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sábado, 11 de junho de 2011

Sinal amarelo

Coma carne com moderação!
Fotografia: joefoxfoodanddrink/Alamy
Nesta última quinzena não pararam de acender os sinais amarelos. Perigo por todos os lados. O primeiro veio através da Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu aviso sobre a possibilidade de telefones celulares provocarem tumores no cérebro. O segundo foi dado pelo Fundo Mundial para Pesquisa sobre o Câncer (World Cancer Research Fund , WCRF), uma das organizações internacionais mais importantes na área de prevenção do câncer, anunciando a forte correlação entre o consumo de carne vermelha e o surgimento de câncer de intestino. Finalmente, até as bactérias Escherichia coli, geralmente tão bem comportadas em nosso intestino, começaram a matar gente na Europa.

Mas, apesar de tantos alarmes, nada de novo. Parafraseando García Márquez, boa parte das notícias é quase que a “Crônica de uma morte anunciada”. Anunciada inclusive nesta coluna.

Sobre os telefones celulares, na edição de 16/08/2008 (Usar telefone celular aumenta risco de câncer?) já alertávamos:

“... Mas o fato que disparou o alarme foi um anúncio feito em julho deste ano pelo Diretor do Instituto do Câncer da Universidade de Pittsburgh (um dos mais importantes dos Estados Unidos), Dr. Ronald Herberman. O cientista, através de um comunicado interno enviado aos mais de 3000 funcionários do instituto, recomendou que a utilização de telefones celulares deveria ser reduzida em virtude do risco de câncer. Em seu informe o Dr. Herberman admite que as evidências ainda são insuficientes, mas afirma estar convencido que já existe a necessária informação que autorizaria emitir esse tipo de aviso. ...“ 


Não há muita diferença entre esse anúncio e o feito agora. A própria OMS ainda não publicou o estudo que lhe permitiria fazer esta comunicação, apenas um press release. Telefone celular aumenta o risco de câncer no cérebro? Não sabíamos em 2008 e não sabemos agora. Mas não custa tomar alguns cuidados, entre os quais evitar a utilização de telefone celular em lugares públicos -como ônibus- para não expor seus "vizinhos" à radiação que você provoca; não manter o celular perto do seu corpo durante a noite; restringir as chamada ao mínimo possível; tentar não utilizar o celular onde o sinal seja fraco ou quando estejamos nos movimentando em grande velocidade -como no carro, ônibus, trem- já que para encontrar sinal, o telefone usa mais (e emite mais) energia; usar alternadamente o telefone ora na orelha esquerda, ora na direita, para não concentrar a energia emitida em apenas uma parte do cérebro.

Sobre o perigo das bactérias, em fevereiro de 2009 comentávamos sobre o surto epidêmico da bactéria Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA, o perigo nos espera no mar, 21/02/2009). Agora parece ser uma cepa mutante de Escherichia coli, muito agressiva e resistente aos antibióticos a responsável pelo estrago. Por trás desses ataques bacterianos, geralmente encontramos nossa imprudência e irresponsabilidade, como já alertávamos em 2009:

“... Cada vez que utilizamos mal um antibiótico, seja por que ele não era necessário (doenças virais, como gripe e dengue, por exemplo, não respondem aos antibióticos), ou por que paramos de usá-lo antes da hora, ou por que o ingerimos sem saber nos alimentos como carne, leite, etc., estamos através de processos da seleção natural darwiniana selecionando, para nossa desgraça, as bactérias mais aptas...” 


Neste caso tivemos uma pequena mudança. A atual legislação sobre antibióticos é mais restritiva e estes agora só podem ser vendidos com receita médica. Mas suspeito que na indústria agropecuária continuamos a utilizar antibióticos sem o devido controle.

No terceiro sinal, em um relatório de mais de 850 páginas analisando 263 trabalhos científicos publicados até hoje sobre o assunto, cientistas do WCRF concluíram que existem evidências convincentes que indicam que o consumo de carnes vermelhas (boi, porco, cordeiro, carneiro) e carne processada como bacon, salsichas, linguiças, presunto, carne seca, e carnes usadas em enlatados, pizzas congeladas e em recheio de massas congeladas, está associado ao aumento de risco de contrair câncer de intestino.

Segundo um dos responsáveis pelo relatório, o professor Alan Jackson da Universidade de Southampton (Reino Unido), trata-se do estudo mais amplo e atualizado sobre o assunto já publicado. De acordo com o relatório, carne processada deveria ser simplesmente evitada e o consumo de carne vermelha reduzido a no máximo 500 g por semana.

Tantos perigos podem nos deixar bastante atordoados. A percepção é que são tantas as coisas que nos ameaçam que praticamente não podemos fazer nada que nos dê prazer. Mas não é bem assim. É necessário sempre analisar essas informações com bom senso. Há riscos que podemos evitar, outros não. A poluição do ar e o cigarro são cancerígenos. Para os paulistanos é impossível não aspirar o ar poluído da cidade, mas é possível parar de fumar. Para alguns, deixar de usar o telefone celular é algo hoje em dia bem difícil, mas impedir que as crianças estejam todo o dia com o celular na orelha é possível.

O importante é que estejamos sempre bem informados. O que fazer com essa informação dependerá em última instância da nossa responsabilidade e bom senso.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Paralisia do sono: curtindo uma noite de terror

O Pesadelo, obra do pintor alemão Henry Fuseli (1741-1825)
 retrata a Paralisia do Sono como uma visita demoníaca. 
Será que estou sonhando? Vejo e sinto meu corpo paralisado. Tento mover a cabeça em vão. Acelero a respiração para ver se consigo sair deste estado entre sonho e realidade, mas não adianta. Até a respiração fica difícil. Pela porta entreaberta uma sombra se aproxima. É algo grande, escuro..., um urso...? O medo aumenta... Tenho que acordar rápido... Se eu pudesse pelo menos mexer a cabeça, as mãos... A sombra está agora sobre mim, sinto seu peso sufocante sobre meu peito. Encaro aterrorizado seus olhos e apenas vejo uma massa gelatinosa e disforme. Meu braços começam a formigar. Finalmente mexo a cabeça e começo a tomar consciência do meu corpo. Tento empurrar o urso mas ele já desapareceu. Agora percebo através da porta entreaberta não uma sombra, e sim minha malha de moletom jogada no chão.

O relato acima é real, e relatos semelhantes, embora possam parecer bizarros, são bem mais comuns do que a gente pensa. Aproximadamente 40% da população já passou por uma experiência “fora do normal” durante seus sonhos, e 5% tiveram experiências semelhantes à descrita acima, incluindo a forte sensação de presença de alguma figura sobrenatural, dificuldade de respirar devido a uma pressão sobre o peito, medo intenso e alucinações.

A ciência tem estudado esses estados associados com os sonhos desde a década de 1950, a partir dos estudos pioneiros de William Dement e Nathaniel Kleitman. Hoje temos uma teoria testável cientificamente para explicar estes e outros fenômenos como o sonambulismo, os “sonhos lúcidos”, e outras curiosidades.

Durante o sono normal, nosso cérebro e nosso corpo passam por cinco fases. Podemos medir a atividade elétrica de cada fase usando equipamentos especiais. A fase inicial, de sonolência, se caracteriza pela existência de ondas alfa. Depois, já dormindo, atravessamos três fases onde as ondas cerebrais ficam cada vez mais lentas e longas. Nestas fases, é possível experimentar alguns sonhos, mas não são muito complexos. Finalmente, chegamos à fase do sono mais profundo denominado sono REM (de rapid eye movement ou movimentos oculares rápidos) onde acontecem os sonhos mais “cinematográficos”. Curiosamente, nesta fase as ondas cerebrais voltam a se assemelhar às que temos quando estamos acordados, motivo pelo qual também foi denominado sono paradoxal. Como o nome indica, nesta fase nossos olhos mexem rapidamente, já o resto de nossos músculos fica paralisado (exceto o diafragma que mantêm a respiração).

O ciclo completo dura uns 90 a 100 minutos e vai se repetindo durante a noite, com uma diminuição dos ciclos de sono de ondas lentas e um aumento das fases de sono REM.

Entretanto, nem sempre as coisas funcionam bem. Por vezes, os sistemas cerebrais que desconectam os músculos de nosso corpo durante o sono REM falham. Quando isso acontece, fazemos os movimentos relacionados com os sonhos que estamos tendo. Em casos extremos, vivenciamos a tal ponto nossos sonhos que levantamos e passamos a agir de acordo com eles. Provavelmente é o que acontece durante o sonambulismo, onde por precaução é necessário às vezes amarrar o paciente à cama para evitar acidentes.

Durante a paralisia do sono acontece o contrário. Quem falha são os sistemas cerebrais que desconectam o estado de vigília e nos levam à inconsciência característica do sono. Isto pode ocorrer em dois momentos, quando começamos a dormir e a atonia muscular acontece antes de “cair no sono” (alucinação hipnogógica), ou quando estamos acordando e a consciência volta quando nosso corpo ainda está em atonia REM (alucinação hipnopômpica).

 Ficamos assim num estado de semi-inconsciência. Nossos olhos entreabertos capturam imagens que, quando chegam ao cérebro, se confundem com imagens que o cérebro inventa (a malha de moletom que se transforma no urso no relato acima). Ficamos conscientes da nossa total paralisia muscular o que causa medo e ansiedade. Dos vários músculos que participam da respiração quando estamos acordados, só o diafragma está funcionando 100%, com o que sentimos dificuldade respiratória. Durante esses episódios, uma parte do cérebro denominada corpo amigdaloide, responsável pela sensação de medo, é mais ativada o que aumenta a sensação de terror.

Claro que uma situação tão bizarra como esta paralisia do sono tem ao longo do tempo originado várias explicações místicas e paranormais. Algumas religiões associam esses eventos à “separação” do espírito do corpo. De fato, resulta fascinante estudar como a paralisia do sono foi compreendida pelas diversas culturas ao longo da nossa história. Durante a Idade Média na Europa, acreditava-se na visita de bruxas e demônios eróticos. Mesmo hoje, algumas sociedades interpretam estas experiências em termos sobrenaturais, adaptando-as ao seu próprio folclore. Os nativos da ilha canadense Newfoundland acreditam no “Old Hag” (literalmente, velha bruxa), que durante o sono senta em nosso peito (daí a dificuldade em respirar) e envia pesadelos. Os japoneses citam o kanashibari, onde uma entidade espiritual nos amarra com arames. Em Islândia, a paralisia do sono é denominada “Mara”, uma espécie de demônio que ao igual que a Old Hag senta no peito e tenta sufocar a vítima. Em tempos mais recentes, a paralisia do sono foi também associada a abduções por seres extraterrestres. 

Alguns fatores parecem nos predispor a ter esse tipo de distúrbio do sono, como dormir em posição supina (de barriga para cima), estresse, álcool, alterações bruscas em nosso ritmo de vida... Felizmente esses episódios, algo mais comuns na juventude, costumam diminuir de intensidade com o tempo, mas em uma pequena parcela da população sua incidência continua alta e a paralisia do sono se transforma em doença com um intenso sofrimento para quem a padece, casos em que o tratamento por uma equipe de especialistas se faz necessário.



Onde ler mais
 Cheyne, J. A. Sleep paralysis and the structure of waking-nightmare hallucinations. Dreaming, 2003, 13: 163–179.
Terror in the night, Julia Santomauro and Christopher C. French, The Psychologist, 22:672-675, 2009 (link para o artigo aqui: http://www.thepsychologist.org.uk/archive/archive_home.cfm?volumeID=22&editionID=178&ArticleID=1545)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O dia em que Elliot deixou de sentir

Uma das mais influentes e provocativas teorias que tenta explicar como nosso cérebro toma decisões – a teoria do marcador somático- foi proposta nos anos 90 pelo neurocientista português Antônio Damásio. Já falamos sobre ela nesta coluna. Dizer que é o cérebro quem tomas as decisões já é em si uma provocação. Se é essa massa gelatinosa quem decide, onde está nosso livre arbítrio? De fato, para a enorme maioria dos neurocientistas que estudam cognição e comportamento, o livre arbítrio é mais uma invenção de nosso cérebro. Mas essa é outra história. 


Damásio ficara fascinado com o caso de Phineas Gage, aquele trabalhador das estradas de ferro dos Estados Unidos que em 1848 teve seu crânio atravessado por uma barra metálica de um metro e meio de comprimento e sobreviveu para contar a história. Os relatos sobre a vida de Phineas posteriores ao acidente mostram que embora ele parecesse uma pessoa normal sua capacidade de tomar a decisão correta em cada situação tinha sido destruída junto com seus lobos frontais
Mas de Phineas só tinha sobrado o crânio e embora fosse possível reconstruir o trajeto da barra, Damásio não poderia ter certeza quanto do cérebro o acidente havia destruído. E aí entra Elliot e sua peculiar história. 


Elliot era um jovem com seus trinta e poucos anos. Bem sucedido profissionalmente, inteligente, e de fácil relacionamento. Já na sua lua de mel começara a sentir fortes dores de cabeça. Como estas aumentaram decidiu consultar o médico e os exames confirmaram a existência de um meningeoma, um tumor benigno que se forma nas membranas que envolvem o cérebro. O tumor crescera já do tamanho de uma pequena laranja e embora benigno comprimia a parte do cérebro que fica sobre as órbitas. Aquela mesma região que tinha sido destruída pela barra de ferro em Phineas Gage. Caso não operasse, a compressão do cérebro acabaria provocando a morte.

A cirurgia para remoção do tumor foi bem sucedida, mas boa parte do córtex cerebral próximo ao tumor foi danificada. Testes realizados após a cirurgia não revelaram nenhum problema com Elliot. Inteligência acima da média, ótima memória, linguagem fluente. Mas a partir da cirurgia sua vida se transformou em um verdadeiro caos. Antes extremamente prático na hora de lidar com seu trabalho, agora ficava horas concentrado em detalhes irrelevantes. Decisões simples como marcar um encontro com um cliente terminavam com a desistência deste último ante tantos prós e contras que Elliot encontrava para cada possibilidade de horário e local. Escolher entre uma caneta azul ou vermelha podia demandar horas nas quais as diversas possibilidades de usar azul ou vermelho eram pormenorizadamente analisadas. Decidir tinha se tornado uma missão quase impossível. 



Em vermelho, córtex pré-frontal ventromedial, região que participa no processo de tomada de decisão, danificada  após a cirurgia em Elliot.


Não é de estranhar que em pouco tempo, apesar da sua inteligência, Elliot perdera o emprego. Contrariando a opinião de todos seus amigos e familiares entrou em negócios de altíssimo risco, com péssimos resultados. Abandonado pela esposa casou e divorciou mais duas vezes. Mas o golpe final veio quando a Previdência Social se negou renovar seu auxílio invalidez. Não parecia haver de fato nada de “inválido” em Elliot, tudo pelo contrário.

Foi nesse momento que Damásio foi chamado. 
Embora os testes realizados até esse momento não tivessem indicado nenhuma anormalidade, Damásio notou ao entrevistar Elliot que este reagia aos seus problemas como se fossem de uma pessoa à qual ele não dava a menor importância. “Eu não enxerguei sequer um toque de emoção em várias horas de conversa com ele: nenhuma tristeza, nenhuma impaciência, nenhuma frustração com minhas perguntas incessantes e repetitivas.” 

Resposta de pacientes com lesão no córtex pré-frontal. O gráfico mostra alterações na condutância elétrica da pele, que se altera quando experimentamos emoções. Observar que em indivíduos normais (linha contínua) há picos cada vez que eles observam imagens fortes como a do indivíduo ferido (E) e a resposta diminui ao ver imagens neutras (N) como a paisagem da figura. Já em pacientes com lesão no córtex pré-frontal (linha tracejada), a resposta não se altera, indicando falta de resposta emocional (Gazzaniga e cols., 2002).
Ao ser confrontado com imagens perturbadoras como corpos mutilados, tabus sexuais, imagens de violência explícita - o que em pessoas normais provoca alterações físicas de origem emocional como mudança da freqüência cardíaca e respiratória e aumento da transpiração- Elliot permanecia sem evidenciar alteração nenhuma. “Elliot não deixava de perceber sua falta de emoção. Ele dizia ter consciência que as fotos eram perturbadoras e que, antes da cirurgia, teria uma resposta emocional, mas agora não tinha nenhuma.” 

Para Damásio ficava claro que a lesão no cérebro tinha danificado o centro que fornece o valor emocional do mundo que nos rodeia. É essa informação emocional que ao longo de nossa vida vai “grudando” às decisões boas e ruins que tomamos. Quando estamos para decidir entre diversas opções e uma dessas decisões já tomadas –e marcadas- reaparece, sua “marca” emocional nos leva a afastá-la ou encorajá-la, muitas vezes de forma não consciente. Assim, a decisão mais “racional” e correta só é possível quando razão e emoção trabalham juntas. A razão é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato. 

Para Damásio, a dualidade cartesiana mente/corpo, razão/emoção desaparece. A mente é o resultado do funcionamento cerebral. É uma adaptação evolutiva que surge para melhorar nossas chances em satisfazer necessidades físicas e psicológicas. 


O “Penso, logo existo” de Descartes parece estar dando lugar ao “Existo, logo penso” da moderna neurociência.


Onde ler mais:
Neurociência Cognitiva, Gazzaniga e cols., 2002, Editora Artmed
O Erro de Descartes, Antônio Damásio, Companhia das Letras, 1996.

sábado, 28 de maio de 2011

O longo caminho para a Faculdade de Medicina em Araçatuba


Em março de 2006 participei da reunião do Conselho Universitário da UNESP (organismo máximo de deliberação da Universidade, por motivos óbvios denominado CO), que tinha como pauta a encampação das Faculdades de Medicina de Marília (FAMEMA) e Rio Preto (FAMERP).
O histórico desse processo e seu desfecho são relevantes neste momento em que nosso município pleiteia a criação de uma faculdade de medicina, unindo as potencialidades da UNESP local e da Santa Casa.

A encampação de FAMEMA e da FAMERP é um desejo antigo dos respectivos municípios. Costuma ser ponto importante durante cada campanha eleitoral. Assim, a pressão política para que o CO aprovasse a incorporação era explícita.

O CO analisou toda a documentação apresentada e após algumas horas de análise e discussão concluiu que sob os aspectos educacionais e jurídicos, a incorporação, embora trabalhosa, seria possível. Mas havia um entrave orçamentário, e por unanimidade rejeitou a solicitação.

Neste ponto é importante que o leitor entenda de onde vêm os recursos que a UNESP utiliza para se manter. Desde 1995, as universidades públicas paulistas recebem 9,57% do ICMS. Destes 9,57%, a USP fica com 5,03%, a UNESP com 2,34% e a UNICAMP 2,19%. As universidades contam com esse dinheiro fixo para dar conta do recado de formar profissionais, fazer pesquisa e extensão universitária, manter a folha de pagamento de todos seus funcionários (docentes e técnico-administrativos) tanto na ativa como aposentados, custeio, novos investimentos, etc. Como o dinheiro obviamente não dá para tudo isso, elas tentam captar recursos extra-orçamentários mediante convênios, agências de fomento como a FAPESP, CNPq, FINEP, etc.

Distribuição das unidades de UNESP 


A UNESP tem caraterísticas peculiares. São 32 faculdades espalhadas em 23 cidades paulistas. A distribuição de verbas entre as unidades obedece critérios relacionados com o número de alunos, número de cursos, produtividade, entre outros. Assim, ao criar novos cursos e não havendo aumento no percentual do ICMS correspondente à universidade, o dinheiro destinado a cada unidade, que já é insuficiente, diminui. O CO representa os interesses de cada uma dessas 32 faculdades. O representante do campus de Guaratinguetá, por exemplo, pode achar muito justo o desejo de Araçatuba e região terem uma faculdade de medicina, mas não vai aceitar tirar dinheiro do “próprio bolso” para que isso aconteça.

Mesmo assim, o crescimento do número de vagas no ensino universitário público é uma meta das três universidades. As três estabeleceram critérios para que esse crescimento aconteça sem que isto represente um sacrifício para as outras unidades. No caso da FAMEMA e FAMERP, entretanto, a quantidade de recursos necessários para sua manutenção superava a capacidade orçamentária da universidade. Pelos cálculos a encampação só seria possível se a cota parte da UNESP aumentasse 0,2097%. O governo estadual comprometeu-se a incorporar esse percentual nas Leis Orçamentárias Anuais (LO’s), mas essa oferta não convenceu o CO.

Acabáramos de passar por um processo de expansão bastante traumático que tinha gerado um comprometimento orçamentário fixo sem o correspondente repasse do governo estadual, com o concomitante sacrifício para todas as unidades. Desta vez o CO queria que esse valor constasse constitucionalmente na cota parte da UNESP, e não que fosse originado de um “compromisso” que posteriormente outro governo poderia não assumir. Como nem o governo estadual nem a AL aceitaram fazer essa concessão, a encampação parou por aí.

Desse episódio podemos tirar algumas lições importantes.

A primeira: compromisso e promessa de político podem repercutir localmente, mas na UNESP quem decide é o CO.

Segunda: se a proposta de Araçatuba exigir um comprometimento orçamentário similar ao exigido pela FAMEMA ou FAMERP, o CO provavelmente exigirá o mesmo compromisso que exigiu em 2006. Neste caso, a pressão política deverá ser feita sobre o governo estadual para que este aumente a cota parte da UNESP. Acho isso bem difícil de acontecer.

 Felizmente, pelo que conheço do projeto -que foi idealizado pelos professores Cláudio Casatti e João Cesar Bedran de Castro em parceria com a diretoria da Santa Casa-, ele é enxuto e exige um comprometimento orçamentário muito reduzido em relação ao que tinha sido solicitado em 2006. O modelo de gestão apresentado, bastante inovador, já convenceu a comissão da UNESP encarregada de inicialmente autorizar ou barrar o início da tramitação de novos cursos. Um feito em tanto em se tratando de um curso de medicina.

 Agora o projeto será analisado pela assessoria de orçamento da UNESP que verificará o impacto sobre a universidade. Até chegar ao CO é um longo percurso. Cursos de medicina costumam ser muito caros e o CO sempre se preocupou com esse fato. Mas se a atual comissão encarregada de apresentar o projeto continuar a fazê-lo com a mesma capacidade de convencimento, podemos ter esperanças que o longo caminho citado no título deste artigo, quem sabe, não seja tão longo assim.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O curioso caso de Phineas Gage

Fotografia de Phineas Gage junto com
a barra que atravessou seu crânio
Um 13 de setembro de 1848, como quase todo dia, o jovem Phineas Gage, de 25 anos, saiu de casa para o trabalho. 
Por suas virtudes pessoais, seu senso de responsabilidade, liderança, eficiência e companheirismo, tinha sido nomeado capataz de um grupo de trabalhadores responsáveis pela construção da via férrea. 

A missão do grupo, explodir grandes rochas para permitir assim a colocação dos trilhos. Como de rotina, buracos de uns 30 centímetros eram feitos na pedra e posteriormente preenchidos com pólvora. Para empurrar a pólvora, Phineas utilizava uma barra de ferro de mais de um metro de comprimento e quase 3 centímetros de diâmetro. Mas para seu azar, nesse dia ao empurrar a barra de ferro no interior do orifício uma faísca detonou a pólvora. A barra, lançada como um projétil, atravessou a cabeça de Phineas. O ponto de impacto foi na bochecha, logo abaixo do osso zigomático. A barra perfurou depois sua órbita empurrando o globo ocular para fora. Destruindo parte do cérebro, finalmente saiu pela região superior do crânio, trás provocar um orifício de quase seis centímetros de diâmetro entre os ossos parietais e frontal. A barra foi parar a uns 20 metros, junto com fragmentos de osso e massa encefálica.


Dramatização e comentários sobre o acidente de Phineas Gage


Vídeo postado pelo nosso colega da UNICAMP Renato Sabbatini




Incrivelmente, Phineas não morreu. Embora desmaiasse pelo impacto, minutos depois estava em pé conversando com os colegas. Levado ao médico da pequena cidade onde vivia, este tentou recolocar os fragmentos de osso em seu lugar e suturou da melhor forma possível o couro cabeludo. Alguns dias depois, a enorme ferida infeccionou e Phineas entrou em coma. Esperando pelo pior, sua família já preparava o enterro, porém, Gage se recuperou, e para o mês de janeiro, estava levando uma vida normal.

Mas já não era Phineas Gage.

A descrição do acidente e sua vida posterior constam de relatos apresentados por seus médicos. De acordo com um deles, Phineas conservou todas sua faculdades intelectuais. Salvo a perda do olho e a cicatriz, nada parecia indicar a gravidade do seu acidente. Sem problemas de memória, os cinco sentidos perfeitos, movimentos em ordem, conversa fluente, inteligência normal... Mas foi sua esposa e outra pessoas próximas que notaram alterações dramáticas em sua personalidade. Seu médico descreve,

“Seus chefes, que o consideravam o trabalhador mais eficiente e capaz antes do acidente, disseram que as mudanças que tinha sofrido eram tão marcantes que não poderiam lhe devolver seu antigo emprego. Era agora instável e irreverente, capaz das condutas e blasfêmias mais grosseiras, mostrando escasso respeito pelos sus semelhantes, impaciente, incapaz de escutar qualquer conselho que se opusesse aos seus desejos. Também se mostrava insistentemente obstinado, teimoso e ao mesmo tempo vacilante, imerso em muitos planos para o futuro mas, sendo incapaz de continuar uma tarefa demasiado longa, mudava-os constantemente. Em virtude destas mudanças, seus amigos e familiares concluíram que Gage “não era mais Gage”.”

Sem emprego, esposa ou amigos, Phineas decidiu ganhar dinheiro com sua desgraça, exibindo-se com sua barra de ferro em cidades dos Estados Unidos e -provavelmente- Europa. Posteriormente trabalhou como instrutor e condutor de carruagens, mudando para o Chile e lá vivendo por sete anos. Com problemas de saúde, voltou à casa materna nos Estados Unidos, onde morreu no dia 20 de maio de 1860, treze anos após o acidente, devido a complicações provocadas por ataques epilépticos.

Em 1867, o corpo de Gage foi exumado e o crânio junto com a barra de ferro são exibidos hoje em uma sala especial no museu da Faculdade de Medicina de Harvard.

Crânio e barra de ferro de Phineas, no museu da Faculdade de Medicina de Harvard


Em 1994, um grupo de pesquisadores liderados pelo português Antônio Damasio, utilizando técnicas de neuro-imagem reconstruíram o crânio e o trajeto da barra de ferro, de forma a descobrir quais áreas do cérebro tinham sido atingidas. Como já se suspeitava, o acidente provocou a destruição de parte do lobo frontal esquerdo, embora a extensão total da lesão não pudesse ser definida.

À esquerda, reconstrução computacional do trajeto da barra de ferro

Mais de 150 anos após o acidente, a neurociência tem uma explicação aproximada sobre o que aconteceu com Phineas. Sabemos hoje que a região mais anterior do cérebro é responsável pela nossa capacidade de planejamento, a fundamental capacidade de prever o que vai acontecer caso façamos isto ou aquilo. Assim, nos ajuda a tomar a decisão correta, às vezes até de forma não consciente. 
Como consequência dessa capacidade de previsão, participa na inibição de respostas inadequadas, o que permite que nosso comportamento seja o mais apropriado para cada situação.
Phineas Gage foi emblemático para a ciência porque com ele a velha separação “corpo e alma” tal qual descrita por Descartes começava a ruir. 
O que nos torna o que somos parece não flutuar no ar. Pode ser destruído junto com nossos lobos frontais.

O curioso caso de Phineas Gage pode não ser como “O curioso caso de Benjamin Button”, mas nos mostra que quando nos permitimos admirar todo o drama e o deslumbramento da vida através dos olhos perscrutadores de ciência, o panorama que se apresenta pode ser tão interessante -e certamente mais real- quanto a mais premiada história de Hollywood.


Para saber mais:
O Erro de Descartes, Antônio Damásio, Companhia das Letras, 1996.
Damásio H. e cols., 1994, Science, 264:1102-1105.