforma no agente motivador do comportamento. Podemos ser capazes de prever o prazer que sentiremos ao possuí-lo. E de fato, na hora da compra, quando o objetivo é alcançado, a DA é liberada no sistema de recompensa gerando o prazer correspondente. Como já vivenciamos, o nível de prazer vai decaindo com o tempo, tempo este coincidente com a reabsorção do excesso de DA.







A figura esquematiza a comunicação sináptica entre dois neurônios. Acima, o neurônio 
pré-sináptico produz e armazena em vesículas (1) neurotransmissores (2), neste caso dopamina (DA). Mediante o estímulo apropriado a DA é liberada no espaço sináptico e se liga aos 
receptores (3) no neurônio pós-sináptico, desencadeando diversas repostas metabólicas. 
Após exercer sua ação, parte da DA volta para o neurônio pré-sináptico
 mediante o sistema de recaptação (4).



O delicado equilíbrio deste sistema é destruído ao consumir drogas. Quase todas elas agem no sistema de recompensa aumentando a quantidade e o tempo que a DA permanece entre os neurônios. A cocaína, por exemplo, bloqueia o sistema de recaptação da DA (ver aqui detalhes desse sistema de recaptação) de forma que esta se acumula em quantidades muito grandes entre os neurônios potencializando a sensação de prazer. Outras drogas, como a heroína, atuam de forma algo diferente, mas o resultado final é sempre um aumento na disponibilidade de DA.





Na presença de cocaína, esta bloqueia o sistema de recaptação (1) o que leva
a um aumento na quantidade de DA no espaço sináptico potencializando
os efeitos metabólicos no neurônio pós-sináptico.

Como a quantidade de DA circulante no sistema é bem maior pela ação da droga, as recompensas naturais associadas à procriação, alimentação, etc., acabam dando um prazer comparativamente menor. Ao mesmo tempo, para compensar o excesso de DA o cérebro responde diminuindo o número de receptores para esse neurotransmissor no sistema de recompensa, o que leva a que seja necessária uma quantidade cada vez maior da droga para obter o mesmo nível de prazer, fenômeno conhecido como tolerância.


Com o passar do tempo, a motivação do viciado se resume às ações necessárias para conseguir a droga. Para quem vê de fora, custa entender como uma pessoa antes tão inteligente e atenta ao seu bem-estar possa estar agora numa situação tão crítica. Será que não consegue perceber as consequências do vício?

Não, não consegue. Em casos graves, a alteração do sistema de recompensa alcança as regiões cerebrais responsáveis pela análise das consequências futuras de nossas ações. A organização temporal do comportamento, que nos permite antecipar o que acontecerá caso façamos isto ou aquilo, para de funcionar corretamente. Com isto, o processo de tomada de decisão fica comprometido, de forma semelhante ao que acontece com pacientes com lesão no córtex pré-frontal (ver aqui e aqui).





Imagens obtidas mediante tomografia de emissão positrônica.
À esquerda o cérebro de um indivíduo normal; à direita, de um usuário de cocaína.
Os níveis de atividade cerebral nesta técnica de imagem criam imagens coloridas,
onde áreas vermelhas representam os maiores níveis de atividade cerebral e as azuis os menores.
Notar que a quantidade de áreas vermelhas no usuário de cocaína é menor que no indivíduo normal.
Estas áreas apresentam uma redução da atividade metabólica
 que com o tempo leva à alteração de várias funções cerebrais.


Assim, o viciado dificilmente consegue se ajudar. A ação de amigos e familiares é fundamental. Clínicas de reabilitação tentam diminuir a dependência química criada, mas as recaídas são muito comuns. A lembrança do prazer proporcionado pela droga volta com força quando o indivíduo retorna ao seu convívio habitual.

Mas, será que podemos modificar essas lembranças e associações numa versão moderna do filme Laranja Mecânica? Podemos manipular a memória para promover a cura?

Ao que parece podemos, mas devemos?

Isto fica para a próxima coluna.