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domingo, 24 de julho de 2016

Drogas (não) viciam


Neste espaço temos escrito bastante sobre drogas (ver aqui e aqui). A ideia que passamos, e a que prevalece na comunidade científica, é que existem mecanismos celulares que fazem com que o uso de drogas psicoativas (incluindo, claro, tabaco e álcool) acaba provocando a adição. Resumidamente, essas drogas ativam de forma intensa um conjunto de estruturas cerebrais que formam nosso sistema de recompensa. Este sistema existe em todos os mamíferos e é graças a ele que sentimos prazer quando conseguimos coisas básicas como comer para saciar a fome, beber para saciar a sede e, de forma mais intensa, sexo. Alcançar esse prazer, que em termos bioquímicos se traduz na liberação de dopamina numa região cerebral denominada núcleo accumbens, é a que motiva o início de todos os comportamentos que nos permitem obter essas coisas tão fundamentais para a sobrevivência individual e da nossa espécie.

De acordo com a ideia predominante na comunidade científica, a droga agindo nesse centro de recompensa compete com as recompensas naturais, mas como seu efeito é bem mais intenso o drogado obtém um nível de prazer maior com a droga do que com bebida, comida ou sexo. Por isso o comportamento do viciado é motivado fundamentalmente para obter droga e acaba dando menos valor a outras atividades que antes eram prazerosas.

Mas para um grupo de neurocientistas esta explicação não é a melhor para entender por que as drogas viciam. A base para esta discordância está nos experimentos realizados na década de 1970 pelo psicólogo canadense Bruce K. Alexander, conhecidos em seu conjunto como Rat Park (algo assim como parque de diversões para ratos).

Alexander observou corretamente que os experimentos que eram realizados com ratos sobre adição eram extremamente estressantes. O rato ficava numa gaiola pequena e isolado. Nestas condições quando lhe é oferecida opcionalmente em um recipiente, água e em outro uma solução de água com morfina, com o tempo o animal terminava optando sempre por esta última, consumindo a droga até morrer. Alexander decidiu mudar o experimento. Criou colônias com 16 a 20 ratos machos e fêmeas (sexo sem restrições então) em um espaço 200 vezes maior que nos experimentos com ratos isolados. Além disso, a colônia tinha além de ração e sexo à vontade diversos objetos como tubos, caixas, bolas, “rodas gigantes” para os animais brincarem.


Imagens do "Rat Park" criado por  Bruce K. Alexander





Resumidamente, Alexander verificou que ratos vivendo nestas condições optavam por beber água pura em vez da solução água + morfina. Os ratos não ficavam viciados mesmo experimentando eventualmente a droga. Nenhum morreu de overdose. Assim Alexandre sugeriu que não era a droga a que causava a dependência e sim o ambiente onde o indivíduo convivia. Extrapolando estes resultados aos humanos, se estes vivessem em um ambiente que promovesse vínculos interpessoais satisfatórios e desse opções de lazer adequadas, dificilmente a droga por si só seria capaz de causar as alterações que citei no início deste artigo. Em resumo, os humanos ficaríamos viciados então por causa das poucas oportunidades que a sociedade acaba oferecendo a determinados grupos.

Esta opção do ambiente como responsável pela dependência é defendida por cientistas importantes, entre os quais o norte-americano Carl Hart, que recentemente esteve no Brasil lançando um livro sobre o assunto.

A controvérsia persiste. Alguns cientistas não conseguiram reproduzir os resultados de Alexander em experimentos realizados posteriormente e observaram que provavelmente não seja o ambiente e sim fatores genéticos, epigenéticos e congênitos que aumentam ou diminuem a predisposição ao vício.

Por outra parte alegam que as condições de rat park são muito artificiais. Em seu habitat natural qualquer animal tem maiores níveis de estresse quando comparado a rat park (que os críticos chamam, com razão, rat heaven) já que estão lutando constantemente para se alimentar e escapar dos predadores, preocupação que não existe no ambiente artificial criado por Alexandre. Assim, mesmo que os resultados de rat park estejam corretos, não seria possível extrapolar a sociedades humanas já que nenhuma sociedade ou governo seria capaz de oferecer condições semelhantes a rat park a todos seus habitantes (suspeito que nossos ricos vivam em algo parecido, e mesmo assim a dependência química não é pequena entre eles).

É isso. Provavelmente a opção correta em relação à adição incorpore todos os aspectos que aqui citamos. Existem mecanismos celulares, mas deve existir também uma forte predisposição individual causada por mecanismos genéticos, epigenéticos ou congênitos, e com certeza o ambiente desempenha um fortíssimo papel.

E para terminar, uma quase-piada que nos deve fazer refletir bastante. Ao defender que usar drogas não implica em ser viciado em drogas, o neurocientista Carl Hart foi questionado pelo nosso Dráuzio Varella, como separar então o vício do uso de drogas? Hart respondeu: “Os últimos três presidentes dos EUA admitiram ser usuários de drogas. Nenhum deles era viciado”.

domingo, 3 de julho de 2016

Receita para o desastre



"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende ciência e tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara."

A frase acima não é minha, e sim do astrônomo Carl Sagan, preocupado com a ignorância científica entre os jovens do seu país, os Estados Unidos. Em nossas sofridas terras suspeito que essa ”mistura inflamável” já explodiu e hoje colhemos os frutos.


Os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) corroboram o descaso com a educação e as dramáticas consequências. O PISA mede basicamente a capacidade de jovens na faixa dos 14 anos usar o conhecimento científico -teoricamente aprendido na escola- na resolução de problemas (e não a capacidade de decorá-los para “passar na prova”). Dos 65 países avaliados ocupamos a 59ª posição. Na América Latina estamos apenas na frente de Colômbia e Peru. 


Uma situação tão destacada não poderia ser conseguida sem a atuação decisiva dos nossos governantes, independente do partido político de cada um (e sim, estou sendo irônico). Em São Paulo, o tucanato, dono do poder há anos, não consegue dizer até agora a que veio. Além do fracasso na educação formal, que inclui professores desmotivados e mal pagos (mas não só), é incompreensível como um estado e uma cidade desse porte não disponham sequer de um museu de ciência ou de História Natural, nos moldes dos que conhecemos em outras cidades do mundo e até do Brasil. Para piorar, um espaço como a Estação Ciência da USP acaba de fechar por falta de verbas. Problema da USP? Claro que não. Esses espaços não formais de educação científica são atalhos importantes para melhorar nossa desastrosa situação. Preservá-los deveria ser uma prioridade do poder público.


Já em nossa cidade durante anos peregrinei para a criação de espaços como esses. Museu de ciência, ônibus da ciência e outros. Visitei prefeitos, secretários e vereadores de todos os partidos. Fui chamado para apresentar e apresentei resultados, números, projetos arquitetônicos. Mostrei eventuais parcerias com minha universidade para reforçar a viabilidade dos projetos. Tudo possível. Tudo exequível. Nenhuma fantasia. Projetos pé no chão. 


Mas desisti. Foi tempo perdido. Pensei que a ideia ao ser tão boa iria ser comprada facilmente pelas autoridades de plantão. Que nada. Hoje devo confirmar o que li do próprio Sagan. Boa parte dos governantes tem muito medo da cultura da ciência e do potencial desta em criar pessoas com pensamento crítico. Sem ele, é bem mais fácil manter o status quo com tudo o que ele incorpora de corrupção, desmando, enganação religiosa. Para que arriscar. Deixa a ciência para lá.

domingo, 19 de junho de 2016

Celulares e câncer


O uso de telefone celular causa câncer? Esta é uma pergunta recorrente que sempre volta a agitar os meios de comunicação quando um estudo traz nova informação.

Até agora o que tínhamos era que não existiam evidências convincentes que mostrassem uma relação entre o uso de celulares e qualquer aumento na incidência de câncer. Essas informações surgiram de estudos importantes como o Million Women Study realizado no Reino Unido em 2013 e outro com mais de 350 mil usuários de telefone celular na Dinamarca, publicado em 2011. O primeiro concluiu que 


“... o uso do telefone celular não foi associado a um aumento da incidência de glioma, meningeoma ou câncer fora do sistema nervoso central”. 

Já o estudo dinamarquês...


“... não houve aumento do risco de tumores do sistema nervoso central, oferecendo pouca evidência para uma associação causal.”. 

Ainda, para corroborar a ideia de falta de associação entre telefone celular e câncer, dados nos Estados Unidos indicam que a incidência dessa doença no cérebro se mantêm inalterada desde 1992 pese ao uso intenso da telefonia móvel nos últimos anos.

Todos sabemos que alguns tipos de radiação causam câncer. Raios X, luz ultravioleta, a radiação das armas nucleares -entre outras-, têm a capacidade de ionizar átomos ao remover seus elétrons e isso está associado a dano no DNA, o que pode levar ao surgimento de câncer. Mas a radiação produzida por celulares (radiação de radiofrequência, RRF) não é ionizante, o que a diferencia das outras citadas acima, e não existem evidências consistentes que indiquem danos associados a este tipo de radiação.

Por isso a comunidade científica recebeu com bastante ceticismo os resultados de um estudo recém-publicado que mostram que a RRF provocou tumores em animais. O estudo foi realizado pela National Toxicology Program, uma agência oficial norte-americana que analisa riscos toxicológicos. Ratos foram expostos desde antes do nascimento até a idade de dois anos (nove horas por dia, todo dia) a diferentes níveis de radiação do tipo da emitida por telefones celulares. Finalizado esse período os animais foram analisados em relação ao aparecimento de algum tipo de dano. Os pesquisadores observaram que entre dois a três por cento dos animais expostos (três em 90 analisados) desenvolveram glioma maligno, um tipo de câncer cerebral, contra zero casos (0/90) em animais do grupo controle. Além do mais, entre cinco a sete por cento dos animais expostos às radiações mais intensas desenvolveram tumores no coração, especificamente nas células que envolvem as fibras nervosas cardíacas (schwannomas). 

O estudo causou muita dúvida entre cientistas por vários motivos. Chamou a atenção que essas alterações quase não foram detectadas em fêmeas. Por outro lado, o fato de zero animais controle apresentarem gliomas é bem estranho. Estudos anteriores mostraram que o aparecimento desse tipo de câncer em animais controle é ao redor de 2%. Se isto tivesse acontecido com o estudo atual não haveria diferenças em relação ao grupo exposto à radiação. Schwannomas podem ocorrer em vários órgãos, mas neste estudo ocorreram só no coração, por quê? Finalmente, os animais submetidos à radiação embora tivessem um índice maior de tumores viviam mais que os animais controle. Nenhuma dessas questões apresentaram respostas, o que leva a questionar a metodologia utilizada no estudo.

E agora? Bom, o estudo está aí e as críticas científicas também. Se bem os pesquisadores encontraram essas diferenças, elas não foram significantes desde o ponto de vista estatístico. Ainda, os estudos anteriores feitos em humanos não revelaram um aumento de câncer no cérebro ou tumores no coração. E ainda, não temos uma explicação para uma eventual interferência da RRF em sistemas biológicos que possam levar a esses resultados. Mesmo assim, como vivemos num ambiente onde somos constantemente bombardeados pela RRF, estudos como estes são necessários. Que ainda não saibamos como essa radiação possa nos afetar não significa que ela eventualmente não nos afete. 

 E lembrar, claro, que se celular não mata via câncer, sim o faz pelos mais de 1,3 milhão de acidentes de trânsito (só no Brasil) causados pelo seu uso enquanto estamos dirigindo. Esse, por enquanto é o real problema, e bem fácil de solucionar.

sábado, 9 de abril de 2016

Alfinetando a acupuntura

Foto: Janine Wiedel/Alamy (The Guardian)
Popularmente falando, se há um mar onde a acupuntura nadava de braçada, era o mar da dor nas costas. De fato, meus amigos acupunturistas tinham me convencido que se bem essa terapia não era a panaceia que se comentava por aí -servindo para praticamente tudo quanto é doença- no caso da dor lombar e ciática era bem eficiente. Alguns estudos científicos atestariam inclusive essa eficácia.

Sempre duvidei desses estudos. Geralmente eram realizados por especialistas adeptos à acupuntura, o que me deixa com um pé atrás porque sei como nosso cérebro é capaz de distorcer a realidade e adaptá-la, consciente ou inconscientemente, ao nosso sistema de crenças (isso se aplica a tudo, ciência, política, religião, etc.). Mas a ideia que as agulhadas melhoravam a dor já estava bem assimilada por mim. E não apenas por mim, claro. O sistema de saúde do Reino Unido (NIH), entre outros, tinha recomendado em 2009 que nos casos de dor lombar e ou ciática, a realização de no máximo 10 sessões de acupuntura por um período de até 12 semanas seria uma conduta recomendável. Mas ao que parece de lá para cá a coisa mudou, a ponto de nas novas diretrizes de 2016 o mesmo NIH recomenda agora "Não oferecer acupuntura para controlar a dor lombar não específica com ou sem ciática.".

De acordo com o Professor Mark Baker, diretor de prática clínica do NIH, “Infelizmente, há uma falta de provas convincentes de eficácia para alguns tratamentos amplamente utilizados. Por exemplo, a acupuntura não é mais recomendada para controlar a dor lombar com ou sem ciática. Isso ocorre porque não há provas suficientes para mostrar que é mais eficaz do que o tratamento placebo ".

E é aí que está o cerne da questão. O que levou a essa mudança? Outra declaração do NIH nos dá uma pista “Embora a comparação da acupuntura com os tratamentos habituais demonstrou melhorias na dor, função e qualidade de vida a curto prazo, a comparação com a acupuntura sham não mostrou nenhum efeito clinicamente importante e consistente."

Esta afirmação se refere à análise criteriosa de estudos científicos publicados nos últimos anos comparando a efetividade da acupuntura real não com tratamentos convencionais e sim com a acupuntura sham (ou falsa acupuntura). Na acupuntura sham o paciente acredita (neste caso acreditar é fundamental) que está sendo tratado de fato com a acupuntura real, mas as agulhas são introduzidas em qualquer ponto do corpo (propositalmente fora dos famosos acupontos), ou ainda é utilizado um tipo de agulha que parece penetrar na pele, mas de fato não penetra. A acupuntura sham é utilizada em estudos científicos para testar a real eficácia de acupuntura. Se o resultado do tratamento com acupuntura sham for estatisticamente similar ao tratamento com a acupuntura real, então o efeito desta última é muito provavelmente devido à sugestão e ao efeito placebo. Se, ao contrário, estatisticamente a acupuntura real funciona melhor do que a sham, então isso poderia indicar que outros mecanismos fora a sugestão e o efeito placebo estão agindo (mais detalhes aqui). De acordo com o NIH, o que os estudos indicaram -e daí a decisão- é que a acupuntura real não é superior à sham na melhora das dores lombares acompanhadas ou não por dor ciática.

Além de descartar a acupuntura, a nova diretriz contraindica a utilização do paracetamol como opção inicial para tratamento desse tipo de dor e recomenda anti-inflamatórios não esteroidais como os derivados do ácido acetilsalicílico e ibuprofeno (sempre com orientação médica, claro).

É isso. Particularmente acho que esses resultados indicando que a acupuntura quando funciona o faz via efeito placebo e autossugestão, fazem todo o sentido. Até hoje não encontramos mecanismos de ação convincentes. Sua base conceitual repousa em conceitos da filosofia chinesa como o Yin e Yang, forças cósmicas como o Qi percorrendo canais ou meridianos em nosso corpo. Embora respeitáveis dentro do contexto da tradição chinesa, esses conceitos não têm sustentação científica, sendo considerados por vários pesquisadores apenas como uma pseudociência, não muito diferente da astrologia e a homeopatia.

Dito isto, na minha opinião se algum paciente encontra alívio ao seu sofrimento utilizando acupuntura, seja via efeito placebo ou não, deveria continuar seu tratamento, sempre e quando este não ofereça um perigo potencial maior ou o faça adiar tratamentos reconhecidamente efetivos. O que deveríamos avaliar é se tratamentos que funcionam via efeito placebo deveriam ser incluídos em nosso depauperado sistema de saúde. Mesmo por que, oferecer pelo SUS uns e proibir outros não faz muito sentido. Por que deveríamos deixar de fora o uso de cristais, imposição de mãos, urinoterapia, florais de Bach e tantos outros?

domingo, 6 de março de 2016

Um cocô muito caro

Não tenha dúvidas, vitaminas como a A, C, D; minerais como zinco, ferro e outros, são fundamentais para o bom funcionamento do nosso sistema imunológico, da mesma forma que são fundamentais para o bom funcionamento do sistema nervoso, circulatório, digestório e todos os demais. Se mediante exames específicos fica comprovado que existe deficiência de algum desses nutrientes (geralmente uma dieta normal dá conta da ingestão diária necessária de todos esses elementos), será necessária sua reposição. Mas segundo reportagem do jornal inglês The Guardian, no embalo desse fato muitos fabricantes de suplementos alimentares nos vendem outra ideia. Pelo que lemos, a ingestão adicional desses suplementos manufaturados teria a capacidade de “turbinar” nossa imunidade, melhorando nossa resistência às doenças. Seria legal, mas pelo que sabemos até agora, isso não funciona.

Para entender o porquê, temos que entender pelo menos superficialmente com nosso corpo se protege de vírus, bactérias, células tumorais e outros patógenos e substâncias estranhas. Nossa resistência a todos esses inimigos pode ser dividida em inata e adquirida. A primeira a responder costuma ser a inata, também conhecida como inespecífica. Ela não é lá muito eficiente para eliminar um germe em particular. Ao contrário, age no corpo todo (daí o nome inespecífica). Sob seus efeitos, nossas mucosas (principalmente olhos, nariz e garganta) inflamam, lacrimejamos, o catarro aumenta, temos febre e junto com todo isso vem esse mal-estar e letargia que nos pede para ficar na cama, resguardando-nos assim do ataque de algum outro micróbio. Se um desses suplementos nutricionais aumentasse esse tipo de imunidade ficaríamos mais inflamados, com mais catarro, com mais febre e nos sentindo ainda pior. Felizmente eles não cumprem o que prometem. Na realidade, geralmente tomamos remédios para cortar todos esses sintomas e não aumentá-los.

Se os suplementos não turbinam esse tipo de imunidade inata, será que turbinam a adquirida? Esta sim é bem eficiente. Os protagonistas são umas células do sangue chamados linfócitos (células B e células T). Elas são capazes de reconhecer especificamente o agente invasor e atacá-lo numa luta célula x micróbio, ou mediante a produção de anticorpos específicos contra o agressor. Além da especificidade, estas células têm outra caraterística: a memória imunológica. Depois da luta, uma boa quantidade desses linfócitos fica circulando pelo nosso corpo com a memória do micróbio contra o qual lutaram. Assim, quando o mesmo micróbio nos invade novamente (isto pode ocorrer anos depois do primeiro encontro), elas se reproduzem e lançam um ataque imediato, tão certeiro que geralmente os germes são eliminados sem sequer termos tido qualquer dos sintomas listados no início deste artigo.

Mas será que existe alguma forma de “turbinar” este tipo de imunidade tão importante? Sim, as vacinas fazem isso. Quando nos vacinamos introduzimos em nosso corpo fragmentos ou formas atenuadas de vírus ou bactérias, provocando a reação imunológica específica e criando células de memória. Uma vacina de reforço algum tempo depois é suficiente para manter a memória imunológica de forma que ficamos protegidos do agente agressor. Mas como esses suplementos alimentares não são fragmentos de vírus ou bactérias, eles não podem ajudar tampouco neste tipo de imunidade.

Mas então, fora as vacinas, que podemos fazer para nos proteger das doenças? Basicamente, aquilo de sempre. Uma alimentação equilibrada, exercícios físicos regulares e, sem sermos obsessivamente limpos, termos cuidados básicos de higiene como não espirrar sobre os outros, lavar as mãos antes de comer (aliás, o que pouquíssimos fazem, mesmo em restaurantes por quilo, onde isso deveria ser obrigatório!!!), nada que não tenhamos aprendido junto com as regras básicas de educação e higiene. Fora isso, na medida do possível fuja do estresse. Quando estamos estressados liberamos um hormônio chamado cortisol, e temos dados que indicam que ele tem uma ação negativa em relação à nossa imunidade. No inverno fuja das aglomerações. Gripes e resfriados aumentam nessa época do ano provavelmente não pelo frio, mas por ficarmos em espaços fechados com gente já doente, o que nos expõe ainda mais aos vírus.

É isso. Como comenta um especialista no artigo do The Guardian, gastar seu dinheiro se entupindo de suplementos alimentares fará na melhor das hipóteses que você faça um cocô muito caro, mas sua imunidade continuará a mesma.


Fonte: 
Why bingeing on health foods won’t boost your immune system. Dara Mohammadi. The Guardian/Science, 24/01/2016

Agradeço também meu colega da UNESP, o infectologista Alexandre Naime Barbosa pela ajuda na elaboração deste artigo.