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sábado, 28 de abril de 2012

Por que as drogas viciam?

Representação artística de uma sinapse.
Dias atrás descrevemos como quatro substâncias químicas produzidas no cérebro são capazes de agir diretamente em nosso humor e percepção da felicidade. De passagem, mencionamos que quase todas as drogas utilizam mecanismos semelhantes para produzir seus efeitos. Alguns leitores ficaram especialmente interessados nesse trecho, e como realmente o problema das drogas é e continuará sendo um grande problema, vale a pena mostrar o que a ciência sabe sobre sua ação.

Todos os mamíferos possuímos em nosso cérebro um conjunto de estruturas que se conectam formando os denominados circuitos de recompensa. É esse sistema o responsável por nos dar a sensação de prazer quando alcançamos um objetivo básico de sobrevivência, como procriar, comer, saciar a sede e cuidar da nossa prole. Nos humanos esses objetivos primários estão por trás de outros comportamentos mais “sofisticados”, como ganhar dinheiro, consumir, sair para a balada, buscar aconchego... Nosso cérebro complexo fantasia os objetivos primários com disfarces socialmente mais palatáveis, mas tudo ativa o mesmo sistema básico. O fato é que o objetivo de obter prazer -e fugir da dor- é o grande motivador de nosso comportamento.






A descoberta do sistema de recompensa remonta aos estudos de James Olds e Peter Milner,
na década de 1950. Estes autores observaram que estimulando mediante eletrodos
 determinas áreas cerebrais de ratos, estes obtinham um efeito prazeroso.
Quando era permitido que os animais se auto-estimulassem mediante
o acionamento voluntário de uma alavanca colocada dentro da jaula (ver na foto),
os ratos repetidamente acionavam o dispositivo mais de 2000 vezes por hora.
Nos anos posteriores foram definidos com precisão os circuitos e foi o verificado
o papel da dopamina nesse sistema.


Esse sistema de recompensa é formado por regiões encefálicas conhecidas como área tegmental ventral, núcleo accumbens, e as regiões cingular e ventromedial do córtex pré-frontal (entre outras). Neurônios dessas estruturas se comunicam entre si mediante a produção e liberação de um neurotransmissor, a dopamina (DA). A quantidade de DA liberada, assim com o tempo que ela permanece comunicando os neurônios é cuidadosamente controlada de forma a não se sentir prazer de mais ou de menos. Se sentirmos prazer constantemente -ou não sentirmos prazer nenhum- não teremos motivação para empreender as ações necessárias para nossa sobrevivência. 


Estruturas e circuitos cerebrais que compõem o "sistema de recompensa".


Podemos ter uma ideia desse equilíbrio ao analisar uma ação corriqueira. Apenas a título de exemplo, lembremos nosso comportamento, ações e desejos ao ver na vitrine um objeto há muito desejado. Possuir esse objeto se transforma no agente motivador do comportamento. Podemos ser capazes de prever o prazer que sentiremos ao possuí-lo. E de fato, na hora da compra, quando o objetivo é alcançado, a DA é liberada no sistema de recompensa gerando o prazer correspondente. Como já vivenciamos, o nível de prazer vai decaindo com o tempo, tempo este coincidente com a reabsorção do excesso de DA.







A figura esquematiza a comunicação sináptica entre dois neurônios. Acima, o neurônio 
pré-sináptico produz e armazena em vesículas (1) neurotransmissores (2), neste caso dopamina (DA). Mediante o estímulo apropriado a DA é liberada no espaço sináptico e se liga aos 
receptores (3) no neurônio pós-sináptico, desencadeando diversas repostas metabólicas. 
Após exercer sua ação, parte da DA volta para o neurônio pré-sináptico
 mediante o sistema de recaptação (4).



O delicado equilíbrio deste sistema é destruído ao consumir drogas. Quase todas elas agem no sistema de recompensa aumentando a quantidade e o tempo que a DA permanece entre os neurônios. A cocaína, por exemplo, bloqueia o sistema de recaptação da DA (ver aqui detalhes desse sistema de recaptação) de forma que esta se acumula em quantidades muito grandes entre os neurônios potencializando a sensação de prazer. Outras drogas, como a heroína, atuam de forma algo diferente, mas o resultado final é sempre um aumento na disponibilidade de DA.





Na presença de cocaína, esta bloqueia o sistema de recaptação (1) o que leva
a um aumento na quantidade de DA no espaço sináptico potencializando
os efeitos metabólicos no neurônio pós-sináptico.

Como a quantidade de DA circulante no sistema é bem maior pela ação da droga, as recompensas naturais associadas à procriação, alimentação, etc., acabam dando um prazer comparativamente menor. Ao mesmo tempo, para compensar o excesso de DA o cérebro responde diminuindo o número de receptores para esse neurotransmissor no sistema de recompensa, o que leva a que seja necessária uma quantidade cada vez maior da droga para obter o mesmo nível de prazer, fenômeno conhecido como tolerância.


Com o passar do tempo, a motivação do viciado se resume às ações necessárias para conseguir a droga. Para quem vê de fora, custa entender como uma pessoa antes tão inteligente e atenta ao seu bem-estar possa estar agora numa situação tão crítica. Será que não consegue perceber as consequências do vício?

Não, não consegue. Em casos graves, a alteração do sistema de recompensa alcança as regiões cerebrais responsáveis pela análise das consequências futuras de nossas ações. A organização temporal do comportamento, que nos permite antecipar o que acontecerá caso façamos isto ou aquilo, para de funcionar corretamente. Com isto, o processo de tomada de decisão fica comprometido, de forma semelhante ao que acontece com pacientes com lesão no córtex pré-frontal (ver aqui e aqui).





Imagens obtidas mediante tomografia de emissão positrônica.
À esquerda o cérebro de um indivíduo normal; à direita, de um usuário de cocaína.
Os níveis de atividade cerebral nesta técnica de imagem criam imagens coloridas,
onde áreas vermelhas representam os maiores níveis de atividade cerebral e as azuis os menores.
Notar que a quantidade de áreas vermelhas no usuário de cocaína é menor que no indivíduo normal.
Estas áreas apresentam uma redução da atividade metabólica
 que com o tempo leva à alteração de várias funções cerebrais.


Assim, o viciado dificilmente consegue se ajudar. A ação de amigos e familiares é fundamental. Clínicas de reabilitação tentam diminuir a dependência química criada, mas as recaídas são muito comuns. A lembrança do prazer proporcionado pela droga volta com força quando o indivíduo retorna ao seu convívio habitual.

Mas, será que podemos modificar essas lembranças e associações numa versão moderna do filme Laranja Mecânica? Podemos manipular a memória para promover a cura?

Ao que parece podemos, mas devemos?

Isto fica para a próxima coluna.

sábado, 14 de abril de 2012

Cruzes da discórdia



Ao escrever sobre a ordem judicial que ordenou a retirada dos crucifixos e símbolos religiosos nos espaços públicos dos prédios da Justiça gaúcha, corro o risco de repetir o que muitos outros já comentaram. Mesmo assim, parece oportuno dedicar esta coluna para essa discussão uma vez que ela envolve o próprio conceito do estado laico, tão caro para a cultura científica.

Particularmente acredito que o assunto não deveria criar tanta celeuma se fossem levados a sério conceitos básicos de laicidade e igualdade. Em sua decisão -unânime- os juízes apenas interpretaram o que está escrito no artigo 19 da Constituição Federal, que assegura a laicidade do Estado e veda criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si. Ou como manifestou o relator da matéria, Desembargador Cláudio Baldino Maciel, “... o julgamento feito em uma sala de tribunal sob um expressivo símbolo de uma Igreja e de sua doutrina não parece a melhor forma de se mostrar o Estado-juiz equidistante dos valores em conflito.”.

É indubitável que a imagem da cruz possui para os cristãos um forte apelo emocional associado ao conceito de transcendência. Fui católico por muitos anos, sei bem o que isso representa e acho que esse sentimento deve ser respeitado.

É justamente por entender a importância que para alguns os símbolos religiosos possuem que sua retirada de lugares públicos –e especialmente dos locais onde se exerce a justiça- faz todo o sentido. Parece evidente que se os crucifixos são importantes para os católicos, os demais símbolos religiosos, desde a estrela de Davi do Judaísmo, a lua crescente do Islamismo, o Yin-Yang do Taoísmo, a Dharmacakra do Budismo, o Enkan do Seicho-no-ie, os símbolos da Umbanda, os das divindades Yanomamis e tantos outros são igualmente importantes e transcendentes para as demais denominações religiosas. Autorizar a permanência de apenas um dos símbolos e impedir a exibição dos demais cria distinção entre brasileiros, o que não apenas é moralmente condenável como vedado constitucionalmente. E a menos que a situação mude nosso país ainda é regido pela Constituição e não pela Bíblia.

Assim, parece exorbitante a reação das autoridades eclesiásticas ante essa decisão. Já se fala em ofensa e perseguição e se exorta à comunidade católica resistir a esta tentativa, como se de guerra santa se tratasse. Juristas católicos veem inclusive os primeiros sinais do apocalipse!

Os argumentos utilizados pelas autoridades católicas para justificar tão evidente descaso com o conceito de imparcialidade do Estado ante assuntos religiosos parecem-
me pouco convincentes. Basicamente se resumem a uma suposta tradição cristã que surge dos primórdios da nossa colonização. 

Sempre fico preocupado quando nos pedem para acreditar ou fazer algo em nome da tradição. Tradições não deveriam ser, 
a priori, um bom motivo para acreditar ou fazer qualquer coisa. Provavelmente existam tradições que valha a pena seguir e outras não. Como já foi citado por outros que discutiram este assunto, a escravidão foi uma das tradições mais persistentes. De tão tradicional ela foi defendida por Aristóteles e contemplada nos livros sagrados das principais religiões monoteístas atuais, e inclusive nas primeiras constituições do Brasil e outros países. 

Fazer algo apenas porque vem sendo feito há muito tempo não indica que nossa ação esteja correta. Tradições se mantêm não porque tenham sua origem em fatos reais ou justificáveis, e sim pela inércia de repetir o que nossos antepassados fizeram.

A Igreja Católica não deveria então se sentir perseguida ao ser lembrada que todos somos iguais perante a lei e que o Estado não tem religião oficial. Ao contrário, deveria aplaudir uma decisão que, na prática, segue uma orientação de Jesus para não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem. Com certeza, nem as autoridades católicas nem seus seguidores achariam correto que as paredes do Supremo Tribunal Federal fossem adornadas com imagens de Oxossi ou da pomba voando no coração vermelho da Igreja Universal do Reino de Deus.






Em tempo, dias atrás (09/03/2012) esta Folha lançou uma enquete sobre o assunto. Para minha surpresa, mais de 80% dos votantes foram favoráveis à retirada dos crucifixos dos lugares públicos.

Sinais do apocalipse?

sábado, 31 de março de 2012

A inútil busca pela felicidade eterna

Felicidade virou objeto de consumo. Ambicionamos ser constantemente felizes como mostram os anúncios de televisão onde são todos jovens, bonitos, extrovertidos e sempre sorridentes. Nossa realidade, claro, é bem diferente. A juventude desaparece inexoravelmente, pouquíssimos somos bonitos, nem todos são extrovertidos e isso de estar felizes sempre pode ser sintoma de uma doença denominada mania.

Embora a experiência individual de felicidade seja um fenômeno complexo, vários de seus componentes como o prazer, conforto, satisfação, amparo, realização, etc., são o resultado secundário da ação de quatro substâncias químicas que nosso cérebro produz: endorfinas, dopamina, ocitocina e serotonina. Sua produção e liberação em áreas cerebrais específicas é um processo extremamente preciso e complexo, fruto de milhões de anos de evolução. Ao nos dar prazer, elas nos motivam para empreender ações e comportamentos que são fundamentais para nossa sobrevivência e para a reprodução. Como prêmio de salvar nossa própria pele e espalhar nossos genes, o cérebro recompensa com emoções positivas e orgasmos.

Nossos momentos mais felizes coincidem quando o nível de um desses quatros neurotransmissores –ou mais de um deles- está em seu pico mais alto. Nosso cérebro capta então que esse nível está elevado, confere se a ação primária do neurotransmissor foi desempenhada e imediatamente começa a remover o excesso dessas substâncias (recaptação). Ao fazer isto, a sensação de felicidade desaparece.

O problema é que esta descida natural de nosso estado anímico não condiz com a imagem de felicidade eterna à qual acreditamos ter direito. A volta ao estado normal é então confundida com “in-felicidade”, que confundimos por sua vez com tristeza e finalmente a associamos –para alegria da indústria farmacêutica- a uma profunda depressão.



Figura 1 - Microfotografia de dois neurônios corados com um marcador fluorescente. O quadrado branco indica o local onde o neurônio A entra em contato com o neurônio B. As setas vermelhas sinalizam o caminho da informação (de A para B). O local de contato entre os neurônios (sinapse) dentro do quadrado está ampliada (e esquematizada) na figura abaixo. 






Figura 2 - Esquema da sinapse indicada na figura 1. No neurônio A (denominado pré-sináptico porque está antes da sinapse no sentido do caminho da informação) encontramos organelas como as mitocôndrias (1), que fornecem energia à célula, e vesículas (2) contendo algum dos neurotransmissores citados no texto (neste caso, serotonina). No momento oportuno (7), as vesículas são liberadas na fenda sináptica (4) e acoplam com os receptores localizados no neurônio pós-sináptico (5) iniciando uma série de ações. O excesso de serotonina é recaptado pelo neurônio A (8). Medicamentos como o Prozac inibem esta recaptação (8), permitindo que a serotonina permaneça mais tempo na fenda sináptica, prolongando seus efeitos.


Obviamente, depressão tem pouco ou nada a ver com isso. Depressão é uma doença que só pode ser diagnosticada eficientemente por um psiquiatra, e dos bons. Os altos e baixos de nosso humor fazem parte de um processo natural de equilíbrio de neurotransmissores associado com os problemas normais do dia a dia.

Um exemplo típico deste processo é o da endorfina. Como o nome indica -morfina interna- sua função principal em todos os mamíferos é eliminar a dor e gerar um estado de euforia. Por causa dessas propriedades, ela é liberada em situações onde ficar paralisado por causa da dor pode ser a pior das soluções. Imaginemos estar em meio a uma briga feroz (podemos também imaginar o antílope lutando para escapar das garras do leão). Se a dor provocada por uma ferida nos paralisa é bem provável que nosso oponente aproveite esse momento para dar o golpe definitivo. É nessa hora que a endorfina entra em ação. Pela sua ação a dor é suprimida e ao mesmo tempo sentimos a força necessária para continuar a luta ou, se for o caso, fugir. Mas assim que estamos a salvo não faz mais sentido continuar com um cérebro encharcado de endorfina. Precisamos sentir a dor das feridas para dar a elas uma atenção prioritária. Claro que os efeitos eufóricos também acabam. Essa não é mesmo a hora de estar feliz.



Nesta hora a gazela não pode parar para cuidar suas feridas.
A endorfina inibe a dor e dá forças para continuar a corrida.


Uma história parecida nos contam os outros neurotransmissores. Os níveis de dopamina, por exemplo, sobem e ativam nosso sistema de recompensa quando empreendemos ações que nos levam a saciar nossas necessidades básicas, como alimentação e sexo. Depois que foram atendidas seu nível decai. Caso contrário sentiríamos o bem-estar gerado pelo sistema de recompensa mesmo quando não fazemos nada para suprir nossas necessidades. 
Não teríamos a motivação necessária para iniciar tarefas relacionadas com nossa sobrevivência individual e da nossa espécie, o que seria um péssimo negócio (curiosamente, as drogas pesadas agem justamente nesse sistema cerebral de recompensa, substituindo nossos desejos naturais de nos alimentar, saciar nossa sede e procriar pelo único objetivo de consumir a droga).


Neste quarteto, a ação da ocitocina é fundamental para estabelecer laços de confiança e afeto duradouros. Durante a amamentação ocitocina é liberada no cérebro da mãe e do filhote, reforçando os laços familiares, o comportamento materno e gerando a agradável sensação de amparo. Também liberamos ocitocina ao receber uma massagem e durante o orgasmo o que cria laços entre parceiros sexuais. Quanto mais sofisticado o cérebro do mamífero, mais complexas são as alianças sociais. Um cérebro constantemente encharcado de ocitocina nos levaria a confiar e estabelecer laços afetivos com todos indistintamente. Pode parecer até bonito, mas nas duras condições de sobrevivência impostas em milhões de anos pela seleção natural, isto seria inviável.

A compreensão destes mecanismos nos permite lidar de forma mais tranquila com nossos estados anímicos. Analisar nossos sentimentos de fundo, reconhecer se existem causas reais quando eles são negativos, relacioná-los com processos químicos normais de nosso cérebro -processos que compartilhamos com todos os mamíferos-, pode ser um passo importante para iniciar novos comportamentos recompensadores. Mas cuidado com essa necessidade constante de colocar a toda hora novas e mais difíceis metas para provocar picos dopaminérgicos. Não force a barra. Muitas vezes a melhor coisa a fazer é, simplesmente, não fazer absolutamente nada.




Leitura recomendada

Towards a functional neuroanatomy of pleasure and happinessKringelbach MLBerridge KCTrends Cogn Sci. 2009 Nov;13(11):479-87. Epub 2009 Sep 24.

Meet Your Happy Chemicals: Dopamine, Endorphin, Oxytocin, Serotonin.  Breuning, LG, 2012. 



sábado, 17 de março de 2012

A partícula de Deus, e Deus

A esta altura muitos já devem estar ao tanto das notícias que chegaram no final do ano passado desde a sede da Organização Européia para a Pesquisa Nuclear (em francês, Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire ou CERN, como é mais conhecida), e que foram parcialmente confirmadas por cientistas americanos do acelerador Tevatron/Fermilab esta semana.
Resumidamente, os mais de cem pesquisadores que neste momento realizam experimentos nos dois grandes aceleradores obtiveram evidências -ainda não conclusivas- sobre a possível existência do bóson de Higgs, partícula subatômica hipotética que serviria para dar massa a todas as outras partículas do universo.

A expectativa dos cientistas do CERN e do Fermilab se justifica. O bóson de Higgs (em homenagem a Peter Higgs, que em 1964 junto com outros cientistas postulou teoricamente sua existência) é fundamental para manter em pé o chamado modelo standard da física de partículas, a principal teoria que tenta explicar boa parte das coisas que ocorrem no universo, entre elas, a formação de toda a matéria conhecida.

O modelo standard da física começou a ser erguido a partir da década de 1970 e novas partículas com nomes exóticos como lepton, quark, charm, tau, strange foram surgindo, algumas inicialmente em modelos matemáticos e depois comprovadas experimentalmente. Mas do bóson de Higgs, nem notícia.

Contrariado com esse fato, outro grande físico, Leon Lederman, ganhador do prêmio Nobel, escreveu em 1993 um livro cujo título inicial era "A Partícula Maldita" ("The Goddamn Particle"), em alusão às dificuldades em encontrá-la. Entretanto, o editor achando que o título “maldita” poderia resultar ofensivo decidiu trocá-lo por “A partícula de Deus”, uma denominação que Higgs, como ateu, sempre questionou e que até agora gera uma grande e desnecessária discussão. De fato, a existência do bóson de Higgs permitiria explicar como toda a matéria poderia ter surgido a partir do nada, algo que afetaria um dos argumentos preferidos pelos teólogos para defender a ideia de um criador (não à toa, o papa João Paulo II pediu teria pedido ao físico Stephen Hawking para não estudar a origem do universo, solicitação que felizmente não foi atendida; ver aquiaquiaqui e no vídeo abaixo).

Mas a postagem de hoje não é sobre física, e sim sobre religião e sobre ciência. No final deste texto e aqui disponibilizamos links que direcionam o leitor para páginas mais apropriadas para entender a importância da existência ou não do bóson de Higgs.

Na pesquisa para escrever esta coluna cheguei a um artigo do teólogo Alister McGrath. Não sou fã dele, mas reconheço que vez ou outra apresenta bons argumentos e é capaz de debater à altura com cientistas e filósofos ilustres como Richard Dawkins e Daniel Dennet.

McGrath coloca uma questão muito instigante, não estaria o bóson de Higgs para os cientistas assim como Deus para os religiosos? De fato, cientistas utilizam uma partícula ainda inexistente para apoiar uma teoria que explicaria o resto das coisas que podem ser observadas. Por enquanto, a existência do bóson de Higgs só ocorre porque ela dá sustentação a uma concepção do universo que é cara à comunidade científica. 



De acordo com McGrath – que provocativamente chama o bóson de Higgs “partícula da fé” - o mesmo acontece com os religiosos, para quem só a existência de Deus dá sentido ao universo que eles podem observar. 
Assim, por que esses cientistas chatos ficam no pé dos crentes pedindo provas da existência de Deus quando eles fazem a mesma coisa, sustentando toda uma teoria do universo encima de uma partícula que só existe na imaginação do Sr. Higgs?

A colocação de McGrath não está totalmente errada, mas como foi bem observado pelo biólogo PZ Myers em seu ótimo blog Pharyngula, ignora o fundamental. Foi justamente para não permanecer no campo da fé que centenas de cientistas de mais de 100 países juntaram nove bilhões de dólares para construir a maior e mais sofisticada máquina da história da humanidade, um imenso tubo/acelerador de prótons de mais de 27 km localizado 175 metros abaixo do nível do solo na fronteira franco-suíça. 



Tudo para quê? Para testar uma hipótese. Se a hipótese não for confirmada, todo o modelo standard da física terá que ser revisto. Sem problema. Nada melhor para a ciência que abandonar velhas teorias quando as evidências não mais as suportam. Isso faz parte do seu ethos. 

E aí está toda a diferença. Para a religião é impensável testar a hipótese de Deus. O questionamento fica sempre truncado pelo dogma. Questionar é pecado. Assim, nossas faculdades de pensamento crítico não se desenvolvem.

O mais preocupante é que muitos –temo que a maioria- querem que essa forma não questionadora de pensar volte a ser predominante em nossa sociedade, até nos bancos escolares.

No momento que escrevo esta coluna as autoridades políticas de Ilhéus declaram obrigatória a reza do pai nosso nas escolas, as de Araguaína exigem a leitura da bíblia em sala de aula, deputados do Rio aprovam a liberação de R$ 5 mi dos cofres públicos para evento religioso, nosso prefeito entrega as chaves da cidade para o deus dos cristãos e nossa presidenta coloca um líder religioso no ministério da pesca, assunto sobre o qual o novo ministro, como faz questão de esclarecer, não entende patavina.

Quando vejo este panorama tão pouco propício à cultura da ciência, vem à minha mente uma frase do saudoso Carl Sagan...

“A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se avoluma. Os demônios começam a se agitar.”

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Quem criou o universo? 
O fantástico documentário
 (em quatro partes) da Discovery,
 criado e narrado por Stephen Hawking. 
Assistam com calma e atenção. 
Professores, exibam nas escolas!

sábado, 3 de março de 2012

Uma anomalia chamada seios

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Chamar os seios de anomalia pode parecer uma afronta. Seios exercem um enorme fascínio sobre os homens, ao menos sobre os heterossexuais. Mas, por quê? E mais, por que as mulheres têm seios e não apenas mamas?

Para começar a entender o motivo pelo qual muitos cientistas acham que os seios são uma anomalia evolutiva, vale a pena analisar o que acontece com os outros animais.

A existência de mamas é, obviamente, uma caraterística de todos os mamíferos. Em todos, elas têm a função de produzir leite para alimentar a prole. Assim, sua estrutura é basicamente composta de tecido glandular. Esse tecido aumenta de tamanho apenas próximo e durante o período de lactação. Quando a fêmea deixa de amamentar ele regride de forma que suas mamas ficam aproximadamente do mesmo tamanho que as do macho. Isto pode ser visto em praticamente todos os mamíferos, incluindo aqui os grandes primatas não humanos (gorilas, bonobos, chimpanzés e orangotangos). Menos em nossa espécie.





O tórax desta gorila fêmea adulta pouco se diferencia em relação ao macho.


As mamas de nossas fêmeas possuem, além do tecido glandular, quantidades abundantes de tecido adiposo e tecido conjuntivo. Ao contrário dos outros mamíferos, o crescimento dos seios começa na puberdade, sem nenhuma relação com a amamentação. Embora durante a amamentação aumentem de tamanho, finalizado esse período continuam bem maiores que as mamas do macho. Não há nenhuma relação confirmada entre o tamanho das mamas e a quantidade ou qualidade do leite produzido. Seios grandes indicam fundamentalmente seios com um maior conteúdo de gordura. Mulheres anoréxicas ou maratonistas profissionais, onde há uma queda acentuada na quantidade geral de gordura pelo corpo têm uma redução acentuada do tamanho e consistência dos seios. Mulheres que fazem regime severo sabem disso.



O desenho mostra o aspecto interno da mama de uma mulher adulta.
Comparar a quantidade de tecido glandular (produtor de leite) na cor roxa em relação
ao tecido adiposo (amarelo) e conjuntivo (bege).


Tudo indica então que as mamas adquiriram em nossa espécie outra função além daquela básica de amamentar os filhotes. Qual seria? De acordo com estudos evolutivos, mamas sempre volumosas são um ornamento selecionado por processos de seleção sexual, algo análogo à vistosa cauda do pavão. Daí nossa atração atávica.

A evolução desse traço parece ter sido bem recente, originando-se provavelmente depois que alguns hominídeos adquiriram uma postura ereta, o que aconteceu há uns 4,2 milhões de anos AEC. Com o bipedalismo, o pênis, clitóris, mamas, cintura e quadril ficaram expostos e tornaram-se alvos potenciais da seleção sexual. O mesmo aconteceu com a agora volumosa região glútea. Já vimos que este processo afetou também a evolução do pênis, cujo tamanho relativamente avantajado parece ter sido resultado da seleção da fêmea. Da mesma forma, é bem provável que machos tenham determinado mediante processos seletivos a morfologia externa dessas estruturas em suas parceiras.

Mas por que seios sempre volumosos poderiam representar uma vantagem evolutiva? Ao que parece, durante o pleistoceno -período geológico onde os humanos evoluímos- seios volumosos poderiam servir como sinalizadores de juventude, saúde geral e inteligência, características que tornariam a fêmea desejável desde o ponto de vista reprodutivo. De fato, seios grandes dão boas dicas da idade. A ação da gravidade e as repetidas gestações exercem um efeito já bem conhecido por todos: os seios “caem”. Assim, seios empinados seriam um claro sinal de juventude que não passaria inadvertido pelos machos.

Seios volumosos também dariam importantes pistas sobre o estado de saúde da fêmea e sua capacidade de enfrentar as adversidades do ambiente. E isto parece não estar relacionado com o tamanho dos seios, e sim com sua simetria. A bilateralidade das estruturas do nosso corpo, como braços, dedos, seios e estruturas da face está determinada em nossos genes. A ordem genética é criar estruturas bilaterais idênticas. Mas fatores ambientais como nutrição, doença, contaminação do ambiente, estresse, etc., acabam interferindo nesse processo provocando assimetrias (em biologia, isto é denominado assimetria flutuante). Estruturas assimétricas indicam que a ação dos genes não foi suficientemente robusta a ponto de contornar esses fatores. Ao contrário, altos níveis de simetria (simetria absoluta é muito raro) é sinal de uma boa capacidade do indivíduo resistir às ameaças ambientais.

A escolha de indivíduos com elevados níveis de simetria foi comprovada em testes de atração facial. Quando confrontados a fotografias, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes faces simétricas. Por outra parte, mulheres com seios simétricos têm maior índice de fertilidade.

Finalmente, seios volumosos (e quadril largo) também seriam um sinal de acúmulo de gordura. Nas duras condições das savanas africanas do pleistoceno, este acúmulo indicaria, em parte, uma maior possibilidade das fêmeas enfrentarem períodos com pouca oferta alimentar e ao mesmo tempo uma habilidade comparativamente maior para conseguir alimentos, todas características vantajosas desde o ponto de vista da sobrevivência.

O aumento comparativo do tamanho das mamas nas fêmeas humanas veio acompanhado de outras caraterísticas. Houve um deslocamento do tecido adiposo no abdome feminino. Gorilas e chimpanzés fêmeas acumulam gordura na cintura e no quadril, de forma semelhante ao que acontece em machos humanos. Já a silhueta de fêmeas humanas jovens e férteis apresenta forma de ampulheta, com uma cintura fina e medidas maiores na região do quadril e seios. Esta silhueta permitiria mesmo a distância e em condições de pouca luminosidade –o que deveria ser comum nas savanas africanas por onde nossos ancestrais viveram por centenas de milhares de anos- que fêmeas férteis fossem facilmente distinguidas de machos e mesmo de fêmeas idosas, onde a silhueta já não guarda essas proporções.





Ao longo da história, várias culturas em diversas regiões do planeta reverenciaram
 a silhueta feminina em forma de ampulheta. Nesta estátua, a deusa hindu Parvati
 tem essa forma exagerada, provavelmente enfatizando sua fertilidade.


Silhueta apropriada, nádegas arredondadas, seios simétricos e empinados sinalizam fêmeas jovens, férteis e saudáveis, aptas assim para gerar descendentes bem adaptados . Um material em tanto sobre o qual toda a seleção guiada pelo sexo pudesse agir durante centenas de milhares de anos e provocasse ainda nos politicamente corretos dias de hoje algumas situações constrangedoras, como a do filme abaixo.




Fontes:


Moller, AP, Soler, M and Thornhill R (1995) Breast asymmetry, sexual selection, and human reproductive success. Ethology and Sociobiology. 16 (3): 207-219
Zaidel, DW e cols., (2005) Appearance of symmetry, beauty, and health in human faces. Brain and Cognition 57 (2005) 261–263
Jahme C., Breast size: a human anomaly; The Guardian (Science), 14/05/2010.