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sábado, 12 de outubro de 2013

Por que ainda lemos horóscopos?

Este ano* é, de fato, um ano de comemorações. Além de celebrarmos dois séculos do nascimento de Darwin e 150 anos da publicação da sua obra prima sobre a origem das espécies, comemoramos o 400° aniversário do nascimento da astronomia moderna. Ela nasce a partir das primeiras observações telescópicas do céu feitas por Galileu Galilei.

A importância de Galileu não apenas para a astronomia como para toda a ciência e o pensamento contemporâneo é enorme, talvez maior que a do próprio Darwin. Mas deixaremos este assunto para uma próxima oportunidade.

O nascimento da astronomia moderna, baseada em observações precisas e a adoção do método científico, inicia a clara separação desta com a astrologia, com a qual compartilha origens comuns. A astronomia é uma ciência cujo objeto é a observação e o estudo sistemático do universo e dos corpos celestes, analisando com rigor científico a sua natureza, a sua constituição e as suas características. Já a astrologia não é ciência e sim um conjunto de crenças e tradições que utiliza a posição aparente de alguns corpos celestes para determinar as características psicológicas e até o destino de pessoas e nações.

Assim, fica na área do misticismo e, para alguns, da diversão despreocupada. Nada contra então, e não haveria motivo para ocupar espaço em uma coluna como esta, destinada à divulgação científica.

Entretanto, um número cada vez maior de astrólogos afirma publicamente a validade "científica" da astrologia, e isto merece um esclarecimento. Por outra parte, o aspecto divertido da astrologia se perde quando descobrimos, por exemplo, que o ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, utilizava a astrologia para tomar as mais importantes decisões. Aí, claro, a coisa complica.





De acordo com os astrônomos, a própria base astronômica da astrologia é obsoleta. Mas não teríamos espaço nesta coluna para abordar esses detalhes. Discutiremos apenas duas de suas premissas básicas.

A primeira é que corpos celestes distantes são capazes de exercer influência sobre a personalidade e destino das pessoas. A premissa apoia-se provavelmente na observação dos efeitos da lua sobre as marés. Se a lua tem a força suficiente para influenciar as marés, como não vai influenciar as pessoas e os demais seres vivos, sendo que estes são constituídos fundamentalmente de água? O argumento parece razoável, mas está errado. A lua influencia as marés através da força gravitacional. Quanto maior o tamanho dos corpos (lua e oceanos, por exemplo) maior será a força gravitacional que os atrai, mas quanto mais longe estiverem um do outro, essa força diminui exponencialmente... Como a massa dos oceanos é muito grande, a força gravitacional entre a lua e a água oceânica é intensa a ponto de provocar as marés.

Mas a massa de água de nosso corpo é proporcionalmente insignificante, de forma que quando fazemos as contas, descobrimos que um simples mosquito pousado no braço do obstetra exercerá sobre o recém nascido uma força gravitacional muito superior àquela que poderiam exercer a lua, Marte e Júpiter juntos.

Outra premissa astrológica é a importância da data exata do nosso nascimento para estabelecer padrões de personalidade. Entretanto, de acordo com as evidências científicas que dispomos, estes padrões estão diretamente relacionados com a organização cerebral... Esta por sua vez é influenciada por vários fatores.

O primeiro é o genético. É na hora da fecundação (e não do nascimento) que se estabelece o código com a informação básica para a formação do cérebro. Os nove meses de gestação também são fundamentais. Aspectos da organização cerebral (e com isso traços básicos da personalidade) estão sujeitos a fatores relacionados com a saúde materna (se a mãe fuma, bebe, usa drogas, se alimenta adequadamente, sofre estresse, é diabética, tem alterações hormonais, etc.).

O período entre o nascimento e o fim da adolescência é também crítico para moldar o padrão de personalidade que observamos no adulto. Nesta fase é importante a quantidade de estímulos que a criança recebe, a atenção que lhe é dispensada, a alimentação, o tipo de educação –se mais restritiva ou permissiva, laica ou religiosa-, o nível sócio-econômico, os padrões culturais, etc.

Não existe nenhuma evidência que a data e hora do nascimento (que pode até ser estabelecida pela agenda do obstetra ou do hospital) tenha alguma relevância.

Mas vamos dar à astrologia o benefício da dúvida. Aceitemos por um instante que exista de fato algum tipo de força ou energia cósmica ainda não conhecida pela ciência que possa influenciar nosso destino e personalidade.

Vamos ainda aceitar que o momento do nascimento, contra todas as evidências disponíveis, tenha também importância. Se assim fosse, seria possível, com rigor científico, correlacionar data e hora de nascimento com características de personalidade. Seria possível comparar, por exemplo, indivíduos que nasceram na mesma cidade, no mesmo dia e com diferença de no máximo cinco minutos, em relação a esses atributos. Se esses estudos existissem e mostrassem o acerto nas previsões astrológicas, seria fascinante tentar compreender como isso acontece.

Esse tipo de análise exige alguns requisitos importantes: a amostragem (número de pessoas entrevistadas ou previsões checadas) deve ser o suficientemente grande para dar segurança estatística. De preferência, os indivíduos analisados devem desconhecer o motivo da consulta. Se sabem que é para testar a astrologia e eles são favoráveis a ela, provavelmente tenderão a dar repostas que a favoreçam. Os métodos estatísticos utilizados para a análise devem ser atualizados e corretamente aplicados. Finalmente, os estudos devem ter sido publicados em revistas científicas sérias, às quais toda a comunidade tenha acesso.

Consultando a literatura, encontramos poucos estudos que cumpram esses requisitos. Os dois mais importantes são da década passada, ambos analisando inteligência e personalidade, e nenhum sobre previsões futurológicas.

O primeiro deles pesquisou a inteligência (através de 19 tipos diferentes de testes) e diversas características de personalidade (baseadas no questionário Eynseck, muito utilizado pelos psicólogos) de mais de 4.300 veteranos de guerra norte-americanos e de 11.448 jovens que se alistaram no serviço militar dos Estados Unidos (uma amostragem para lá de satisfatória). Os participantes foram agrupados de diversas formas, ora considerando o dia, a estação, ou o mês nascimento; signo zodiacal, signo zodiacal associado com os elementos terra, água, fogo e ar, ou signo zodiacal associado com o gênero astrológico. Agrupando dessa forma, poderia se estabelecer, caso existisse e por menor que fosse, uma relação entre nível de inteligência ou tipo de personalidade daqueles que nasceram na primavera, ou em maio, ou são virginianos, ou do elemento terra, etc. Entretanto, os resultados mostraram de forma conclusiva a inexistência de qualquer relação entre o momento do nascimento com as características de inteligência e personalidade estudadas.

O segundo estudo foi mais intrigante. Ele analisou inteligência e personalidade de 2.101 pessoas nascidas em Londres entre 3 e 9 de março de 1958. O detalhe é que esses indivíduos nasceram com uma diferença, em media, de 4,8 minutos ("gêmeos de horário" ou time twins, não confundir com gêmeos reais, os quais sim podem ter muitas características semelhantes). Para astrólogos de renome na Inglaterra, pessoas nascidas com essa pequena diferença de tempo e na mesma cidade, deveriam ter realmente "similaridades extraordinárias de vida e temperamento". Para os próprios astrólogos consultados, essa amostragem sim daria uma evidência solida a favor da astrologia.


Os testes de inteligência e personalidade foram realizados aos 11 anos, e repetidos aos 16 e 23 anos, e incluíram testes padrão de QI, capacidade de leitura e cálculo, avaliação por parte de pais e professores de aspectos comportamentais como ansiedade, agressividade e sociabilidade; dados sobre peso, altura, capacidade visual e auditiva; auto-avaliações sobre habilidades individuais para a arte, música e esportes; e várias outras informações como ocupação, estado civil, propensão a acidentes, entre as mais de 100 variáveis analisadas.

Mais uma vez, o índice de semelhança entre os "gêmeos de horário" era o mesmo que se esperaria entre pares de pessoas escolhidas aleatoriamente: 50%. Os 2.101 piscianos do experimento eram tão parecidos entre si, como o seriam com qualquer outra pessoa de outro signo.

Desta forma, a astrologia não apenas não consegue explicar seus hipotéticos mecanismos de ação, como falha rotundamente quando suas previsões são analisadas de forma crítica e independente.

Alguns opinam que os jornais deveriam inserir ao lado da coluna dos horóscopos uma frase como "As predições astrológicas desta página são exclusivamente para entretenimento e carecem de qualquer validade científica."

Não seria uma má ideia. O que você acha?


*Este artigo foi originalmente publicado em 2009, mas a devoção astrológica permanece tão forte quanto naquele tempo.

Fontes: 
Is Astrology Relevant to Consciousness and Psi? Dean, G. and Kelly, I.W., Journal of Consciousness Studies, 10:175–198, 2003. 
The relationship between date of birth and individual differences in personality and general intelligence: A large-scale study; Hartmann, P.; Personality and Individual Differences 40:1349–1362, 2006.

domingo, 29 de setembro de 2013

O mistério das mesas girantes

Dias atrás a justiça do Reino Unido condenou o empresário Jim McCormick a passar 8 anos na cadeia. Motivo? Malandragem pseudocientífica.

É raro quando isto acontece, mas parece que McCormick passou da linha. Ao longo dos últimos dez anos embolsou mais de 50 milhões de libras (mais de 180 milhões de reais) vendendo detectores baseados nos princípios da radioestesia, a capacidade que algumas pessoas teriam de captar radiações emitidas pelos mais diversos objetos mediante o uso de pêndulos, forquilhas, etc. Geralmente os radioestesistas são chamados para procurar coisas mais inofensivas como água subterrânea, petróleo e outros minerais e, de forma geral, qualquer coisa que o cliente estiver procurando (e disposto a pagar).

Entretanto os “detectores” de McCormick prometiam detectar bombas, e com esse objetivo foram comprados pelas forças de segurança do Iraque e de outros países como Nigéria, Síria, México e Líbano. O resultado foi o esperado. Os detectores não detectavam nada, mesmo por que a radioestesia não tem nenhum fundamento científico. É difícil calcular quantas pessoas foram mortas por acreditar nos poderes dos detectores vendidos por McCormick, mas provavelmente não foram poucas. Daí a condenação.

Os humanos temos mesmo a tendência de acreditar em coisas malucas. De associar fenômenos naturais com causas sobrenaturais. Já falamos dos fenômenos de padronicidade e agenticidade nesta coluna (ver aqui). Quando um fenômeno escapa à nossa compreensão imediata rapidamente apelamos para o misticismo. Energias ocultas, deuses, etc. Este tipo de pensamento parece ser quase automático, e foi bem descrito pelo prêmio Nobel Daniel Kahneman (ele o definiu como “pensamento rápido”). Nosso cérebro parece vir de fábrica mesmo pronto para acreditar.

Já o processo que nos obriga a ir além desse pensamento rápido e automático é muito mais trabalhoso. Nasce com uma simples questão: será que é assim mesmo? Será que não existe explicação natural para esse fenômeno? Este processo não é automático, é mais lento, e consome mais energia. Enquanto nossa preocupação mais imediata como espécie era escapar de predadores para sobreviver, o pensamento rápido foi fundamental (ainda é muito útil). Já quando os problemas que tivemos que começar a resolver foram mais complexos esta forma do cérebro funcionar não foi mais satisfatória.

Acreditar que um pêndulo balançando em nossa mão (pode ser uma forquilha de madeira ou algo pretensamente mais sofisticado como os detectores de McCormick) pode nos dar informações sobre objetos enterrados, faz parte desse tipo de pensamento mágico que associa um fenômeno natural (o movimento do pendulo) com algo sobrenatural (uma energia ainda desconhecida que seria captada por pessoas “sensitivas”). No mesmo campo podemos incluir o tabuleiro ouija, a brincadeira do copo, e até o fenômeno das mesas girantes, tão na moda nas sessões espíritas do século 19.

Em todos esses casos, os movimentos produzidos são rapidamente associados a causas sobrenaturais. Por definição, causas sobrenaturais escapam à abordagem científica. São crenças que não estão baseadas em evidências testáveis. Enfim, não é ciência. Mas haveria uma explicação científica para esses fenômenos?

Sim. 


O primeiro a descrevê-los sem atribuir causas sobrenaturais perece ter sido o cientista inglês William Benjamin Carpenter em 1852 ao analisar os movimentos observados no tabuleiro ouija. Ele percebeu que contrações musculares poderiam ser produzidas de forma inconsciente, originadas mediante sugestão, sem percepção por parte do seu autor, e denominou esse fenômeno efeito ideomotor. Assim, pêndulos, copos, tabuleiros ouijas e mesas seriam movimentadas não pela ação de forças sobrenaturais e sim pela ação muscular involuntária do indivíduo devidamente sugestionado.

Um dos primeiros a testar essa possibilidade foi o físico inglês Michael Faraday em 1853, quem confirmou mediante um experimento bastante original que as mesas que se movimentavam durante sessões espíritas da época também estariam sujeitas e este tipo de efeito. De lá para cá o efeito ideomotor foi confirmado em diversos estudos.

Já sobre o caso McCormick, ele é exemplar para mostrar que o preço que se paga por não incluir algo de racionalidade científica em nossas decisões, pode ser muito, muito alto.

sábado, 31 de agosto de 2013

Os cubanos vêm aí

Que você acha dessa história toda dos médicos cubanos que a Dilma quer trazer? 

Essa foi a pergunta que me fizeram dias atrás, e eu, francamente, não soube que responder. Tenho acompanhado o assunto com um certo desinteresse. Dependendo do espectro ideológico de quem analisa essa questão (e dos seus interesses particulares) os médicos cubanos variam desde guerrilheiros comunistas despreparados a anjos socialistas do terceiro milênio.

Como sempre, muita versão e pouco fato. De todo este barulho, umas poucas conclusões: a) temos uma carência localizada de médicos, o que afeta a população mais pobre e carente do Brasil; b) para alguns tudo o que vem de Cuba é bom; c) para alguns tudo o que vem do PT é ruim.

O fato também bastante óbvio é que a classe médica tem se mostrado para lá de corporativa. Não apenas desconfia dos médicos cubanos, mas também dos profissionais da saúde brasileiros que não sejam médicos (a tentativa de impor o chamado “Ato Médico” é um exemplo disso). Nada contra o corporativismo. Existe em todos os lugares. O problema é quando ele quer se sobrepor aos interesses gerais. No Brasil isso é muito comum mas não deveria ser aceito pela sociedade.

Temos também os vergonhosos episódios de xenofobia antilatino-americana que agora mostrou sua cara. Quanto isso está - infelizmente -interferindo no julgamento de muitos? Não sei.

Em meio a tanto interesse e preconceito implícito ou explícito, fica difícil fazer uma análise isenta. Então, é isso, não tenho ainda uma opinião formada sobre o assunto.

Uma coisa parece clara: nosso país tem carência de profissionais capacitados em muitas áreas. A engenharia, por exemplo, é uma delas. Não temos suficientes engenheiros e abrir novos cursos não resolve. Entre outros motivos, temos poucos (bons) engenheiros porque nossos alunos são muito ruins em matemática (ver aqui). E isso vem de uma carência do ensino fundamental e médio. Resolver esse problema (caso exista interesse) pode demorar décadas. Mas precisamos engenheiros agora. Sem eles o Brasil não conseguirá se desenvolver tecnologicamente e estes são tempos dominados pela ciência, a tecnologia e a inovação. Teremos que importar profissionais como os Estados Unidos, Austrália e outros tantos países que precisavam se desenvolver fizeram. Os engenheiros daqui vão protestar, claro.

Mas agora - me desculpem - vou fazer uma análise egoísta. Quem sabe esse assunto dos médicos cubanos não me preocupe muito porque dificilmente serei atendido por eles. Nesse contexto, o que me preocupa são os médicos daqui mesmo.

Mais da metade dos profissionais formados em São Paulo não teriam condições de exercer a medicina, mas estão exercendo. Um deles pode estar cuidando da sua saúde agora. Suponho que em outras partes do Brasil a situação deva ser igual ou pior. A revelação não e minha, é do próprio Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Este realiza um exame obrigatório no final do curso. No de 2012, dos 2400 formandos do estado que fizeram a prova, 54,5% não atingiram a nota mínima. E ela nem era lá grande coisa: seis.

Se fosse um exame como o da OAB, eles não poderiam exercer a medicina. Mas no caso do exame do CREMESP, ir muito mal não impede exercer. Mais, de acordo com o presidente do CREMESP, Renato Azevedo Júnior “É uma prova de nível fácil para médio. Aquele aluno que não consegue acertar 60% de uma prova desse tipo tem sérios problemas na sua formação e vai ter dificuldades para atender as pessoas”. Mas atende. E ainda: os erros se concentraram em áreas como saúde pública e clínica médica, que ensina como atender um paciente.

Infelizmente o CREMESP não divulga – talvez seja legalmente impedido, não sei - os nomes desses recém formados que “tem sérios problemas na sua formação e vão ter dificuldades para atender as pessoas”, nem os resultados das faculdades. Não parece correto que sabendo da incapacidade deles nos exponha a sua imperícia e ignorância clínica mesmo assim. 


O CREMESP exige que quem se forma em medicina em outro país deve comprovar que possui as competências e habilidades mínimas para o exercício profissional. Está correto. Só não faz sentido excluir os brasileiros desta exigência.

sábado, 17 de agosto de 2013

A ciência do déjà vu

Foto: leandroagguire
Eu estava numa ruazinha em Nápoles. Minha primeira visita na terra dos meus antepassados. De repente aquela sensação..., caramba, eu já estive aqui! Cada varal pendurado na janela, cada café, a sensação de pressentir o que ia acontecer. 

Dois terços dos entrevistados parece já ter passado por uma situação semelhante. Sentir a vaga lembrança de ter estado num lugar ou situação na qual, de fato, nunca esteve. Daí o nome, déjà vu (já visto, em francês).

Obviamente um nome errado. Não tinha antes visitado Nápoles, não poderia ter visto essa ruazinha. Claro que muitos dirão sim, você já esteve, em vidas passadas... Ok, vai lá saber..., mas será que não tem uma explicação mais... científica?

Sim.

Para variar Freud ficou bastante interessado neste fenômeno e - para variar - o associou a um tipo de memória inconsciente dos genitais maternos (“Não existe de fato outro lugar sobre o qual possamos dizer com tanta convicção que já estivemos lá.”, ok Sigmund, concordo).

O fato de pacientes epilépticos experimentarem a sensação de déjà vu antes de uma crise fez corretamente supor que esse fenômeno estaria relacionado com mecanismos neurais, e de fato estudos posteriores indicaram que a estimulação no lobo temporal era capaz de desencadear uma sensação parecida ao déjà vu. E mais, alguns pacientes com lesões nessa região cerebral vivem constantemente com essa sensação. Eles perdem até o interesse em assistir TV ou ler o jornal porque estão convencidos que já viram ou leram tudo antes. Bizarro mas real.

As primeiras teorias científicas remontam ao século 19. Entre elas a da “dupla percepção”. Imagine que estamos a atravessar a rua. Olhamos rápida e quase que inconscientemente para a esquerda e depois detidamente para a direita. Ao olhar de novo à esquerda temos a sensação que já tínhamos visto esse lugar antes, mas não conseguimos lembrar quando já que a informação –depois do primeiro olhar - não foi armazenada corretamente com todos os detalhes na memória de longa duração. Isso produziria a sensação de déjà vu.

Mas isso, claro, não explica a sensação que eu tive em Nápoles. Eu nunca tinha visto essa rua antes.

Para tentar entender melhor as teorias que explicam o déjà vu é importante descrever como os pesquisadores subdividem o que chamamos memória.

Existem basicamente dois tipos: de curta e longa duração. Áreas específicas do cérebro se encarregam de trabalhar com cada uma delas. O fenômeno de déjà vu estaria relacionado à memória de longa duração (mas com elementos de ambas). Esta por sua vez é subdividida em memória declarativa (que nos permite lembrar e descrever fatos, pessoas, etc.) e memória de procedimentos (faz com que nunca esqueçamos, por exemplo, como andar em bicicleta).

A memória de reconhecimento é uma subcategoria da memória declarativa e tem dois componentes: a lembrança e a familiaridade. A lembrança permite, como o nome indica, lembrar com bastante precisão fatos e pessoas da nossa história autobiográfica. É um processo relativamente lento e com alto consumo de energia, mas bastante preciso. Depois de um tempo temos todas as informações que estavam armazenadas na memória. Já a familiaridade é o sentimento que algo foi experimentado anteriormente, sem informações precisas de quando ou onde. É um sentimento rápido e, suponho, provavelmente selecionado ao longo da evolução para pressentir o perigo de uma situação antes de ter todos os dados sobre ela. O déjà vu parece estar mais relacionado com familiaridade que com lembrança.

Mas assim voltamos ao início. Se nunca vi ou experimentei isso antes, como posso ter esse sentimento? De acordo com os pesquisadores, o sentimento de familiaridade pode ser experimentado a partir de “similaridades”. Imagine agora que entramos na casa de um amigo onde nunca estivemos mas temos essa estranha sensação de já ter estado aí. O arranjo dos móveis, lâmpadas, quadros. Sabemos que é tudo novo mas temos a sensação de déjà vu. Por quê?

Uma das mais convincentes teorias vem da psicologia Gestalt, a hipótese Gestalt de familiaridade. O que estaria acontecendo é que esse arranjo da sala do amigo bate aproximadamente com o arranjo, por exemplo, da sala de espera de nosso médico. A incapacidade de lembrar da sala do médico – por não ter sido fixada no componente “lembrança” da memória de reconhecimento – geraria o déjà vu.

Uma teoria bem interessante, mas em ciência teorias precisam passar pelo crivo da experimentação. Seria possível provocar déjà vu em laboratório e testá-la? 


Com este objetivo, pesquisadores norte-americanos criaram cenários mediante técnicas de imersão em realidade virtual. Utilizando óculos especiais (ver figura abaixo), os voluntários podiam percorrer virtualmente ambientes como dormitórios, quintais, salas de boliche, etc. (ambientes controle). Posteriormente entravam virtualmente em ambientes que podiam ser a) completamente diferentes ou b) diferentes mas com configurações similares em termos de disposição dos elementos principais. Os pesquisadores observaram que a possibilidade de gerar sensações do tipo déjà vu foi bem maior quando o voluntário "entrava" no ambiente tipo "b", e não em ambiente tipo "a". E a sensação aumentava quando ele não conseguia reconhecer nenhuma similaridade entre o ambiente controle e o ambiente novo porém semelhante. 


Aspectos de cenários virtuais criados para testar a hipótese Gestal de familiaridade. Na coluna da esquerda três cenários "controle" e à direita cenários diferentes em seus detalhes porém estruturalmente semelhantes  (cenário teste). Alguns cenários teste não tinham nenhuma semelhança estrutural com os controles (não mostrados na figura). Os participantes do experimento podiam explorar os cenários mediante a utilização de óculos 3D (figura superior).  Quando entravam num cenário teste sem semelhanças estruturais com o controle, a sensação de déjà vu não acontecia. Já quando entravam num cenário teste como os mostrados acima (à direita) a sensação de déjà vu era bem mais frequente.

Para os pesquisadores a hipótese Gestalt poderia ser assim corroborada. A sensação de déjà vu estaria associada a um sentimento de "novidade" ante um cenário que subliminarmente não é desconhecido, o que geraria o sentimento de familiaridade mas não lembrança.
Mais que vidas passadas, a ciência parece apontar assim para experiências passadas, mas não muito bem lembradas. 
Me parece bem mais provável.  
E a você?



Fonte: Familiarity from the configuration of objects in 3-dimensional space and its relation to déjà vu: A virtual reality investigation. Anne M. Cleary e cols., Consciousness and Cognition 21 (2012) 969–975




sábado, 3 de agosto de 2013

Sobre deuses, espíritos e estupros

Há uns dias atrás minha filha foi assaltada. Ela ia junto com sua amiga à noite para a faculdade quando foi abordada por três indivíduos armados. As duas foram empurradas ao chão e sob a mira de revolver obrigadas a entregar seus pertences. A coisa terminou por aí. Alguns aranhões e umas horas angustiantes na delegacia. Embora nada disso devesse ter ocorrido, ainda temos que agradecer por não haver sido pior. A situação poderia levar a coisas bem mais graves. Entre elas, o estupro. A violência sexual contra mulheres é infelizmente comum em nosso país. Em parte por causa disso a Constituição autoriza o aborto em caso de gravidez originada por um ato de violência sexual. Nessa situação não existe sequer a necessidade de pedir autorização judicial. 

Para regulamentar alguns aspectos legais desse dispositivo constitucional, foi aprovado em plenário pela Câmara e pelo Senado (depois de mais de 13 anos de tramitação!!) um projeto de lei que determina que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico, a "profilaxia da gravidez", ou em outras palavras, assegurar acesso a medicamentos como a pílula do dia seguinte. Seria uma forma de prevenir a gravidez forçada e evitar a realização do aborto no futuro. Assim, o projeto apenas autoriza, não impõe nada a ninguém, e trata sobre assunto já decidido pelos poderes constituídos (interromper ou impedir a gravidez em caso de violência sexual).

Católicos e evangélicos são contra a utilização da pílula do dia seguinte porque a consideram abortiva (na realidade ela pode agir mesmo antes de existir a fecundação e bem antes de ocorrer a nidação, não sendo assim abortiva nestes casos). De acordo com suas crenças particulares, seu Deus através do sopro divino insuflou a “alma imortal” que vai se ligar ao ovo fecundado. Fez-nos à sua imagem e semelhança. Assim, por ser uma criação desse Deus, não poderiam os homens interromper o processo mesmo se tratando de estupro ou mesmo tendo o feto anomalias graves como anencefalia. Já os espíritas acreditam que a fecundação resultante do estupro provavelmente fez parte de um “planejamento encarnatório” e o “espírito reencarnante” já se fixa no ato da fecundação mediante um “laço fluídico”.

Estes são exemplos de visões religiosas da concepção. Claro que existem outras religiões (mais de 4000 espalhadas pelo mundo), outras tantas divindades e outras crenças, cada uma com suas lendas, disposições e sistema de valores. Em um Estado laico, por mais primitivos e anticientíficos que possam nos parecer alguns desses pontos de vista temos a obrigação de respeitá-los, sempre e quando não atentem contra os direitos individuais e o estado de direito. Mesmo por que não temos certeza se o nosso ponto de vista é o correto. Assim, acho fundamental que o Estado dê respaldo e assistência à mãe que decide levar em frente sua gravidez, seja esta fruto de estupro ou não, ou mesmo sabendo que o feto sofre anomalias graves.

Mas o que fica patente é que esse respeito que tenho pelo pensamento e pelas opções do religioso, este decididamente não tem pelas minhas.

A tramitação do projeto de lei que citei acima é um exemplo de como esses grupos tentam impor a toda a sociedade (seguidora ou não desses preceitos) suas crenças. Para entrar em vigor o projeto precisaria da aprovação presidencial. Para impedir isto representantes de algumas entidades religiosas e civis se reuniram dias atrás com ministros do governo Dilma Rousseff para exigir seu veto (ver aqui). Caso essa força-tarefa religiosa –que coloca a CNBB, evangélicos e espíritas lado a lado com o infelizmente famoso Feliciano- venha a ter sucesso e o veto aconteça (o atual governo tem sido tão submisso à pressão religioso/eleitoral que não me estranharia), milhares de mulheres vítimas de estupro perderiam a possibilidade de evitar a gravidez originada nesse ato de violência. Para se ter uma ideia dos números, em um único hospital em São Paulo são atendidas em média 15 vítimas de estupro por dia, ou mais de 5400 mulheres por ano. Sim, em um único hospital.

Indignado com esta possibilidade, o médico e escritor Drauzio Varella escreve na sua última coluna no jornal Folha de São Paulo:

“Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos decididos a impor suas idiossincrasias e intolerâncias em nome de Deus? Em que documento está registrada a palavra do Criador que os nomeia detentores exclusivos da verdade? Quanto sofrimento humano será necessário para aplacar-lhes a insensibilidade social e a sanha punitiva?”

Quanto?




Em tempo, no dia 01 de agosto, a Presidente Dilma Rousseff sancionou sem vetos o projeto citado neste texto.