Páginas

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cientistas acreditam em Deus?

Michelangelo: A criação de Adão. Capela Sistina
O debate entre ciência e religião não é novo e, pelo visto, torna-se cada dia mais intenso. A compatibilidade entre as duas formas de pensar tem sido negada por alguns e defendida por outros. Neste sentido, a existência de cientistas profundamente religiosos parece ser um forte argumento para alguns defensores dessa compatibilidade. Mas é preciso ter cuidado com esta premissa.

Primeiro vamos aos números. Quando se analisa esse assunto, são geralmente citados dois estudos. Um deles é do psicólogo J. H. Leuba, de 1916 (e repetido em 1933), e o outro, bem mais recente, de Larson e Withman, de 1998, publicado na prestigiosa revista Nature.


Leuba pesquisou estatisticamente a fé dos cientistas em um Deus que responde à prece e promete a imortalidade. Os entrevistados foram 1000 cientistas norte-americanos, físicos e biólogos, aleatoriamente selecionados entre a comunidade acadêmica daquela época. Desses 1000, 400 foram classificados como "grandes cientistas". Dos cientistas entrevistados (em 1916) 42% acreditavam em Deus, 42% não acreditavam e 17% tinham dúvidas ou eram agnósticos (números arredondados). Entre os grandes cientistas apenas 28% acreditavam, 53% não acreditavam e 21% tinham dúvidas ou eram agnósticos. 

Quanto à vida após a morte, 51% dos cientistas acreditavam, 20% não acreditavam e 30 % tinham dúvidas ou eram agnósticos. Entre os grandes cientistas 35% acreditavam na imortalidade, 25% não acreditavam e 44% tinham dúvidas. 

Dezessete anos depois (1933), Leuba repetiu a pesquisa apenas entre os “grandes cientistas” e constatou que a crença em Deus tinha despencado de 28 para 15%, e a crença na imortalidade de 35 para 18%.

A pesquisa de Leuba foi repetida por Larson e Withman em 1998 e 1999. Assim, em 1998 39% dos cientistas estadunidenses acreditavam em Deus, contra 45% de ateus e 15% de agnósticos. Quanto à imortalidade 38% acreditavam, 47% não acreditavam e 15% tinham dúvidas. Mas a mudança mais acentuada se deu entre os considerados “grandes cientistas”. Entre estes, apenas 7% acreditavam em Deus, 72% eram ateus, e 21% agnósticos. Quanto à imortalidade, o número dos que não acreditavam subiu para 77%. 


Larson e Withman concluem: “Ciência e religião estão se envolvendo num diálogo e debate mais ativo, mas um levantamento (amplo) indica que as crenças dos cientistas pouco mudaram desde a década de 1930 e que os cientistas mais eminentes estão mais ateus do que em qualquer outra época.”



Comparação dos dados entre os “grandes cientistas”
Crença em Deus
1914
1933
1998
Acreditam
27,7
15
7
Não acreditam
52,7
68
72,2
Duvidam/agnosticismo
20,9
17
20,8




Crença na imortalidade
1914
1933
1998
Acreditam
35,2
18
7,9
Não acreditam
25,4
53
76,7
Duvidam/agnosticismo
43,7
29
23,3


Provavelmente, são esses 7% de grandes cientistas que acreditam em Deus os que suportam, em parte, o argumento sobre a compatibilidade entre ciência e religião. Mas o argumento parece não resistir à lógica. Um cientista pode ser também racista, mas isto não cria compatibilidades entre ciência e racismo. Da mesma forma, rabinos podem furtar gravatas, o que não cria compatibilidades entre judaísmo e furto; bispos(as) evangélicos podem ser presos nos Estados Unidos por evasão fiscal, mas isto não cria compatibilidades entre evangélicos e a fraude. Padres católicos podem ter abusado sexualmente de crianças, o que não cria compatibilidades entre a religião católica e a pedofilia. Essas atitudes contraditórias do nosso comportamento são inerentes aos seres humanos, religiosos ou não, e quem sabe possam ser explicadas por neurocientistas, antropólogos, ou psicólogos, mas não criam compatibilidades entre as ações.

Uma definição importante sobre a (in)compatibilidade entre ciência e religião é fornecida pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, um país com profundas raízes religiosas: "A religião e a ciência são reinos separados e mutuamente excludentes do pensamento humano, cuja apresentação no mesmo contexto leva a mal-entendidos tanto da teoria científica como da prática religiosa" (recentemente, entretanto, alguns cientistas eminentes defenderam que a fé religiosa é um fenômeno biológico/evolutivo que pode ser estudado sim pela análise científica; voltaremos a este assunto em outra oportunidade).

Independente da liberdade de cada um acreditar no que quiser, ciência e religião são incompatíveis fundamentalmente pelo método que utilizam para chegar ao conhecimento. No pensamento religioso a “verdade” é conhecida fundamentalmente através de três elementos: tradição (acredito porque meu pai acredita, porque meu avô acreditava..., e assim de geração trás geração), autoridade (acredito porque o Papa ordenou), e revelação (acredito porque fulano teve uma visão). 

Esses argumentos de autoridade e fé são incompatíveis com o método científico. Este incorpora uma mente aberta para aceitar teorias, mas seguido de um rigoroso ceticismo científico que questiona e exige evidências sobre a teoria apresentada. Sem esse ceticismo perderíamos a capacidade de separar o joio do trigo, de forma que a teoria mais absurda passaria a ter a mesma força que aquela apoiada em evidências sólidas.


Isso pode soar complicado, mas não é. Você pode prevenir a paralisia infantil do seu filho rezando, colocando cristais para “canalizar” energias “positivas” ao redor da cama, ou dando uma vacina. Se você optou pela vacina, no fundo, já está entendendo as diferenças e as incompatibilidades.



Fontes: 
Leuba, J. H. The Belief in God and Immortality: A Psychological, Anthropological and Statistical Study (Sherman, French & Co., Boston, 1916).
Larson, E. J. & Witham, L. (1998); Leading scientists still reject God; Nature, 394: 313. 
Larson, E.J. and L. Witham, L. (1999). Scientists and religion in America. Scientific American, 281: 88-93.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Bisfenol A – O veneno escondido


Sem dúvida, a internet tem revolucionado a forma de nos comunicar e transmitir dados. No meio dessa enxurrada de informações, algumas chamam nossa atenção. Quem já não recebeu e-mails alertando sobre o perigo que representa determinado refrigerante, cosmético, alimento e tantas outras coisas. Muitas dessas informações não passam de boatos sem nenhuma fundamentação que lotam nosso computador com bobagens de todo tipo. 
Curiosamente, no caso do bisfenol A isso não tem acontecido. E não que o bisfenol não mereça entrar no rol dessas “correntes” e lendas urbanas. Essa substância, também conhecida como BPA, é amplamente utilizada em uma enorme gama de produtos plásticos, como garrafas, embalagens para alimentos, revestimento de recipiente de leite, tubulação, mamadeiras, brinquedos, e até mesmo em selantes e resinas dentais. 

A utilização de BPA em mamadeiras e outros produtos
foi banida em vários países do mundo.


Tampouco são recentes as suspeitas que o BPA tem efeito tóxico para o organismo. Mesmo assim, a FDA (Food and Drug Administration), agência que faz o controle e autoriza a liberação para consumo dos alimentos, medicamentos, cosméticos, etc., nos Estados Unidos, tem autorizado a comercialização de produtos com BPA. Segundo ela, nas quantidades que vem sendo consumido, o BPA não traria danos para os seres humanos. Valendo-se dessa autorização, a Associação Dental Americana (ADA) por exemplo, continua a liberar e recomendar a utilização de produtos odontológicos à base de BPA.

Entretanto, nos últimos meses dados científicos e investigativos exigiram que a FDA aceitasse no início de junho deste ano reconsiderar sua posição e restabelecer o antes possível quais os níveis máximos de BPA permitidos.

Um dos alertas foi dado por um grupo de 30 renomados especialistas, que denunciam que tanto a FDA como sua contra-parte europeia EFSA (European Food Safety Authority) têm baseado a liberação do BPA em dados originados fundamentalmente de apenas dois estudos, ambos oriundos de laboratórios ligados às empresas fabricantes de BPA, e ao mesmo tempo têm dado muito menos importância a “uma grande quantidade (centenas) de experimentos independentes realizados com fundos estatais por um grande número especialistas de vários campos da ciência ao redor do mundo”. Estes estudos indicariam que o BPA é tóxico mesmo em concentrações que a FDA aprova.

Em um desses trabalhos, apresentado neste mês de junho em um congresso da Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos, cientistas mostraram que baixas doses de BPA provocavam arritmias cardíacas em ratas. Esses resultados vieram a confirmar dados anteriores que indicavam uma maior frequência de doença cardíaca em pessoas com altos níveis de BPA na urina.

Em outro estudo, um grupo de pesquisadores demostrou que a exposição de ratas prenhes a doses de BPA iguais ou mesmo inferiores aos níveis considerados aceitáveis pela FDA provocavam alterações no sistema reprodutor dos fetos. Ratas nascidas de mães que tinham sido expostas a essas doses baixas de BPA nos primeiros dias de gravidez, tinham um adiantamento no início da puberdade, importantes malformações nos ovários e perda prematura do ciclo reprodutivo. Esses dados são importantes já que mostram que as doses que a FDA recomenda como seguros, de fato não o são, pelo menos para os ratos.

Um dos autores do estudo, o Dr. Heather Patisaul da Universidade da Carolina do Norte nos Estados Unidos, afirmou que embora os dados tenham sido obtidos em roedores e não em humanos “eles se somam ao crescente conjunto de evidências que indicam que a exposição a baixas doses de BPA durante o período fetal pode ter impacto na saúde reprodutiva feminina”. De acordo com Hugh Taylor, cientista chefe na Universidade de Yale nos Estados Unidos, o BPA mesmo em pequenas doses alteraria os genes necessários para uma gravidez normal, “Ele muda o código do DNA e a capacidade do DNA expressar esses genes” alertou. Segundo o cientista, a mensagem para as mulheres grávidas é: “apenas tente evitar beber e comer de embalagens de plástico e, quem sabe, não utilize selantes odontológicos nesse período. Não há nada de errado em comer vegetais frescos”.

Bom, e agora? Como escapar de um mundo rodeado de BPA por todos os lados? Selantes odontológicos, por exemplo, têm contribuído muito para a redução do número de cáries em nossa população. Até agora, aplicar selantes só tinha benefícios. A dose de BPA contida neles estaria dentro dos níveis de segurança. Mas se esses dados, como parece ser, não correspondem à realidade? Qual agora a relação custo/benefício?

A lembrança dos clorofluorcarbonos (CFC´s) vem logo à memória. Os níveis utilizados no final da década dos '60 pareciam ser seguros. Cientistas alertavam entretanto que os CFC's estavam destruindo a camada de ozônio, mas só quando o buraco nesta camada foi constatado em 1985 é que providências foram tomadas.

O mais paradoxal é que já podem ser fabricados plásticos sem BPA. Não imagino o motivo da resistência das agências reguladoras e da indústria em banir o BPA, como foi feito com o amianto, e substituí-lo por materiais mais seguros.

Você imagina?



Fontes: Why Public Health Agencies Cannot Depend on Good Laboratory Practices as a Criterion for Selecting Data: The Case of Bisphenol A; Myers, J.P e cols., Environmental Health Perspectives, 117(3), 2009.

Neonatal bisphenol-A exposure alters rat reproductive development and ovarian morphology without impairing activation of gonadotropin releasing hormone neurons; Patisaul, H. e cols., Biology of Reproduction (publicado on-line, 17/06/2009).

Bisphenol A exposure increases risk of abnormal heart rhythms in female rodents; Wang, H.S. e cols., The Endocrine Society's 91st Annual Meeting, Washington, D.C., 06/06/2009.







Atualização


Este artigo foi publicado na Coluna Ciência do jornal Folha da Região no dia 27 de junho de 2009. De lá para cá, um informe da FDA aumentou a preocupação quanto ao uso do BPA.
 O Canadá classificou o BPA como tóxico, e a Comunidade Europeia baniu o uso de BPA na fabricação de mamadeiras
No Brasil, está em tramitação na Câmara dos Deputados um projeto de lei do deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) que proíbe o uso do BPA em mamadeiras e produtos destinados ao consumo em todo o território nacional. 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Turismo científico é opção para Araçatuba

Foto: Tim Brooke
Quem como eu já mora nesta cidade há um bom tempo, deve estar familiarizado com as infrutíferas tentativas de transformar Araçatuba numa Estância Turística. Não tenho certeza, mas é bem provável que todas as administrações municipais que se sucederam nos últimos 25 anos tenham tentado conseguir esse status. Como sabemos, sem nenhum sucesso. 

Não é de fato fácil reconhecer em Araçatuba as características necessárias que a transformem em pólo de atração turística. Quem inicia sua visita desde nossa rodoviária não deve ter uma impressão positiva. E descobrir que esse mesmo prédio mal cuidado é a sede do governo municipal não ajuda muito.

Desde o ponto de vista urbanístico, não se observa um planejamento definido, nem um desejo real –salvo poucas e honrosas exceções nascidas fundamentalmente de iniciativas individuais - de criar espaços públicos que embelezem a cidade. Aqui, como na maioria das cidades do Brasil, priorizamos os espaços particulares - casas, condomínios, ranchos - em detrimento do espaço público, que em vez de ser de todos, parece ser de ninguém. Mas turistas visitam cidades, e não fazendas ou clubes particulares.

Em termos de belezas naturais, décadas de uma economia baseada na produção extensiva de gado seguido agora pela monocultura de cana de açúcar, transformaram nossa paisagem natural nisso que vemos no longo trecho da Rodovia Marechal Rondon, já desde Bauru. Um enorme oceano de pastagens e cana, com quase nada de mata nativa. Já a parte que nos toca do Rio Tietê é de difícil acesso e parece não representar atrativo diferencial suficiente para trazer turistas.

É difícil enxergar uma solução a curto prazo para resolver esses problemas. Transformar a cidade mediante um plano urbanístico que priorize os espaços públicos, embora necessário, pode levar décadas e recursos que não existem, além de uma mudança de mentalidade. Recuperar o meio ambiente já tão degradado é também uma medida necessária, mas na pouco crível hipótese que venha a ser implementada os resultados começariam a aparecer apenas em décadas.


Nesse contexto, a opção de turismo científico faz um enorme sentido. Algumas cidades do mundo fazem desse tipo de turismo temático um forte chamariz. Já mencionamos aqui o caso de Valencia, na Espanha (800.000 habitantes). A partir das últimas décadas do século 20 via sua economia decair e o número de habitantes diminuir. Entre as opções para reverter essa situação, as autoridades valencianas construíram a “Ciudad de las Artes y de las Ciencias”, um belíssimo conjunto arquitetônico onde, como o nome indica, o visitante passeia entre exposições científicas e artísticas de todos os tipos.

Ciudad de las Artes y de las Ciencias, em Valencia, Espanha,
projeto arquitetônico de  Santiago Calatrava e Félix Candela


Até 2003 (o complexo foi inaugurado em 1998) já tinham sido investidos 400 milhões de dólares. Mas o retorno foi extraordinário. Em quatro anos, só o museu de ciência tinha recebido sete milhões de visitantes! Além disso, a cidade capitalizara 500 milhões de dólares em investimentos desde que o centro fora projetado. Foram construídos mais de 30 hotéis, cinco mil apartamentos e um shopping center. Com isso, foram gerados em torno de 16 mil empregos diretos, além dos benefícios indiretos.

Todos esses números são de tirar o fôlego, e não temos a utópica pretensão de imaginar em Araçatuba algo dessa magnitude. Mas ilustra como esse tipo de projeto pode conciliar educação, cultura, turismo e dinamismo econômico. E não é exclusividade dos países ricos. Existem experiências semelhantes em México, Colômbia ou Uruguai, países com realidades sócio-econômicas semelhantes às nossas, e vários no Brasil. Em Porto Alegre, por exemplo, uma das principais atrações turísticas é o Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica. Em São Paulo, o Espaço Catavento faz parte de um roteiro de turismo científico que inclui planetários, aquários e centros ligados à USP, como a Estação Ciência. Brotas, aqui pertinho, também investe em um turismo semelhante, através do projeto CEU.

Aspecto interno do Museu de Ciências e Tecnologia da
Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre, RS 


Anos atrás pensamos em uma solução semelhante para nossa cidade, em parceria com a UNESP. O projeto arquitetônico, encomendado a um dos principais arquitetos museológicos de São Paulo, pode ser visto neste blog , junto com os outros centros citados neste artigo. 


Um espaço como esse - parceria entre a UNESP, o poder público e a iniciativa privada- poderia dar a nosso município o atrativo diferencial para torná-lo pólo turístico regional, com o concomitante incentivo à atividade econômica. Além de um espaço difusor da cultura da ciência, peça fundamental para a construção das “Sociedades do Conhecimento”, poderia ser o local adequado para que a indústria da região exibisse seu compromisso com a ciência, a tecnologia e a inovação .

Aspecto externo do Museu Interativo de Ciências de Araçatuba,
 projeto arquitetônico idealizado pelo arquiteto paulistano
 Vasco Caldeira. O display multimídia externo exibe
 futuras exposições e os patrocinadores do Museu.



Aspecto externo do Museu Interativo de Ciências de Araçatuba,
 projeto arquitetônico do arquiteto Vasco Caldeira


Aspecto interno dos espaços expositivos do
Museu Interativo de Ciências de Araçatuba  (arquiteto Vasco Caldeira)










Planta do projeto para o Museu Interativo de Ciência de Araçatuba..
O espaço, de 1.200 metros quadrados abriga áreas expositivas,
 planetário, café e loja entre outros.



Planilha de custo (estimativo).

Enfim, trata-se de um projeto moderno, exequível e inovador, que em cinco anos seria capaz de estar já funcionando e transformando nossa realidade. Uma proposta concreta de educação e desenvolvimento científico e tecnológico. Um passo certo em direção ao progresso aliando educação, inovação e sustentabilidade. 

Como aconteceu 100 anos atrás, o trem da história pode passar por aqui. Resta esperar que encontremos os novos “Fundadores”.

sábado, 18 de junho de 2011

Mulheres têm mesmo obsessão pelo tamanho do pênis?

Priapo, deus grego da fertilidade,
 pesando seu pênis em ouro,
num afresco da Casa dei Vettii, em Pompeia.

Em tempos tão politicamente corretos como os atuais fazer esta pergunta pode parecer uma heresia, mas como nossas características físicas -e mesmo cognitivas- foram influenciadas pelos politicamente incorretos critérios da evolução darwiniana, a pergunta faz muito sentido, haja vista a quantidade de vezes que este assunto aparece na mídia virtual e escrita.

Para entender a complicada história do nosso pênis e tentar responder a pergunta inicial, devemos recuar 15 a 20 milhões de anos, quando surgiram os primeiros primatas da família Hominidae, que originaram os atuais gorilas, chimpanzés, orangotangos, bonobos e nossa própria espécie. As características que nos diferenciam são o resultado desses milhões de anos de evolução, onde não apenas a seleção natural mas também a seleção sexual foram nos fazendo de jeito que somos. O pênis, claro, não fugiu a este processo.

Se compararmos o pênis entre essas espécies de grandes primatas, observaremos algo curioso. O pênis do gorila é o menor de todos, atingindo em média três centímetros quando ereto, mesmo sendo o gorila o maior de todos os símios com seus mais de 200 quilogramas. Já o dos chimpanzés e bonobos atinge aproximadamente oito centímetros e o do homem 14 centímetros em ereção máxima, em média. Assim, o pênis humano é o maior em comprimento e largura entre os grandes primatas, tanto em termos absolutos como em termos relativos. 


Apesar da sua imponência, o pênis do gorila
 é o menor entre os grandes primatas.

Mas existem outras diferenças além do tamanho. Tanto gorilas quanto chimpanzés e bonobos têm um osso no interior do pênis (denominado báculo) de forma que a ereção é basicamente uma simples ação muscular. No homem, o báculo não existe e o mecanismo de ereção é bem mais complicado, dependendo de uma complexa interação psicológica, neurológica, vascular e endócrina que leva ao acúmulo de sangue e assim à turgidez e aumento de tamanho peniano (se tivéssemos báculo, provavelmente não existiria disfunção erétil nem Viagra!!).

Como isto ocorreu? Por que essas diferenças? Pelo que as pesquisas têm apontado, a resposta parece indicar que esta evolução foi direcionada pela escolha da fêmea, nos casos, claro, em que ela pôde escolher.

Entre os gorilas, por exemplo, as fêmeas têm pouquíssima escolha. O macho dominante, com seus músculos e caninos avantajados, expulsa os outros machos de forma que as fêmeas só podem copular com ele. Não há opção para elas nesse sistema de harém. 

Já no matriarcal e pacífico grupo dos bonobos, as fêmeas dão as cartas. Sabiamente, quando o nível de agressividade começa a aumentar, elas incentivam práticas sexuais homo e heterossexuais de forma que a paz volta rapidamente. Pelo que conhecemos, entre nossos ancestrais Homo tivemos um sistema matriarcal semelhante, de forma que as fêmeas tiveram a opção de escolher o macho. Considerando que entre os Homo erectus (este erectus não tem nada a ver como o pênis) e sapiens primitivos que nos precederam a prática das preliminares provavelmente não estava estabelecida, apresentar um belo falo poderia ser um atrativo importante para a fêmea em termos do prazer que ele poderia proporcionar. Alguns autores afirmam que o bipedalismo total observado apenas no homem, pode em parte estar relacionado com a possibilidade de exibir melhor seu pênis. 

Já em relação ao tamanho dos testículos, são os bonobos os que os têm proporcionalmente maiores e, mais uma vez, os gorilas os menores, estando os humanos numa posição intermediária. Os biólogos acreditam, pelas evidências disponíveis, que grupos de animais onde uma fêmea copula com vários machos –como nos bonobos- a competição entre machos não ocorre dentro do grupo, e sim dentro da vagina. Produzir muitos espermatozóides e ejaculações volumosas pode ser uma vantagem competitiva na hora de fecundar o único óvulo. No caso dos gorilas o sêmen do líder não compete com outros, assim testículos grandes e ejaculações volumosas seriam um gasto de energia desnecessário. Já com os bonobos –e outros mamíferos- ocorre o contrário.


Bonobo relaxando.

Cada vez fica mais claro para os especialistas que a seleção sexual, geralmente baseada na escolha da fêmea, foi bem mais importante do que o próprio Darwin pensara. A psicologia evolutiva, uma fantástica e apaixonante área do conhecimento, começa a nos mostrar que este tipo de seleção não apenas moldou nossos aspectos físicos como nossa sofisticada capacidade intelectual.

Em relação à pergunta inicial, provavelmente nem todas as mulheres têm obsessão pelo tamanho do pênis, e parece óbvio que na cultura atual o tamanho do pênis não é fator fundamental na escolha do parceiro. Todos sabemos que outros fatores jogam papel mais destacado. Mesmo assim as mulheres não podem deixar de pensar nisso já que esse assunto está profundamente arraigado em sua história evolutiva. A cultura pode ter dado uma suavizada, mas o apelo inicial ainda está lá no cérebro.


Onde ler mais:

-Jahme C., Penis size: An evolutionary perspective; The Guardian (Science), 07/05/2010.
-Dixson, A. (2003) Sexual selection by cryptic female choice and the evolution of primate sexuality. Evolutionary Anthropology; 11 (S1): 195-199.
-de Waal, F. B. M., (1995) Bonobo sex and society, the behavior of a close relative challenges assumptions about male supremacy in human evolution. Scientific American, March 1995, 82-88

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Experiências fora do corpo

As chamadas “experiências fora do corpo” (EFCs) vêm intrigando a humanidade há séculos. EFCs podem ser definidas como experiências subjetivas nas quais uma pessoa aparentemente consciente vê seu corpo e o ambiente desde uma posição afastada do seu corpo físico, como se estivesse flutuando. Uma experiência semelhante é a autoscopia, onde sem “sair” do nosso corpo, vemos uma projeção dele separada do corpo real. Essas experiências costumam ser descritas por indivíduos atravessando situações traumáticas como acidentes de carro ou durante cirurgias, mas foram também relatadas durante acidentes vasculares cerebrais, epilepsia, uso de drogas, paralisia do sono, entre outras.

Desde o ponto de vista místico/religioso a explicação é simples. Nosso espírito, uma entidade independente do corpo físico, nessas ocasiões simplesmente se separa, ou desencarna parcialmente, ou ocorre uma “projeção astral”, etc.

Já para a ciência, que não tem nenhuma evidência que justifique a existência de espírito, alma, ou consciência independente do cérebro, as EFCs são uma ótima oportunidade para fazer perguntas e entender um pouco mais sobre o funcionamento cerebral. Além do mais, EFCs podem fazer parte de doenças neurológicas e psiquiátricas, o que torna uma necessidade entender por que o cérebro cria esses estados.

Recentemente, pesquisadores europeus conseguiram o que parecia ser coisa de ficção científica, reproduzir EFCs em laboratório.

No início, isto ocorreu quase acidentalmente quando um grupo de neurocirurgiões tentava localizar focos epilépticos no cérebro de uma das pacientes. Para isto, estimulavam eletricamente áreas específicas do córtex cerebral. Estimulando uma região chamada giro angular
, um dos pesquisadores observou que sua paciente movia a cabeça para a direita. Intrigado, perguntou por que fazia isso e ela respondeu que tinha a estranha impressão que outra pessoa estava deitada embaixo dela. Essa pessoa não se mexia, nem falava, parecia ser um jovem que queria lhe impedir alguma coisa. Mudando a posição da paciente (agora sentada segurando seus joelhos) e estimulando novamente o giro angular, esta sentia a presença desagradável dessa imagem também sentada atrás dela, segurando-a. Quando tentou ler uma carta, a sombria figura tentava arrebatá-la das suas mãos, “Ele não quer que eu leia”, explicava a paciente ao médico.


Pelo fato da presença imitar a postura e posição da paciente, o pesquisador concluiu que o estímulo elétrico artificial se somava ao estímulo vindo dos olhos, articulações, etc., formando duas imagens do corpo, uma criada pela estimulação normal dos nossos sentidos no giro angular, e outra criada pela estimulação artificial na mesma região cerebral. Mas por algum motivo, a jovem não conseguia perceber que essa segunda imagem era um dublê do seu próprio corpo.


Já outra paciente ao ser estimulada na mesma região cerebral comentou alarmada “Estou no teto. Estou olhando minhas pernas penduradas lá embaixo. Que está acontecendo?”. A cada novo estímulo, a jovem começava a flutuar.

Os cientistas perceberam então que estavam estimulando uma área cerebral responsável pela formação de nossa imagem corporal. Para formá-la, essa região recebe informações sobre nosso corpo que chegam a partir dos órgãos dos sentidos. A imagem que vêem nossos olhos, a informação que vem do toque das nossas mãos, do cheiro, informações sobre nossa posição e movimentos captadas por músculos e articulações. Tudo de forma sincronizada. Quando tudo funciona bem temos a imagem normal do nosso corpo. Mas quando nosso cérebro recebe informações desencontradas, como no caso da estimulação elétrica artificial, se confunde.


Em lilás, o giro angular, uma das regiões do cérebro
 responsáveis pela formação da imagem do nosso corpo.



Em virtude desses resultados, os pesquisadores começam a acreditar que os relatos de EFCs obedeçam à estimulação anômala nesta área cerebral (giro angular). Isto poderia ocorrer devido a traumatismos e hemorragias (como decorrência de acidentes de carro), sob a ação de drogas que afetem o cérebro (anestésicos, entorpecentes, etc.), ao despertar (quando nosso cérebro recomeça a atividade), etc.

Como conseqüência destes novos descobrimentos os pesquisadores, mediante técnicas de realidade virtual, estão conseguindo agora projetar o “eu” de voluntários sadios em imagens virtuais dos seus próprios corpos. As implicações destes experimentos são inimagináveis. É possível que em breve possamos entrar realmente em personagens virtuais, como as que “vivem” no jogo Second Life. Sentir em nosso corpo real o que acontece a esses personagens no computador. Mas também, pelo mesmo princípio, um cirurgião poderá se projetar em sua imagem virtual localizada em outro hospital, em outro continente.

Assim, e bem ante do que se pensava, a neurociência começa a dar passos desconcertantes em direção a um dos grandes mistérios da humanidade: nossa consciência.

Fonte: 
Arzy, S., Seeck, M., Ortigue, S., Spinelli, L., Blanke, O., 2006. Induction of an illusory shadow person: Stimulation of a site on the brain's left hemisphere prompts the creepy feeling that somebody is close byNature, 443(21), pp.287.